Os Quatro Atos da Pós Vida – Último Ato: Adaptação

This is the end
Hold your breath and count to ten
Feel the earth move and then
Hear my heart burst again
– Skyfall, Adele

A primeira conversa após a ida de todos para a grande e espaçosa casa de Xenóbia fora marcada por revelações.
A anfitriã era uma bruxa com poder de controlar corvos à sua vontade. Emília era uma vampira treinada de pelo menos três anos de idade, tendo sido transformada aos dezenove. Chiquinha Gama enfim sabia o que tinha causado seu “aborto espontâneo”, mas nem por isso estava menos chocada…
– Absorver o que restou da vida do meu filho não era bem algo que eu desejasse saber. É terrível imaginar mesmo que eu já suspeitasse quando vi o meu pobre guri daquele jeito.
– Nada anormal se considerarmos que você se transformou em vampira. E o fato de vampiros serem incapazes de gerar filhos explica isso muito bem. Seria mesmo impossível aquele bebê viver. E dado o que você me contou depois de me perguntar, a criança nunca vingaria. Provavelmente nasceria morta ou morreria depois do parto. E era bem possível que você também acabasse morrendo, dado desse tipo de nascimento geralmente ser complicado para os dois – disse Xenóbia certeira para depois perguntar-lhe sobre de quem eram aquelas roupas que o casal usava.

A resposta fora dada por Neco, que explicou a situação tal qual tinha ocorrido. Xenóbia suspirou. Sua suspeita sobre o casal desaparecido estava correta desde o começo, considerando como uma de suas moças descrevera a cena. Ao mesmo tempo em que Francisca pedia desculpas por deixar a jovem Maria doente. A bruxa respondeu: – Pelo menos tu não a mataste, o que já me deixa bem aliviada. E admirada, considerando que tu tinhas despertado não fazia muito. Além de te parabenizar por tu teres tão rapidamente descoberto o truque das lambidas.
– Alguma coisa me dizia pra eu não agir de maneira idiota. Temi acabar sendo presa ou coisa parecida. Bem, parece que ninguém além de vocês sabe que vampiros existem – respondeu ela um tanto confusa, pelo menos até ali.
– Talvez esse seja o segredo da nossa existência: o fato de que ninguém além dos nossos semelhantes sabe disso – Antônio de repente parecia demasiado bem adaptado à situação atual.
– Palavras bem colocadas, meu primo. Embora nem todos gostem disso – disse Emília servindo-se de sangue.
– Fica duas perguntas, porém: como foi que aconteceu a transformação? E quem foi o autor disso? Temos que saber isso pra ver como procedemos, afinal, dada a situação daqui, é provável que eles corram perigo. O criador deles não pode deixar os dois atirados igual órfãos de guerra – disse Tibério tomando um chimarrão.
– Por mais experiência que nós dois tenhamos, é o criador quem tem que tomar a responsabilidade sobre os “filhos” dele. Só que, como tu bem disse, Tibério, nós ainda temos que saber como tudo aconteceu. O caso deles é um tanto estranho, já que não temos sequer ideia de quem possa tê-los transformado e muito menos sabemos quando a criatura inoculou os dois com seu sangue – Xenóbia andava de um lado a outro enquanto falava.
Foi quando Chiquinha disse: – Me lembrei de uma coisa da noite do nosso suicídio. Nós dois passamos toda a tarde juntos, se é que vocês entendem o que quero dizer. Só que misteriosamente cochilamos e acordamos meia hora depois sem entender como dormimos tão repentinamente. Poucos minutos antes de bebermos o veneno. Nos sentíamos bem apesar da sensação estranha, então pensamos que tivesse sido algum cansaço que se manifestou sem aviso. Então fizemos. Será que este fato pode estar relacionado à nossa transformação?
– O caso de vocês é demasiado único por mais que alguns vampiros sintam um prazer incomensurável em usar os humanos como cobaia de experimentos envolvendo transmutação – respondeu Xenóbia suspirando.
– Eu conheço pelo menos uns quantos que acham isso a coisa mais bela do mundo – Tibério balançou a cabeça negativamente.
– Se não se importam, darei uma sugestão sobre o que acho disso. Suponho que a transformação demorou a se concluir em razão da estricnina. Quer dizer, não é algo sobre o qual eu esteja certa, porém, me parece uma possibilidade lógica, considerando a demora entre a transformação e o despertar. Inclusive eles saíram dos túmulos quando, atualmente, as coisas são bem diferentes – disse Emília com ar pensativo.
– Quer dizer que a transformação não precisa envolver morte oficial e sepultamento? – perguntou Francisca com espanto.
– Não necessariamente, mas isso acaba sendo usado como uma maneira de os familiares e amigos não perceberem que você nunca mais mudará ou comerá como eles – Emília respondeu sorrindo.
– E quando a pessoa opta por ficar mais algum tempo com a família e amigos? – Antônio perguntou com excessivo interesse.
– Essa decisão não é das melhores, no geral. É preferível tomar o caminho certo, não o fácil – replicou Emília como se soltasse uma indireta para o primo distante.
– E outra coisa que ainda precisamos esclarecer é: foi o criador dos dois que deixou as tampas posicionadas de modo que eles conseguissem escapar como névoa para fora dos nichos? – Xenóbia olhou seriamente.
– Desculpa interromper a conversa, mas, tem gente aqui precisando de banho com urgência. Não é porque morreu que precisa cheirar igual cadáver – disse Tibério franzindo o nariz.
– Não precisa ser tão direto nas palavras. É falta de educação dizer isso dessa forma – Xenóbia revirou os olhos.
– Bem, de qualquer modo… Quero algum tempo sozinha com o meu Neco. Além do mais, precisamos pensar sobre tudo o que nos aconteceu – disse Chiquinha inicialmente brava, mas percebendo que realmente precisava banhar-se. O pobre vestido ia precisar de uma boa lavada. Teve pena de descartá-lo, pois era bonito demais.
Ele concordou sem nada dizer. Até porque já sentia falta de amá-la desde que ambos haviam despertado. O casal logo se ausentou para limpar-se. Enquanto os três que permaneceram na sala tiveram de pensar no que fariam em relação aos dois vampiros ainda jovens demais para entender o próprio poder. De repente, uma inesperada suspeita de quem poderia ser o criador deles surpreendeu-os. Se fosse quem eles pensavam, estaria explicado o motivo de seu sumiço. Afinal, não era raro ele se meter em sérias encrencas quando acreditava demais em algo.
No quarto indicado pela criada da dona da casa, eles viram-se deixados a sós afinal. Despiram-se quando viram o banho já pronto. Acabaram banhando-se juntos. Beijaram-se, tocaram-se e amaram-se como se há muito não se vissem. Trocaram incontáveis juras de amor prometendo um ao outro que jamais se separariam enquanto vivessem.
E assim eles começaram uma nova jornada. Que caminhos ela tomaria? Ninguém sabia.

1897, julho, Livraria Americana…
Os autores do aclamado romance Estrychnina tinham terminado o dia com grande sucesso. Muitos exemplares vendidos e excelentes críticas. Comemoravam com um bom vinho serrano quando um jovem casal cujas feições eram escondidas chegou. Tinham um exemplar recém-comprado. A jovem sorriu debaixo do véu cobrindo seu chapéu:
– Assinem, por favor.
– Com prazer, minha jovem – disse o mais velho dos três autores pegando o exemplar e perguntando: – Os nomes de vocês, por favor?
– Neco Borges e Chiquinha Gama – respondeu o rapaz soturnamente.
– Que gozação é essa? – perguntou o mais jovem dos escritores rindo. Esses leitores faziam cada uma.
– Nenhuma, senhor Sousa Lobo – respondeu ele levantando o chapéu com o indicador. O autor que nada disse antes cuspiu o vinho de susto enquanto a moça afastava delicadamente o véu do rosto: – Não creem em vida após a morte? Vamos dar-lhes uma prova então.
Lobo desmaiou como quem tinha levado um golpe forte na cara. Mário Totta, o autor que também era médico, tentou gritar, mas a voz não saía. As cordas vocais pareciam ter corrido de pânico. Paulino Azurenha, o mais velho e único homem negro do trio, engoliu seco não acreditando no que via. Esfregou os olhos achando que tinha bebido vinho demais. Ao abri-los de novo, a moça estava diante dele, sorrindo e tomando-lhe as mãos nas suas enluvadas: – Eu tenho apenas uma coisa a dizer sobre o livro: obrigada por se lembrarem de nós. Por deixar nossa história viva.
– Confirmo as palavras dela. Muito obrigado. Os três têm nossa gratidão. Eternamente – disse ele já perto demais do doutor Totta, que em silenciosa prece implorava a Deus que aquilo fosse alucinação. Não era, porém. Paulino Azurenha e Mário Totta viram-se sendo abraçados pelo casal. Gemeram de dor quando sentiram duas afiadas agulhas cravando-se em seus pescoços. Desmaiaram de fraqueza causada por perda de sangue. Sousa Lobo nada viu, inconsciente como estava. E nenhum deles se lembraria daquela noite, exceto que “perderam os sentidos em razão de imenso cansaço”.
O casal saiu da livraria rindo e dançando, felizes por sua macabra brincadeira ter dado certo. Emília, que os esperava na carruagem que os levou ali, ria alto e deliciosamente: – Seus grandes bobos!
– Isso nunca vai deixar de ser divertido! – Neco ria tanto que engasgava.
– Pelo menos eles têm um sangue delicioso – comentou Chiquinha ajeitando o véu.
– Os palhaços terminaram o plantão no picadeiro? – uma voz feminina forte chegou até eles ao que Emília riu nervosamente: – Mãe? Quando a senhora chegou?
– Muito me admira que ainda ajam feito crianças, Emília. Por sorte, o casal já sabe apagar lembranças e fazer ilusão, senão vocês três estariam encrencados – respondeu a mulher entrando no coche.
– Suponho que a senhora é mãe de minha prima? – perguntou Neco olhando-a curioso.
– Você não ouviu o que a Emília disse? Essa é a dona Louise. Ou dona Luísa, como o Tibério diz – disse Chiquinha para depois sorrir e cumprimentá-la: – Prazer em conhecê-la, senhora.
– Estou vendo que Emília tem feito um ótimo trabalho. Apenas desaprovo essas brincadeiras sinistras que fazem com as pessoas, mas em compensação o John e o Nicolas adoram essas peripécias. Respondendo sua pergunta, filha, cheguei ao porto não faz duas horas – bufou a vampira mais velha, mas sorria por dentro ao ver como sua menina tinha sido excelente professora.
De tal forma que, em menos de meio ano, Francisca e Antônio tinham aprendido com sucesso a usar o poderio vampírico. Ilusões, hipnose e esquecimento de certas lembranças, além das coisas anteriormente descobertas. Mais Tibério estar ensinando o casal a usar todo o tipo de armas e luta corpo a corpo e à distância. Xenóbia, filiada com Emília, ensinara Chiquinha a ser uma legítima dama. O porte à mesa e diante das pessoas, as vestimentas, a fala. Além de aulas de vários idiomas, que eles ainda estavam aprendendo. E mais uma melhoria na escrita de Chiquinha, que até então era semianalfabeta. Elas, porém, nunca poderiam domar o espírito livre da jovem vampira. E muito menos puderam impedir que Neco executasse seu “plano B” de vingança.
Ainda mais quando Antônio Borges Lima tinha mostrado inteligência muito maior que o esperado. Usada para descobrir as mais secretas e podres informações que ele repassava a rivais, inimigos e outros a peso de ouro. Preços considerados exorbitantes no ponto de vista de alguns. Quem podia, porém, pagava sem pensar ao homem mascarado. Tal atividade o tornara conhecido como “O Trapaceiro”, cuja real identidade até agora não tinha sido descoberta. Diziam que nem mesmo cartão de visita ele tinha. E que andava incógnito pela cidade em busca de coisas para comprometer e destruir reputações. Como ele conseguia? Nenhuma pista. Suas motivações? Ninguém, exceto o próprio Borges Lima, sabia. Já que não tinham aceitado seu amor por Chiquinha, ia fazê-los se arrependerem seriamente da escolha errada. Os faria pagar até a eternidade por sua maldade.
Francisca Tavares da Gama, por sua vez, preferia ajudar as pessoas a saírem do lugar comum. Muitas jovens, até aquele momento, tinham sido beneficiadas pela misteriosa “Dama Filantropa”. Moças pobres que quase trilharam o caminho da prostituição ou com dificuldades para serem independentes ou terem marido conseguiram melhorar a vida. Prostitutas tinham tido chance de mudá-la. Mudar a cabeça das pessoas, no entanto, não era fácil. Muita gente seriamente relutava em empregar mulheres naquelas condições, porém, acabavam aceitando as indicações. Ainda que a disposição para manter essas empregadas não fosse muito. Só que, se essa gente falava tanto sobre mulheres “agindo mal”, por que não ajudá-las a desfazer esse ciclo? Isso prejudicava todo mundo, não apenas aquelas pobres criaturas. Como Louise diria: “Se você não quer alguma coisa, simplesmente faça algo para evitá-la ou evite que ela continue.”
Em razão disso, o casal tinha divergências como nunca antes. Pelo menos da parte dela com relação a ele, já que as ações dele acabavam prejudicando as dela indiretamente. A situação tinha sido resolvida com uma longa conversa logo que Emília ouvira o desabafo de Chiquinha. Neco prometera que escolheria melhor seus alvos, de forma a não prejudicar a função filantrópica dela. Afinal, ele não desejava causar mal algum a ela. Achava lindo o trabalho e estava disposto a colaborar para fazê-la feliz. E para que eles fossem felizes juntos. Porque tinham ganhado uma segunda chance. Desperdiçá-la seria horrível.
Os pensamentos pararam de ir e vir quando Louise disse: – Ficarei algum tempo, mas depois iremos todos para a Ilha do Desterro. E de lá iremos para a Europa, onde permaneceremos dois anos.
– Desculpe, mas a cidade agora não se chama Florianópolis*? – perguntou Neco olhando-a sem entender.
– Jamais irei chamar aquela linda cidade com o nome daquele espírito de porco – respondeu Louise zangada.
– Entendo – disse Chiquinha ao lembrar-se dos recentes fatos envolvendo revoltas nas terras acima.
– Sei que amam Porto Alegre, mas entendam que vão precisar de treinamento mais avançado a partir do dia em que completarem seu primeiro ano como vampiros. Por isso, esta viagem – disse a veterana sorrindo.
– E a pessoa que nos transformou? Ela vai aparecer e pelo menos nos dizer por que fez isso? – perguntou Neco repentinamente ficando sério.
– Ele vai. E até sei por que ele agiu assim. Digamos que ele preza os verdadeiros sentimentos mais do que tudo. Achou o amor de vocês bonito demais para acabar dentro de uma sepultura – suspirou Louise para uma resposta imediata dele: – Quiséramos nós que a sociedade daqui tivesse entendido isso.
– Não espere que eles entendam. Eles não se importam com nada além das conveniências sociais e o dinheiro. Em suma, as coisas só vão mudar quando as pessoas começarem a se mexer de verdade, a questionar essa ordem absurda – disse Emília séria.
– Tu tens razão, minha amiga. Eu sei como é isso – Francisca suspirou tristemente.
– Bem, agora vocês estão juntos. Essa não é a melhor parte? – sorriu a mais velha.
– A senhora tem razão – o casal disse ao mesmo tempo sorrindo um para o outro.
A vampira mais velha teve a certeza de uma coisa ao ver aquela cena: aqueles dois seriam fantásticos vampiros. Certamente a região metropolitana do Rio Grande do Sul estaria muito bem com eles por perto. Mais certa ainda ela estava de uma coisa…
O amor ainda existia. E morava naqueles corações que juntos tinham parado. E dessa maneira tinham regressado. Eternamente estariam ligados.

*: Em 1891, quando o marechal , por influência da Revolta da Armada, renunciou à presidência da recém instituída república, o vice-presidente assumiu o poder, mas não convocou eleições após isso, contrariando o prescrito na constituição promulgada neste mesmo ano, fato que gerou duas revoltas: a Segunda Revolta da Armada (originária da Marinha, no Rio de janeiro) e a Revolução Federalista (patrocinada por fazendeiros gaúchos). As duas insurreições chegaram ao Desterro com o apoio dos catarinenses, entre os quais esteve Elesbão Pinto da Luz. Entretanto, as conteve ao aprisionar seus líderes e, com isso, restaram no domínio da cidade tão-somente simpatizantes do presidente, que, em sua homenagem, deram à capital a denominação de Florianópolis, ou seja, “cidade de Floriano”. Os revoltosos, por sua vez, vieram a ser fuzilados na Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim.

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