O lado (muito) feio da Belle Époque

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    E mais uma vez estou voltando com o blog As teimosias de uma dama. Meu motivo de ausência? Comecei a escrever uma nova história e me envolvi nela mais do que eu deveria ter me permitido. E outros motivos me fizeram afastar, especialmente estudos para concursos que por ventura chegaram. Foram meses de ausência e eu ao menos deveria ter dado alguma satisfação aos meus seguidores, que apesar de poucos, são preciosos. Portanto, pessoas, perdoem esta teimosa e louca dama.

    Presumo que estão se perguntando a razão do título em questão desse texto que comecei de uma forma bem pouco convencional. A resposta é Onde o amor se esconde, o segundo, eu espero que de muitos, romance da minha amiga escritora Veridiana Maenaka, cujo Jardim de Espelhos eu resenhei aqui. Diga-se, a resenha feita por último antes da minha longa ausência.

    A resposta não parece combinar muito, parece? Garanto a vocês que ela combina até demais.

    Onde o amor se esconde é, acima de qualquer coisa, uma história sobre superar os próprios limites e descobrir que você pode ser muito mais do que aquilo que te dizem para ou tentam te fazer ser. É como Moisés abrindo o Mar Vermelho para sair em busca da Terra Prometida. Como sabemos, porém, não foi nada fácil.

    Isso, na verdade, muito pouco realmente diz sobre o quanto me impressionei com esse livro. Se Jardim de Espelhos já me fez ficar com o coração aos pulos, o segundo de Veridiana Maenaka nos faz paralisar. De medo. De tristeza. De revolta. De impotência. De indignação. Isso apenas na primeira parte, onde eu chorei umas sete vezes antes da centésima página. Bem, não é exatamente à toa que ela é intitulada A Dor. Porque é REVOLTANTE (perdão meu grifo garrafal, mas é assim que qualquer um se sente lendo) ver como a protagonista sofre nas mãos de quem, pelo menos em teoria, deveria amá-la, cuidá-la e protegê-la. Dizendo algo que vi em outra resenha desse livro: não é uma leitura fácil e essa nunca foi a intenção. Digo mais: é um superkick maravilhosamente dado na nossa cara.

    A protagonista, senhoras e senhores, é Maria da Glória Guimarães, ou simplesmente, Glória. Uma mulher que poderia ser eu, você, a autora ou qualquer outra. Com sentimentos, desejos, problemas, questões, tudo o que nos faz um ser humano. Com, porém, um diferencial: a história dela se passa no começo do século vinte. Veridiana não especifica o ano e isso, minha plateia, não importa. Importa é: ainda hoje, mesmo com todos os avanços que nos tornaram livres, pelo menos aqui, para escolher nossas próprias vidas, alguns costumes ainda persistem. Costumes esses que machucam e até mesmo matam. Todos os dias. A cada alguns minutos. Pelo Brasil. Pelo mundo.

    Que costumes? Achar que uma mulher ser livre, em qualquer aspecto, mesmo o mais simplório, é sinônimo de “ser puta”. (E gente, estou falando sério demais.) Que não podemos sair usando roupas que gostamos porque temos de nos preservar. Porque saias, longas ou curtas ou decotes, mesmo os mais discretos, atraem “estupro” e nós seremos as culpadas, caso soframos tal horror. Conversar de assuntos ditos “masculinos” ou trabalhar em coisas ditas igualmente “de homens”. Que merecemos apanhar por uma razão ou outra. (Devo dizer, nenhuma delas justificável nem por piada.) Bem, eu poderia criar uma legítima lista telefônica só falando disso. Nesse livro, porém, Veridiana trata disso com uma habilidade única de narrar e descrever. E bem mais, como diz na sinopse: sobre as escolhas que fazemos e aquelas que não devemos fazer.

    Que escolhas? Escolhas que, no tempo onde a história se passa, nenhuma mulher tinha. Ela casava, tinha filhos e era isso. Qualquer uma que saísse disso, ainda que apenas um pouco, já era tachada de tudo e mais um pouco. Esse é o caso da melhor amiga de Glória, Marisa Proença, que sonha em viver tão livremente quanto os homens e pouco se importa com o preço que vai pagar por isso. Só que a personagem, com o passar da trama, acaba revelando cores muito mais escuras do que se imagina. Se bem que ela é alguém que não consegui simplesmente odiar embora eu tenha ficado bem indignada com o rumo que ela tomou. No entanto, conhecer melhor a história dela faz com que sejamos capazes de entender, embora não justificar (sim, tem diferença de significado), as escolhas feitas por Marisa.

    Quem, porém eu realmente odiei com todas as minhas forças foram Erasmo Galvão (me dá até raiva escrever o nome da desgraça) e o Euclides Guimarães. Um, o marido de Glória. O outro, o pai dela. Por que? O primeiro, simplesmente um dos piores homens fictícios que já conheci. Que se casou com a protagonista pelo puro e simples ascender social, simplesmente não se permitindo sequer tentar uma convivência boa com Glória. Além de ser um completo ignorante mente fechada que faz as maiores barbaridades com a protagonista durante toda a primeira parte, além de traí-la na cara dura e sequer se importar com o que ela sente. Um filho da p… de m…., é o que ele é.

    O Euclides não é tão horrível, pelo menos se comparado ao outro, mas é igualmente odioso. Elitista, machista e um sinceramente c…. babaca. Pelo simples fato de que ele quase parece ignorar o fato de que casou a filha com um bastardo inglório e por pouco não fez o mesmo erro pela segunda vez. Além é claro, de tratar com uma quase clara ingratidão as pessoas que tão bem fizeram à Glória sem pedir nada em troca. Não direi mais porque isso é puro spoiler e quero todo mundo lendo esse livro.

    Falando sobre a trama de Onde o amor se esconde, a primeira parte, como eu já disse, chama-se A Dor. E trata EXATAMENTE ao que se refere como eu antes disse, mas cabe aqui um melhor desenvolvimento…

    Uma rotina de verdadeiro suplício que começa após Glória casar-se com o pretendente escolhido pelo pai achando que com o tempo vai construir algo bom com ele. E a pobre, no começo uma ingênua e sonhadora moça que achava o casamento igual aos livros que ela lia desde pequena, acaba se conscientizando que a vida não é nada sutil quando quer mostrar que nada é como a gente pensa. Ou quer. E o que ela quer? Glória, delicada feito rosa, só queria amor.

   Ela, porém, nunca pensou que o caminho para encontrar tal coisa pudesse ser tão doloroso e inicialmente, inviável, pois ela estava fadada a estar eternamente presa a um casamento que ela descobriu que definitivamente não queria. O problema: como uma mulher sairia de tal encrenca em pleno começo do século vinte? É aí que a história começa a trilhar caminhos que vão ficando mais espinhosos, começando com um chamado Fernando Albuquerque. Who is him?

   Ele, na fase básica, é o responsável por fazer Glória se sentir no topo do mundo após fazê-la descobrir o prazer do sexo. Eu não comentei antes, mas a sinopse do livro diz que é com ele a descoberta dela. Que decididamente a levou aos mais complicados caminhos da mente humana. E quando digo isso, não estou dizendo à toa. Gente, vocês não têm noção do meu espanto pelo que veio depois. Para resumir: nas partes intermediária e avançada, Fernando definitivamente mostra um lado que me deixou de queixo caído. Fiquei sem reação quando percebi a verdade. Além de furiosa quando vi até onde ele foi capaz de ir. E me fiz algumas perguntas: o quanto conseguimos ficar apenas com o prazer sexual sem se importar com o que pode vir depois? Será que realmente conseguimos ficar apenas nisso? O quanto se “desperdiça” indo em busca de algo que talvez nunca realmente te satisfaça? Até onde a mente e a alma de uma pessoa podem aguentar? O quão vazio a gente se sente, se acontece, depois de tanto tempo na mesma coisa? E como diz na própria capa do livro, mas do meu modo: até que ponto podemos nos deixar levar pelo desejo?

    Bem, uma resposta possível eu descobri lendo o livro, mas não posso dar porque isso também é um senhor spoiler. E permeia um bocado da segunda parte do livro, chamada O prazer. Que devo dizer, não tem apenas cenas picantes, possui também muitas reflexões sobre o quão longe somos capazes de ir por aquilo que realmente queremos. E o quanto dói ainda mais quando a decepção quando vem de quem a gente acha que conhece bem. Digo, pessoal, que foi doloroso ver a Glória sofrendo daquela forma ao descobrir que caiu maravilhosamente em uma trama digna de As ligações perigosas, de Choderlos de Laclos. E por uma coincidência (que eu realmente acho que não é), isso aconteceu através de uma carta. Entregue por alguém eu não esperava que fosse querer ajudar a protagonista. Não que a personagem fosse de algum modo má, mas considerando a situação dela, pode-se dizer que ela correu um grande risco. Uma overdose de coragem, é o que foi. Parabéns, moça. Você tem um lugar no meu coração.

    É a partir daí que Glória chega ao seu último upgrade, a terceira parte do livro, chamada O amor. Aonde ela finalmente encontra aquilo que passou o livro todo buscando e principalmente, está madura o suficiente para encarar tudo de frente. Claro que essa busca não é a coisa mais fácil do mundo, dado que ela vai precisar enfrentar quem ela menos queria nessa história toda. E outros, além disso. E terá outros desafios até chegar lá. E as reflexões sobre o papel da mulher no âmbito social, as escolhas que devemos ou não fazer e o quanto somos capazes de ir pelos nossos sonhos continuam maravilhosamente.

    Nesse ponto, Dr. Marcelo, que antes não apareceu tanto, agora se torna o mais importante, para não dizer o realmente único, apoio da protagonista, que agora precisa usar o seu vibranium interior para passar por cima das adversidades que inesperadamente se colocam em seu caminho. Não é que a Hortênsia, a mãe dela, não seja um bom apoio, mas pense na situação dela tendo que lidar com a filha e o marido em polos opostos. E tendo que tentar acalmar ânimos que inesperadamente ficaram exaltados demais. Afirmo que Glória faz isso de uma maneira fantástica, digna de uma personagem que realmente cresceu.

    E a autora se sai melhor ainda dando toda a narração da história à protagonista, que, com a mais absoluta sinceridade conta tudo o que viveu e aprendeu e os caminhos que trilhou para chegar onde queria. Como se pudéssemos ouvi-la conversando conosco e nos dando algumas lições preciosas. Sendo uma delas: permita-se ser realmente feliz, não se importando com o que os outros pensem de você. Claro que, para cada grande vitória, sempre existe uma derrota, infelizmente, pois assim como existe gente disposta a nos levantar, há outras dispostas a nos fazer cair. Se bem que nesse caso, não se pode considerar isso uma perda realmente dolorosa, dadas as circunstâncias. Não posso falar mais que isso sobre o livro porque também entraria no terreno dos spoilers. Portanto: compre o livro, compre o livro, compre o livro! Prenda, segure, agarre, capture, leia o livro agora!

    Por fim, acho que já deixei bem claro o quanto eu amei essa maravilhosa história chamada Onde o amor se esconde. Todavia, ainda cabe aqui uma citação da personagem que eu mais amei depois da protagonista, ninguém menos que a engraçada e espevitada Dona Isidora: Quem cavalga pode cair do cavalo, quem anda, pode tropeçar quem nada pode se afogar, quem canta pode desafinar, quem come pode se engasgar… A vida é risco, minha flor, e nisso reside uma beleza, você não acha?

     Da minha parte, é fato que a vida é mesmo um risco, mas pode-se escolher corrê-lo ou não. Saibam, porém, que as nossas escolhas definem o nosso futuro e que se quisermos ser realmente felizes, será preciso correr muitos riscos. Portanto, arrisque. Se quiser fazer isso às vezes, certo, mas arrisque. Apenas assim é possível saber o que realmente se quer.

     Assim, eu me despeço de vocês por hoje. Até a próxima, tenho de correr. Vou pegar uma carona com as lendas do amanhã e ir ao Reino das Névoas.

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