Os Quatro Atos da Pós-Vida: 1º Ato – O Retorno

Let the Skyfall/ When it crumbles/
We will stand, tall/ Face it all together/
At Skyfall. – Skyfall, Adele.

1896…

A noite caiu na cidade. Um homem apoiava-se na janela como que esperando alguma coisa. Ou talvez nada quisesse. Uma moça que escrevia na mesa distante alguns metros perguntou-lhe: – Alguma coisa o incomoda?

– Nada não, guria. Tô só no meu fumo aqui – respondeu o homem olhando-a de soslaio: – E o que tu estás fazendo?

– Escrevendo uma carta. Tu sabes, pra minha família que vive em Santa Catarina – respondeu ela sorrindo.

– Ah, a dona Luísa e o seu Nicolau, além do teu irmão João – riu ele.

– Como de costume, tu aportuguesas os nomes deles. É bem a tua cara isso, tchê – a jovem gargalhou.

– É bom que tu te acostumes com o linguajar daqui, pois vai Deus saber o quanto tu vais ter que aturar este louco que sou eu – sorriu o homem.

Os dois riram ao mesmo tempo. O riso parou, porém, quando uma coruja piou alto. Ela não exatamente era supersticiosa, mas ele sempre dizia que aquele som era sinal de mau agouro. Dos bem grandes. Inclusive o repentino afastamento dele da janela assustou-a. Nada disse, porém.

– Eu sinto que esta noite vai ser daquelas. Vou até deitar cedo pra não ter azar – disse ele mais para si mesmo do que para sua hóspede, que continuava escrevendo.

A jovem não acreditava que um som daqueles causasse isso. Sinceramente, não entendia seu anfitrião. Que hábitos tão peculiares ele tinha. Bem que sua mãe dizia que eles tinham um jeito bem estranho de lidar com as coisas.

No fim, ele até sairia sortudo da passagem das horas, mas as coisas em outras paragens nunca eram simples. Continuar lendo

A proposta (Conto baseado no universo da Arena, criado por Rita Maria Félix da Silva)

   Carlos Malefidele, a muito custo, tinha conseguido fugir. Os Lordes vampiros não haviam hesitado em entregá-lo à Alcateia quando estes souberam a verdade entregue aos lobos pelo maldito duende-lobo. Raios! Era tudo o que ele podia pensar enquanto estava debaixo de seu disfarce de judeu idoso indo fazer turismo na Argentina.

    Tinha conseguido disfarçar-se através de uma poderosa magia necromante que havia aprendido séculos atrás após conseguir fingir-se de morto pela luz do sol, na manhã que veio depois da noite após a reunião dos Lordes sobre as lutas armadas na Arena, feito que ele conseguiu ao impregnar seu cheiro no corpo de um vampiro serviçal de idade aproximada e depois empurrando-o contra a luz solar. Não havia sido fácil deixar rastro suficiente para forjar sua morte definitiva sem sofrer maiores danos, porém, era isso ou teria que enfrentar algo muito mais complicado: dezenas de lobos querendo tirar sua pele.

   Contudo, a trégua entre vampiros e lobisomens continuava. Isso pelo menos era um ponto positivo. Que poderia ser facilmente quebrado caso descobrissem sua falsa morte. No momento, só podia torcer para que os ventos do destino soprassem em seu barco sem leme.

   O pior, porém, estava por vir. Sabia que fazer aquela proposta iria colocá-lo em um beco sem saída, no entanto, não tinha escolha além de entregar seu lugar de Lorde para ele. Perguntava-se como havia chegado a tal decadência. Aquele inconveniente espanhol não tinha a idade mínima adequada para ser um dos Lordes e muito menos fazia parte de algum clã, menos ainda o dele, porém, possuía um poder que faria qualquer vampiro sentir a garganta sendo inesperadamente apertada por uma poderosa mão de ferro invisível.

   Carlos sabia inúmeras histórias envolvendo aquele estranho ente, especialmente a lenda que era pouquíssima a leva dos que sobreviviam a beber seu sangue, dotado de poder único, dado por um dos Ancestrais, que segundo ele sabia, tinha sido o responsável por torná-lo um ser pertencente à noite.

   O vampiro, porém, nunca havia se informado sobre quantos humanos seu semelhante havia mordido com a intenção de transformar. Poucos? Muitos? Não havia uma resposta precisa o suficiente. Menos ainda ele sabia que tipo de vampiro era o que estava indo visitar. Tinha a ciência de que ele não parecia a criatura mais imponente do mundo devido à sua aparência um tanto comum demais, mas bastava ele falar ou demonstrar seus poderes para mostrar que não estava naquele mundo puramente de passagem. Ele era impressionante a despeito do que comentavam sobre sua aparência “feia” e modos um tanto diferentes do que os vampiros consideravam como normais e com os quais estavam acostumados. “Que situação”, ele pensava.

   Chegara à Argentina às onze e meia da noite. O Aeroporto Internacional de Ezeiza, cujo nome oficial era “Ministro Pistarini” se encontrava quase vazio àquela hora e ninguém viria buscá-lo, já que não havia avisado de sua chegada. Era melhor assim, Carlos pensava mediante aquela inacreditável decisão que havia se obrigado a tomar. Pegou o caderninho onde guardava informações importantes e o consultou para saber o endereço do vampiro, que havia obtido através de informantes anos antes.

   O bairro indicado no papel e para onde o taxista o havia levado era muito elegante. O endereço era bem perto de onde o táxi havia estacionado. Após, alguns minutos de caminhada e de ter chegado próximo à casa indicada no endereço, Malefidele parou no meio da calçada. Isso não podia estar acontecendo. Não mesmo. De todas as coisas que podiam ocorrer, não aquilo. Se seu coração ainda batesse, estaria pulando dentro do peito, quase escapando pela boca ou perto de rasgar o peito. Caio, Alonzo e Alia, três lobisomens da Arena que antes era comandada por ele, estavam lá, reunidos com o vampiro dono da casa. O mesmo não parecia feliz.

   Carlos podia claramente vê-lo tamborilar os dedos, de unhas longas e pontudas, da mão esquerda sobre as costas da direita, sentado em uma poltrona de feitio tipicamente argentino. Realmente, ele tinha uma aparência que podia ser facilmente confundida com a de um humano comum. Era meio pálido, magro e pela postura, parecia ter pouco mais que 1,70 m de estatura, mais precisamente 1,73 m. O cabelo era castanho escuro e cheio de cachos que constantemente caíam sobre a testa, que ele afastava com movimentos quase invisíveis a olho nu. Dava suspiros baixos e curtos em intervalos de pelo menos dez segundos.

  – Parece que nós temos um problema com nossos “hermanos brasileños” – a voz dele não tinha absolutamente nada de absurdamente impositivo ou hipnotizante como outros vampiros, mas era firme e demonstrava grande experiência de vida.

  – Nós só estamos aqui porque disseram que você podia ajudar – disse Caio, que parecia bem mudado, muito diferente de quando havia lutado pela primeira vez.

  – Quem me indicou a você? – perguntou ele olhando diretamente nos olhos do rapaz. Na opinião de Malefidele, o olhar dele daria inveja a um tubo de nitrogênio líquido ou à neve da Sibéria.

  – Uns vampiros argentinos que moram perto de onde eu vivo atualmente – o jovem desviou o olhar, não conseguindo evitar sentir-se intimidado embora suas tentativas fossem inúmeras.

  – E o que você acha que posso fazer? Posso ser o vampiro prior da Argentina, mas não faço milagres – respondeu ele em um tom assustadoramente frio para depois perguntar: – Portanto, o que espera de mim?

  – Olha, a gente sabe que a Argentina é um país neutro e inclusive você proibiu as Arenas em razão de que elas estavam causando imenso desequilíbrio na população sobrenatural, mas também, sabemos que… Puta merda, como eu te digo isso? – Alonzo amava e odiava aquela possibilidade ao mesmo tempo e com a mesma intensidade.

  – Não precisa, eu já sabia muito antes de você falar – Carlos engoliu em seco. Por tudo o que lhe era mais sagrado, existia mesmo alguma possibilidade fora do que ele pensava de Leopoldo Belmondo se tornar um dos Oito Lordes?

  – Sem querer ser chato e ficar interrompendo, mas, tem cheiro podre lá fora – Alia olhou para fora e por poucos centímetros não havia visto Carlos Malefidele disfarçado de idoso. O vampiro aliviou-se. Não seria nada bom se sua farsa fosse descoberta, pelo menos não até depois de falar com Leopoldo. O alívio dele, porém, durou pouco. Sentiu seu peito sendo apertado por algo que não podia ser visto…

  – Um truque extremamente velho e eficaz – a voz de Belmondo de repente podia ser ouvida ali fora e logo pareceu mais amedrontadora do que nunca seguida por dois estalos de dedos: – No entanto, extremamente previsível.

  – Eu sabia – Alia bufou com tédio enquanto o disfarce do agora ex-lorde se desfazia e o mesmo era reconhecido pelos lobos, que só o tinham visto uma vez, mas lembravam-se perfeitamente dele. Estavam prontos para atacar quando a voz agora alterada de Leopoldo ecoou de tal modo que até o vampiro ficou atordoado: – Parem agora os três!

   Malefidele não podia acreditar no que seus olhos viam: três lobisomens totalmente subjugados a um vampiro que havia utilizado tão somente uma frase. Já era difícil subjugar um porque eles possuíam uma resistência a comandos vampíricos que beirava o absurdo, quanto mais um trio, coisa que o espanhol havia feito com uma maestria de poder inacreditável. A mão se encontrava apontada aos três, que sem sucesso tentavam se desfazer do comando enquanto os olhos do vampiro se encontravam avermelhados e as presas crescidas:

  – Nenhum de vocês se mexe até eu dizer que podem.

   Deus, ele era assustadoramente diabólico quando estava naquele estado. Já não era muito bonito, parecia menos ainda. Carlos, na forte impressão recebida, não tinha reparado em algo. Quando finalmente pôde fazê-lo, não sabia o que falar mediante a visão: um crucifixo de prata pendurado no pescoço dele. Como era possível um vampiro andar um com símbolo religioso? Agora sim Malefidele não entendia mais nada…

  – Por favor, podemos hablar?! – o ex-lorde viu toda e qualquer tranquilidade ir embora diante daquela enxurrada de acontecimentos. Não era de se admirar que Lorde Pedro Invalesco tivesse, em ocasião passada, contratado os melhores mercenários vampiros para acabar de vez com Leopoldo Belmondo. O espanhol era realmente poderoso e podia até mesmo se tornar uma ameaça para o poder dos Lordes remanescentes, que agora eram sete.

  – Dame una excelente razón para no exterminate de una vez por todas! – Leopoldo ainda se lembrava de como havia sido quase morto em pelo menos cinco ocasiões, a mando de Lorde Invalesco e muito possivelmente dos outros sete que compunham aquela mesa de escroques.

  – ¡Tengo una cosa que deseas! Permítame mostrarla – aquela informação conseguida há anos, a custo de uma invasão feita na casa da famosa bruxa Dolores, finalmente seria útil.

   Belmondo aproximou-se, ainda em seu “modo fúria” e analisou cuidadosamente o vampiro Carlos, de repente colocando a mão em um dos bolsos do casaco e retirando dele algo que parecia um pergaminho, que ele abriu rapidamente e leu, ou pelo menos foi o que ele tentou fazer. Voltou-se para o ex-lorde: – Como você conseguiu isto?

  – Passei meses armando um plano para conseguir. Eu ia finalmente tornar possível que essa coisa fosse destruída, mas uma série de fatos que eu presumo que você já sabe quais são tornaram isto totalmente inviável – respondeu ele para depois perguntar: – Vai me permitir entrar para conversarmos ou você adivinhou o que proponho?

  – Que eu me torne um dos Oito em troca de você me dar essa informação e permanecer vivo – respondeu ele muito sério para depois perguntar: – Você trapaceia, manipula, faz todo o tipo de sujeira e quer que eu encubra?

  – Belmondo, eu sei muito bem que me detesta e o mesmo ódio você tem pelos outros sete, mas pense que isto é uma chance única que você terá para rir da cara deles e quem sabe até mesmo acabar com… – ele dizia quando foi interrompido pelo espanhol agarrando-o pelo pescoço: – Não tenho por costume encobrir sujeira de outrem. Apesar do que parece, eu ainda tenho princípios!

    Apesar do fortíssimo aperto, Carlos conseguiu dizer: – Pare, por favor. Eu posso… te contar… a verdade… sobre… Solomon!

  – Como?! O que sabe sobre ele?! – o nome do Ancestral que o havia transformado ainda lhe causava sentimentos conflitantes, um misto de admiração e ódio.

   Leopoldo, vendo os três lobisomens ali parados, liberou-os de seu comando, ao que Alonzo, Alia e Caio tiveram que se apoiar uns nos outros para não cair no chão, tamanho o poder que haviam experimentado. Os três mal tinham condição de fazer algo embora quisessem acabar com Carlos Malefidele, porém, eles tinham uma forte intuição de que aquele poderoso vampiro espanhol faria alguma coisa, razão pela qual se resignaram, pelo menos por um tempo, a observar como as coisas andariam.

  – Vão para dentro e descansem. Perdoem-me pelo que fiz, mas carnificina no meio da rua não é algo que devamos fazer. Esse tipo de assunto deve ser tratado com discrição suprema – disse ele educadamente, deixando os lobisomens com um misto de sentimentos conflitantes sobre aquele chupador de sangue.

   O ex-lorde do Conselho sabia que era melhor movimentar-se com cuidado se quisesse permanecer vivo. Tinha de admitir, muito a contragosto, que Leopoldo Belmondo era decididamente alguém que, para lidar, era necessária profunda cautela. O vampiro, no entanto, jamais poderia esperar que o prior da Argentina, embora perguntasse sobre como Carlos sabia de tal fato, tinha exata ciência da verdade sobre a morte definitiva de Solomon.

   O Conselho lhe pagaria caro por aquela perda. Com juros e correções monetárias de dois séculos de sofrimento e luto.