Os Quatro Atos da Pós Vida – 3º Ato: O Controle

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Skyfall is where we start/
A thousand miles and poles apart/
Where worlds collide and days are dark/
You may have my number/ You can take my name/
But you’ll never have my heart – Skyfall, Adele

 

Uma delicada batida na porta fez o dono da casa adivinhar quem era. Abriu a porta tendo a certeza de que ela trazia alguma queixa: – Entra, Xenóbia. Tem café e mate pronto.

– Pela tua cara, imagino que tu estás perguntando o que vim fazer aqui – respondeu ela entrando e logo se sentando no sofá meio velho reservado às visitas.

– Aconteceu alguma coisa? – ele perguntou um tanto retoricamente.

– Uma das moças que quero promover está adoentada. E adivinha de quem é a culpa, Tibério? – ela olhou-o seriamente e logo depois observou a escada: – Chama a Emília aqui agora.

– Posso te dizer com certeza que ela não saiu ontem à noite. Passou a noite lendo e escrevendo. Inclusive eu levei ela pro quarto porque a coitada adormeceu em cima da mesa e ela quase foi pega por uma réstia de sol. A dona Luísa me mata se eu deixo a filha dela se machucar. E tu sabes que ela não admite falha – respondeu ele firme para depois olhá-la ainda mais sério: – Como tu tens certeza de que isso é ataque de um deles?

– O Eustáquio encontrou a pobre Maria desmaiada a uns cem metros da casa dele, perto de onde tu moravas antigamente. Um amigo chamou o médico para atendê-la. E quando a olhei depois, tive a certeza. A coitada parecia morta de tão pálida. E a ausência de marcas me deu a certeza de que isso tinha dedo da Emília, afinal, ela já é treinada – respondeu ela certeira.

– Pelo amor de Deus, tu conheces a guria melhor que isso e sabes que ela não agiria assim! E a moça sempre me avisa se sai. Isso foram ordens expressas da mãe dela – respondeu Tibério para inesperadamente ter um estalo que o assustou.

De tal maneira que a mulher quase saltou do sofá: – Meu Deus, tu vistes um fantasma, foi?!

– Ontem foi o enterro daquele casal de suicidas! Será que um deles ou os dois…? Não, isto é impossível! Nunca foi confirmada essa maluquice que diziam a uns tempos atrás! – o homem via-se assustado, mas depois a olhou pensativo:

– Mas quem poderia ter feito isso e eu não ter sequer notado?

– Tu estás falando sério?! – a mulher levantou-se de um salto percebendo o que ele queria dizer.

– O jeito é irmos ao cemitério e investigar. Só que vai ter que ser de noite porque se formos agora, a polícia nos prende por invasão. Mas se tu queres arriscar… – disse ele apreensivo.

– Tenho uma ideia melhor: esperemos a noite e veremos o que acontece. Caso a Emília não tenha culpa nesta confusão, nós saberemos. Duvido que um ou dois novatos possam superar a nossa experiência. Especialmente se eles estiverem com muita sede – respondeu ela calma.

– Não sei como tu consegues te manter tão fria com uma coisa destas ocorrendo! Juro que não te entendo! – Tibério olhou-a incrédulo.

– Provavelmente é a primeira ocorrência disso em Porto Alegre desde ela existir. Não é algo que se possa ignorar – Xenóbia respondeu um tanto sombria para depois estreitar os olhos ainda mais sombriamente: – Ainda mais se um deles estiver querendo se vingar.

– O que tu queres dizer com isso? – o outro se aproximou.

– Considerando os motivos de eles terem tomado veneno, não duvidaria de um deles possivelmente estar enfurecido a ponto de aterrorizar a cidade. E pode ter certeza que eu apostaria no Antônio Borges Lima – ela foi certeira.

– Bem, é verdade que homem é mais colérico quando se trata de paixão, mas, seria mesmo possível? – Tibério quase riu embora a situação fosse inadequada.

– Pensa bem em tudo o que levou a esta dupla tragédia. Uma pessoa tomada pela raiva pode fazer qualquer coisa – Xenóbia respirou fundo.

– Ainda mais quando ela sabe que pode fazer tudo com isso. Deus me livre se for mesmo verdade – ele não queria imaginar aquilo.

– Então é melhor não ser. Só que nós ainda temos a Maria quase morta e pelo menos um casal desaparecido desde ontem – disse ela para o espanto dele: – Como é?

– Um casalzinho formado por uma moça de esquina e um guri dos lados do centro resolveram fugir juntos, porém, aparentemente eles não foram vistos partindo. Pelo menos se a palavra das minhas gurias é confiável – disse ela pensativa.

– Podem ter ido pela estrada ou pego um barco particular. Transportes desses, de noite, têm, se tu pagas bem – replicou ele servindo chimarrão para si e depois perguntando se ela queria.

– Pelo que parece, eles brigavam quando ela os viu. O rapaz parecia pronto a matar a outra, mas aí a moça que via tudo teve de voltar porque no lado onde ela estava é bem perigoso. Considerando que tu moravas lá há algum tempo, sabes do que falo – disse ela olhando-o e aceitando o mate.

– Consigo imaginar. O Eustáquio só vive ali ainda porque de jeito nenhum abandona a gauderiada amiga dele. Eu francamente espero que não tenha ocorrido nada de realmente ruim. Casal brigando é normal. Certo, não nego que briga desse nível é mais complicado, mas, pode ser como tempestade de verão, passa ligeiro – respondeu ele mais calmo.

– Verdade, mas ainda sim nós temos que investigar isso. Porque senão serei obrigada ter uma conversa com a Emília – Xenóbia respondeu determinada a fazer o que achava correto naquele caso.

Tibério não respondeu por saber que discutir com ela era perda de tempo. A cafetina loira era mais dura que pedra de amolar. No entanto, a possibilidade de uma ou duas criaturas mortas vivas soltas na cidade não era nada melhor. Especialmente quando colocado naquele contexto.  O jeito era esperar anoitecer e ver o que aconteceria.

Metade da hora do crepúsculo…

Antônio despertou mais cedo do que esperava. Era ainda dia embora o sol já estivesse se pondo no horizonte. Sentiu a pele dar uma boa ardida quando tentou sair da casinha. Então o Astro-Rei era realmente prejudicial, pensou ele furioso porque ainda teria de esperar um tempo para enfim começar seu plano. Portanto, se ele tivesse tido a ideia de andar mais um pouco, possivelmente teria queimado até os ossos. Tinha de avisar Francisca quando ela despertasse, porém, teve a certeza de que ela faria tudo para impedi-lo de cumprir seu objetivo. Compreendia-a, mas, tinha pelo menos de dar uma lição naquela gentalha. Resolveu deixar um aviso, mas por perto não havia, pelo menos aparentemente, nada com o que pudesse escrever.  E nossa, como ela dormia! Se bem que sua Chiquinha ficava linda de todo o jeito.

Revistou o local em busca de pelo menos alguma coisa que pudesse ser usada para aquele fim. Encontrou um caderno muito velho junto de um lápis sem ponta. Olhou as unhas e sorriu. Usou a do indicador para fazer a ponta escondida aparecer. Escreveu o seguinte bilhete:

“Chiquinha: O Sol nos faz mal, portanto, não saias antes dele se por totalmente. Vou buscar alimento. Não te preocupes. Não farei nada idiota. Caso queiras me encontrar para voltarmos juntos, estarei no Arraial do Menino Deus. O sempre teu, Neco.”

Seriamente contava com a credulidade dela sobre ele não fazer. O problema agora era evitar a luz do sol que podia ainda machucá-lo seriamente. Estreitou os olhos para apurar sua visão, querendo encontrar um caminho por onde pudesse ir sem que ele tocasse sua pele agora fotossensível. Olhou todos os caminhos possíveis desde onde estava. Nenhum deles era atalho e alguns deles envolviam passar por um bando de árvores. Saiu por onde havia menos luz. Reparou no dia indo embora com rapidez. Pela cor do céu, estava perto das seis e meia. E como estavam no período em que os dias eram mais curtos, a noite logo se faria. Sorriu sardônico. A festa iria começar. Ele seria o mestre de cerimônias e todos dançariam conforme sua música.

Rapidamente chegou à região central ainda meio movimentada. Tinha de andar de cabeça baixa e escondendo-se nos cantos e becos, pois temia ser reconhecido. Pensou que precisava adquirir um chapéu capaz de esconder-lhe as feições. O complicado, porém, era conter a sede ameaçando fazê-lo avançar no pescoço do primeiro que encontrasse. O cheiro do sangue era tentador. Fazia-o salivar. A garganta ardia muito. Tinha ainda na boca o gosto doce do infeliz de quem se alimentara ontem. No entanto, fazer isso de maneira desembestada podia atrair atenção indesejável. Ainda mais em uma cidade como aquela. Sonhando em ser Paris, com os olhos em Buenos Aires, os pés à beira do Guaíba e a mentalidade na Idade Média. Olhou enojado cada transeunte elegante. Odiava mortalmente todos. Seu ódio acumulado agora transbordava, transformando-o em um animal raivoso e sanguinário pronto a rasgar a garganta de qualquer um.

Razão pela qual se encontrava escondido. As presas tinham crescido e os olhos, avermelhado. Ou amarelado, ele não sabia dizer. Conteve a fúria que inesperadamente viera à luz. Se queria passar despercebido, era melhor não atrair atenções indesejadas. Percebeu, de repente, estar perto da casa do amigo Affonso Ramos. E notou estar com a mão pousada sobre pelo menos dois exemplares do Correio do Povo. Um do dia atual, outro do anterior. Leu-os, percebendo que a história dele e de Francisca tinha decididamente movido todas as atenções da capital. E que fariam um romance fictício baseado nisso! Bem, pelo menos eles seriam para sempre lembrados. Quem sabe outros se inspirariam a ter coragem para seguir seu próprio caminho e romper com os paradigmas.

No entanto, ainda tinha de cumprir sua desforra jurada. Meter o verdadeiro e legítimo medo nos corações dos hipócritas! Fazê-los provar do amargo veneno que tinham lhe metido goela abaixo. Saiu para a agora vazia rua. O odor do sangue ainda era fresco no ar. Respirou fundo apreciando a doçura daquele cheiro. Seguiu-o até um elegante sobrado não muito longe de onde estava. A rua estava vazia. Ninguém nas casas, pois se lembrava bem, aquele dia era geralmente onde todo mundo saía para os teatros e bailes. Uma cantoria afinada vinha do andar de cima. Uma moça, possivelmente virgem. Pendurou-se na janela superior com felina agilidade. Era bonita, ele tinha de concordar. Nenhuma, porém, superava a graça e a formosura da sua Chiquinha. Isso nunca!

Lambeu os lábios com a expectativa de alimentar-se daquela bela garganta exposta. A janela estava meio aberta, embora fizesse frio, já que ainda era inverno. Entrar em um recinto sem ser convidado era falta de educação, mas, francamente? Ele não ligava mais para essas formalidades. Tanto que já estava no quarto, espreitando a moça enquanto esta se preparava para deitar. Manteve-se oculto enquanto ela terminava de arrumar-se.

Apesar das velas iluminando o quarto, ela não o viu aproximar-se. Tentou gritar quando foi agarrada, mas foi impedida pela enorme dor de duas agulhas rompendo a delicada carne de seu pescoço. E pela fraqueza que aos poucos chegava enquanto Neco alimentava-se de suas veias fartas de sangue. A sensação era excelente. Ele viu-se obrigado a parar quando percebeu que a pulsação da pobre muito diminuíra. Lembrando-se do que Chiquinha fizera na noite anterior, lambeu as pequenas feridas, aproveitando as gotas ainda presentes. Maravilhou-se ao ver o efeito. O pescoço não tinha sinal algum de marcas. Deixou a jovem do jeito como a encontrara: sobre a penteadeira. Viva, mas muito doente agora.

Agora era esperar a fagulha criar o incêndio. Ele segurou com tudo o riso que insistia em sair de sua garganta.

Francisca, recém-desperta, com a noite já caída em Porto Alegre, viu o bilhete do amado. Nem por um minuto iria acreditar em ele não fazer nada idiota. “Estúpida!”, ela recriminou-se ao perceber que tinha dormido demais. Tinha de admitir, porém, que o sono diurno fora o melhor desde muito tempo. Saiu da casinha que ocupava no momento. Desceu a rua o mais rapidamente que podia, quando abruptamente parou. Um grito de menina ecoou em seus ouvidos agora apurados. Correu em direção ao som tal como o vento minuano pelos pampas no rigor do inverno. Viu um homem tentando violar uma moça que não devia ter mais que quinze anos. A mesma idade dela quando fugira de casa com o primeiro namorado, com quem vivera algum tempo. Puxou o homem pelas golas traseiras da roupa:

– Quem tu pensas que és pra tentar violar uma criança? Maldito filho de uma chocadeira!

Mordeu-o com violência, desejando matá-lo como jamais fizera antes. De repente, aquele macho amaldiçoado era a representação de tudo o que ela mais odiava. Cada um dos homens com quem um dia tinha dormido em troca de dinheiro. O primeiro que enganara seu até então puro coração. Todos e todas que lhe viravam a cara pelo simples fato de ser uma prostituta. Sugou o sangue dele até nada sobrar. Sentiu-se fortalecida, poderosa. No entanto, horrorizou-se ao ver que tinha matado. E que uma testemunha a olhava com estranho fascínio. A menina já recomposta, pois o agressor só tinha conseguido agarrá-la. O desgraçado agora morto pelo jeito intencionava levá-la a outro lugar para assim poder tranquilamente violentá-la.

– A vovó tem razão quando diz que coisas fora da compreensão existem – a jovenzinha disse para si mesma, mas Chiquinha Gama a ouvira: – Como assim?

– Eu vi a tua foto no Correio do Povo quando passei pela sede vendendo frutas – disse ela sem demonstrar qualquer medo.

– Agora que… eu reparei, te reconheço. Tu és aquela menina que sempre acompanha a velha fruteira que desce pros lados do centro. Mas o que tu estavas fazendo aqui sozinha numa hora destas? – a jovem morta viva olhou-a.

– As costas da vovó ficaram doídas hoje depois da manhã, por isso fui trabalhar sozinha depois da aula. Estudo num colégio de freiras que dá aulas pras moças pobres daqui. Sempre volto por esse caminho porque tenho medo da estrada. Eu sou Celina. E tu és Francisca, não é? – a menina sorriu educadamente.

– Sim, mas pra efeitos de jornalismo, eu sou Chiquinha Gama. Me perdoa pela lambança horrível que eu fiz, mas… – ela tentou terminar a frase, porém, Celina abraçou-a em um ligeiro movimento: – Tudo bem, tu me salvastes. Tu fostes o meu anjo da guarda.

“Pareço mais o diabo”, pensou ela amargurada. No entanto, aquele abraço a fez perceber que, apesar de tudo, ainda tinha algo humano dentro de si. Delicadamente soltou-a: – Eu te acompanho até em casa. Só me deixa dar um jeito nesse homem morto.

Escondeu o corpo melhor que pôde. Torceu seriamente para que ninguém o encontrasse. Acompanhou a menina até próximo de onde ela vivia. Viu-a ser calorosamente recebida pela avó, que logo lhe deu uma boa reprimenda pela demora, pois já era muito tarde. Além de ser perigoso subir aquelas partes quando a noite caía. A menina alegou que tinha vendido mais frutas do que o esperado, inclusive mostrou generosas notas de dinheiro. A idosa emocionou-se com tal esforço da neta, sacrificando sua tarde para ajudá-la a vender as frutas que com tanto amor colhia.

Chiquinha afastou-se cobrindo a cabeça com o capuz que viera junto com o vestido da moça morta na noite anterior. Retomou seu caminho anterior recordando que a vendedora de frutas era uma imigrante vinda da Itália, mas que em verdade nascera em prados mais distantes. Pelo que sabia, ela era do Leste Europeu. Pensando no que Celina dissera, perguntou-se o quanto a nona realmente sabia sobre isso. Será que a velhinha poderia dar alguma informação sobre o que ela tinha se tornado? Mais ainda: o que Neco estava fazendo uma hora destas?! Só ela e Deus sabiam que ele estava determinado a vingar-se. Tinha de encontrá-lo e dar um jeito de contê-lo antes de ele fazer alguma besteira da qual certamente iria se arrepender mais tarde. Usou seus apurados sentidos para encontrar Antônio. Torceu sinceramente para que ele não tivesse feito nenhuma idiotice.

A verdade era que ele tinha feito! Pois logo percebera um movimento perto dos sobrados chiques perto da parte residencial elegante da cidade. Cuidadosamente aproximou-se para ver o que acontecia. Suspirando e contendo a custo uma palavra feia, percebeu que Neco tinha atacado uma moça. A criada dizia desesperadamente a quem claramente era o médico sobre tê-la encontrado enfraquecida sobre a penteadeira. Não havia nada que pudesse explicar como a menina tinha ficando fraquinha daquele jeito. Chiquinha pensou estupefata: – Ele usou aquele truque! Não acredito nisso! Ele só pode estar de brincadeira!

Farejou o amado na tentativa de encontrá-lo e fazê-lo tomar juízo. Agora sim ela ia dar uma boa dura nele. E de uma vez por todas meter na cabeça de porongo dele que esse não era o caminho! No entanto, uma voz de homem seguida de um cano tocando-lhe as costas interrompeu seus planos: – Tu vens comigo agora mesmo, guria.

– Por que eu deveria? – perguntou Chiquinha sem se virar. Como não sabia o dano que um revólver podia causar, achou melhor não fazer nenhum movimento brusco.

– A não ser que tu queiras que o teu amado Neco Borges faça mais besteira e cause caos cidade afora, te aconselho a me acompanhar. Além do mais, dois mortos-vivos soltos em Porto Alegre não é uma ideia da qual eu goste muito, ainda mais com aquele guri sofrendo de falta de juízo – respondeu a voz no mesmo tom.

– Como o senhor sabe… da gente? – ela não compreendia.

– Demorou um pouco pro meu nariz detectar vocês dois, mas consegui. Não queria a minha hóspede acusada de algo que não fez – respondeu ele logo se apresentando: – Eu sou Tibério. Tu certamente és Chiquinha Gama. Os nomes de vocês dois tomaram conta do Correio do Povo nestes últimos dias. Nunca vi gente tão dramática, viu?

– O senhor devia se envergonhar do modo como fala. Tu certamente sabes o que nos levou a essa decisão – respondeu ela com amargura para depois perguntar: – A tua hóspede… é como nós?

– Não ficou óbvio? – Tibério abaixou a arma vagarosamente enquanto Chiquinha enfim se virava: – Se tu tens alguém assim na tua casa, quero saber o que tu sabes.

– Vem comigo e eu te explico, mas, primeiro, a gente tem que ir atrás do Neco Borges e evitar que ele faça mais um ataque. Pelo jeito, esse guri vai ficar viciado se continuar desse modo – disse ele para o espanto dela.

– Como assim?! – perguntou ela espantada.

– O sangue pra uma criatura como tu é basicamente a vida. E quanto mais tu bebes, mais vontade tu tens de consumir. É igual ópio: vicia se tu não tiveres controle. E pode levar a uns caminhos bem escuros – respondeu ele sombriamente.

– Como o que, por exemplo? – Chiquinha apavorou-se ao imaginar a resposta.

– Ele não vai se contentar só em enfraquecer. Ele vai querer matar, chacinar quantos ele puder. Se tu tivesses só uma ideia do que os dois podem fazer agora, eu tremo só de pensar – replicou Tibério sério demais.

– É tanto poder assim? – perguntou ela sem saber se soava interessada ou assustada. Talvez um pouco dos dois.

– Se não fosse pela capacidade humana de se adaptar às coisas, o mundo já seria de vocês e os humanos teriam sido escravizados – respondeu ele de imediato.

– O senhor tá de troça comigo, não tá? – ela seriamente não acreditava no que ouvia.

A ausência de resposta mais a cara totalmente séria dele disse-lhe que ele realmente falava sério. Então eles agora eram tão poderosos assim? O que mais ela podia fazer? No entanto, as respostas não viriam agora. Pois tinha mais com o que se preocupar. Encontrar seu amado era mais do que necessário. Era questão de vida ou morte. Antônio não era capaz de perceber a grande besteira que estava fazendo?! E se houvesse mais alguém em Porto Alegre que soubesse sobre mortos vivos e uma maneira de matá-los em definitivo?!

– O cheiro dele não tá muito longe. Acho que ele deve estar se preparando para um segundo ataque ou experimentando descobrir habilidades. Conhecendo bem o meu Neco, ele é mais curioso que criança – disse Francisca indicando que Tibério a seguisse.

– Se isso é verdade, temos uma vantagem, mas de quanto tempo eu não sei – respondeu ele.

– Quanto menos tempo a gente perder jogando conversa fora, melhor. O tempo pode ser nosso aliado, mas também nosso inimigo – disse ela para a surpresa dele. “Além de bonita, ainda é inteligente. Mesmo que inculta”, pensou ele um tanto encantado pela moça morta viva.

Os dois demoraram um bom tempo até encontrar o que buscavam.  Das duas uma: ou a distância do odor estava longe demais ou o jovem morto vivo tinha de algum jeito conseguido tapeá-los.  Encontraram-no em frente à casa onde um dia vivera. Preparava-se para nela entrar e provavelmente atacar os próprios familiares quando Tibério gritou de arma em punho: – Parado aí, guri! Tu não vai fazer nada!

Neco Borges virou-se ao som da voz do homem. Novamente tinha os olhos amarelados e as presas maiores do que era o normal aceitável para alguém naquela situação: – E quem vai me impedir?!

Tibério olhou aquilo incrédulo enquanto Chiquinha foi em frente: – Eu! Por favor, para com isso!

Ele viu o desespero estampar aquele lindo rosto pelo qual se apaixonara perdidamente.  Disse com a voz um bocado alterada: – Me diz como eu faço pra tirar este ódio de dentro de mim? Me diz!

– Guri, escuta quem tem idade pra ser o teu pai… – Tibério abaixou a arma, mas tarde demais percebeu que tinha cometido um erro muito amador.

O homem viu-se lutando pela vida com a maior garra que podia usar. O jovem morto vivo avançara nele com desmedida violência, intencionando matá-lo ao ouvir a menção sobre pais. A revolta por todo o acontecido lhe comia por dentro. A raiva, o ódio, a tristeza, o nojo, o ressentimento, tudo. Chiquinha desesperou-se e acabou por fazer algo que jamais pensou ser capaz: agredir seu amado. Viu-se puxando ele com força e segurando-o de tal modo que quase partia os ossos dos braços: – Tu vais agora parar com isso! Pelo amor de Deus, eu te peço!

– Me solta, Francisca! Me solta! – ele gritava. Ou melhor, ele rugia com fúria.

– Não te largo enquanto tu não tomar juízo! Nem que seja por mim, faz isso! – ela agora soluçava desesperadamente.

Aquele soluçar dolorido lembrou-lhe de quando a tinha levado ao teatro. De como ela tinha chorado ao assistir “A dama das camélias”. Identificada que tinha ficado com aquele drama encenado. De como tinha sido o começo do fim. Que se revelou um novo início. Aonde podia enfim ter sua desforra. Respondeu aos berros enquanto se debatia:

– Tu podes quebrar até o último dos meus ossos, mas não vou desistir de me vingar! Foi culpa desta gente a nossa tragédia! Eu odeio todos eles! Eu vou ser o terror destes malditos! Matarei todos um por um! Vou transformar esta maldita cidade num rio de sangue!

Foi calado, e desacordado, por um potente soco dado por Tibério: – Eu odeio chegar nesses extremos, mas este guri pediu. Nunca vi um vampiro tão tagarela e furioso! Por que estes sempre dão trabalho?! São piores que cavalo xucro! E obrigada, Chiquinha. Te devo a minha vida, flor do campo.

– Vampiro? – Chiquinha olhou-o, incerta sobre aquele estranho vocábulo. E disse um “de nada” quase inaudível, pois achou que apenas tinha feito seu dever.

– É o que vocês são. Se a gente fosse usar a tradução direta do inglês, tu és uma mulher vampiro. Só que tem desinência de gênero na língua portuguesa, então tu és uma “vampira” – respondeu ele para total confusão dela…

– Desculpa, mas, eu não sou muito boa com escrita ou leitura. Mal e porcamente estudei. Se aprendi a ler e escrever, foi bem pouco.

– Percebe-se, mas, nada que tu não possas aprender comigo, a Emília ou a Xenóbia. Ele também vai aprender, mas primeiro precisa tomar umas doses de juízo. Ainda bem que o encontramos a tempo dele fazer algo pior. Graças a Deus que os familiares dele dormem feito pedras ou a polícia estaria toda em cima de nós – disse ele para outra voz masculina surgir repentinamente: – Palavras muito erradas, Tibério.

– Teobaldo. O que tu tá fazendo aqui, ô infeliz? Ah, e claro, tu trouxe os teus amiguinhos jagunços pra somar na bagunça – o outro cuspiu as palavras com raiva enquanto Francisca impressionava-se com o quão iguais eram os dois…

– Gêmeos?

– Sim, só que eu sou *maragato e ele, *chimango – respondeu ele para a fúria dela, com direito a presas e olhos vermelhos: – Somes daqui e levas estes malditos contigo!

– Pro teu bem, Chiquinha, é melhor tu vires comigo e trazer o teu Neco junto. Posso garantir a segurança de vocês muito melhor do que ele ou a Xenóbia – respondeu ele friamente calmo.

– Palavras ainda mais erradas, Teobaldo – uma voz feminina seguiu-se de uma imensa revoada de corvos que quase furou os jagunços a bicadas se não fosse os gritos do homem para ela pelo amor de Deus parar. Embora a revoada tivesse deixado os homens tontos em razão das batidas intensas das asas. Tibério riu:

– A tua completa fobia a corvos ainda me causa risos!

– Pro teu bem, melhor tu ficares calado! Vou levar esta china* e este guri comigo com ou sem autorização de vocês – agora era Teobaldo quem tinha cometido, sem saber, um erro muito amador. Mal tinha dado um passo à frente quando a alterada Chiquinha Gama avançou nele com ainda mais violência do que Neco tinha feito antes: – Quem foi que tu chamaste de china, desgraçado?! Fala ou eu te rasgo a garganta! Tenho dentes o suficiente pra isso!

Os homens bem que tentaram atirar, mas o inesperado surgimento de um Neco Borges desperto e furioso acabou causando um belo problema a eles. Três mortos com o pescoço quebrado em uma posição impossível. E o único restante bem enfraquecido pela perda de sangue causada por uma mordida violenta. Teobaldo, por sua vez, tentava livrar-se da inacreditável fúria da jovem vampira. Tibério, assustado com aquela reação, estava sem palavras. Xenóbia logo apareceu, aos risos: – Agora tu aprendeste, Teobaldo?

– Me solta, mulher! Não precisa disso! – o homem estava impressionado com a incrível força dela e tentava sem sucesso soltar-se.

Ela saiu de cima dele, furiosa: – Tu tens muita sorte de que ela apareceu. Ou eu teria acabado com a tua raça.

– Se tu quiseres, eu termino com ele – Antônio olhou-o furioso e em seguida disse: – Tu chamas a minha amada de “china” uma segunda vez e tu vais te arrepender!

Em um salto ele levantou-se e olhou-os: – Não é como se tu não tivesses conhecido a moça nessa situação. Pelo amor de Deus, não sejas hipócrita.

– Vá à puta que te pariu, desgraçado! – replicou Neco com fúria ao que Tibério sacudiu o revólver: – Tu respeitas a minha mãe, tchê! Lava a tua boca antes de falar dela ou te meto uma bala no rabo!

Menos alterado, ele enfim reparou na aparência idêntica dos dois homens: – Gêmeos. Isso explica porque tu ameaçaste me meter uma bala quando o senhor sabe que balas, teoricamente, não me matam.

– Mas uma estaca no teu coração sim, portanto, cuida a tua língua, senhor Borges. É da minha mãe que tu estás fazendo pouco – disse Teobaldo em fúria contida. E segurando-se para não arrancar a cabeça dele após ver três de seus homens mortos e um seriamente ferido.

– Ninguém mandou o senhor ofender a Chiquinha! Além do mais, eu nunca aceitaria trabalhar em favor de gentalha igual a vocês!  Que não aceita o amor verdadeiro de duas pessoas! – exclamou ele furioso.

– Você não deveria me julgar sem saber sobre mim – replicou Teobaldo sério.

– O senhor é homem do governo. Isto é suficiente pra saber que tu não prestas – disse Francisca abraçando Antônio.

– É isso que tu pensas? Ou por acaso tu achas que todos os maragatos são bonzinhos? Tu tens muito a aprender ainda sobre este mundo, guria – Teobaldo, no fundo, entristecia-se, pois tinha motivos fortes para estar naquela situação.

– Bem lá no fundo, tu tens alguma razão, porém, querer que os dois trabalhem contigo como jagunços é baixo demais até pra ti, pelo amor de Deus – Xenóbia olhava-o incrédula.

– Pelo menos eu garantiria a segurança deles! Ou tu achas que vai demorar muito até um caçador aparecer e querer exterminá-los?! E caso não tenha ficado claro, até a Emília pode ficar em perigo! E a dona Louise ficaria louca se acontecesse alguma coisa com a menina dela. Deus nos livre dela realmente enfurecida! – exclamou o “gêmeo chimango”.

– Quem diabos iria vir até aqui só pra isso?! Não sejas estúpido, homem! – Tibério revirou os olhos.

– Tu já te perguntaste alguma vez por que não tem vampiros nessa região? Ou pelo menos não tinha até os dois ali voltarem dos mortos? – o outro seriamente olhou.

– Já tiveram outros além de nós? – Neco tinha esquecido por um momento a desforra planejada.

– Era para ter acontecido depois que um grupo de fora veio viver aqui, mas ele foi todo exterminado antes de poder montar um clã completo. Ninguém exatamente sabe quem foi, mas suspeita-se que tenha sido coisa dos lobisomens da região da Serra, que basicamente odeiam vampiros mais que tudo. E claro, não querem dividir poder com quem eles acham que “se sentem superiores só por serem o que são” – respondeu Teobaldo pensativo.

– Lobisomens?! – Chiquinha apavorou-se recordando as incontáveis lendas que tinha ouvido em Viamão.

– Como eles saberiam disso com tanta precisão? – Neco cruzou os braços, um tanto desconfiado.

– Guri, informação nessa região vale ouro. Qualquer coisa fora de comum que tu saibas pode te fazer um homem rico ou influente. Ou as duas coisas – respondeu Tibério rindo.

– É verdade. Nunca tivemos uma prova real da culpa, mas eu e meu irmão ali matamos o informante quando o descobrimos. Ainda bem que eles nunca souberam ou nós dois teríamos tido problemas – Teobaldo riu também.

– Desculpa a pergunta, mas por que raios tu cheiras a cachorro molhado? – Neco franziu o nariz.

– Eu e o Teobaldo somos lobisomens. Como tu achas que farejei o cheiro de terra de cemitério dos dois? – respondeu Tibério claramente ofendido pelas palavras do outro.

– Eu deveria estar furiosa, mas o senhor não tentou me matar e nem me machucar, porém, esses lobisomens serranos podem ser um problema futuramente – Chiquinha disse segurando a raiva por conta de ter sido chamada de “fedorenta”.

– Alguém aqui com juízo afinal de contas – outra voz de mulher surgiu, surpreendendo a todos.

– Emília, tu não devias estar em casa te alimentando?! – Tibério apavorou-se ao vê-la ali.

– Vim te procurar considerando que tu saíste sem me dizer nada. Agora entendi o porquê. Imagino, pelas fisionomias, que estes são os suicidas do dia três que passou. O senhor Borges Lima e a senhorita Gama. Espera… – disse a recém-chegada olhando melhor para Neco.

– Ela me parece muito familiar também – disse ele para um olhar desconfiado de Chiquinha: – De onde tu conheces esta rapariga?!

– Somos primos distantes. Eu morava em Santa Catarina até alguns anos, quando fui transformada. Meu nome é Emília Borges. A minha mãe mandou uma foto minha pra tua casa, achando que seria uma boa ideia casar a gente depois – disse ela aos risos ao que Francisca olhou sem crer: – Primos distantes? Tu nunca me disseste que tinha parentes nas terras de cima.

– Na verdade, eu só nesse momento conheci essa prima. O meu pai tinha comentado comigo uma vez que ela desapareceu de casa logo depois da mãe enviar a foto quando o pai dela quis casá-la com um estancieiro local e que ninguém conseguiu encontrá-la – disse ele impressionado, mas sorriu: – Tu me ensinas o teu truque de pique-esconde?

– É bem um guri novato mesmo – disse Tibério balançando a cabeça enquanto Teobaldo olhou-a com profundidade:

– Como está, Emília?

– Como podes ver, estou ótima – respondeu ela cortês e em seguida sorriu para Francisca: – Tu tens a minha bênção no amor de vocês. E te ofereço a minha amizade em soma.

– Agradecida – respondeu Chiquinha cordial, mas em seguida ficando séria: – Preciso muito saber tudo sobre a nossa condição. Eu não sei praticamente nada sobre nós além do que já descobrimos. E preciso de ajuda pra meter algum juízo na cabeça do Neco! Tu acreditas que…?

– Percebi. Soube do ataque enquanto vinha pra cá. Oras, deixe ele se divertir um pouco – disse ela para o horror dos gêmeos e de Xenóbia, que a olhou seriamente brava: – Emília, não sejas idiota, está bem? Não precisamos de problemas mais do que já temos.

– Eu não deixo de dar razão ao Antônio em estar furioso. É lamentável a falta de respeito pelos sentimentos das pessoas. Essa gente daqui e até de lá só se importa com as conveniências sociais e o dinheiro. Não me admiro que ele queira vingança. Já quis isso também, mas, de certo modo, já estou me vingando. Eu vou viver muito mais que todos eles e nunca ficarei velha, doente ou me encher de filhos com um marido que me trai com alguma amante que dá a ele o que eu não posso porque não me é permitido – disse ela desdenhosa para receber um olhar bastante zangado de Francisca: – Acho que tu sabes que eu já estive nessa situação, não é?!

– Eu sei. E também sei que ninguém merece sofrer um destino desses. Homens que fazem isso são menos que humanos, são vermes. Até os porcos rolando na lama são mais gente do que eles – disse Emília tristemente, como que se desculpando com a outra vampira.

– Ainda bem que pelo menos alguém me entende! – exclamou Antônio furioso.

– Eu te entendo, mas isso não significa que tu tens de agir assim. Porque se tu continuares, aí sim tu vais atrair mais atenção indesejável. Além do mais, o sangue, sendo a vida para os nossos corpos mortos, pode se tornar um vício se tu não tiveres controle sobre o poder que ele proporciona. O vampirismo é uma estrada com dois caminhos: ou tu controlas esse poder ou ele te consome, te transformando em um monstro. A segunda opção é de longe a pior. Ela te torna mais suscetível a fazer besteiras que futuramente te custarão uma estaca enfiada no teu coração ou a tua cabeça separada do corpo por uma lâmina. Então, Neco Borges, tu escolhes: tu controlas este poder ou deixas ele te consumir? – Emília olhou-o seriamente esperando uma resposta definitiva.

Chiquinha Gama impressionou-se com aquelas palavras. Percebeu, porém, um tanto triste, que Emília era muito mais culta, refinada e estudada do que ela, uma pobre moça inculta do campo. Ao mesmo tempo, entretanto, notou que tinha escolhido, mesmo sem saber, controlar o poder ganhado. E que tinha o dever, como a humana que ainda tinha dentro de si, de fazer Neco voltar ao bom juízo. Só que a decisão seria apenas dele.

Que pensou, por sua vez, em uma coisa: informação valia ouro, segundo Tibério. Se isso fosse corretamente colocado, ele poderia executar uma vingança ainda mais cruel do que a inicialmente planejada. Olhando a prima distante que agora conhecia, respondeu com firmeza: – Eu escolho controlar isso. Agora que tenho chance ter a Chiquinha nos meus braços eternidade afora, não vou desperdiçar.

– Acho bom mesmo, viu? – disse ela abraçando-o e beijando-o com carinho e dizendo: – E vou garantir que o teu juízo permaneça no lugar.

– Pode deixar que vou colaborar direitinho – disse ele sorrindo, mas Francisca Gama sabia que, bem lá fundo, o desejo de vingança ainda vivia dentro dele. E mais ainda tinha ciência de que precisava controlar-se muito mais se quisesse realmente dominar aquele poder.

Pois de uma coisa ela agora tinha certeza: Deus embaralhava as cartas, mas quem cortava era o Destino. E cabia a ela qual monte escolher. E o que com ele fazer.

 

**: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/…ogo-republicana
*: “china” – Regionalismo gaúcho. Uso pejorativo: prostituta. Pode também significar mulher ou moça do campo.

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