Os Quatro Atos da Pós-Vida: 1º Ato – O Retorno

Let the Skyfall/ When it crumbles/
We will stand, tall/ Face it all together/
At Skyfall. – Skyfall, Adele.

1896…

A noite caiu na cidade. Um homem apoiava-se na janela como que esperando alguma coisa. Ou talvez nada quisesse. Uma moça que escrevia na mesa distante alguns metros perguntou-lhe: – Alguma coisa o incomoda?

– Nada não, guria. Tô só no meu fumo aqui – respondeu o homem olhando-a de soslaio: – E o que tu estás fazendo?

– Escrevendo uma carta. Tu sabes, pra minha família que vive em Santa Catarina – respondeu ela sorrindo.

– Ah, a dona Luísa e o seu Nicolau, além do teu irmão João – riu ele.

– Como de costume, tu aportuguesas os nomes deles. É bem a tua cara isso, tchê – a jovem gargalhou.

– É bom que tu te acostumes com o linguajar daqui, pois vai Deus saber o quanto tu vais ter que aturar este louco que sou eu – sorriu o homem.

Os dois riram ao mesmo tempo. O riso parou, porém, quando uma coruja piou alto. Ela não exatamente era supersticiosa, mas ele sempre dizia que aquele som era sinal de mau agouro. Dos bem grandes. Inclusive o repentino afastamento dele da janela assustou-a. Nada disse, porém.

– Eu sinto que esta noite vai ser daquelas. Vou até deitar cedo pra não ter azar – disse ele mais para si mesmo do que para sua hóspede, que continuava escrevendo.

A jovem não acreditava que um som daqueles causasse isso. Sinceramente, não entendia seu anfitrião. Que hábitos tão peculiares ele tinha. Bem que sua mãe dizia que eles tinham um jeito bem estranho de lidar com as coisas.

No fim, ele até sairia sortudo da passagem das horas, mas as coisas em outras paragens nunca eram simples. Continuar lendo

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“Panaceia” ou “A teimosa jornada de Laura”

Start your engine! Em velocidade mach () após a leitura de Panaceia, segundo volume de quatro da série Lázarus, da Georgette Silen.

Pois então, algum de vocês já andou em um trem desgovernado? Panaceia te dá uma dose pelo menos cinco vezes acima do aceitável com a leitura. A sucessão de fatos é muito maior que a do primeiro livro e a quantia ainda maior de detalhes exige uma parada para ser possível pensar com clareza no que foi lido. Inclusive eu terminei o livro hoje depois de começá-lo na quarta que passou. Deus meu, isso não foi nada fácil, ainda mais porque algumas perguntas ficaram pulando na minha cabeça.

Panaceia foi uma tensa, porém excelente, sucessão de descobertas, lutas, decisões e novos personagens. Especial destaque para:

  • Nelson e Nazaré, mestiços, meu casal favorito depois dos protagonistas Robert e Laura. Torço para que eles terminem juntos e preferencialmente vivos;
  • Laura dando uma de “conselheira veterana” com Shiloh e Alexia. Excelentes cenas com ela mostrando porque é tão amada por tanta gente, incluindo eu;
  • A evolução do atual “quadro” da protagonista, iniciado lá no primeiro livro. Assustador, no mínimo. E ainda mais perigoso do que se pensava;
  • Aicha, a mulher misteriosa que aparece da metade para o fim do livro. Sem ela não teríamos algumas das respostas para o enigma que a protagonista tornou-se. Laura é a Panaceia e o momento do Zênite está chegando dali dois equinócios. Entretanto, o que isso exatamente significa? Respostas só para o terceiro livro, Nênia;
  • Avelar passando de vilão desgraçado FDP do primeiro livro para “vilão estilo James Bond, Star Trek, Star Wars e Doctor Who”. Imaginem uma mistura dos vilões do 007 com o Khan, o Darth Vader e o Mestre. Pois bem, temos aí o resultado: o Megister da Ordem aprontando de tudo e mais um pouco durante o livro. Incluindo uma quimera e um “duas peles” (lobisomem, no caso), ambos aprisionados em laboratório, uma droga capaz de matar vampiros poderosos, acordos com toda a sorte de “turma do mal”, etc. Tá bom assim ou querem mais?
  • Gina, uma mestiça prisioneira e seu misterioso admirador. Algo me diz que vem coisa boa por aí relacionada com esses dois. Torço para que sejam eles a desmascararem definitivamente o Avelar embora isso já esteja acontecendo;
  • Parece que o quadro da Kate e do David enfim está mostrando sinais de evolução. Já era hora disso acontecer, Geo! Estou imensamente feliz;
  • Laura tendo que se virar em mil para lutar contra toda a sorte de mestiços e nômades indo atrás dela. Cenas muito tensas e bem escritas.
  • Cínthia tendo que tomar uma decisão daquelas após sofrer um ataque sério de uma das vampiscates, a Heather. Consequências? Ninguém sabe quais foram porque a autora deixou a coisa toda no ar. E ficou NO suspense a cena final. Meu Deus, quando é que a senhorita vai lançar Nênia, minha amiga?
  • Maia mostrando bem mais maldade do que eu imaginava até aqui. Aliança entre ela e o nojento do Amos? Problemas, muitos problemas;
  • Os mocinhos finalmente descobrindo que o culpado da maior parte do problema da Laura é o Avelar. Maravilhoso, no mínimo, saber que enfim o cerco está se fechando contra ele. Mais que hora dele pagar os pecados;
  • Muito perto do final do livro, A bomba. O que Silen nos reserva agora que Laura está numa situação das mais complicadas? Será que vai dar tudo certo? Como será o futuro após isso ocorrer? São perguntas demais e respostas de menos. Ainda sim não deixa de ser maravilhoso com toda a originalidade advinda do primeiro livro.

Afinal, Panaceia é uma excelente sequência que deixa várias perguntas para o terceiro livro, o qual eu tenho certeza que será ainda melhor. Além de muito bem escrita, mostrando que Georgette Silen é uma das melhores autoras do tema vampiro do Brasil. Altamente recomendado para quem gosta de leitura de boa qualidade.

Até a próxima. Tenho que correr. A TARDIS me espera em algum lugar para me levar a uma aventura.

“Pérola – O ano do dragão” ou A teimosa Lágrima da Ostra e seu persistente bracelete dourado

Start your engine! Em velocidade máxima com Georgette Silen e Rosana Rios para conhecermos a trama de Pérola – O ano do Dragão. Espera, Dama Teimosa, como assim “e Rosana Rios”? Oras, a resposta é clara: a resenha da vez é de um livro de duas escritoras: o alvo da semana do meu blog mais a escritora juvenil Rosana Rios, que já apareceu por aqui com o conto Prata, da antologia Amor Lobo.

A história tem como protagonistas Pérola e Hien, vivendo em épocas e locais totalmente distintos. Ela, no ano do Dragão em São Paulo. Ele, na China do século catorze, na dinastia Yuan, a antecessora da célebre Ming. Certo, mas, como raios eles estão ligados? Por uma linda joia que causa problemas a ambos. Uma, esquecendo que a curiosidade matou o gato. O outro, se apoderando do que não deve apenas porque vive de roubar. Como, porém, a joia causa tantos problemas? Ambos descobrem, de um jeito muito ruim, que se usado, o bracelete concede poderes ao usuário. Gente, vocês conseguem ver onde isso vai dar? Em uma bela encrenca. Muito bem escrita, diga-se.

Conhecem a Witchblade (http://pt.wikipedia.org/wiki/Witchblade)? Pois bem, o efeito é basicamente o mesmo embora o bracelete faça pior, já que seu usuário pode transformar-se em um monstro caso não consiga controlar os poderes dos quatro elementos contidos na joia: fogo, água, terra e ar.

É a partir de Pérola xeretar mais do que deve que a história se desenvolve. Ela não apenas tem de lidar com os problemas típicos de adolescente, como escola, colegas chatos que vivem incomodando, trabalhos, provas e o fato de não ter pai, como também com um “Gasparzinho” que vive dentro do bracelete de dragão. E que é um rapaz muito lindo. Ou seja, a pobre Lila, apelido pelo qual ela prefere ser chamada, não poderia lidar com mais que isso, ou poderia? Sim, ela vai. Trabalhar na loja da senhora Mei para “pagar” o bracelete que ela pegou sem pedir. Enfrentar um deus chinês maligno que deseja o poder do bracelete da Pérola a qualquer custo, mesmo que para isso ele precise destruir tudo que houver no caminho. Se sentir seriamente atraída por Hu Qiu, vulgo Lucas, o filho da senhora da loja. Lidar com o fato de que a mãe tem magia no sangue. Too easy, não é? Só que não mesmo.

É com todas essas premissas que se desenvolve a trama do livro, de uma forma tão única e maravilhosa que é impossível não pensar em dar aquela largadinha só para não acabar rápido demais. Pérola é aquela protagonista que nós poderíamos encontrar em qualquer lugar e de quem até poderíamos ser amiga de tão palpável e real que ela é. A evolução dela como pessoa é fantástica, especialmente quando ela descobre que existe outras maneiras de encarar os problemas presentes.

Hien é inicialmente a criatura mais desagradável do mundo e dá todos os tipos de pitaco possíveis em qualquer assunto onde ela se envolva, incluindo incentivá-la a agir maldosamente e falhar em controlar os poderes ganhos. Porque no meio disso há quatro testes impostos por Long Mu, a mãe dos Dragões (Game of Thrones mandou lembranças), que é a dona do poder que Hien roubou lá no começo da história. Meu Deus, que encrenca! Contudo, que maravilhosa encrenca para uma boa apreciadora de maravilhosas histórias como eu.

Com o decorrer da história, porém, é impossível não pensar em como teria sido se Hien tivesse seguido um caminho diferente, reflexão que ele faz enquanto se relaciona indiretamente com Lila. O desenvolvimento da relação deles é um dos pontos altos do livro, começando em uma hostilidade das grandes para terminar no embrião de um muito possível romance. Acho que a frase A Lágrima da Ostra desperta o Dragão faz muito sentido também nesse aspecto. Pois ele acaba apaixonado por ela e se torna capaz de tudo para salvá-la de um destino pior que o dele, pois ele percebe: Pérola tem chance de fazer a coisa certa. Que ele só teve tarde demais, tanto que sequer pôde continuar desfrutando de uma vida feliz quando ele finalmente encontra, ou pelo menos ele assim pensou, a paz. A cena dessa parte é de partir o coração. Geo e Rosana, vocês me fizeram soltar lágrimas. Não sabem que é feio fazer uma dama chorar?

Outro ponto alto foi a maneira como o vilão foi neutralizado. Simplesmente o melhor “velho truque” que eu já testemunhei em muito tempo lendo todo o tipo de história. Mais um ponto altíssimo são as fidedigníssimas descrições da China antiga e a fidelidade com o elemento histórico e mitológico. Simplesmente um deleite para os olhos da imaginação. Só lendo para saber a maravilha que é porque se eu tentar descrever, sinceramente não logro. Inclusive estou com aquela vontade de conhecer o país após ler o livro.

E o final do Epílogo? Alguém que ninguém esperava deu as caras embora tenha feito rapidíssima participação em uma parte anterior. E pelo jeito vai rolar algo sério em razão disso. A frase final, só para deixar os leitores ainda mais malucos, deixa uma monumental brecha, onde cabe um planeta Júpiter, para uma continuação, que eu realmente quero que aconteça.

Pérola – O ano do Dragão é altamente recomendado para quem gosta de mitologia chinesa ou quer conhecê-la a fundo e uma excelente, bem contada e desenvolvida trama.

Até a próxima. Tenho que correr. Tenho que continuar desvendando a Panaceia.

As teimosas Fábulas ao Anoitecer

Start your engine! E vamos pegar mais uma carona em alta velocidade com Georgette Silen, agora com Fábulas ao Anoitecer, mais uma excelente antologia de contos, formada por um total de onze.

Não perdendo o costume de ser maravilhosa escritora, Geo nos presenteia com histórias repletas de uma originalidade única e algumas reconstruções de histórias conhecidas de outros “pagos”, feitas de tal maneira que não tem como não apreciar. Procurarei não dar spoilers, portanto farei análises curtas, porém precisas.

1ª – Até que os anjos nos separem: O que deveria ser um romance adolescente vira, nas mãos da autora, uma surpreendente história sobrenatural onde as aparências enganam com tudo. E reserva um adorável final para o dilema da protagonista de com quem ela vai dançar no seu baile de formatura. Nota: Dez.

2ª – Olhos do dia e da noite: Quem nunca jogou, nem que fosse pelo pc, uma partida de RPG? A sensação que eu tive ao ler esse conto foi essa: a de estar em uma aventura onde cada passo poderia ser o último do jogador. Um protagonista aparentemente detestável, mas que descobrimos ser dos mais bondosos quando ocorre algo inesperado com ele e sua assistente fada Sabina. Nota: Dez.

3º – O anel e a pérola solitária: Uma garota que desde criança ouve vozes e descobre, após viver um momento muito ruim, algo que ela jamais esperava ser. Uma linda história de descobertas e amor nas suas formas mais bonitas e maravilhosas (Por esas cosas bonitas, bonitas y maravillosas, yo me enamoré, yo me enamoré, de ti.). Nota: Dez.

4º – Jack: A primeira releitura feita por Geo nessa antologia, sendo seu alvo a famosa lenda de “Jack – O’- Lantern”, que, para conhecimento dos desinformados, é um dos símbolos do Halloween. (Essa gracinha aqui, ó: ) A origem que Silen cria para a lenda é original e ao mesmo tempo esperada, além de muito comovente, já que o protagonista deseja apenas continuar vivendo o grande amor interrompido pela Dona Morte. Como em um dos contos da antologia As três princesas negras e outros contos dos irmãos Grimm (Resenha: https://asteimosiasdeumadama.wordpress.com/2015/03/06/o-grande-e-teimoso-poder-do-numero-tres/), As três folhas da serpente: Afinal, de que adianta viver quando se perde o verdadeiro amor? A comida não teria sabor, a bebida não mataria a sede, o sol não aqueceria a pele e a música não aliviaria a alma. E esta foi a bonita perdição do protagonista. Nota: Dez.

5º – A princesa de Mangaleão: Um lindo conto de fadas sobre o poder do amor fraternal e de como a lei do retorno é generosa com quem deseja o bem acima de qualquer coisa. O errado é errado mesmo que todos façam e o certo é sempre certo mesmo que ninguém faça. Em minha opinião sincera e humilde, muita gente deveria ler esse conto e com ele aprender a ter mais bondade no coração. Eu incluo todos os preconceituosos e elitistas nesse caso. Nota: Dez.

6º – A senhora do lago: A segunda releitura feita por Geo, agora envolvendo a lenda do rei Arthur e da célebre Excalibur, só que com um toque muito original: um mundo mecanizado na era arturiana. E o conto traz toda a reprodução da lenda de uma forma mágica e envolvente a despeito daquela pontinha de tristeza lá no final. Nota: Dez.

7º – Uma quase tragédia grega: Terceira releitura feita por Silen, agora envolvendo a lenda de Perseu e a Górgona, só que continuando a história alguns mil anos depois em uma escola particular de uma cidade não nomeada. É simplesmente genial esse conto. Não consigo achar palavras para definir o quanto gostei. De uma coisa, porém, eu sei: quero continuação. Nota: Dez.

8º – O Holandês Voador: Quarta releitura, agora da assombração denominada “O Holandês Voador”. Simplesmente lindo e adorável à sua maneira deliciosamente vingativa. Embora você saiba que o alvo da vingança estava fazendo seu trabalho, nós temos o hábito de odiar oficiais do rei. E nós amamos isso mais do que o aceitável. Afinal, na ficção podemos tudo. Nota: Dez.

9º – A menina dos fósforos: Quinta releitura, agora de Andersen e seu célebre conto, A pequena vendedora de fósforos. Algo sério espera a protagonista em alguma esquina perdida de algum lugar desconhecido em uma noite nevada da véspera de Ano Novo. Agora somem isso com terror japonês estilo Ringu (aqui no Brasil intitulado O chamado). Igual a: um conto muito bom e causador de muito medo quando uma frase fica ecoando por horas no ouvido mesmo depois de você concluir a leitura. Nota: Dez.

10º – Alquimia perfeita: Última releitura, mas agora de uma lenda “real”, de ninguém menos que Nicholas Flamel, a quem atribuem a provável criação da Pedra Filosofal (J. K. Rowling e Harry Potter mandaram lembranças). Novamente um toque da mais pura originalidade em relação à esposa do alquimista, Perenelle, aqui convertida em uma viajante do tempo (Georgette whovian sorriu) com a missão de encontrar o Catalisador. Isso é…? Spoilers. (Agora a whovian fui eu.) Nota: Dez.

11º – A folha em branco: Apenas uma coisa a dizer desse excelente conto: tem como alguém quebrar a quarta parede ou fazer metalinguagem mais do que a Geo nesse caso? Ok, não é um caso tal como conhecemos, mas sério, foi incrível. E a gente fica se perguntando: aqueles seres todos não seriam na verdade uma referência ao Diabo? Como? Isso também é spoiler. Nota: Dez.

Conclusão: Fábulas ao Anoitecer é literatura de primeira qualidade e merece ser bem degustado, assim como um bom vinho ou uma xícara de café com leite bem docinha.

Até a próxima. Tenho que correr. Preciso encontrar e harmonizar meu pagode.

As teimosas crônicas de Kira

Start your engine! E vamos engatar outra marcha em direção à fantasia, agora com As crônicas de Kira, da afamada e amada autora brasileira Georgette Silen.

Como não podia deixar de ser, ela nos presenteia com o topo do top da Fantasia no melhor estilo de personagens como Conan, o Bárbaro e Elric, o cavaleiro albino. E ela não faz nada feio comparado com autores mais consagrados do gênero Espada e Magia, sejam eles daqui ou de fora. Posso dizer com certeza que essa série vai ser uma das melhores desse gênero aqui no Brasil, podendo disputar seriamente com a Trilogia Tormenta no ponto de melhor história. Que para o caso de vocês não saberem, foi criada, primeiramente como um cenário de RPG por Marcelo Cassaro, J. M. Trevisan e Leonel Caldela, este último autor dos livros da trilogia em questão.

E quando digo isso, estou dizendo a mais pura verdade. Por quê? Por algumas razões. Vamos listá-las:

1ª: A protagonista é uma mulher. Tá, mas e daí? E daí que se nós darmos uma boa olhada na Fantasia estilo Espada e Magia no geral, existem muito poucas, ainda, protagonistas femininas. Tudo bem que estamos em uma época bem mais propícia para isso e inclusive vem aumentando o número, mas ainda há muito para andar nesse ponto.

2ª: A história sendo mais curta do que geralmente estamos acostumados ajuda muito. Em 150 páginas, a autora conta uma primeira parte bem desenvolvida sem precisar de mais que esse número para que conheçamos pelo menos uma parte da protagonista, já que estamos só no começo da jornada de Kira. E até a última parte da série, ainda haverá um bocado para conhecermos da bela amazona.

3ª: A trama sendo dividida em arcos fechados. Embora o livro tenha menos de duzentas páginas, Geo o dividiu em três arcos distintos, onde acontecimentos muito tensos colocam a nossa adorável princesa amazona à prova. Sendo o primeiro dos arcos o aparentemente mais complicado, considerando o final muito chocante que ele possui. O segundo reserva uma revelação e tanto para os leitores. O terceiro, ah, o último. Meu Deus, que conclusão, parte 2!

4ª: Batalhas que nos fazem lembrar aqueles filmes antigos de aventura que ainda hoje passam em canais esquecidos da Net ou Sky. Ou até mesmo de Xena: Warrior Princess ou Hercules: The Legendary Journeys, cujos episódios eu via no SBT e Record há alguns anos. Só ficou faltando a Kira ter uma Gabrielle ou um Iolaus, quem sabe até um Autólycus ou um Salmoneus. Vamos ver o que Geo nos reserva para os próximos livros.

5ª: Até que os Deuses revelem Sua vontade, seu caminho a levará a conhecer o melhor e o pior, a orgulhar-se e a envergonhar-se de si mesma, e você vai chorar, mesmo sem lágrimas. Nunca uma frase fez tanto sentido quando se chega ao final do primeiro e último capítulos do livro. Kira passa por verdadeiras provações nesses pontos e as consequências não são as melhores. Se bem que, no caso no último capítulo, ela se vê tendo que fazer uma reflexão muito séria sobre os fatos que ali ocorrem, precisando tomar uma decisão que pode mudar para sempre os rumos de um povo que habita a cidade onde ela se encontra. Situação complicada aquela, como eu não achei que veria de novo.

6ª: Um excelente livro que merece ser lido e apreciado em toda sua plenitude até que a Geo decida-se em nos contar mais sobre Kira e sua jornada em busca das gemas do Totem Sagrado de Hisipan. *Sorriso enorme*

Até a próxima. Tenho que correr. Pois preciso descobrir as maravilhas das Fábulas ao Anoitecer.

“Amor Lobo” ou Os teimosos (e tão complicados) amores lobos

Start your engine, boys and girls! E vamos dirigir em direção aos vários tipos de amor lobo, que nos são apresentados por nove autores diferentes na antologia Amor Lobo. Que são crônicas de amor, sangue e lobisomens, como toda a boa história envolvendo os filhos da lua cheia. (Não me peçam spoilers.)

Rosana Rios abre o livro com o conto Prata, que nos conta sobre as férias da jovem Raíssa em uma pousada nas montanhas. No decorrer dos dias, ela vem a se interessar por Zinho, um morador local. O conto é dividido em dois tipos de narrativa: onisciente e primeira pessoa, mais especificamente, um diário. E o que começa com simples conversas acaba resultando em um lindo romance, pelo qual torcemos igual maluco em estádio no domingo do Brasileirão. No fim, Rosana joga uma belíssima bomba no colo dos leitores, que fazem aquela cara de: WHAT?! A minha cara foi exatamente o que vocês devem estar imaginando. Como não podia deixar de ser, isso é sinal de que a história é excelente. Merece nota dez.

Nilza Amaral engata a segunda marcha com Durante treze sextas-feiras, a história de um lobisomem completamente livre das convenções humanas. Ou pelo menos é a teoria, já que durante o dia ele é um respeitável homem de negócios. O fantástico desenvolvimento da trama prende o olhar de quem lê e faz a gente se questionar do porque desse tão travesso número de sextas-feiras. E as cenas de Wolfgang andando pela cidade e depois com a loba que ele encontra? Oh minha senhora, você ganhou uma fã. Merece nota dez, igual o primeiro.

Helena Gomes engata mais uma com Era uma vez. E absolutamente não é um conto de fadas como vocês conhecem. Nada de uma princesa Disney com um príncipe encantado. Muito menos de personagens bonzinhos ajudando a protagonista. A nossa pobre senhorita, que assim como todos os outros personagens, não tem nome, só recebe ajuda de uma pessoa na maior parte do conto e lá perto do final ela tem outra. E a sequência de sacanagens feitas contra a protagonista é revoltante a nível supremo. Tinha horas em que eu queria matar um ou outro personagem porque a coisa é de deixar até a mais calma das pessoas furiosa. No final, porém, a felicidade dos leitores é tão grande que dá aquela vontade de abrir um champanhe e comemorar sem hora de parar. Conto excelente!

André Bozzetto Jr. engata uma marcha de carroça com Os desejos proibidos, um conto em que se sente intensamente a linguagem e os costumes do interior gaúcho. De tal maneira que se pode ver o cenário da história ao vivo e a cores no melhor estilo holograma de Star Trek: A Nova Geração. O autor não especifica a época, mas pela descrição, estamos em pelo menos cem anos atrás e além (piada tosca Toy Story). E para resumir a ópera, temos um amor impossível que de certo modo se torna possível, de um jeito que adorei, considerando que odeio coronéis e seus cupinchas. (Motivos de sensibilidade.) Bozzetto, I love you ever! Excelente conto, merecendo nota dez com louvor.

E para deixar Amor Lobo ainda mais saboroso de ler, Giulia Moon nos serve a deliciosa Lua Redonda (com biscoitos, *ba dum tass*.) em bandeja de prata (outra piada tosca colidindo no caminho). Um estranho triângulo amoroso em que uma das partes não conhece a outra, mas quando conhece, é algo que definitivamente não acaba bem. Para nenhum dos lados, é o que se acha. No entanto, a titia lunar nos surpreende com uma tensa virada de narrador, que nos deixa pensando: o que será…? (Insira spoiler.) Um conto de primeira que merece um lindo dez!

Uma violenta freada nos espera em A passageira, de autoria de Mario Carneiro Jr.. Juro que vou tentar escrever sem me debulhar em lágrimas, porque foi exatamente assim que me senti ao terminar esse lindo conto de amor entre dois seres tão diferentes. Sentimos carinho, amor, compaixão, raiva, revolta, inconformidade, etc. E tem uma coisa que eu adoraria: um final alternativo. De todo o coração, com sinceridade, isso é o máximo que consigo comentar desse conto porque só lendo para acreditar que aquilo aconteceu de fato. Uma maravilhosa história, apesar de tudo.

Ainda me recuperando do conto anterior, li Sobre o Nascer, o Pôr do Sol e o Eclipse, da Georgette Silen. Esse conto, segundo ela, é um spin off da série Lázarus, contando sobre um dos clãs lupinos, liderado pelo maravilhosamente querido Dragomir. (Que aparecerá em Nênia, o terceiro livro ainda sem previsão de lançamento.) Óbvio que a história tem os altos e baixos do nosso querido protagonista, incluindo três perdas, um novo encontro e uma bofetada de realidade. E Georgette nos mostra como ele é demais da melhor forma possível com o moço dando um belo olé no vilão da trama mostrando a que veio ao requerer a posição que lhe foi tirada injustamente. (Com algumas controvérsias.) Silen, eu te amo! E eu amo o Dragomir!

No penúltimo conto do livro, Walter Tierno enfia o pé com tudo no acelerador. Outro spin off, dessa vez do livro Cira e o Velho, A Dama e o Poeta é uma daquelas histórias de amor muito comoventes a despeito das controvérsias criadas em razão dos atos do dito personagem do título. Isso, porém, não importa, pois ele a ama e quer fazê-la feliz não importa o que mesmo isso significando agir da maneira mais FDP possível. E não venham com essa de que isso é errado porque de acordo com as circunstâncias, pode não ser. Mesmo que o contexto seja a maldita Ditadura Militar, em que nada eram flores. Eu já disse uma vez e digo de novo: dona Nhá, a Dama e sua filha tinham que ter feito mais crueldade com o desgraçado do Alemão. Sério, ele merecia! No fim, um conto de 1ª classe. Tierno merece nota dez!

Chegamos ao fim da viagem com Eric Novello e seus Achados e Perdidos, uma história de amor tensa e complicada entre um lobisomem diferente (um salvaxe lupino, cujo tipo o autor não explica bem o que é) e uma mulher que vem a ser agente da BEAST (que parece ser uma espécie de FBI do universo do Novello). A trama se desenrola de tal maneira que é impossível comentar esse conto em todos os detalhes porque eles são spoilers berrantes em tons de vermelho sangue. Vou dizer apenas isso: Eric Novello merece ser apreciado em toda a sua plenitude. Essa excelente história curta é apenas um aperitivo muito suculento do talento dele.

Amor Lobo, afinal, é um prato cheio (de sangue, tripas e outros adendos) para quem gosta de histórias de lobisomens.

Até a próxima. Tenho que correr. Pois irei entrevistar a linda guerreira e bruxa Cira.

A proposta (Conto baseado no universo da Arena, criado por Rita Maria Félix da Silva)

   Carlos Malefidele, a muito custo, tinha conseguido fugir. Os Lordes vampiros não haviam hesitado em entregá-lo à Alcateia quando estes souberam a verdade entregue aos lobos pelo maldito duende-lobo. Raios! Era tudo o que ele podia pensar enquanto estava debaixo de seu disfarce de judeu idoso indo fazer turismo na Argentina.

    Tinha conseguido disfarçar-se através de uma poderosa magia necromante que havia aprendido séculos atrás após conseguir fingir-se de morto pela luz do sol, na manhã que veio depois da noite após a reunião dos Lordes sobre as lutas armadas na Arena, feito que ele conseguiu ao impregnar seu cheiro no corpo de um vampiro serviçal de idade aproximada e depois empurrando-o contra a luz solar. Não havia sido fácil deixar rastro suficiente para forjar sua morte definitiva sem sofrer maiores danos, porém, era isso ou teria que enfrentar algo muito mais complicado: dezenas de lobos querendo tirar sua pele.

   Contudo, a trégua entre vampiros e lobisomens continuava. Isso pelo menos era um ponto positivo. Que poderia ser facilmente quebrado caso descobrissem sua falsa morte. No momento, só podia torcer para que os ventos do destino soprassem em seu barco sem leme.

   O pior, porém, estava por vir. Sabia que fazer aquela proposta iria colocá-lo em um beco sem saída, no entanto, não tinha escolha além de entregar seu lugar de Lorde para ele. Perguntava-se como havia chegado a tal decadência. Aquele inconveniente espanhol não tinha a idade mínima adequada para ser um dos Lordes e muito menos fazia parte de algum clã, menos ainda o dele, porém, possuía um poder que faria qualquer vampiro sentir a garganta sendo inesperadamente apertada por uma poderosa mão de ferro invisível.

   Carlos sabia inúmeras histórias envolvendo aquele estranho ente, especialmente a lenda que era pouquíssima a leva dos que sobreviviam a beber seu sangue, dotado de poder único, dado por um dos Ancestrais, que segundo ele sabia, tinha sido o responsável por torná-lo um ser pertencente à noite.

   O vampiro, porém, nunca havia se informado sobre quantos humanos seu semelhante havia mordido com a intenção de transformar. Poucos? Muitos? Não havia uma resposta precisa o suficiente. Menos ainda ele sabia que tipo de vampiro era o que estava indo visitar. Tinha a ciência de que ele não parecia a criatura mais imponente do mundo devido à sua aparência um tanto comum demais, mas bastava ele falar ou demonstrar seus poderes para mostrar que não estava naquele mundo puramente de passagem. Ele era impressionante a despeito do que comentavam sobre sua aparência “feia” e modos um tanto diferentes do que os vampiros consideravam como normais e com os quais estavam acostumados. “Que situação”, ele pensava.

   Chegara à Argentina às onze e meia da noite. O Aeroporto Internacional de Ezeiza, cujo nome oficial era “Ministro Pistarini” se encontrava quase vazio àquela hora e ninguém viria buscá-lo, já que não havia avisado de sua chegada. Era melhor assim, Carlos pensava mediante aquela inacreditável decisão que havia se obrigado a tomar. Pegou o caderninho onde guardava informações importantes e o consultou para saber o endereço do vampiro, que havia obtido através de informantes anos antes.

   O bairro indicado no papel e para onde o taxista o havia levado era muito elegante. O endereço era bem perto de onde o táxi havia estacionado. Após, alguns minutos de caminhada e de ter chegado próximo à casa indicada no endereço, Malefidele parou no meio da calçada. Isso não podia estar acontecendo. Não mesmo. De todas as coisas que podiam ocorrer, não aquilo. Se seu coração ainda batesse, estaria pulando dentro do peito, quase escapando pela boca ou perto de rasgar o peito. Caio, Alonzo e Alia, três lobisomens da Arena que antes era comandada por ele, estavam lá, reunidos com o vampiro dono da casa. O mesmo não parecia feliz.

   Carlos podia claramente vê-lo tamborilar os dedos, de unhas longas e pontudas, da mão esquerda sobre as costas da direita, sentado em uma poltrona de feitio tipicamente argentino. Realmente, ele tinha uma aparência que podia ser facilmente confundida com a de um humano comum. Era meio pálido, magro e pela postura, parecia ter pouco mais que 1,70 m de estatura, mais precisamente 1,73 m. O cabelo era castanho escuro e cheio de cachos que constantemente caíam sobre a testa, que ele afastava com movimentos quase invisíveis a olho nu. Dava suspiros baixos e curtos em intervalos de pelo menos dez segundos.

  – Parece que nós temos um problema com nossos “hermanos brasileños” – a voz dele não tinha absolutamente nada de absurdamente impositivo ou hipnotizante como outros vampiros, mas era firme e demonstrava grande experiência de vida.

  – Nós só estamos aqui porque disseram que você podia ajudar – disse Caio, que parecia bem mudado, muito diferente de quando havia lutado pela primeira vez.

  – Quem me indicou a você? – perguntou ele olhando diretamente nos olhos do rapaz. Na opinião de Malefidele, o olhar dele daria inveja a um tubo de nitrogênio líquido ou à neve da Sibéria.

  – Uns vampiros argentinos que moram perto de onde eu vivo atualmente – o jovem desviou o olhar, não conseguindo evitar sentir-se intimidado embora suas tentativas fossem inúmeras.

  – E o que você acha que posso fazer? Posso ser o vampiro prior da Argentina, mas não faço milagres – respondeu ele em um tom assustadoramente frio para depois perguntar: – Portanto, o que espera de mim?

  – Olha, a gente sabe que a Argentina é um país neutro e inclusive você proibiu as Arenas em razão de que elas estavam causando imenso desequilíbrio na população sobrenatural, mas também, sabemos que… Puta merda, como eu te digo isso? – Alonzo amava e odiava aquela possibilidade ao mesmo tempo e com a mesma intensidade.

  – Não precisa, eu já sabia muito antes de você falar – Carlos engoliu em seco. Por tudo o que lhe era mais sagrado, existia mesmo alguma possibilidade fora do que ele pensava de Leopoldo Belmondo se tornar um dos Oito Lordes?

  – Sem querer ser chato e ficar interrompendo, mas, tem cheiro podre lá fora – Alia olhou para fora e por poucos centímetros não havia visto Carlos Malefidele disfarçado de idoso. O vampiro aliviou-se. Não seria nada bom se sua farsa fosse descoberta, pelo menos não até depois de falar com Leopoldo. O alívio dele, porém, durou pouco. Sentiu seu peito sendo apertado por algo que não podia ser visto…

  – Um truque extremamente velho e eficaz – a voz de Belmondo de repente podia ser ouvida ali fora e logo pareceu mais amedrontadora do que nunca seguida por dois estalos de dedos: – No entanto, extremamente previsível.

  – Eu sabia – Alia bufou com tédio enquanto o disfarce do agora ex-lorde se desfazia e o mesmo era reconhecido pelos lobos, que só o tinham visto uma vez, mas lembravam-se perfeitamente dele. Estavam prontos para atacar quando a voz agora alterada de Leopoldo ecoou de tal modo que até o vampiro ficou atordoado: – Parem agora os três!

   Malefidele não podia acreditar no que seus olhos viam: três lobisomens totalmente subjugados a um vampiro que havia utilizado tão somente uma frase. Já era difícil subjugar um porque eles possuíam uma resistência a comandos vampíricos que beirava o absurdo, quanto mais um trio, coisa que o espanhol havia feito com uma maestria de poder inacreditável. A mão se encontrava apontada aos três, que sem sucesso tentavam se desfazer do comando enquanto os olhos do vampiro se encontravam avermelhados e as presas crescidas:

  – Nenhum de vocês se mexe até eu dizer que podem.

   Deus, ele era assustadoramente diabólico quando estava naquele estado. Já não era muito bonito, parecia menos ainda. Carlos, na forte impressão recebida, não tinha reparado em algo. Quando finalmente pôde fazê-lo, não sabia o que falar mediante a visão: um crucifixo de prata pendurado no pescoço dele. Como era possível um vampiro andar um com símbolo religioso? Agora sim Malefidele não entendia mais nada…

  – Por favor, podemos hablar?! – o ex-lorde viu toda e qualquer tranquilidade ir embora diante daquela enxurrada de acontecimentos. Não era de se admirar que Lorde Pedro Invalesco tivesse, em ocasião passada, contratado os melhores mercenários vampiros para acabar de vez com Leopoldo Belmondo. O espanhol era realmente poderoso e podia até mesmo se tornar uma ameaça para o poder dos Lordes remanescentes, que agora eram sete.

  – Dame una excelente razón para no exterminate de una vez por todas! – Leopoldo ainda se lembrava de como havia sido quase morto em pelo menos cinco ocasiões, a mando de Lorde Invalesco e muito possivelmente dos outros sete que compunham aquela mesa de escroques.

  – ¡Tengo una cosa que deseas! Permítame mostrarla – aquela informação conseguida há anos, a custo de uma invasão feita na casa da famosa bruxa Dolores, finalmente seria útil.

   Belmondo aproximou-se, ainda em seu “modo fúria” e analisou cuidadosamente o vampiro Carlos, de repente colocando a mão em um dos bolsos do casaco e retirando dele algo que parecia um pergaminho, que ele abriu rapidamente e leu, ou pelo menos foi o que ele tentou fazer. Voltou-se para o ex-lorde: – Como você conseguiu isto?

  – Passei meses armando um plano para conseguir. Eu ia finalmente tornar possível que essa coisa fosse destruída, mas uma série de fatos que eu presumo que você já sabe quais são tornaram isto totalmente inviável – respondeu ele para depois perguntar: – Vai me permitir entrar para conversarmos ou você adivinhou o que proponho?

  – Que eu me torne um dos Oito em troca de você me dar essa informação e permanecer vivo – respondeu ele muito sério para depois perguntar: – Você trapaceia, manipula, faz todo o tipo de sujeira e quer que eu encubra?

  – Belmondo, eu sei muito bem que me detesta e o mesmo ódio você tem pelos outros sete, mas pense que isto é uma chance única que você terá para rir da cara deles e quem sabe até mesmo acabar com… – ele dizia quando foi interrompido pelo espanhol agarrando-o pelo pescoço: – Não tenho por costume encobrir sujeira de outrem. Apesar do que parece, eu ainda tenho princípios!

    Apesar do fortíssimo aperto, Carlos conseguiu dizer: – Pare, por favor. Eu posso… te contar… a verdade… sobre… Solomon!

  – Como?! O que sabe sobre ele?! – o nome do Ancestral que o havia transformado ainda lhe causava sentimentos conflitantes, um misto de admiração e ódio.

   Leopoldo, vendo os três lobisomens ali parados, liberou-os de seu comando, ao que Alonzo, Alia e Caio tiveram que se apoiar uns nos outros para não cair no chão, tamanho o poder que haviam experimentado. Os três mal tinham condição de fazer algo embora quisessem acabar com Carlos Malefidele, porém, eles tinham uma forte intuição de que aquele poderoso vampiro espanhol faria alguma coisa, razão pela qual se resignaram, pelo menos por um tempo, a observar como as coisas andariam.

  – Vão para dentro e descansem. Perdoem-me pelo que fiz, mas carnificina no meio da rua não é algo que devamos fazer. Esse tipo de assunto deve ser tratado com discrição suprema – disse ele educadamente, deixando os lobisomens com um misto de sentimentos conflitantes sobre aquele chupador de sangue.

   O ex-lorde do Conselho sabia que era melhor movimentar-se com cuidado se quisesse permanecer vivo. Tinha de admitir, muito a contragosto, que Leopoldo Belmondo era decididamente alguém que, para lidar, era necessária profunda cautela. O vampiro, no entanto, jamais poderia esperar que o prior da Argentina, embora perguntasse sobre como Carlos sabia de tal fato, tinha exata ciência da verdade sobre a morte definitiva de Solomon.

   O Conselho lhe pagaria caro por aquela perda. Com juros e correções monetárias de dois séculos de sofrimento e luto.