Os Quatro Atos da Pós-Vida: 2º Ato – A Descoberta (O Poder)

Where you go, I go/ What you see, I see/ I know I’d never be me/
Without the security/ Of your loving arms/ Keeping me from harm/
Put your hand in my hand/ And we’ll stand – Skyfall, Adele.

 

O casal movimentava-se com surpreendente velocidade. Aquilo era tão maravilhoso. E também assustador. Além é claro, de ser muito divertido apostar corrida quase meia noite com a cidade praticamente vazia. A estranha felicidade acabou por fazê-los não perceberem aonde iam. A mesma inesperadamente deu a lugar a uma bela e nostálgica lembrança de quando pensaram poder ser felizes na sociedade que caminhava de dia. Estavam no Arraial do Menino Deus, o lugar onde haviam se conhecido no Natal de 1895.

A igreja no meio da praça parecia encará-los. Os dois recordavam de como tinham se visto pela primeira vez. De como tinham começado seu amor. Do rumo que a história por fim tomou. Abraçaram-se. Ela, perguntou-se porque ainda vivia. Ele, apenas uma coisa tinha em mente: vingança. Iria fazer todo mundo provar do amargo remédio a que o submeteram ao proibi-lo de amá-la. Aquelas gentes iriam pagar-lhe todos os tributos com juros e correções monetárias.

– Por favor, eu te peço, não vais agir de maneira impulsiva! – Francisca abraçou-o com força.

– Me diz então, Chiquinha: como eu tiro este ódio de dentro do meu coração? – perguntou ele com amargura.

– Tu tens a mim agora. Isto não conta? – replicou ela agora o olhando de frente.

– Tu és tudo para mim e tu sabes, mas, ambos estamos mortos para o mundo e em vida, não tivemos praticamente nenhuma chance de vivermos em paz! Ninguém quis nos aceitar juntos. Tudo porque tu não eras como as “boas moças” daqui. Estas ditas cujas que pra mim são uma mera e mal feita cópia dos piores tipos desta pocilga de cidade! – respondeu ele furioso e aos prantos.

– Eu te entendo, mas adianta este ódio todo? Isto vai resolver alguma coisa? Neco, pensas bem no que tu estás dizendo! Elas não têm culpa de serem parte disso. Nasceram e foram criadas nisso. Nós dois, porém, podemos recomeçar longe daqui. Com outros nomes, em outra cidade onde ninguém saiba quem nós somos – disse ela sorrindo. Era uma possibilidade viável, mas ela sabia disso não ser nada simples.

– Quero isto mais que tudo, mas onde que vamos arrumar dinheiro pra sumir daqui? Nenhum de nós tem como arranjar trabalho e ainda, nem sabemos no que nos transformamos – disse ele ficando confuso. Agora era que tinha realmente parado para realmente pensar na situação vigente. Percebeu, exceto pela sede, força, agilidade e velocidade, não saber mais nada sobre sua atual condição. E muito menos se existiam outros como eles.

Perguntou-se se alguém na cidade saberia disso. Duvidou logo de cara. Dificilmente alguém se importava com alguma coisa além de monitorar a vida alheia. E os jornais se preocupavam mais com política do que falar de algo realmente útil. Deus, aquela gente não valia era nada! Até os cavalos puxadores de bonde eram melhores do que todo aquele mundaréu ajuntado! Os devaneios pararam quando a moça esfregou os braços como se sentisse frio: – Isto… é… aquela fome que tu sentiu? A minha garganta arde!

– Eu imagino que sim. Sinto cheiro de sangue fresco aqui perto. Agora sou eu com fome. De novo – disse ele passando a língua pelos lábios imaginando qual seria o gosto do sangue de um daqueles hipócritas. E notando que seus sentidos captavam coisas que não estavam exatamente ali perto. Como por um instinto, o rapaz morto vivo tinha a certeza de que o odor vinha de alguns quarteirões adiante: – Não tem como! Só cachorro tem nariz assim!

– O que tu estás querendo dizer?! – ela olhou-o espantada.

– Tu não sentes? – perguntou ele olhando-a sem entender.

– Claro que sinto, mas… É muito estranho! – respondeu ela tentando imaginar como aquilo acontecia.

– Acho que o nosso olfato e provavelmente os outros sentidos devem ser ampliados porque precisamos deles para encontrar comida – disse ele indicando que ela prestasse atenção porque havia sons na mesma direção do cheiro.

– Eu consigo ouvir! – exclamou ela maravilhada com o quão boa era agora sua audição. E lógico, o odor do sangue a alegrava.

Ambos tinham fome naquele momento. Cientes disso, os dois seguiram o cheiro. Acabaram parando em uma casa onde um grupo de homens festejava com algumas mulheres da rua. Apesar de serem claramente das esquinas, eram até arrumadinhas, pensou Francisca. Pelo jeito era aniversário de um deles, dado como cantavam, comiam, bebiam e falavam. Foi quando Antônio disse: – Não vou tomar sangue de bêbado. Vai Deus saber o efeito disso em mim.

– Fala baixo, Neco! Algum deles pode nos ouvir! Não vou arriscar a gente levar um balaço ou uma facada! – exclamou ela baixinho.

– Ai deles se tentarem te machucar. Sou capaz de cometer uma chacina! – exclamou ele furioso.

Esconderam-se ao perceber que uma das mulheres tinha saído para averiguar algo. Francisca olhou-o bem brava, mas nada disse. O pensamento, porém, era claro, “Tá vendo o que tu fez?! Podíamos ter sido vistos!”. O rapaz sorriu sem graça prometendo a ela sem palavras que falaria em voz baixa a partir daquele momento.

Ela, atraída pelo cheiro do sangue feminino, saiu vagarosamente do local escondido. Observou a mulher que ainda procurava sinal de vida naquela parte a pedido dos homens na casa. Quando ela estava suficientemente afastada, foi a chance da outra aparecer. A da casa só notou a presença de Chiquinha quando ela apareceu vinda “Deus sabia de onde”. Achou seriamente que alucinava, porém, logo percebeu que aquilo era tão real quanto o chão que ela pisava.

Tentou gritar, mas o som prendeu-se na garganta como carrapato no tapete. Um sorriso tirou todo e qualquer medo presente. A mulher em questão parecia estranhamente hipnotizada; e feliz. A jovem morta viva não entendeu como um gesto tão simples havia causado um efeito tão inesperado. “Bem, se deu certo, vou aproveitar”, pensou ela abraçando-a enquanto suas presas, até então escondidas, mostraram-se. Afinal, mordeu-a embora tivesse certo receio, pois não desejava matar uma inocente que tão somente estava no local e na hora errada. Sorveu cuidadosamente até onde achou que deveria. Parou quando a notou fraca, com os batimentos cardíacos já baixos. Sentiu-se bem saciada, mas ainda sim lambeu um restinho sanguíneo que ficara nas marcas deixadas por seus dentes agora pontudos. Espantou-se quando viu o que sem querer fizera. As marcas tinham sumido como por magia! “Como assim?”, ela perguntou-se sem entender.

Neco prestou um bocado de atenção no que acontecera ali. A visão apurada ajudou-o muito. Um belo sorriso podia deixar as pessoas hipnotizadas? Uma simples lambida podia fazer as feridas sumirem? Aquilo estava se tornando cada vez mais interessante, pensou ele mordendo o lábio inferior. Uma epidemia iria meter muito medo no meio daqueles hipócritas que haviam infernizado sua vida. Queria ver toda aquela gente se perguntando de onde vinha a doença misteriosa que causava perda sanguínea. Agora sim ele estava pronto para causar o terror no coração hipócrita daquela cidade maldita. A vingança estava pronta para ser servida em um prato frio a ser comido pelas beiradas.

– Neco, que cara é essa que tu estás fazendo?! – perguntou ela após voltar de seu “jantar” e de ter escondido a mulher em um local discreto. Ele tinha um esgarçar maníaco no sorriso, que estragava seriamente aquela beleza juvenil. *Os dentes inclusive estavam maiores do que na outra vez! Só que os olhos agora não eram mais pimenta de feira. Eram um dourado de centro escuro.* O que diabos estava acontecendo agora, raios?!

– É fome, é claro – respondeu ele feliz. A voz estava mais alterada do que antes.

“Ele claramente ainda está com aquele plano absurdo na cabeça!”, pensou ela instintivamente. Só que não tinha sido instinto. Os pensamentos eram claros como água para ela! Como assim ela podia ver a mente dele com tanta clareza?! Tremeu, pois nunca teria imaginado ser capaz de tal façanha. Ouviu a voz estranha que agora saía da boca dele:

– Tudo bem contigo, Chiquinha?

– Tudo, é só os teus olhos que… me assustaram. Será que eu tenho… eles também? – disse ela olhando-o profundamente.

– Posso ver o que tu estás pensando. Eu te entendo – disse ele normalizando aos poucos. Ela logo percebeu que ele descobrira a mesma coisa que ela.

– Por favor, eu te peço, não faz isso! – ela abraçou-o chorando.

Ele faria qualquer coisa que ela pedisse, mas não aquilo. Não tinha como deixar aquela desforra de lado.

Ela logo notou que pedir não ia adiantar muita coisa. O ódio dentro dele era muito forte. Nada igual a qualquer coisa vista antes. Ela pensou que talvez fosse o todo acumulado de tudo o que tinha acontecido antes. Eram mesmo necessários tantos sentimentos ruins?

Chiquinha não sentia raiva de outrora, pelo menos não no nível de Neco, cujo coração transbordava de ressentimento, nojo, rancor, tudo. Admitia, porém, que era difícil pensar naquela história sem se perguntar se as coisas podiam ter sido diferentes. Ele sendo homem, tinha muito mais chance de escolher. Só que as convenções sociais nunca permitiam que as pessoas fossem realmente livres para encontrar a felicidade. Que nem sempre era o que os outros achavam certo. E razões para isso, no ponto de vista dos “cidadãos de bem”, não faltavam. Por isso tinha aceitado morrer ao lado dele. Porque ambos não puderam suportar o inferno em que suas vidas tinham virado depois daquele episódio do teatro.

– Eu também te entendo, meu amor. Vou ser sincera contigo, eu também sinto alguma raiva, mas não consigo ver motivos pra tu agires em vingança. Acho que isso não resolve nada. Não adianta. O mundo só vai mudar quando as pessoas mudarem. O que podemos fazer é arranjar um jeito de nos afastarmos daqui para sermos enfim felizes. E ajudar outros a saírem do lugar comum – disse ela resoluta.

Antônio nada disse. No fundo, ela tinha mais razão do que qualquer outra coisa. Ainda sim, porém, tinha de pelo menos fazer aquela gentarada provar do próprio veneno. Castigá-los por sua falta de respeito pelos sentimentos alheios! Tudo isso sem deixar Francisca fula com ele, pois duvidava que ela desistisse fácil de convencê-lo do contrário. Embora não parecesse, ela era determinada igual um tropeiro no inverno. Foi quando um inesperado estalo mental o fez perceber que ainda usavam as roupas com as quais tinham sido enterrados. Não apenas tinham de trocá-las, como também encontrar duas pessoas que minimamente se parecessem com ambos. Ela iria odiar a ideia, mas era o único modo de ninguém jamais descobrir que os nichos não tinham nada além dos caixões…

– Chiquinha, tem uma coisa que preciso te dizer…

Ela o ouviu. Realmente, era como ele tinha pensado: a jovem abominara a ideia, mas obrigou-se a concordar. Afinal, se alguém inventasse de exumá-los por alguma razão, só Deus sabia qual seria a reação de quem descobrisse. Além do mais, tinha o ponto de que ambos iriam precisar de um lugar para ficar longe dos olhos alheios. Pois o casal não podia simplesmente aparecer em público, arriscando uma inacreditável reação de quem os visse. Ademais a dúvida: eles podiam andar de dia? Ainda por cima, a história de ambos era conhecimento público e decerto estava na boca de todos através do Correio do Povo. E para a situação ficar ainda pior, nenhum deles sabia como arrumar dinheiro para ir embora dali o quanto antes. Pois não podiam arranjar emprego, dado serem oficialmente falecidos. Sequer tinham documentos de identificação. Era tanta coisa para pensar que a pobre Chiquinha Gama sentia-se zonza.

Saiu do pensamento quando viu Neco se posicionando igual um bicho caçando. Não era à toa, pois ele estava morto de fome. E o cheiro de sangue fresco ainda pairava no ar. Francisca determinou-se a segurar-se. Não iria deixar aquela fome transformá-la em uma assassina. O problema, porém, seria impedir seu amado Antônio de seguir aquele espinhoso caminho. Ainda mais quando ele estava disposto a usar aquilo como seu instrumento de desforra. Suspirou se perguntando quando ele ia tomar juízo.

Seguiu-o quando ele foi em direção oposta. No entanto, mantinha o ouvido atento. Tanto que ouviu quando os homens e as outras mulheres encontraram a mulher sumida ainda inconsciente perto de uma árvore. Um correu feito garoto de recados para chamar o médico. O que pareceu ser o aniversariante carregou a pobre para dentro. De repente, deparou-se com uma situação um tanto chocante: um homicídio. Um rapaz que devia ser um pouco mais velho que Neco tinha acabado de esfaquear uma jovem que claramente era prostituta. “Coincidência?”, perguntou-se ela tristemente. Antônio, a seu turno, atacou o outro sem piedade. Não apenas a fome o levava, também a indignação por aquela cena. Jamais agiria daquela forma contra sua amada. Sorveu o sangue do outro até não sobrar nada para contar qualquer coisa. Usando o exemplo dela, lambeu a ferida causada por seus dentes, mas o ferimento não sumiu…

– Não entendo.

– Acho que só funciona se a vítima estiver viva – disse Chiquinha olhando as roupas da jovem, desnuda, jogadas de lado.

Neco notou o olhar dela. Percebeu o que ela planejava. A moça já estava morta de qualquer maneira e ele tinha acabado de matar seu assassino, cujo sangue era excelente. Além de forte. Portanto…

– Vamos torcer para que ninguém descubra antes do tempo. Com a nossa velocidade, acho que podemos concluir isso em uma hora ou menos. E óbvio, vamos ter que nos apropriar das roupas alheias.

Rapidamente se trocaram. Até que o vestido de caxemira, as botinas e o casaquinho caíram bem na moça morta. As roupas e botas de Neco tinham ficado levemente apertadas no rapaz, dado que este era um pouco mais fornido. Contudo, tinham conseguido o que precisavam. Preocupavam-se, porém, com o fato de que a polícia podia dar ambos como desaparecidos caso eles tivessem família ou algo assim. Agora, no entanto, a coisa já estava feita. Tinham de concluir aquela parte do plano. Tal coisa levou algum tempo, já que tiveram de locomover-se carregando dois cadáveres. E por mais que tentassem andar rapidamente, não puderam fazê-lo como queriam. Além de ter que usar um caminho onde não fossem vistos. Conseguiram chegar ao cemitério. Era ali que a dificuldade realmente se fizera…

– Com o portão fechado, como é que vamos entrar? Não tem como pularmos o muro segurando duas pessoas mortas – Chiquinha disse enfastiada.

– Tu podias usar um grampo do teu cabelo e tentar abrir o cadeado – respondeu Neco.

– Tu achas que tenho cara de arrombadora? – replicou ela enfezada, pois não sabia abrir fechaduras com nada além de chaves.

– Entramos como então? – perguntou ele olhando-a sério.

– Posso tentar, mas isso não vai ser fácil. O cadeado desse portão é grande e duvido que um dos meus grampos vá conseguir alguma coisa – disse ela retirando do cabelo algo metálico.

– Temos até perto da aurora. O movimento mesmo começa de manhã cedo – disse ele se oferecendo para ajudá-la.

Ela nada respondeu e começou o trabalho imediatamente. “Era realmente difícil”, pensou ela quando colocou o objeto no buraco do cadeado. Temeu que ele quebrasse, razão pela qual o mexia devagar. “Mas que coisa!”, pensou ela frustrada por ainda não ter conseguido abrir. Também, era complicado ter sucesso em algo nunca antes feito, mas, era necessário. Neco, por sua vez, tentava decorar o padrão daquelas correntes para quando saíssem. Chiquinha demorou um bom tempo para conseguir entender como funcionava aquela bendita tranca. Por fim, conseguiu abrir o cadeado. Sorriu retirando-o e depois soltando as correntes. Suspirou com alívio ao perceber que não havia vivalma ali perto. Porque ele tinha feito a burrada de empurrar o portão com força demais e por pouco ele não fora arrancado do lugar. Isso sem contar o inacreditável rangido que machucava a audição apurada dela.

Entraram e rapidamente encontraram seus túmulos, intactos. Foi ele quem dessa vez mostrou gigantesca força física. Retirou as tampas com cuidado, pois não podia quebrá-las sob risco de despertarem suspeitas. Os dois retiraram os caixões e após abri-los, depositaram os mortos da melhor maneira que conseguiram. Posicionaram-nos lembrando de como estavam antes de despertar. Sorriram satisfeitos e logo tamparam os ataúdes de novo. Agora definitivamente. Os dois puseram cada caixão no túmulo correspondente e fecharam os nichos com a maior precisão que puderam. O que particularmente tinha sido difícil, dado antes não terem precisado abri-los. Lograram, por fim. Saíram novamente para a noite. Trancaram novamente o cemitério, desejando não mais voltar lá.

Abraçaram-se e trocaram um longo e apaixonado beijo comemorando seu sucesso. Em seguida, desceram rapidamente buscando uma casa vazia onde pudessem temporariamente abrigar-se. Apesar da demora, encontraram-na. Abrigaram-se no quarto mais fechado embora não tivessem entendido o motivo. Sem entender o porquê de agir assim, cobriram as janelas com toalhas velhas de mesa.

Juntos, contemplaram um pouco mais a noite enquanto ela ainda estava lá fora. Quando sentiram a madrugada indo embora, foram para dentro. Enfim, puderam descansar, envoltos nos braços amorosos um do outro. Novamente não compreenderam o motivo de ocorrer, mas adormeceram profundamente quando o galo anunciou a chegada do sol.

Dormiram sorrindo, talvez agora sabendo que pertenciam à noite e ela a eles.

 

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