Os Quatro Atos da Pós Vida – Epílogo: Passeio Noturno

For this is the end
I’ve drowned and dreamt this moment
So overdue, I owe them
Swept away, I’m stolen 
– Skyfall, Adele

*Há 120 anos andamos nas ruas de um porto não muito alegre. Que, no entanto, nos traz encantos. E um pôr de sol que nem mesmo em versos poderia traduzir-se. Seguimos livres em tantos caminhos, aramos terras, provamos vinhos, tivemos incontáveis ideias de liberdade e vimos o amor florescer em todas as idades. Muitos nasceram chorando no Moinhos de Vento, outros tantos subiram os bondes e deles desceram correndo. Muitos brincaram com boas fundas de goiabeiras, jogaram bulitas, pularam fogueiras. 64, 66, 68, mau tempo talvez. Deu para os anos setenta e nos oitenta nos perdemos por aí.
*²Pois Porto Alegre é que tem um jeito legal. Aqui as gurias… etc e tal. Nas manhãs dominicais, ainda se tem o hábito de esperar o Gre-Nal. E passear pelo Brique no maior alto astral. Quem dera sempre pudéssemos ligar o rádio e ouvir uma música do Kleiton e Kledir. Andar pelos bares nas noites abril e roubar de repente um beijo vadio. Essa cidade nos faz tão sentimentais. Ela nos dói, não digam a ninguém. Ela nos tem. Não nos levem a mal, pois a saudade é demais. É aqui que vivemos em paz. Porque Porto Alegre é demais.
E ela assim permanece, mesmo com tantas mudanças. De uma pequena grande cidade até a metrópole atual.

Vimos José Montaury, um fluminense, assumir a então intendência de Porto Alegre em 1897, sendo o primeiro eleito por voto direto. 27 anos depois, um pelotense, Otávio Rocha, assumiu como intendente. Em ambos os casos, a cidade muito mudou e sua população, que em 1896 era de 67 mil pessoas, passou para 190.000. Os votantes, porém, nunca passavam de oito ou dez mil em razão das absurdas restrições impostas, o que incluía mulheres não poderem votar. A capital gaúcha, nesse tempo, ganhou seu primeiro serviço de primeiros socorros, que até então não existia em nenhuma cidade brasileira. A primeira rede de esgotos e água potável surgiu também nesse período. Iluminação e transporte ganharam gigantesco impulso, começando a era dos bondes elétricos, até meados dos anos setenta, quando os atuais ônibus tomaram as ruas em definitivo. Principalmente os da famosa Carris, a maior das empresas de transporte público.
Também nasceram, nos anos de 1903 e 1909, os dois times que impulsionaram o futebol gaúcho no resto do país. E que se tornou a rivalidade símbolo do Rio Grande do Sul: o Sport Club Internacional e o Grêmio Football Porto-Alegrense. Ou simplesmente, Gre-Nal, cujas partidas são sempre esperadas com absurda ansiedade pelos torcedores de cada time.
Testemunhamos também o nascimento da Era do Rádio aqui e no resto do país. Em 1925, nascia a Rádio Pelotense. Em 1927, 1935 e 1957, nasceram as emissoras que se tornaram símbolos da radiodifusão de Porto Alegre: Gaúcha, Farroupilha e Guaíba. Em cada uma das inaugurações nós estivemos. Inclusive meu amor apertou fortemente a mão do então governador Flores da Cunha, o fundador da segunda emissora. Embora tenha havido muitas delas, das quais várias permanecem ativas e ao vivo, essas três são as mais lembradas e ouvidas por todos que aqui vivem. Eu e meu amado dificilmente ficamos longe do rádio. Seja para informações, opiniões, reportagens ou músicas, sempre estamos a par de tudo o que acontece aqui e no resto do mundo pela voz dos locutores.
Mundo pelo qual viajamos todas as vezes que pudemos, testemunhando toda a “Era dos Extremos”. As duas guerras mundiais, o período entre elas, os mais famosos crimes, tratados assinados, órgãos criados. No entanto, sempre voltamos para essa mesma capital. Por que? Bem, algumas variações da lenda do vampiro dizem que ele não pode dormir longe de seu solo nativo. Não é bem verdade, mas, a realidade é que Porto Alegre foi onde nosso amor nasceu, floresceu e enraizou. Gostamos de voar, mas nosso ninho foi e sempre será aqui.
Aqui foi onde também vimos nascer a Era da Televisão no Rio Grande do Sul e no Brasil.  E em 1962, a fundação da primeira emissora predominantemente gaúcha, a Rede Brasil Sul de Comunicações, ou simplesmente, RBS TV. Atualmente afiliada com a Rede Globo, fundada dois anos depois da emissora de Maurício Sirotsky Sobrinho. E onde, em 2003, nossa história tornou-se um episódio de quinze minutos de uma série de curtas chamada “Histórias Extraordinárias”. Particularmente adoramos a “homenagem” recebida. Quem sabe um dia destes convidamos os atores e seu diretor para um jantar em nossa casa, no bairro Menino Deus.
Também vimos muitos grenais sendo disputados no Estádio Olímpico Monumental e no José Pinheiro Borda, que todos preferem chamar de Gigante da Beira-Rio ou simplesmente, Beira-Rio. Além é claro, dos muitos grandes shows que essa cidade recebeu ao longo das décadas.
Sem contar a fundação do famoso auditório Araújo Vianna, atualmente localizado no Parque Farroupilha, conhecido também como “a Redenção”. Que caso não saibam, é onde fica o famoso Brique dominical. Também testemunhamos um imigrante húngaro, Pablo Komlós, transformando a OSPA em uma das grandes orquestras sinfônicas do país. A popularidade bem brasileira da música de Radamés Gnatalli fazendo história embora ele não tenha obtido o merecido reconhecimento em vida. Lupicínio Rodrigues cantando as dores e pesares do amor rompido e compondo o famoso hino gremista. A voz belamente ressoante e forte de uma baixinha chamada Elis Regina, uma ardente “Pimentinha” cuja chama apagou-se cedo demais. Vitor Mateus Teixeira, o Teixeirinha, tornando-se o “Rei do Disco”, com suas mais de setecentas canções gravadas em mais de cinquenta discos e 26 anos de carreira.
Tudo isso e tanto mais nós vimos nesses 120 anos que se foram. Nascimentos e mortes. Crimes bárbaros. Eleições. Golpe militar. Redemocratização. Alguns lugares desaparecendo para outros nascerem. Antigos locais virando museus. Entre eles o belíssimo Hotel Majestic, nossa casa por algum tempo, virando a Casa de Cultura Mario Quintana, que eu sempre chamarei de “Casa do Poetinha”. Porque ele era assim conhecido em razão de seus poemas para crianças. Os bondes elétricos dando lugar aos ônibus, carros, motos e bicicletas. Avenidas sendo abertas. O Morro Santa Teresa se tornando a sede máxima das comunicações televisivas e radiofônicas da cidade. A Usina do Gasômetro transformando-se em centro cultural após décadas abastecendo a cidade. E sua torre ainda impressionando os olhares de quem a vê.
Lugar onde estamos agora, depois de novamente voltarmos. O verdadeiramente mais alto ponto, pelo menos se você quiser uma vista realmente bela da cidade, com seus 117 metros que se destacam em qualquer foto que se tire dessa área, não importa onde se esteja. Aqui não é um mirante oficial, mas é onde preferimos estar quando queremos ver Porto Alegre em toda a sua beleza. É onde, nesse momento, trocamos mais um beijo apaixonado, embaixo de um lindo plenilúnio. Mais um que damos como se não existisse o amanhã.
E mesmo que não haja um futuro…
Se um dia o céu cair ou o inferno se fizer…
Nós nunca caminharemos sós.

 

*: Horizontes – Kleiton e Kledir
*²: Porto Alegre é demais – Isabela Fogaça

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