Corações Indomáveis – UltraSeven Fanfic – Capítulo 3: A festa das fantasias

Grécia, setembro de 1968…

O homem enfim havia acordado. Tinham sido três dias de febre altíssima e delírios após ele ser encontrado quase morto ali próximo. Ela logo percebeu várias coisas: ele era estrangeiro. Claramente treinado em táticas militares de salvamento. Um homem com compleição física excelente, dado que tinha sobrevivido àquela situação. Ainda que tivesse ficado próximo demais da morte.

– Onde eu estou? – perguntou ele olhando em volta. O local era claramente uma cabana. Possivelmente em algum lugar bastante isolado.

– Na minha casa. Eu o encontrei semimorto no rio aqui próximo. Ao que parece você caiu após tentar subir de volta depois que resgatou um menino. Só que você estava muito esgotado. E quem tentou te puxar não conseguiu. Tentaram te achar, mas não puderam – respondeu a dona do local.

– Obrigada por me salvar, senhorita. Qual o seu nome? Eu sou Shishio Kurata – ele sentou-se à cama.

– Helena Walsh – respondeu ela receosamente enquanto cozinhava algo.

– Eu sou grato, Helena. O seu grego é muito bom, mas claramente você não é daqui – disse ele observando-a. Pelos deuses, ela era linda.

– Sou brasileira, mas vivo aqui tem cinco anos. Gosto de ficar sozinha, me sinto bem assim – Helena conhecia aquele olhar. Sua larga experiência com homens dizia-lhe que o coração de Kurata bateria forte por ela. Ela, porém, recusava-se a ter qualquer envolvimento com quem quer que fosse. Já sofrera demais. Não tinha porque sofrer de novo por um sentimento que não existia realmente. Ou pelo menos ela assim pensava.

Grécia, alguns meses depois…

– Eu tenho mesmo que ir embora? – Kurata perguntava-se enquanto ela ainda dormia após ele e Helena terem outra noite de paixão. Uma de pelo menos muitas desde que tinham enfim se entendido após ela tanto relutar.

A carta chegada do Japão tinha sequer cinco minutos de entregue. O mensageiro encarregado de cobrir o vilarejo próximo ao mar Egeu tinha lhe entregue a correspondência logo após o amanhecer. A Força de Defesa tinha descoberto sua localização após longo tempo de busca e solicitava que ele voltasse ao país o quanto antes. Embora compreendessem que ele precisara recuperar-se após ferir-se gravemente ao salvar uma criança. Kurata, porém, não queria deixar Helena de forma alguma. Como podia viver sem ela após finalmente encontrar alguém por quem valia a pena abrir mão de tudo? No entanto, não podia simplesmente desobedecer uma ordem direta. Arriscava-se a ser preso.

Podia levá-la com ele. Quem sabe casar-se com ela quando chegassem ao Japão. Pensou nisso enquanto levantava-se para fazer-lhe o café da manhã. Ele não pensou que, ao voltar de uma saída ao mensageiro, não mais veria sua amada. Apenas uma carta dizendo que ela precisava ir, mas que não podia explicar-lhe os motivos.

Japão, presente…

Novamente Kurata pegou-se olhando aquela carta. Não era possível Helena ter simplesmente ido embora daquela forma sem explicar nada. Inicialmente, pensou todas as coisas ruins possíveis para um caso como aquele. Algo, porém, lhe dizia que a situação dela era bem mais séria do que parecia. Especialmente porque, nos meses em que ficaram juntos próximos ao mar Egeu, ela nunca lhe dissera nada sobre seu passado. Tudo o que soubera tinha sido pelo médico local no mesmo dia em que ela fora embora. E não algo do qual realmente se pudesse tirar algo concreto sobre as razões dela de sumir.

Aparentemente, tanta experiência mostrada tinha um motivo. Algo que ele ainda não conseguia compreender por completo. Até porque ele ainda achava impossível que ela vivesse com aquela moléstia por tanto tempo sem complicação alguma. Tudo era confuso demais. Apenas queria respostas de Helena. Isso se algum dia ela voltasse.

– Capitão Kurata? – o oficial de cabelos claros aproximou-se com uma bandeja de chá.

– Oficial Horacio… coloque a bandeja aí em cima – disse o astronauta em resposta.

– Claro. Me permite acompanhá-lo no chá? – perguntou o jovem.

– Sim. Não gosto de fazer isso sozinho – Kurata suspirou.

– Eu não quero parecer, ou ser, invasivo, mas, aconteceu alguma coisa? O senhor não parece feliz – Horacio servia o chá enquanto falava. Dificilmente não ouvia comentários à voz baixa dizendo que o Capitão Kurata não andava bem desde ter voltado da Grécia.

– Aconteceu algo ruim comigo, mas prefiro não falar disso, se não se importa – respondeu ele sério.

– Tudo bem sobre isso. Então, você vai à festa que nós faremos na casa perto daqui? – perguntou Horacio querendo deixar a conversa tensa de lado o mais rápido possível.

– Ouvi dizer que estão fazendo um baile à fantasia para lembrar o carnaval de Nova Orleans, chamado Mardi Gras. Vai ser o primeiro evento desse tipo no Esquadrão. Quem sabe eu vá – respondeu Shishio.

– Eu não perco por nada! Vai ser muito bom. Nunca fui aos Estados Unidos e menos ainda em um Mardi Gras – respondeu o jovem latino empolgado.

“Quem sabe uma festa será bom para animar as coisas”, pensou o astronauta com alguma alegria de repente surgindo em seu coração ainda ferido.

Em um bar de Tóquio, começo da noite…

Olga novamente colocou o avental em cima do uniforme-vestido. Aquela noite seria particularmente cheia, pois era véspera do Dia do Equinócio da Primavera. Muita gente andava pelos bares naquela hora e ela certamente estaria com as mãos tão cheias quanto possível. Eram cinco garçonetes mais ela, a moça do balcão, atendendo pelo menos cinquenta ou mais homens. E algumas mulheres.

Entretanto, no balcão, foi surpreendida pela senhora Mei, a dona do bar: – Hoje você ganha uma folga e vem comigo.

– Onde? – perguntou ela surpresa.

– Comprar algumas roupas novas. Menina, esse seu guarda roupa é muito tosco. Você realmente acha que eu não reparo naqueles vestidinhos de maria mijona que você usa? – disse a dona olhando-a fixo.

– Desculpe, dona Mei, mas eu fui acostumada desde moça a ser discreta. Você sabe como são as coisas em regiões do interior – respondeu Olga tentando desviar do assunto.

– Discrição é uma coisa, mas aquele seu vestido guardado lá no vestiário é outra. Aquilo é um hábito monástico. Muito me admira que, tendo um corpo tão bonito, você não valorize. Claro, não precisa mostrar tudo, mas não acho que você precise se cobrir feito uma freira – disse a dona com tal naturalidade que deixou a jovem desconcertada…

– Dona Mei,… eu não sei… – disse ela para ser interrompida: – Não vou aceitar não como resposta. Sério.

– Tudo bem, mas, quem vai cuidar do bar? A senhora vai descontar do meu salário? – a jovem perguntou mesmo sabendo que poderia se arrepender depois.

– Considere isso como uma recompensa por nunca se atrasar e aguentar com paciência os gracejos dos clientes. Além do mais, você precisa tirar esse semblante triste de cima. Você é jovem demais pra sofrer com uma coisa que nunca daria certo – Mei olhou-a carinhosamente.

– O pior, ou melhor, é que cada vez mais eu acho isso certo – ela viu-se pouco corajosa de continuar o pensamento.

– Querida, todos nós erramos na vida. E esses erros servem para que sejamos pessoas melhores. Pense que tudo isso serviu para você poder encontrar um caminho melhor. Agora, troque de roupa e vamos sair. Sei que a hora não é muito comum, mas a loja da minha amiga fica aberta até tarde – sorriu a mulher com entusiasmo.

Olga sorriu. Mei disse que iria rapidamente encarregar as moças restantes de cuidar do bar. O sorriso da jovem, porém, foi substituído por espanto quando ouviu a seguinte frase: – Com um corpinho lindo desses, você poderia ser a Bettie Page do Japão. Se você quiser, o meu cartão está aqui.

– O senhor tá falando comigo? – ela olhou quem falava. Era um gaijin que mais parecia um daqueles homens saídos de um filme de mafiosos.

– Alejandro Podestá às suas ordens, gracinha – disse ele balançando um cartão usando dois dedos.

Olga achou que ele provavelmente já estava meio bêbado mesmo sendo recém noite. Apenas suspirou e respondeu:

– Agradeço a parte que me toca, mas… posar nua não é um plano a longo prazo.

Ele riu e disse: – Moça, você não tem ideia do que eu poderia fazer com a sua vida. Você seria famosa, capa de revistas pelo mundo todo. Qual é, você vai realmente passar toda a sua vida trabalhando em um balcão?

– Moço, deixe-a em paz. Se ela não quer a sua oferta, pare. Por favor, se dê ao respeito e respeite a menina – disse outro que tomava refrigerante.

– Eu não me lembro de ter te chamado na conversa, sabia? – disse o gaijin já bravo.

– Senhores, por favor, sem brigas no bar. A dona Mei não gosta – Olga falou com firmeza.

Alejandro deixou o cartão sobre a mesa junto com uma generosa gorjeta: – Se mudar de ideia, já sabe onde me encontrar. Falo sério, senhorita. Você tem um futuro brilhante.

Logo após Podestá sair do bar, o outro cliente aproximou-se: – Eu andei ouvindo algumas coisas sobre esse cara. Pro seu bem, não vai atrás disso.

– Ele é… algum violador de mulheres? – Olga já tinha ouvido falar de ocorrências como aquela.

– Não sei exatamente, mas certamente é algo igualmente ruim. Possivelmente agenciador de prostitutas, leia-se, um cafetão – respondeu ele para logo em seguida se apresentar: – Sr. Sato. Ex-bêbado e atualmente atleta amador.

– Olga Gorisaki, de Shiroishi. Garçonete e atendente em meio turno – sorriu ela.

– Olga? – riu ele para depois dizer: – Seus pais têm um gosto bem exótico para nomes.

– Na verdade é a mamãe. Os meus irmãos têm nomes bem japoneses. Papai não é dado a mudanças bruscas demais – respondeu ela no mesmo momento em que Mei voltou: – Agora você pode se trocar e vamos sair logo.

– Certo então. Com licença, Sato-san – sorriu ela ao despedir-se.

– Outra das suas ajudas? – perguntou ele a rir levemente.

– Essa menina precisa voltar a sorrir. Eu sei que ela está tentando, mas não é fácil. Pode-se dizer que tenho experiência com isso – disse Mei pegando uma cerveja.

– Que você tenha sucesso – disse ele feliz. No entanto, não conseguiu negar a si mesmo ter achado a moça muito atraente.

Sato despediu-se da dona no mesmo minuto em que Olga voltou. A madura senhora disse: – Hoje mesmo você deixa esse figurino tosco para trás. Daqui pra frente, você será uma nova mulher.

– Eu quero saber… o porquê – Olga olhou a patroa que tinha sido amiga desde o início.

– Eu já disse: você é jovem demais para ter um semblante tão triste e uma vida tão sem propósito. Ser feliz com as próprias escolhas é o principal propósito de cada um – respondeu Mei levando a jovem consigo.

– Como eu faço isso? – perguntou Olga andando com a patroa. Notou, ao mesmo tempo, alguns olhares de moças reparando no vestido que ela usava.

– Pense em tudo que a levou até aqui e pergunte a si mesma se é isso que você realmente quer para sua vida. Ela é curta demais para ficarmos sem sorrir. E boa demais para nos preocuparmos com a opinião dos outros – a patroa a levava para uma loja distante duas quadras do bar.

Olga nada mais disse. Acabou sorrindo. Sentia-se feliz como há muito não o fazia. As duas logo chegaram à loja, onde uma senhora pequena e magra recebeu-as com um enorme sorriso: – Quantos dias que você não vinha, Mei!

– Trouxe essa moça pra fazer umas compras. Um banho de loja, se me permite – riu a dona do bar com galhardia.

– Ela precisa, meu Deus. Menina, que diabos a sua mãe pensou te fazendo usar esse vestido de velha? – a proprietária da loja olhou Olga com espanto.

– Possivelmente me guardar para o meu agora ex-noivo – respondeu a jovem para em seguida lembrar-se de o que chamava de “o pior momento de sua vida”. A lojista, senhora Takamura, tinha sabido da história por um jornal enviado de Shiroishi pelo filho mais velho.

Não conseguia se lembrar disso agora sem se sentir a mais vil das criaturas. Soga, em troca de ajudá-la a separar Takeo da moça alemã de quem ele gostava, tinha lhe feito uma proposta: após auxiliá-la, queria vê-la nua e tocá-la. No fim das contas, não tinha sido uma troca injusta, ou pelo menos ela assim pensara quando conseguira garantir seu noivado com o rapaz que gostava. Especialmente porque seu até então cupincha de escola meio rechonchudo tinha virado um belo e atlético rapaz. Tinha sido a primeira vez sendo tocada por mãos masculinas. As dele, fortes, e algo calejadas, fizeram-na sentir muito prazer. A boca levemente carnuda tinha feito coisas que não podiam ser ditas publicamente. A virgindade se mantivera intacta em razão do noivado dela. A culpa pós-ato, porém, fora tão grande que ela jurou jamais deixar qualquer outro, exceto Takeo, quando eles estivessem casados, tocá-la. No fim, entretanto, seus planos tinham sido brutalmente interrompidos.

Foi quando a proprietária, após pegar várias peças de roupa, percebeu-a chorando: – Limpa essas lágrimas, lindinha. Olha tudo o que eu te trouxe. Esse choro todo nunca mais vai ocorrer depois que você começar a viver de novo.

– Desculpa, senhora, mas tudo é tão recente ainda. Não é tão fácil quanto eu quero pensar – disse ela recobrando a calma e repetindo para si mesma: foi melhor assim e fim.

A lojista sorriu e indicou à Olga que fosse ao provador localizado no fundo. A jovem foi. Quem sabe seria uma boa ideia dar uma renovada no guarda roupa. Despiu-se enquanto a dona da loja vinha com tudo o que tinha pego. Olhou-se no espelho estando apenas de calcinha. De repente, viu-se redescobrindo as próprias curvas. Sempre tinha se achado bonita, mas não como agora. As formas “cheinhas” eram atípicas para uma japonesa. Percebeu que deveria amar-se mais. Que tinha de parar de sofrer por quem nunca tinha feito questão de mostrar amor. Passou as mãos pela cintura fina. Virou-se de costas e olhou o bumbum. Não era má ideia andar com roupas mais justas e algo mais curtas. Perguntou-se como não tinha pensado, até ali, em livrar-se daqueles vestidos longos, mas até bonitinhos, que a mãe sempre lhe dava. E como ela ainda os usava?

Era verdade que pouco mais de dois meses era insuficiente para passar uma dor daquelas. No entanto, Olga, andava refletindo um bocado sobre tudo o que lhe acontecera. Igualmente lembrava-se das conversas bastante francas com Pierre. Que embora nunca tivesse tentado nada com ela, sempre lhe dizia tudo que pensava. Ele afirmava: a honestidade era a base de uma amizade sólida. Inicialmente, ela se espantara com algumas das coisas ditas, mas não era como se desconhecesse. Afinal, a imprensa existia para informar embora sua família fosse tradicional até o talo.

Experimentou todas as roupas após a lojista trazê-las. Cada amostragem arrancou elogios das senhoras. Se aquele figurino fosse somado a um penteado bem feito e uma maquiagem elaborada, ela arrasaria absolutamente.

– A senhora tem… lingeries aqui? Eu suponho que renovar o guarda roupa nesse ponto seria outra excelente ideia – disse Olga após sair do provador usando um vestido de franjinhas azul que marcava bem a cintura.

– Está supondo muito certo – Mei sorriu ao ver que ela realmente parecia feliz com as novas roupas.

– Eu meio que adivinhei o seu pensamento e trouxe uns conjuntos. Menina, você vai ficar muito sensual – riu Takamura, primeiro nome Tamao.

Olga olhou-os. Eram de todas as cores, mas gostara mais dos de cores fortes. Lembrava-se de uma amiga da faculdade de ciências contábeis que falava disso. O vermelho era, por excelência, a cor da paixão e da sensualidade. Riu e disse em seguida: – Quero quantos eu puder levar. Isso vale para os vestidos, blusas, calças e shorts também.

– Não se esqueça de adquirir uns sapatos novos também. E claro, umas roupas de banho pra quando você viajar para a praia. Isso, porém, eu não tenho – Tamao riu constrangida.

– Você tem um novo guarda roupa, então eu espero que a sua vida se torne igualmente nova – disse Mei algo emocionada.

– Eu tenho. Graças a senhora, às meninas e aquele maluco do Pierre que me ofereceu ajuda sem nem me conhecer direito – Olga viu-se rindo abertamente e em alto e bom som.

– Você ainda tem muito a fazer, moça, mas isso vem com o tempo. Só que não esqueça: as suas escolhas terão um preço e você terá de estar disposta a pagá-lo – disse Tamao de forma enigmática.

– Vou saber quando for o caso, mas, espero que tudo seja tranquilo – disse Olga algo incerta.

– Desejamos a mesma coisa, mas, nós sabemos que a vida apronta das suas de vez em quando – disse Mei com expressão calma.

Alguns minutos depois, Olga e Mei se despediram da senhora Takamura. Naquela noite, a jovem Gorisaki foi relativamente cedo para casa, pois a dona do bar achou melhor liberá-la. Queria-a curtindo suas novas aquisições e pensando em dias melhores.

Pierre, por sua vez, surpreendeu-se ao ver sua amiga e hóspede chegar em casa com tantas sacolas: – Isso é coisa da Mei, não é?

– É. E confesso que estou amando o meu novo guarda roupa. Vou me livrar de vez daquelas roupas de oba-san – disse ela após cumprimentá-lo.

– Só isso não vai ser suficiente. Quem sabe te dou mais algumas de presente – disse ele feliz.

– Não precisa. Tenho meu salário. Eu agradeço, porém – respondeu ela feliz.

Pierre riu, percebendo que ela finalmente estava se dando conta que era capaz de viver sem precisar de ninguém para ser feliz. Foi quando mostrou a ela um convite: – O Alex nos convidou para uma festa à fantasia lá perto da sede do Esquadrão Ultra. Vem comigo?

– Uma festa? Quando? – perguntou Olga.

– Daqui uns dias. Use a fantasia que quiser – disse o gaijin ruivo sorrindo.

– Já estou pensando no que vou usar – disse ela devolvendo o sorriso. Lembrou-se de um cartaz pendurado próximo à cama de Pierre. Embora se chocasse ao vê-lo inicialmente, fascinou-se ao descobrir mais sobre quem era a mulher nele. Uma modelo americana, conhecida como “A Rainha das Pinups”. Que tinha desafiado toda uma sociedade conservadora e fechada em nome de fazer o que gostava. Só que há onze anos tinha desaparecido dos holofotes. Ninguém sabia seu paradeiro, inclusive achavam que ela estava morta.

Aquela seria uma festa inesquecível.

Esquadrão Ultra, dias depois…

Alexander Vidal via-se preocupado. Gantz fora embora logo após despertar do sono que tivera após encontrá-lo e a Anne naquele dia. Não mais tivera notícias dele. Cismou que ele tinha alguma coisa a ver com o gigante vermelho-dourado que aparecera sem dar aviso no dia daquela ronda. “Maldição!”, praguejou consigo mesmo enquanto tomava o café da manhã. Bem reforçado, pois hoje era mais um dia de treino físico. As coisas na sede nunca eram simples mesmo quando os dias eram tranquilos.

Quando não tinham de enfrentar alienígenas, neonazistas extremamente filhos de uma puta ou terroristas com as motivações mais estapafúrdias, os conflitos eram entre os próprios membros do Esquadrão.

Myra sempre com discursos feministas e tentando convencer as garotas a serem mais liberais. Caroline sempre discutindo com Neville ou Horacio em razão de diferenças de nacionalidade. Gibraltar sempre paquerando algum dos rapazes ou moças. Ametista com seu conservadorismo português europeu, o que criava constantes oposições com Coraline e Myra. Pois Coraline Grass acreditava que deveria se respeitar a natureza acima do chamado “progresso”. E mais ainda, que os políticos deveriam ter o mesmo pelo povo que o elegia. Ilsa sempre distribuindo flertes e sorrisos a todos os homens bonitos que via, especialmente Dan. Este, porém, educadamente a ignorava. Janine sempre fria e indiferente a tudo.

Maricruz constantemente conflitando-se com alguns dos oficiais em razão de opiniões. Irina com seu complicado caso com o capitão Kiriyama. Soga tentando falar com a francesa Janine, mas sempre sendo sumariamente ignorado. Furuhashi tentando desvendar os enigmas da ruiva Myra. Amagi evadindo de todos os assédios do espanhol Ibañez. E mal conseguindo olhar para a mexicana Tejada sem tremer as bases. O capitão tendo de encontrar-se com Irina fora da base porque todos já andavam falando deles. Dan tentando encontrar uma maneira de resolver todos aqueles conflitos ao mesmo tempo em que amava Anne incondicionalmente. Ela, por sua vez, só queria fazer a coisa certa. E nem sempre era tão simples.

Vidal, por sua vez, era olhado por muitos com total desconfiança. E até mesmo um claro ódio. O motivo resumia-se à famigerada bomba atômica de 1945. Era difícil encarar aqueles olhares que claramente o chamavam de membro de um povo assassino. Ele não tinha culpa se o imbecil presidente daquela época tinha ordenado aquilo! Deus, ele tinha apenas dois anos naquele tempo! Era verdade que os políticos eram reflexos de quem neles votava, mas isso não queria dizer que todos concordassem com aquele absurdo! Ele jamais haveria de achar que aquilo tinha sido certo. Que culpa tinha o povo japonês se o imperador tinha inventado de se aliar com Hitler? E o que diabos o tal Hirohito tinha na cabeça para forjar uma aliança tão despropositada? Alex jamais entenderia realmente aquilo. Suspirou terminando de tomar o café da manhã.

– Problemas? – Myra Willows sentou-se à frente dele com as mãos no queixo e os cotovelos sobre a mesa.

– A minha cara meio que evidencia isso, não? – Vidal respondeu sem pensar.

– Com certeza. Parece que mais que problemas externos, temos problemas internos. Eu não gosto disso nem um pouco – disse a ruiva com alguma tristeza.

– Por que a maioria do pessoal não gosta de ouvir seus discursos? – Alex olhou-a.

– Tem gente que prefere ignorar a verdade – respondeu ela sem piscar.

– Depende de qual verdade você está dizendo – o americano cruzou os pés debaixo da mesa.

– Não é difícil: todos têm direito de viver e escolher livremente. Não entendo porque há tanto receio em aceitar algo tão óbvio. Homens e mulheres têm merda na cabeça por acaso? – Myra bufou.

– Pode até ser que seja óbvio, só que isso não é algo fácil de aceitar no ponto de vista de muitos. Olha Myra, eu não quero ser advogado do diabo nem nada, mas nós todos sabemos que existem limites que não podem ser ultrapassados. Até porque o direito de um termina onde começa o do outro. Não é porque você gosta de algo que tem de obrigar o outro a gostar. O seu problema é que você sempre tenta fazer as garotas agirem e pensarem à sua maneira. Ok você falar o que pensa, mas tentar incutir isso na outra pessoa não é educado – disse Alex convicto.

– Então como eu convenço outras mulheres a se libertarem desse jugo machista no qual nós vivemos? Inclusive você vive nisso, caso não tenha notado – respondeu ela com mais convicção ainda.

– Jugo machista, racista e elitista, caso não tenha percebido. Acha que eu vivi fácil? Bem, você não sabe uma porra de mim – Alex olhou-a quase raivoso.

– Desculpa. Acontece que você nunca fala da sua vida. Não sou adivinha, sabe? – a irlandesa cruzou os braços bem enfastiada.

– Não te falo isso agora porque daqui quinze minutos começa o treino e eu ainda preciso escovar os dentes e colocar uma roupa adequada. Quando você tiver tempo de me ouvir… – dizia ele quando Myra interrompeu: – Nós conversamos.

Os dois trocaram um olhar curto sobre possibilidades. Despediram-se enquanto Dan apenas observava e processava a conversa. Os humanos sempre sendo complicados. Por que dificultar o que era tão simples? A resposta estava na própria raça humana: cada indivíduo era diferente do outro. Cada um vivia de uma forma e não era simples conciliar tantos aspectos diferentes. Era bastante difícil distinguir o realmente certo do realmente errado quando se tratava de pessoas e suas maneiras de viver e pensar. O problema, porém, era que muitas dessas formas violavam as regras básicas de respeito à vida humana e os direitos das pessoas. Moroboshi viu-se sem saber o que faria para combater tal coisa.

Dia seguinte, uma casa próxima à localização da sede do Esquadrão Ultra…

Vários membros ajudavam a decorar o local para a festa da noite. A intenção era parecer-se com uma festa de Mardi Gras americana. Colocaram cada penduricalho, enfeite e mesa com capricho. As comidas e bebidas seriam servidas logo que a festa começasse. Certamente todos iriam amar a confraternização. Esperavam-se fantasias muito bonitas de todos. E uma festa cheia de paz e amor. O que eles teriam, porém, seria muito além das expectativas.

A noite caiu no Japão e em todo o resto daquela metade do mundo. O local da festa à fantasia estava lindamente decorado e iluminado. Os anfitriões responsáveis pela recepção, Coraline, Alexander, Neville e Mariana, estavam ansiosos pela chegada dos convidados. Cada um fantasiado de um jeito: a primeira de aborígene, o segundo de pirata, o terceiro de bruxo e a última de Carmen Miranda.

Apenas dez minutos depois, todos que aceitaram o convite começaram a chegar para a comemoração. Viam-se arlequins, pierrôs, colombinas, vampiros, morcegos, lobos, piratas, felinos, figuras históricas e muito mais. E logo de cara uma surpresa absurdamente divertida: Anne entrou na festa através da janela do piso superior em ágeis movimentos. Fantasiada de Mulher-Gato, do famoso seriado Batman. Dan estava de Charada e tinha chegado pouco antes. Alex segurou-se para não soltar o mais alto assovio. A brilhante e justa roupa preta caía perfeita no corpinho esguio da oficial Yuri.

– Anne, você tá muito perfeita com essa fantasia! Eartha Kitt, Julie Newmar ou Lee Meriwether? – riu Myra, fantasiada de duende feminina.

– Acho que um pouco de cada uma – respondeu ela sorrindo.

– Olha, tenho que te falar: Myra está certa. Você ficou linda – disse Mariana enquanto Alex tentava ainda encontrar as palavras certas. Muitas pulavam em seu cérebro, mas todas eram termos bem pouco adequados para usar-se em público. Ainda mais quando o namorado dela estava por perto.

A surpresa ainda maior veio trinta minutos depois. Quando Pierre Rembrant chegou trazendo uma jovem consigo. Soga cobriu a boca de espanto ao reconhecê-la. Todos os presentes, até mesmo o inabalável capitão Kiriyama, permitiram-se cair o queixo. A tanga de oncinha usada pela moça junto a uma reconhecível peruca preta de franja diferenciada e um par de sapatos de salto pretos fizeram incontáveis cochichos. Ametista olhou com horror: – Deus do céu, isso é muito vulgar. Quem deixa uma mulher sair assim na rua?

– Cala a boca, Ametista. Ela tá é maravilhosa. Não são todas que têm coragem de sair assim pra uma festa à fantasia. Bettie Page ainda é um ícone mesmo tendo sumido em 1958 – disse Myra batendo palminhas de felicidade.

– Porra – Alex bem que tentou conter o palavrão, mas até Anne viu-se concordando: – Caramba. E eu achando que era corajosa de me vestir de Mulher Gato.

– Eu sou mais você do que ela – disse Dan abraçando-a por trás.

– Seu bobo – riu a oficial gesticulando com a mão enluvada pelas garras de gata.

– Algo errado? – Pierre perguntou após cumprimentar todos.

– Nada. Pelo contrário. Essa festa vai ficar muito interessante – disse Janine desfazendo por apenas um momento sua máscara de indiferença. Seu traje de Pimpinela Escarlate destacava-se pelas cores brilhantes. E sua mente pensava: no fim, todos os homens são iguais. Babam loucamente por bundas e peitos. Se bem que ela tinha de fato um lindo corpo.

Olga espantou-se com o quase total silêncio após sua chegada. Entretanto, isso era sinal de uma coisa: todos estavam fascinados por ela. Riu para dentro imaginando o que Takeo diria se a visse usando um maiô tão sensual.

Ela, porém, logo afastou o pensamento. Nunca mais ele tomaria conta de qualquer parte de sua vida que fosse! Ainda era difícil livrar-se da imagem dele, mas conseguiria. Tinha uma nova vida e jamais no mundo voltaria aos tempos anteriores. Aquela humilhação nunca seria esquecida. A mágoa ainda permaneceria por um longo tempo. Decidiu-se a viver por conta própria. Iria mostrar aquele imbecil que era capaz sim de ser outra pessoa. Se algum dia eles se vissem de novo… Não, ela jamais queria olhar na cara dele novamente. Ele que ficasse com sua vidinha de homem casado e pai ao lado daquela alemãzinha aguada.

“Droga!”, pensou ela ao ver-se insultando alguém que não merecia e ainda pensando no ex-noivo. Franziska não tinha culpa se Takeo tinha sido um babaca. A garota quase implorou o perdão dela, se Olga bem se lembrava. Jurou que nunca pensara que seu amado fosse capaz daquilo. Recordou quase ter agredido a moça e de ter sido contida pelo irmão Shinya, que dissera para pelo amor de Deus a gaijin ir embora. O estrago estava feito e não havia nada a fazer para consertar. Tudo o que havia restado a Olga era uma reputação manchada, um coração ferido e uma vida quase totalmente arruinada.

Foi quando percebeu que Pierre tinha ido pegar um ponche na mesa. E que estava sendo observada por incontáveis olhos masculinos e alguns femininos. Uma ruiva alegre aproximou-se maravilhada: – Eu sou Myra Willows, da Irlanda. Garota, você tá perfeita. Até as medidas são quase iguais!

– Obrigada, Myra-san – Olga estava bastante nervosa. Quase arrependida de ter escolhido aquela fantasia. Sentia-se nua. Ela, porém, não iria se permitir ficar nervosa. Quis vestir-se daquele jeito. Inexistiam razões para ela envergonhar-se de exibir suas curvas.

– Aquela proposta ainda tá de pé, gracinha – a jovem olhou sem acreditar que ele estava na festa: – O senhor tem alguma boa razão para estar aqui e de novo dizer isso?

Alejandro Podestá mostrou o distintivo de agente da Interpol no México: – Estou acompanhando o diplomata mexicano aqui no Japão. De verdade, eu faria isso por você caso a senhorita aceitasse.

– Sinceramente, o meu sonho não é ser famosa. É ser feliz – suspirou ela como se estivesse cansada.

– Entendo – disse ele tentando não parecer um total tarado quando Pierre voltou com um refrigerante para Olga:

– Tudo bem?

– Tudo certo, só um cliente do bar onde eu trabalho que por acaso encontrei – respondeu ela ainda espantada por ele ser alguém importante.

– Nossa, não é muito comum ver homens da sua pinta por aqui – Pierre olhou-o com algum interesse.

– Meu patrão tem uma das suas esculturas de mulheres no escritório dele. Dada por um amigo de aniversário – respondeu Podestá bebendo uísque.

– Sim, eu me lembro dessa encomenda. Ganhei uma grana preta por ela. Demorei duas semanas, mas valeu a pena – respondeu ele.

– A réplica em gesso da Marilyn Monroe com a metade do tamanho original ficou perfeita. O homem adorou. Até queria te encomendar umas estátuas de jardinagem, mas acho que aqui isso não é comum – disse o outro rindo.

Olga logo percebeu que estava sobrando na conversa e resolveu comer algo, pois estava com fome. Foi quando Soga aproximou-se: – Não esperava vê-la em Tóquio. E menos ainda… com um traje desses.

– Problema com isso, Shinnosuke? – perguntou ela na defensiva.

– Nenhum. É apenas… espantoso. Eu soube de tudo. Sinto muito – disse ele como se sentisse culpa.

– Ficou no passado e que assim permaneça. Eu agora vou ser feliz aqui. Tenho amigos. Gente que realmente se importa comigo – disse ela como se acusasse Soga de tê-la abandonado. Percebendo o que fazia, acalmou-se.

– Apesar do que você claramente pensa, eu ainda me importo com você. Tem tanta coisa que… – disse ele mal conseguindo conter os sentimentos e lembranças que de repente vieram.

– Se você quiser, nós podemos conversar. Eu sei muito bem que você sempre se importou comigo, ainda que demonstrasse isso de forma estranha – respondeu ela rindo nervosa.

– Você não tem ideia de quantas vezes quis te pedir desculpas por aquela proposta. Claramente… me aproveitei de você. Da sua vulnerabilidade. Me arrependo tanto – ele bem que tentou conter as palavras, mas não pôde.

– Hoje é dia de festejar. Deixa essa tristeza de lado. Vamos deixar o passado onde ele está: atrás. Só isso – disse Olga firmemente enquanto Janine ouvia a conversa meio metro ao lado. A francesa bem que desconfiava que Soga não era um santinho. E de repente ele parecia bem mais interessante. Quis descobrir mais sobre o quão sujo ele já havia sido.

Dan, embora estivesse se divertindo muito com todos, em especial Anne, ouviu a conversa de Olga e Soga. E pôde ver o que ela pensava. Percebeu que seu amigo ainda tinha muitas pendências do passado para resolver. E que a jovem amiga dele ainda tinha um coração ferido de espinhos pelos fatos recentemente ocorridos. Mais do que isso, percebeu que a francesa Janine Boniface precisava urgentemente de ajuda.

Após aquele triste interlúdio, a festa continuou com toda a alegria. Todos queriam apenas festejar e sorrir.

Após a festa…

Dan e Anne tinham sido os únicos a ficar na casa após tudo ter sido arrumado. Era quase manhã. Os dois haviam ajudado os organizadores a arrumar tudo logo após o término ser oficialmente anunciado. Riram da enorme polêmica causada por Olga Gorisaki e sua ousada fantasia de Bettie Page. Nem mesmo o capitão Kiriyama conseguira manter os olhos longe da moça embora muito tivesse tentado.

Estavam ainda com as fantasias. Sentados de mãos dadas na sacada do segundo piso. Estavam felizes por finalmente estarem a sós. Não tinham tido tempo para isso desde Dan ter voltado. Era muito trabalho e ambos sempre ficavam cansados após longa jornada. As ameaças não davam folga. O que também não tirava férias eram os sentimentos de Dan por Anne e os dela por ele.

Só teriam tempo mesmo naquele momento para dormir pelo menos quatro horas. Resolveram fazê-lo juntos após tirarem as fantasias. Adormeceram de conchinha e mãos dadas. Queriam apenas o sono dos justos e bem aventurados.

O tiveram, porém, o dia seguinte seria apenas o começo de uma nova aventura da vida.

 

purple-204x263 Fantasia da Anne.

Fantasia da Olga: http://www.witaly.it/sites/default/files/4176/6566/45589-betty-page-leopardata.jpg

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