Os Quatro Atos da Pós Vida – Epílogo: Passeio Noturno

For this is the end
I’ve drowned and dreamt this moment
So overdue, I owe them
Swept away, I’m stolen 
– Skyfall, Adele

*Há 120 anos andamos nas ruas de um porto não muito alegre. Que, no entanto, nos traz encantos. E um pôr de sol que nem mesmo em versos poderia traduzir-se. Seguimos livres em tantos caminhos, aramos terras, provamos vinhos, tivemos incontáveis ideias de liberdade e vimos o amor florescer em todas as idades. Muitos nasceram chorando no Moinhos de Vento, outros tantos subiram os bondes e deles desceram correndo. Muitos brincaram com boas fundas de goiabeiras, jogaram bulitas, pularam fogueiras. 64, 66, 68, mau tempo talvez. Deu para os anos setenta e nos oitenta nos perdemos por aí.
*²Pois Porto Alegre é que tem um jeito legal. Aqui as gurias… etc e tal. Nas manhãs dominicais, ainda se tem o hábito de esperar o Gre-Nal. E passear pelo Brique no maior alto astral. Quem dera sempre pudéssemos ligar o rádio e ouvir uma música do Kleiton e Kledir. Andar pelos bares nas noites abril e roubar de repente um beijo vadio. Essa cidade nos faz tão sentimentais. Ela nos dói, não digam a ninguém. Ela nos tem. Não nos levem a mal, pois a saudade é demais. É aqui que vivemos em paz. Porque Porto Alegre é demais.
E ela assim permanece, mesmo com tantas mudanças. De uma pequena grande cidade até a metrópole atual. Continuar lendo

Os Quatro Atos da Pós Vida – Último Ato: Adaptação

This is the end
Hold your breath and count to ten
Feel the earth move and then
Hear my heart burst again
– Skyfall, Adele

A primeira conversa após a ida de todos para a grande e espaçosa casa de Xenóbia fora marcada por revelações.
A anfitriã era uma bruxa com poder de controlar corvos à sua vontade. Emília era uma vampira treinada de pelo menos três anos de idade, tendo sido transformada aos dezenove. Chiquinha Gama enfim sabia o que tinha causado seu “aborto espontâneo”, mas nem por isso estava menos chocada…
– Absorver o que restou da vida do meu filho não era bem algo que eu desejasse saber. É terrível imaginar mesmo que eu já suspeitasse quando vi o meu pobre guri daquele jeito.
– Nada anormal se considerarmos que você se transformou em vampira. E o fato de vampiros serem incapazes de gerar filhos explica isso muito bem. Seria mesmo impossível aquele bebê viver. E dado o que você me contou depois de me perguntar, a criança nunca vingaria. Provavelmente nasceria morta ou morreria depois do parto. E era bem possível que você também acabasse morrendo, dado desse tipo de nascimento geralmente ser complicado para os dois – disse Xenóbia certeira para depois perguntar-lhe sobre de quem eram aquelas roupas que o casal usava.

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Os Quatro Atos da Pós Vida – 3º Ato: O Controle

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Skyfall is where we start/
A thousand miles and poles apart/
Where worlds collide and days are dark/
You may have my number/ You can take my name/
But you’ll never have my heart – Skyfall, Adele

 

Uma delicada batida na porta fez o dono da casa adivinhar quem era. Abriu a porta tendo a certeza de que ela trazia alguma queixa: – Entra, Xenóbia. Tem café e mate pronto.

– Pela tua cara, imagino que tu estás perguntando o que vim fazer aqui – respondeu ela entrando e logo se sentando no sofá meio velho reservado às visitas.

– Aconteceu alguma coisa? – ele perguntou um tanto retoricamente. Continuar lendo

Os Quatro Atos da Pós-Vida: 2º Ato – A Descoberta (O Poder)

Where you go, I go/ What you see, I see/ I know I’d never be me/
Without the security/ Of your loving arms/ Keeping me from harm/
Put your hand in my hand/ And we’ll stand – Skyfall, Adele.

 

O casal movimentava-se com surpreendente velocidade. Aquilo era tão maravilhoso. E também assustador. Além é claro, de ser muito divertido apostar corrida quase meia noite com a cidade praticamente vazia. A estranha felicidade acabou por fazê-los não perceberem aonde iam. A mesma inesperadamente deu a lugar a uma bela e nostálgica lembrança de quando pensaram poder ser felizes na sociedade que caminhava de dia. Estavam no Arraial do Menino Deus, o lugar onde haviam se conhecido no Natal de 1895.

A igreja no meio da praça parecia encará-los. Os dois recordavam de como tinham se visto pela primeira vez. De como tinham começado seu amor. Do rumo que a história por fim tomou. Abraçaram-se. Ela, perguntou-se porque ainda vivia. Ele, apenas uma coisa tinha em mente: vingança. Iria fazer todo mundo provar do amargo remédio a que o submeteram ao proibi-lo de amá-la. Aquelas gentes iriam pagar-lhe todos os tributos com juros e correções monetárias.

– Por favor, eu te peço, não vais agir de maneira impulsiva! – Francisca abraçou-o com força.

– Me diz então, Chiquinha: como eu tiro este ódio de dentro do meu coração? – perguntou ele com amargura.

– Tu tens a mim agora. Isto não conta? – replicou ela agora o olhando de frente. Continuar lendo

Os Quatro Atos da Pós-Vida: 1º Ato – O Retorno

Let the Skyfall/ When it crumbles/
We will stand, tall/ Face it all together/
At Skyfall. – Skyfall, Adele.

1896…

A noite caiu na cidade. Um homem apoiava-se na janela como que esperando alguma coisa. Ou talvez nada quisesse. Uma moça que escrevia na mesa distante alguns metros perguntou-lhe: – Alguma coisa o incomoda?

– Nada não, guria. Tô só no meu fumo aqui – respondeu o homem olhando-a de soslaio: – E o que tu estás fazendo?

– Escrevendo uma carta. Tu sabes, pra minha família que vive em Santa Catarina – respondeu ela sorrindo.

– Ah, a dona Luísa e o seu Nicolau, além do teu irmão João – riu ele.

– Como de costume, tu aportuguesas os nomes deles. É bem a tua cara isso, tchê – a jovem gargalhou.

– É bom que tu te acostumes com o linguajar daqui, pois vai Deus saber o quanto tu vais ter que aturar este louco que sou eu – sorriu o homem.

Os dois riram ao mesmo tempo. O riso parou, porém, quando uma coruja piou alto. Ela não exatamente era supersticiosa, mas ele sempre dizia que aquele som era sinal de mau agouro. Dos bem grandes. Inclusive o repentino afastamento dele da janela assustou-a. Nada disse, porém.

– Eu sinto que esta noite vai ser daquelas. Vou até deitar cedo pra não ter azar – disse ele mais para si mesmo do que para sua hóspede, que continuava escrevendo.

A jovem não acreditava que um som daqueles causasse isso. Sinceramente, não entendia seu anfitrião. Que hábitos tão peculiares ele tinha. Bem que sua mãe dizia que eles tinham um jeito bem estranho de lidar com as coisas.

No fim, ele até sairia sortudo da passagem das horas, mas as coisas em outras paragens nunca eram simples. Continuar lendo

De vampiros portenhos e sonhos escabrosos: Tentativa de desespero em Buenos Aires

(Crossover entre Neculai, do autor Adriano Siqueira (Lord Dri) e os Vampiros Portenhos)

Teresa Maldonado andava de um lado a outro, preocupada. Mizuki nunca se atrasava. Voltava ao Media Luna sempre as sete em ponto após fazer suas costumeiras compras no centro. Dessa vez, porém, não tinha voltado, ainda. Ela não compreendia. De repente, escutou fortes batidas na porta. O barulhento estrondo quase a derrubou. A cafetina imediatamente atendeu, exasperada: – Precisa mesmo usar tanta força, Loduca?! Você quase quebra a porta pela enésima vez!

– Desculpa, mas… – ele tentou falar, mas não sabia como dar a desastrosa notícia.

– O que houve? – Teresa bem que tentou conter a sensação ruim, mas não pôde.

– Um dos meninos que vende jornal perto do cemitério me contou que viu dois homens raptarem a japonesinha. O garoto ficou apavorado com o que viu. Só não morreu porque se escondeu a tempo de evitar ser visto – respondeu ele em um único fôlego.

– Quem ousaria raptar a Mizuki?! Por quê?! – Maldonado estava apavorada.

– Pelo jeito que aquele menino estava quando falou, quem fez isso deve tê-lo deixado quase urinando – respondeu Loduca, em seguida perguntando: – Alguma das meninas está disponível? Tenho fome.

– Sim, pode subir. Só tenha o cuidado de não causar dor quando morder. A sua mordida sempre causa queixas – disse ela séria. O vampiro já ia subir quando um garoto franzino entrou correndo, aproveitando-se da porta aberta. Ele exclamou apavorado: – Dona, me mandaram entregar isso em suas mãos! Caso eu não fizesse, ele ia matar a minha mãe!

A expressão desesperada do garotinho fez com que a bruxa e o vampiro logo soubessem quem era o referido…

– É muita ousadia! – Loduca gritou furioso. Os olhos chegaram a adquirir um tom rubro, mas logo voltaram ao normal.

– Não posso acreditar no atrevimento dessa criatura! Achei que tinha me livrado dele na Venezuela! – exclamou a cafetina exaltada.

– Ao que parece, Olaf não desistiu do mestre dele. No dia em que eu puser minhas mãos naquele desgraçado, eu rasgo ele igual um pedaço de papel! – exclamou o vampiro ainda mais exaltado.

– Tente pegá-lo sozinho e é você quem vai ser partido em pedaços – disse ela olhando-o séria. Depois disse, querendo chorar: – O seu tempo de vampiro ainda é curto demais para você ser capaz de lidar com o Olaf por conta própria. Aliás, ninguém da Patrulha do Tango pode fazer isso. Somente Yatagarasu. Ou quem sabe Leopoldo. No entanto, esse maldito bilhete diz que tenho cinco dias para conseguir que o prior rompa o “selo” que impede Neculai de agir livre em Buenos Aires. Ou faço isso ou ele mata Mizuki. Pobrezinha, deve estar apavorada.

– A senhora acha mesmo isso? É mais fácil aquela japonesinha lindamente demoníaca fazer o Neculai se apaixonar por ela ou ela conseguir fugir depois de insinuar aquele corpinho de deusa na cara do Olaf – Loduca deixou Teresa incrédula com tais palavras. Dificilmente ele escondia o quanto adorava Mizuki. Aliás, todos daquela estranha patrulha musical já tinham compartilhado os lençóis e o pescoço da cortesã. E tinham a mesma opinião que o vampiro ali presente.

– Vicente! Você só pode ser imbecil de achar que algum daqueles demônios da peste vão cair em algo tão óbvio! – Maldonado quase lhe atirou um feitiço de cortar fala.

– Eu só fui sincero e você sabe – replicou ele com firmeza. De fato, a bela japonesa atraía olhares por onde passava. Tinha belos e delicados traços orientais e um corpo decididamente sedutor sempre reforçado com belos vestidos de cores fortes. Teresa, muito contrafeita, admitiu que aquilo era mesmo possível.

Mizuki não entendia o que estava acontecendo. Tudo havia sido rápido demais. Em um momento, estava fazendo suas costumeiras compras. No outro, estava amordaçada e amarrada dentro de um veículo junto de dois homens mal encarados. Agora, encontrava-se presa pelos pulsos sendo vigiada por dois pares de olhos cheios de luxúria. Algo lhe dizia que as próximas horas, ou quem sabe dias, seriam problemáticas. Nada, porém, com o qual já não tivesse lidado. Ela sabia que o melhor era possuir amplo jogo de cintura. Especialmente se daquilo dependesse sua sobrevivência.

– Vejo que executaram muito bem o trabalho. Estão dispensados – uma voz masculina que se impunha de modo assustador ecoou na porta do recinto.

Os dois saíram. No lugar deles, entrou uma criatura pálida de olhos muito escuros e cabelos igualmente pretos, além de um pouco longos. Mizuki permaneceu calada. Achou melhor nada dizer. Reconheceu-o. Teresa muito falava dele. Chamava-se Neculai. Ou pelo menos era esse o nome que ele havia escolhido. Sua chefa, e amiga, uma vez o havia derrotado na Venezuela há 45 anos. Usara uma perigosa magia com grande chance de dar incrivelmente errado. Ela, porém, o havia exterminado com sucesso. Agora, contudo, ele estava de volta. Ressuscitado por algum discípulo ou algum vampiro mais poderoso com planos sinistros em longo prazo.

– Percebo que a vadia da Teresa continua tão rigorosa quanto possível para escolher belas senhoritas para o covil de putas dela – disse ele segurando o queixo da oriental, que o fitava com um frio olhar.

Ela respondeu com frieza: – Eu sei quem é você. Sei o que faz contra as pessoas. Saiba que me causa repulsa seu modo de agir. Não importa o que, não importa como, você não obterá o que deseja. Se eu tiver que morrer por Teresa, farei.

– E com muito desespero, sua rameirinha inescrupulosa – Neculai apertou aquele mimoso queixinho com força. Mizuki não reagiu. Já se acostumara com aquele tipo de trato. Muito apanhara quando criança, o que a calejou para tal conduta.

– Terá que fazer mais para me desesperar. Você não sabe com quem está se metendo. Garanto: você pagará por isso. Teresa vai acabar com você de novo. E dessa vez, nem o Diabo te faz regressar – respondeu ela no mesmo tom gélido. Como resposta, recebeu uma violenta bofetada no rosto: – Cuide a sua linguinha, vagabunda de bordel. Ou irei cortá-la. É você que não sabe com quem está se metendo a falar nesse tom de superioridade.

– Eu sei exatamente com quem estou lidando. Um ser covarde e desgraçado. Um aproveitador que se alimenta do desespero de pessoas inocentes. Francamente, você me enoja – Mizuki aumentara uma oitava a voz. E outra vez recebera um violento tapa como retribuição. Dessa vez, porém, havia sido bem mais forte. E na outra face. A japonesa sentiu a mandíbula doer seriamente devido à pesada mão. Todavia, não demonstrou. Permaneceu calidamente fria. Não cairia diante daquele covarde maldito. Seria uma desonra tal queda. Mostraria a ele que ninguém se metia com Mizuki Shinya.

Neculai, por sua vez, achou que iria adorar desesperá-la. O sangue dela ficaria bem melhor e mais encorpado após alguns dias de tortura. Ele mostraria a ela que nenhuma criatura no mundo era incapaz de ceder diante dele.

Uma verdadeira guerra havia começado entre eles. E ninguém sabia qual dos lados sairia vencedor.

Teresa Maldonado achou melhor procurar Leopoldo Belmondo imediatamente. Ele era o único que podia oferecer uma solução menos complicada para o problema que se apresentava. Ou pelo menos em teoria.

O vampiro-prior atentamente ouviu as palavras apreensivas da cafetina. Respondeu por fim:

– Recomendo que, pelo menos por enquanto, digamos a ele que aceitamos a condição dele de libertar a senhorita Mizuki. Teremos cinco dias, porém, eu suponho que você está afoita para rever a jovem, preferencialmente ilesa. E eu imagino que você sabe ser muito difícil ele cumprir a palavra. Pode até ser que ele o faça inicialmente, mas não duvide: ele vai querer causar mal ao máximo de pessoas que ele puder. O desgraçado se alimenta disso.

– E logo eu não sei? Fui eu quem colocou um fim na existência nefasta daquela coisa! Ou pelo menos achei ter conseguido! Infelizmente a letra dele é muito identificável para achar que isso é somente uma brincadeira macabra do Olaf! – disse ela nervosa.

– Entendo. No entanto, Olaf entende muito de magia negra. E tenho certeza de haver muito mais por trás disso do que só a vontade de Neculai de causar desespero. Tem uns quantos vampiros do leste europeu que sonham em invadir a Argentina. E imagino eu que você sabe o motivo – disse Leopoldo soturnamente.

– Alguns elementos podiam ser muito bem apenas fruto da imaginação. Tudo isso é culpa daquela maldita mina de rubi escarlate. Por que diabos você tinha de encontrá-la? – ela respirou fundo.

– Eu não podia adivinhar que estava diante de uma quando estava lutando com Morlock, o criador dele. Estava mais preocupado em evitar que o maldito causasse caos após Solomon ter morrido daquela maneira horrível. Nunca poderia imaginar que estava diante daquele elemento. Foi ele, ainda que eu odeie admitir, que me ajudou a decepar a cabeça daquele porco. E obviamente… – ele dizia quando Teresa o interrompeu: – Não precisa dizer, eu sei.

De repente, quando os dois pareciam cansados daquela conversa, uma criada apareceu. Trazia consigo um japonês na casa dos cinquenta anos…

– Yatagarasu! – Leopoldo e Teresa exclamaram ao mesmo tempo.

– O menino Greco me disse do rapto de Mizuki. Auxiliarei como puder – disse ele resoluto.

– O senhor sabe que lidar com Neculai não é uma tarefa simples. Eu tive muitas dificuldades com Morlock mesmo tendo sido treinado por Solomon – disse o prior ainda em busca de uma solução simples.

– Na verdade, Leopoldo, o seu caso foi um grande golpe de sorte. Você nunca poderia ter lidado com ele em circunstâncias ditas “normais”. A sua capacidade, dada por Solomon, foi essencial – disse ele deixando, Belmondo incomodado: – Se não se importa, prefiro que deixe de mencionar isso.

Ele assentiu mesmo não compreendendo qual erro havia em assumir seus poderes. Por fim, sentou-se, pedindo um cálice de sangue à criada, que prontamente foi atendê-lo.

Os três logo estavam calculando qual seria a melhor estratégia para lidar com Neculai. No entanto, Yatagarasu já estava pondo em prática um perigoso plano. Sabia ele que um de seus queridos meninos sentia uma constelação despertar dentro dele. Era apenas questão de tempo até acontecer. E quem sabe finalmente o mundo se ver livre daquela aberração que se alimentava de sangue e desespero.

Há dias ele sentia uma esquisita comichão no corpo. Tinha ataques de fúria inesperados e sempre esquecia tudo o que ocorria durante os acessos após eles terminarem. Os companheiros a custo conseguiam contê-lo. O advertiam que era melhor ele contar para Yatagarasu sobre os recentes ocorridos. Ou isso poderia custar-lhe muito caro.

No entanto, ele não queria preocupar seu mestre. Achou ser capaz de controlar-se por conta própria. Pensava consigo mesmo que não seria difícil quando descobrisse o motivo daqueles sintomas. Eles, porém, haviam piorado consideravelmente naquele dia. Estava furioso pelo rapto de Mizuki. Desejava ser capaz de lidar com Neculai e resgatar sua adoravelmente deliciosa japonesinha.

– Arolas? Tá voando, é? – um moreno de cabeça levemente angulosa aproximou-se.

– Temos que dar um jeito de resgatar a Mizuki, Contursi. Se for como o mestre disse, o desgraçado vai torturá-la até conseguir fazê-la chegar ao desespero! E se for a isso, a Teresa pode esquecer qualquer chance de resgatá-la com vida! – exclamou ele levantando-se de um pulo.

– Vai com calma, Eduardo. Não podemos sair à moda louca sem consultar o Yatagarasu. Ou nós vamos ser partidos em mil pedaços! – replicou o outro exaltado.

– Me deixem dormir, porcaria! – um de bigode, colocando a cabeça fora de uma janelinha, gritou furioso.

– Ángel, já tá quase anoitecendo – disse Contursi olhando para fora do armazém onde ele e tantos outros repousavam durante o dia. Nesse meio incluíam-se alguns recém-transformados. E em breve outros chegariam, segundo previsões, às vezes instáveis, que Ángel Villoldo conseguia captar com o seu “Olho de Laplace”. Um estranho poder, no formato de um “terceiro olho” localizado na testa, manifestado alguns anos depois dele transformado. A Patrulha do Tango, como Yatagarasu batizara, só tendia a ficar maior na próxima década. Alguns deles, porém, não seriam obra do Ancestral de nome engraçado.

– Acabei de perceber, oras – respondeu Villoldo mal humorado. Quis voltar a dormir, mas não pôde, porque ouviu várias tampas de caixão se abrindo. Todos estavam despertando para mais uma noite de caçada. E um esquisito miado seguido de um ronronado ecoou no armazém, fazendo Eduardo e Contursi rirem…

– O Ponzio acordou com a gata hoje.

– Aposto que ele tá com os dois costumeiros rabos de quando ele vira um… aquela coisa que o mestre disse uma vez.

– “Vampiro nekomata”. O mestre disse que tenho o poder de virar um gato gigante de duas caudas, mas acabo virando um tipo de híbrido ridiculamente esquisito – respondeu o próprio Ponzio entre ronronares contrafeitos. Tinha acabado de saltar do andar superior. Duas orelhas felinas destacavam-se onde antes havia normais. E dois grandes rabos pretos haviam acabado de furar as calças. Além das mãos agora estarem com a aparência de patas, mas com garras incrivelmente letais. E os olhos, invés de apresentarem o vermelho normal dos vampiros, possuíam uma cor violeta-acinzentada.

– Nós temos que encontrar o mestre na casa do prior. Os recém-transformados ficam aqui. Não saiam até segunda ordem – disse Villoldo com firmeza e depois se dirigiu a um negro de bigode e cabelos escuros: – Ezeiza, vigie-os. Eles ainda têm muito que aprender. O resto vem comigo. Vamos bolar um plano para salvar Mizuki.

“E ai daquele Neculai se tocou um daqueles dedos imundos nela!”, pensou Ángel com fúria enquanto saía com um grupo de vampiros decididos a resgatar sua japonesa favorita.

Nenhum dos métodos verbais a deixou desesperada. A pior das ameaças não havia surtido efeito. Olaf estava certo de que, usando o aprendido com seu mestre, conseguiria fazê-la romper o selo. Mizuki tinha consigo o segredo que lhe havia sido confiado por Teresa. Ele constatou isso logo que começou a torturá-la psicologicamente. Ou pelo menos tentado, pois ela não cedia de forma alguma. E ainda não havia conseguido desvendá-lo. No fundo, sentia pena de machucá-la fisicamente, razão pela qual achou melhor chamar Neculai…

– Mizuki é uma bruxa. Do tipo curandeira, que usa o próprio sangue e saliva como ingrediente de poções e muitas vezes até se cura com eles. Dificilmente ela vai quebrar.

A cortesã apenas ouvia. O maldito tinha razão. Ela não quebraria. Nunca. Nem mesmo se ele resolvesse apelar para a tortura física. Ela bem que imaginou isso quando viu Neculai com um chicote na mão direita. Disse friamente:

– Você realmente pensa que me fará ceder com isso? Pode me matar de tanto me bater, mas não vou cair diante um covarde como você.

– Quero ver o quanto você resiste a isso! E o quanto ainda vai se atrever a abrir essa boca para desaforar-me! – exclamou o vampiro balançando o chicote na cara dela. Como resposta, recebeu uma vigorosa cusparada. E a réplica veio na forma de uma ainda mais violenta bofetada. E aquela tinha sido uma de muitas pancadas que ele antes desferira contra ela em razão das respostas muito desaforadas da oriental.

Neculai ordenou que Olaf a despisse totalmente. Queria ver o quanto mais ela suportava apanhar. Naquele caso, porém, de chicote, que machucava bem mais e deixava cicatrizes muito feias. Queria ver se algum homem iria querer pagar para deitar-se com aquela puta respondona depois disso.

Mizuki sentiu a primeira de pelo menos muitas chicotadas. Veio uma lágrima. Ela, todavia, não era de desespero. Vertia do ódio mais puro e sincero. Da raiva de estar naquela situação revoltante. Por estar sendo submetida aquilo. Agora sim não iria mesmo se desesperar. Mostraria àquele vampiro covarde e desgraçado como era forte e destemida. Não se importava de morrer após tanta tortura, mas não seria ele que a deixaria desesperada. Se existia uma coisa que a jovem ainda preservava de sua vida anterior era a determinação. Seria uma completa desonra cair ante um inimigo tão desprovido de virtude.

Preferia o harakiri à queda.

O vampiro causador de desespero continuava a espancá-la. E mais violentamente ainda o fez ao perceber ela não reagir do modo que ele queria. Gritou ao ficar diante do rosto impassível dela: – Como você consegue, sua puta maldita?!

– Já te disse, Neculai. Eu não cairei diante de um monstro covarde. Posso morrer aqui mesmo que o farei com honra. Não será você a conseguir meu desespero – respondeu ela olhando nos olhos dele. Nem mesmo a voz daquela rameira havia mudado. Era como se ela fosse incapaz de sentir dor.

– Sua… vagabunda – disse ele segurando queixo dela com força.

– Eu sou e não me importo. Pelo menos não sou uma covarde aproveitadora que cria desespero nos outros com intenção de beber o sangue – disse ela com a mais absoluta firmeza. E com uma voz tão gélida que arrepiou até mesmo a enegrecida alma de Olaf.

– Se você oferecer seu corpo em troca de dinheiro e joias não é ser aproveitadora, então nada sei da vida! E você cria desespero nos homens quando os enlouquece com suas diabólicas curvas femininas. Sabe disso muito bem. Cobra de homens fracos, luxuriosos e idiotas somas absurdas por uma noite de prazeres carnais. E ainda acha que eu sou o covarde?! Sua cadela! – exclamou Neculai dando mais uma bofetada em Mizuki.

– Você é e sempre será. Pode me bater o quanto queira, mas sabe que estou dizendo a verdade. Por que então você faz isso? Por que desespero te causa tanto prazer? Não há outra explicação: você necessita disso para se sentir superior. Isso é o que, em parte, define uma pessoa covarde – a cortesã mantinha o mesmíssimo tom.

Olaf estava incrédulo. Não via seu mestre daquele jeito há muito tempo. Neculai estava às raias da loucura furiosa com a inacreditável resistência de Mizuki Shinya. Até mesmo estava enfraquecendo por não conseguir o desespero que precisava para alimentar-se. O que afinal tinha ela? Por todos os deuses e demônios, que mulher! Senhoras e senhores, que mulher! Deus, que mulher! Pensava o discípulo do desespero.

Nenhum deles ali imaginava, mas um grupo de vampiros não havia sentido a ausência de um de seus membros. Pelo menos durante dez minutos. Até que de repente perceberam a perda do rastro de Eduardo Arolas. Começaram a procurá-lo como loucos, se perguntando como ele tinha sumido e ninguém dar por sua falta todo aquele tempo. Nenhum deles imaginava, mas “El Tigre del Bandoneón” deixava fluir por seu ser a comichão sentida há dias. Ela, porém, não chegava próxima disso. Na verdade, era o despertar de um poder imenso. A fúria podia nublar seu julgamento, mas uma coisa era certa: ele queria. Talvez fosse uma maneira de salvar Mizuki.

Ele só precisava deixar que tudo acontecesse. Que as águas fluíssem naturalmente.

Neculai sentiu-se mais forte após alimentar-se. O sangue não continha o desespero do qual ele gostava, mas havia servido. Precisava daquilo para continuar investindo contra Mizuki. Nenhuma vagabundinha de bordel luxuoso iria superá-lo. Por Plutão, isso não aconteceria nem que para isso ele precisasse ficar acordado durante o dia para fazê-la desesperar-se! Ela, por sua vez, continuava exatamente do mesmo jeito. Inacreditável, pensou o vampiro ao vê-la tão serena. Podia a jovem até mesmo sorrir, foi o que Olaf pensou ainda tentando entender como ela conseguia suportar tanto.

Nenhum deles sabia algo sobre ela. Mizuki, porém, já tinha vivido o suficiente de situações semelhantes para saber como sobreviver a elas. Testemunhara os capangas do pai castigando toda a sorte de pessoas que ousavam desafiá-lo. Isso tinha sido apenas um dos motivos que a levara a fugir de casa logo após completar seu treinamento de gueixa. Ela contava com dezoito anos à época. Fugira com ajuda do primo que a amava desde criança. Ele tinha ido parar no Uruguai com os funcionários de uma companhia de navios enquanto ela virara dama de companhia de uma conhecida alcoviteira chamada Taliana. A tal mulher achou a japonesa bela demais para uma simples empregada. O resto, todos que a conheciam sabiam.

– Estou cansado disso, senhorita. Você já deveria ter caído – Neculai a todo custo tentava conter a raiva ainda maior que sentia.

– Pode me matar se quiser, mas não vai obter o que deseja de mim. Além do mais, se me matar, aí mesmo é que os vampiros daqui vão mover céus e terra pela sua cabeça. Você pode ser poderoso, mas é só um – disse Mizuki sem medo algum.

– Vários contra um é covardia, sabia? – replicou o vampiro imediatamente.

– Dois pesos, duas medidas – treplicou a cortesã.

– Você é mesmo teimosa, diabinha – sorriu ele para depois dizer: – O que estou fazendo com você é para que, quando Teresa veja, ela saiba que eu jamais a perdoei por aquele feitiço. A sua adorada chefinha me traiu quando eu mais precisava ser auxiliado.

Mizuki, pela primeira vez, mudou de expressão. Estava incrédula ao ouvir aquelas palavras. Teresa já tinha se aliado com Neculai? Por que razão ela teria feito tal coisa?

– Está se perguntando “como assim ela fez isso”? Eu imagino que você não soubesse o quão podre ela é de fato – riu ele enquanto Olaf recordava-se da vil traição daquela vadia venezuelana.

– Ela pode ter tido seus motivos. Considerando que ela não teve uma vida muito fácil, não duvido que você tenha manipulado as emoções dela. Vindo de um tipo como você, não é inesperado – respondeu a japonesa ao lembrar-se de quando Teresa, pela primeira vez, comentou sobre a perda da família em Caracas.

– Como que você…?! – exclamou Olaf, sendo interrompido por um soco de Neculai: – Calado!

– Eu sabia – retrucou Mizuki enojada.

Olaf pouco se importou com o soco. Estava furioso porque não acreditava que aquela prostituta fosse tão inteligente e dedutiva. Que inferno! Ela tinha que ser apagada imediatamente! O discípulo disse: – Eu sugiro que ponha logo um fim nessa vadia para apressar Teresa a fazer o que você deseja. Do jeito que ela é rápida, não duvido que logo descubra mais!

– Você ajudaria bem mais se ficasse quieto! – exclamou ele para o outro logo fechar a boca.

– E ambos ajudariam se morressem de uma vez por todas – uma voz incrivelmente estranha ecoou na porta do porão onde eles se encontravam. Os dois vampiros do desespero não acreditaram no que viram: um vampiro transmutado em uma coisa que mais parecia um híbrido de homem e touro. Dois enormes e pontudos chifres saíam da testa, curvando-se como acontecia com os touros de verdade. O tom de pele era de um marrom bovino. As mãos tinham enormes e afiadas unhas. O que antes eram pés, agora eram cascos. A roupa estava toda despedaçada em razão do aumento de tamanho ocasionado pela transformação. Mizuki, a despeito da horrível aparência da criatura, reconheceu-a. Era Arolas.

– A constelação de Touro – pensou ela assustada. Yatagarasu sabia sobre aquilo? Possivelmente sim, pensou ela quase rindo. Ancestral mais esperto que ele decididamente não havia.

– Ad… – Olaf recitaria algum feitiço, possivelmente de morte, quando algo literalmente entrou pelo teto, deixando-o em pedaços. E avançou violentamente nele. Um enorme e negro gato de duas caudas.

– El Pibe Ernesto! – exclamou Mizuki para depois sorrir triunfante: – Tigrão!

– Não sorria tão cedo, vagabunda. Acha que eu e Olaf não damos conta desses dois insignificantes?! – Neculai odiava ver pessoas sorrindo daquela maneira.

– E que tal um grupo todo deles?! – um negro alto e magro de bigode, usando o que parecia ser uma roupa de treinos, aplicou um certeiro e potente chute em Neculai. O mesmo não teve tempo sequer de pensar em evadir, tal a rapidez de Rosendo Mendizábal. Ficou incrédulo ao ver que todo um grupo havia vindo pelo buraco aberto no teto.

Olaf, a custo, conseguira atirar o feroz gato longe. O braço estava quase arrancado devido à pesada mordida da criatura. Não conseguia sequer sustentar o livro que antes carregava consigo. Pensou em usar a outra mão para pegar o objeto, mas teve a mesma fortemente pisada por Ángel Villoldo: – Acho que não, bastardo.

Ao mesmo tempo, Neculai aplicava toda a sorte de golpes, na tentativa de acabar com aquele bando de tolos insignificantes: – Quem vocês pensam que são?! Acham mesmo que podem contra mim?! O poderoso Neculai?!

O discípulo dele, com um sacrifício quase certo do braço ferido pela mordida de Ponzio, conseguiu livrar-se da pisada de Ángel. Este, imediatamente, usou o poder de seu terceiro olho para lançar um raio contra Olaf, que evadiu por pouco:

– Malditos! Vocês não nos derrotarão!

– Nós somos a Patrulha do Tango! E vocês pagarão por invadirem a nossa cidade! – exclamaram todos em feroz coro.

– Se depender de mim, essa cidade logo será minha e vocês serão nada além de história! – berrou ele com fúria. Ia transformar-se em energia para eliminar todos. Foi quando se viu amarrado com o que parecia ser uma poderosa corda feita de líquido.

Era Eduardo Monelos: – Não sei o quanto meu poder vai aguentar, mas daqui você não sai vivo!

– A constelação de Aquário! – Mizuki gritou impressionada. Na confusão do conflito, a cortesã japonesa tinha sido libertada por Carlos Posadas e Vicente Loduca. Os dois estavam furiosos com a quantia de hematomas no corpo da jovem. Aquele desgraçado era um covarde aproveitador!

O infame vampiro que se alimentava de medo e desespero não entendia como era incapaz de libertar-se. Aquele bando todo não passava de duas décadas de existência ou até de pouco mais de dois anos. Ele tinha muitos séculos a mais que aqueles tolos! Não se deixaria ser derrotado por eles. Foi quando conseguiu romper algo da “corda líquida” de Monelos. Apenas mais um pouco e ele lograria. O que incluiu um chute duplo em um dos vampiros tentando investir contra ele. A distração, entretanto, custou-lhe caro.

A última coisa que os malignos olhos de Neculai viram foi a furiosa e monstruosa expressão de Eduardo Arolas. Que agora se encontrava com a cabeça da criatura nas mãos. Sustentava-a pelos cabelos. O rosto contorcia-se em uma expressão de horror. E desespero.

“El Tigre del Bandoneón” jogou a coisa com desprezo para longe do corpo agora decapitado. Nada disse.

De repente, desmaiou. Ponzio e Monelos o seguiram em tal ato. As outras criaturas trataram logo de levar os companheiros dali para tratá-los, pois tinham a certeza de que o poder usado havia drenado totalmente as forças deles. Villoldo, no entanto, permaneceu ali mais alguns momentos. Pegou o livro de magias do vampiro Olaf. Olhou a desesperada criatura tentando, sem sucesso, conter a hemorragia saindo do braço quase amputado. Sorriu sardonicamente:

– O seu futuro é negro, meu amigo.

– É mesmo? Eu acredito que ele é claro como água – disse Olaf apoiando-se sobre a mão ainda intacta e sorrindo com desdém: – Trarei Neculai de volta e vocês se arrependerão de terem-no desafiado.

– Já disse: o seu futuro é negro – respondeu Ángel certeiro e agora sorrindo cruelmente enquanto tirava do bolso uma caixinha de fósforos: – Porque ele não existe.

O “papá del tango” saiu da casa logo que o fogo começou a espalhar-se pelas incontáveis caixas de madeira do porão. O discípulo agora sem mestre dificultosamente se arrastava na tentativa de fugir do fogo. Implorou a qualquer entidade deste ou do outro mundo que lhe concedessem um milagre. Ou um término rápido para seu sofrimento. Ninguém desde então soube qual tinha sido o real destino daquele malfadado mago negro.

A Patrulha do Tango, após colocar Ponzio, Monelos e Arolas sob os cuidados de Ezeiza, Posadas e Mendizábal, levaram Mizuki de volta ao Media Luna. Ela vestia somente o casaco de Loduca. Teresa recebeu sua querida menina com muitos beijos, abraços e carinhos. Imediatamente examinou o corpo nu da jovem. Alguns hematomas ainda estavam muito feios, mas aos poucos se curavam devido à condição de bruxa curandeira dela. Impressionou-se quando a oriental contou sobre o porquê de ter sido submetida a tanta tortura. E mais ainda quando soube que ele finalmente estava de volta ao Inferno…

– Neculai realmente me manipulou naquela época. Quando eu soube das reais intenções dele, tratei logo de me vingar. Ele não tinha o direito de fazer aquilo comigo. E rapazes, digam ao Pibe, ao Tigrão e ao Monelos que têm meus eternos agradecimentos pelo que fizeram!

– Estamos certos de que não fomos apenas nós – disse Loduca, recebendo a concordância dos outros em seguida. Tinham a certeza de que o mestre japonês havia mandado força a eles. O poder daquele Ancestral tinha feito a diferença.

Aquele dia, 25 de maio de 1937, ficara marcado entre os vampiros de Buenos Aires e de todo o país.

O dia em que a Patrulha do Tango havia provado seu valor.

A ocasião em que Yatagarasu, após tantos anos tendo outros planos, enfim descobrira a verdadeira vocação do poder das constelações do Zodíaco: proteger a humanidade do perigo e do mal.