“Amor Lobo” ou Os teimosos (e tão complicados) amores lobos

Start your engine, boys and girls! E vamos dirigir em direção aos vários tipos de amor lobo, que nos são apresentados por nove autores diferentes na antologia Amor Lobo. Que são crônicas de amor, sangue e lobisomens, como toda a boa história envolvendo os filhos da lua cheia. (Não me peçam spoilers.)

Rosana Rios abre o livro com o conto Prata, que nos conta sobre as férias da jovem Raíssa em uma pousada nas montanhas. No decorrer dos dias, ela vem a se interessar por Zinho, um morador local. O conto é dividido em dois tipos de narrativa: onisciente e primeira pessoa, mais especificamente, um diário. E o que começa com simples conversas acaba resultando em um lindo romance, pelo qual torcemos igual maluco em estádio no domingo do Brasileirão. No fim, Rosana joga uma belíssima bomba no colo dos leitores, que fazem aquela cara de: WHAT?! A minha cara foi exatamente o que vocês devem estar imaginando. Como não podia deixar de ser, isso é sinal de que a história é excelente. Merece nota dez.

Nilza Amaral engata a segunda marcha com Durante treze sextas-feiras, a história de um lobisomem completamente livre das convenções humanas. Ou pelo menos é a teoria, já que durante o dia ele é um respeitável homem de negócios. O fantástico desenvolvimento da trama prende o olhar de quem lê e faz a gente se questionar do porque desse tão travesso número de sextas-feiras. E as cenas de Wolfgang andando pela cidade e depois com a loba que ele encontra? Oh minha senhora, você ganhou uma fã. Merece nota dez, igual o primeiro.

Helena Gomes engata mais uma com Era uma vez. E absolutamente não é um conto de fadas como vocês conhecem. Nada de uma princesa Disney com um príncipe encantado. Muito menos de personagens bonzinhos ajudando a protagonista. A nossa pobre senhorita, que assim como todos os outros personagens, não tem nome, só recebe ajuda de uma pessoa na maior parte do conto e lá perto do final ela tem outra. E a sequência de sacanagens feitas contra a protagonista é revoltante a nível supremo. Tinha horas em que eu queria matar um ou outro personagem porque a coisa é de deixar até a mais calma das pessoas furiosa. No final, porém, a felicidade dos leitores é tão grande que dá aquela vontade de abrir um champanhe e comemorar sem hora de parar. Conto excelente!

André Bozzetto Jr. engata uma marcha de carroça com Os desejos proibidos, um conto em que se sente intensamente a linguagem e os costumes do interior gaúcho. De tal maneira que se pode ver o cenário da história ao vivo e a cores no melhor estilo holograma de Star Trek: A Nova Geração. O autor não especifica a época, mas pela descrição, estamos em pelo menos cem anos atrás e além (piada tosca Toy Story). E para resumir a ópera, temos um amor impossível que de certo modo se torna possível, de um jeito que adorei, considerando que odeio coronéis e seus cupinchas. (Motivos de sensibilidade.) Bozzetto, I love you ever! Excelente conto, merecendo nota dez com louvor.

E para deixar Amor Lobo ainda mais saboroso de ler, Giulia Moon nos serve a deliciosa Lua Redonda (com biscoitos, *ba dum tass*.) em bandeja de prata (outra piada tosca colidindo no caminho). Um estranho triângulo amoroso em que uma das partes não conhece a outra, mas quando conhece, é algo que definitivamente não acaba bem. Para nenhum dos lados, é o que se acha. No entanto, a titia lunar nos surpreende com uma tensa virada de narrador, que nos deixa pensando: o que será…? (Insira spoiler.) Um conto de primeira que merece um lindo dez!

Uma violenta freada nos espera em A passageira, de autoria de Mario Carneiro Jr.. Juro que vou tentar escrever sem me debulhar em lágrimas, porque foi exatamente assim que me senti ao terminar esse lindo conto de amor entre dois seres tão diferentes. Sentimos carinho, amor, compaixão, raiva, revolta, inconformidade, etc. E tem uma coisa que eu adoraria: um final alternativo. De todo o coração, com sinceridade, isso é o máximo que consigo comentar desse conto porque só lendo para acreditar que aquilo aconteceu de fato. Uma maravilhosa história, apesar de tudo.

Ainda me recuperando do conto anterior, li Sobre o Nascer, o Pôr do Sol e o Eclipse, da Georgette Silen. Esse conto, segundo ela, é um spin off da série Lázarus, contando sobre um dos clãs lupinos, liderado pelo maravilhosamente querido Dragomir. (Que aparecerá em Nênia, o terceiro livro ainda sem previsão de lançamento.) Óbvio que a história tem os altos e baixos do nosso querido protagonista, incluindo três perdas, um novo encontro e uma bofetada de realidade. E Georgette nos mostra como ele é demais da melhor forma possível com o moço dando um belo olé no vilão da trama mostrando a que veio ao requerer a posição que lhe foi tirada injustamente. (Com algumas controvérsias.) Silen, eu te amo! E eu amo o Dragomir!

No penúltimo conto do livro, Walter Tierno enfia o pé com tudo no acelerador. Outro spin off, dessa vez do livro Cira e o Velho, A Dama e o Poeta é uma daquelas histórias de amor muito comoventes a despeito das controvérsias criadas em razão dos atos do dito personagem do título. Isso, porém, não importa, pois ele a ama e quer fazê-la feliz não importa o que mesmo isso significando agir da maneira mais FDP possível. E não venham com essa de que isso é errado porque de acordo com as circunstâncias, pode não ser. Mesmo que o contexto seja a maldita Ditadura Militar, em que nada eram flores. Eu já disse uma vez e digo de novo: dona Nhá, a Dama e sua filha tinham que ter feito mais crueldade com o desgraçado do Alemão. Sério, ele merecia! No fim, um conto de 1ª classe. Tierno merece nota dez!

Chegamos ao fim da viagem com Eric Novello e seus Achados e Perdidos, uma história de amor tensa e complicada entre um lobisomem diferente (um salvaxe lupino, cujo tipo o autor não explica bem o que é) e uma mulher que vem a ser agente da BEAST (que parece ser uma espécie de FBI do universo do Novello). A trama se desenrola de tal maneira que é impossível comentar esse conto em todos os detalhes porque eles são spoilers berrantes em tons de vermelho sangue. Vou dizer apenas isso: Eric Novello merece ser apreciado em toda a sua plenitude. Essa excelente história curta é apenas um aperitivo muito suculento do talento dele.

Amor Lobo, afinal, é um prato cheio (de sangue, tripas e outros adendos) para quem gosta de histórias de lobisomens.

Até a próxima. Tenho que correr. Pois irei entrevistar a linda guerreira e bruxa Cira.

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