Corações Indomáveis – UltraSeven Fanfic – Capítulo 2: O regresso de Dan

Dois meses antes…

O trem tinha acabado de parar na última estação. Poucas pessoas haviam descido. Um deles um homem com uma única mochila nas costas. Outra, uma chorosa jovem com uma mala que parecia ter sido arrumada às pressas.

– Que carinha triste é essa, moça? Te vi assim desde Shiroishi – perguntou ele.

– Isso te interessa? – respondeu ela ríspida. A jovem não parecia ter disposição alguma para conversar.

– Sorte sua que ninguém no trem te reconheceu – disse ele segurando um jornal da região de Shiroishi.

Ela espantou-se: – Isso… é meu.

– Você deixou cair depois de tanto chorar, Olga Gorisaki. Eu sou Pierre. Pretende ficar em Tóquio? – perguntou o rapaz olhando-a de forma incerta.

– Sim, só que… eu não tenho muito dinheiro. E ainda por cima não tenho trabalho. Imagino que tenho sorte por você ter pegado isso. E por esse jornal não ser daqui – disse ela ainda tristonha.

– Só se você quiser, posso te ajudar. Tenho um amigo que pode te dar um emprego e você pode ficar no meu apartamento enquanto você não encontra um próprio. Não vale a pena você pagar essas pensões, elas vão comer o seu dinheiro todo em menos de meio ano. Sério – Pierre olhou-a.

– Você é maluco se pensa que vou aceitar isso assim. Nós nem nos conhecemos e você já vem dizendo isso? Sou uma mulher oficialmente solteira e ficar no apartamento de um homem que eu nem conheço seria… – ela espantou-se com a proposta, mas foi interrompida…

– Ruim pra uma reputação que você literalmente perdeu? Garota, você é a doida aqui, sabia? Posso não ser a melhor das pessoas, mas eu não vou ignorar uma pessoa que acabou de passar por toda a merda que você passou. Uma hora ou outra, essa história vai chegar até aqui e você vai acabar apontada por Deus e a galáxia toda. Se você quer um conselho, fica escondida por um tempo até a poeira baixar. O meu apartamento é um lugar perfeito para um caso como o seu. Falando sério – disse ele enquanto eles andavam para fora da estação.

Olga não soube inicialmente o que pensar daquele gaijin ruivo que havia se oferecido para ajudá-la sem nem ao menos conhecê-la direito. Tinha medo, mas por alguma razão que ela ainda desconhecia, aceitou a ajuda. De qualquer modo, sua reputação já estava atolada na lama. Pior não podia ficar. Ela nunca pensou estar tão enganada.

 

Presente…

Olga novamente limpava o apartamento. Suspirava zangada. Pierre não podia ao menos uma vez passar uma semana sem deixar tudo virado num chiqueiro? Eram tubos de tinta vazios, restos de argila em mesas, pincéis que há tempos não deviam conhecer uma limpeza decente e outras coisas na sala de pintura. As roupas de cama constantemente sujas de fluidos corporais das muitas mulheres que passavam a noite na cama dele. Isso quando as roupas dele não ficavam cheirando a saquê dos bares que ele frequentava em busca de amantes e modelos para os quadros e esculturas que fazia.

Ela tinha de admitir, porém, que, apesar desses pesares, ele nunca havia tentado nada de indecente com ela. Pierre a respeitava como poucos haviam feito desde que aquilo havia ocorrido com ela. A convivência entre eles era muito pacífica. Conversavam durante as refeições, pois, exceto por isso, ele passava o dia todo envolto em fazer arte para vender a ricos excêntricos que gostavam de coisas exóticas. E as coisas feitas por ele eram de todos os tipos, inclusive eróticas. Olga espantava-se com o talento dele para a pintura realista. Aquele doido parecia ter um talento natural para captar as emoções das pessoas. E os orgasmos delas.

A jovem nunca havia conversado durante uma refeição. Era considerado um ato de desrespeito à hora sagrada, mesmo em locais públicos. Ela, porém, gostava da experiência. Pierre era culto e viajado. Adorava livros e cinema mais do que televisão. Só não entendia nada de culinária, já que era Olga quem cozinhava. Antes de sua chegada, o rapaz sempre comia fora ou encomendava o que comer. Agora, Pierre apreciava plenamente as habilidades culinárias dela quando ela fazia o almoço e deixava o jantar pronto antes de sair.

No momento, a jovem de nome exótico trabalhava meio turno, à noite, em um bar atendendo clientes no balcão. Às vezes servia refeições e bebidas quando as garçonetes tinham as mãos cheias. Ganhava muito bem ao final de cada dia trabalhado. A dona a elogiava muito pelo trabalho embora tivesse algumas restrições com relação ao seu passado recente. No entanto, Olga procurava não causar problemas embora ouvisse gracejos de alguns fregueses bêbados.

Naquele minuto, tinha terminado de limpar o apartamento. Era o meio da manhã. Pierre aparentemente ainda se encontrava dormindo, porém, um ruído de algo metálico sendo depositado chegou aos ouvidos dela. Olga foi na direção do último quarto do corredor. Viu-o se exercitando. Confessou a si mesma achar aquele gaijin ruivo muito lindo. Pelo menos 1,90 m e um corpo altamente atlético embora ele não fosse exageradamente grande. Além de um visual que misturava antigo e moderno: uma barba sempre bem aparada e um bigode igualmente bem cortado que criavam um visual único.

– Obrigada de novo por limpar a casa. Eu sei que não sou o mais organizado dos homens – disse ele ao vê-la empoeirada.

– Você podia pelo menos tentar não sujar tanto. Sério, como você mantinha isso limpo antes de eu vir? – riu ela escondendo um claro nervosismo ao vê-lo de peito desnudo.

– A velhinha que morava embaixo às vezes vinha limpar e eu dava algum dinheiro pra coitada. Só que… ela morreu alguns dias antes de você chegar. Eu custeei o funeral e o túmulo. A pobre era solitária e ninguém foi reconhecer o corpo. Ela só não ficou no apartamento dela apodrecendo porque eu averiguei quando não a ouvi cantando o enka costumeiro – respondeu ele triste.

– Eu não sabia, desculpa – disse Olga a ponto de chorar.

– Tudo bem, não é como se eu falasse muito da minha vida pessoal. Se bem que você também não me falou muito da sua – disse ele largando o outro haltere que segurava.

– É tudo aquilo que você viu. Ficou no passado e quero que assim seja. Tenho uma nova vida e pretendo vivê-la mesmo que seja difícil – disse ela sorrindo embora Pierre notasse a tristeza ainda presente nos olhos dela. Uma parecida com a que ele havia sentido há muito tempo.

Olga ainda ficou um tempo ali, observando os aparelhos de ginástica. E secretamente, continuava olhando aquele corpo masculino. Ele virou-se para guardar o colchão de abdominais. As costas eram muito bem definidas e o traseiro definitivamente era bem esculpido. Pierre devia ter anos de musculação embora ele não fosse terrivelmente grande como alguns que ela vira em revistas fitness estrangeiras.

– Impressionada? – perguntou ele de surpresa.

– Considerando o modo como você leva a vida, me espanto que você ainda consiga tempo para ter uma vida saudável – disse ela passando os olhos pela sala.

– Não é porque eu gosto de aproveitar a vida que vou esquecer que isso só é possível se eu tiver saúde – respondeu Pierre reparando que ela na realidade o olhava. O gaijin, porém, nada disse. Sorriu para dentro apenas.

O clima alegre foi interrompido por barulho de tiros vindo da rua…

– Mas o que?! – Pierre correu à janela e viu uma cena no mínimo inusitada: um jovem havia imobilizado o que parecia ser um assaltante disposto a roubar uma senhora.

Olga quase se colou no amigo para ver o que acontecia ali fora. O gaijin espantou-se: – Espera, esse aí com certeza é o tal do Dan Moroboshi!

– Quem? – perguntou ela.

– Eu te falo depois. Vou descer. Ele levou um ferimento de raspão da arma do idiota que imobilizou – respondeu o rapaz saindo do apartamento e descendo os três andares em corrida.

A jovem seguiu-o querendo saber de onde Pierre conhecia o tal Dan. Chegaram quase ao mesmo tempo ao térreo enquanto Dan tentava enrolar o ferimento com um pedaço de pano retirado de uma bolsa de viagem. E a polícia prendia o meliante.

– Você é… Dan Moroboshi? – perguntou Pierre, que sem querer chamou a atenção da rua inteira por estar sem camisa.

– Sim. Só que… eu acho que sou o menor dos seus problemas – Dan olhava em volta e percebia incontáveis olhares reprovadores. E alguns que escondiam segundas intenções.

– Deixa esse pessoal. Não é como se eles pagassem as minhas contas. Vem comigo, eu cuido disso – o gaijin ofereceu ajuda.

– Desculpe, mas não conheço você – Dan olhou-o com receio.

– O meu amigo Alex do Esquadrão Ultra me falou de você. Suponho que você tá voltando pra lá – Pierre sorriu.

– Eu conheci esse moço de quem você fala. Ele me pareceu uma boa pessoa. Tudo bem, se insiste em me ajudar – respondeu Dan andando para dentro do prédio.

– Eu também tenho um amigo no Esquadrão Ultra, o Soga. Como será que ele está? Faz uns anos que não o vejo – disse ela enquanto eles subiam de volta.

– Sério? Você não tinha me falado disso – Pierre olhou-a.

– O Soga era meio que… meu cupincha na escola. E depois trabalhou com o meu pai, porém, um dia as coisas deram errado. E ele foi embora para cá e desde então nunca mais o vi – respondeu ela receosa.

– E de onde, você é, Pierre? – perguntou Dan.

– Sou da Irlanda com origem francesa – sorriu o gaijin para depois observar o recém-chegado com certa atenção.

Os três entraram no apartamento. Pierre correu ao banheiro para pegar curativos, antisséptico e um analgésico. Foi quando Dan perguntou à Olga, ao lembrar-se de que não conhecia muito do passado dos membros do Esquadrão:

– O que é um cupincha? Como assim o Soga era isso?

– “Cupincha” quer dizer alguém que faz aquilo que você manda. Um fiel escudeiro. O Soga costumava andar comigo na escola e até mesmo… tinha uma paixonite por mim. As, coisas, porém, mudaram quando nós crescemos. Ele passou a trabalhar com meu pai e fez algumas coisas que eu prefiro não comentar. Foi então que ele quase morreu durante uma primavera e acabou aceitando o convite do capitão Kiriyama. Papai ficou furioso não me pergunte o motivo – respondeu ela desejando não alongar-se no assunto.

– Tudo bem se não quer falar sobre isso, eu entendo – disse Dan no momento em que Pierre voltava: – Melhor você colocar essa camisa pra lavar, ela tá meio suja.

– Obrigado pela ajuda – disse ele retirando a peça e olhando o ferimento ainda sem tratamento.

– De nada. Por hoje seria bom você ficar por aqui. Tentar viajar até o Esquadrão com um braço enfaixado não me parece uma boa ideia. E esses bandidos andam cada vez mais ousados – disse o irlandês começando a tratar do ferimento.

– Desconfio que aquilo que não era apenas um assalto. Provavelmente eu impedi um assassinato – disse Moroboshi repentinamente.

– Como assim? – perguntou Olga espantada ao passo que Pierre limpava o braço do alien.

– Confesso que não sei explicar, mas tive a sensação de que algo trágico ocorreria se eu não tivesse interferido – o alien dizia com preocupação.

– Que razão teria esse homem pra fazer isso com aquela senhora? – o gaijin olhou com estranheza.

– Eu não sei, mas ele teria feito com certeza – Dan respondeu firme ao que seu anfitrião respondeu: – Levando em conta que você é o UltraSeven, eu não duvido.

– Que?! – perguntou ele querendo afastar o braço, mas sendo segurado: – O Alex me falou de você e do seu segredinho que só a Anne sabia antes de todos descobrirem que você era o gigante de luz. Olha, eu não me incomodo com o que você é ou deixou de ser. Você salvou a Terra e isso pra mim é o que interessa.

– Agradeço – respondeu ele ao que Olga mal conseguia segurar a boca fechada. Seu queixo parecia a ponto de cair no chão: – Nossa.

– Olga, você se importa de fazer algo pra ele comer? – Pierre sorriu.

– Não me incomodo até porque tenho que preparar nosso almoço – respondeu ela agora alegre ao que o alien perguntou: – Que mal eu pergunte, mas, por que seu nome é “Olga”?

– Minha mãe gosta de nomes exóticos. Em russo, meu nome quer dizer “santa”, “sublime”, “consagrada a Deus”, porém, de santa não tenho nada. Não é como se eu tivesse algum dia sido, de qualquer modo – a jovem entristeceu-se de repente.

Dan não pareceu importar-se com aquelas palavras. Pierre, porém, notou que mesmo após aquele tempo de convivência, ela ainda não esquecera. No entanto, dois meses era muito pouco tempo para ela superar uma situação como aquela. Suspirou com algo de tristeza, pois ela no momento lembrava muito ele mesmo há alguns anos.

Naquele momento, Olga ausentara-se para preparar o almoço. Cortava legumes com a intenção de preparar um almoço variado quando se pegou pensando em Pierre de peito nu. Sentiu um inacreditável calor subindo pelo corpo inteiro, por pouco não se cortando com a faca devido à “viagem”. Largou o instrumento e respirou fundo. Não podia se permitir aquilo, não quando mal o conhecia! Ou será que ela podia? Foi quando percebeu que pela segunda vez na vida não sabia o que fazer diante de uma situação inesperada. Determinou-se a ignorar aquilo, pelo menos naquele momento. Afinal, precisava preparar o almoço, pois também sentia fome.

Esquadrão Ultra, mesmo momento…

– Alguém… desconfia? – perguntou ela sozinha com o capitão na sala de reuniões.

– Acho, apenas acho que minha equipe original é a única que realmente sabe, Irina. Eles viram… quando nos beijamos pela primeira vez – Kiriyama via-se apreensivo.

– Eles só viram nosso beijo, isso não quer dizer que eles realmente saibam – a soviética olhou-o incerta.

– Eles são todos adultos, Irina, é impossível eles não saberem que nós já passamos desse ponto. Claro que eles não dirão nada por respeito a mim, mas o Furuhashi já andou me aconselhando. Não que eu tenha seguido o conselho, de qualquer maneira – ele riu nervosamente.

– É forte demais, porém, há limites que… talvez nunca consigamos ultrapassar – Irina entristeceu-se ao lembrar-se da condição de Kiriyama, que logo olhou-a:

– Deus sabe o quanto eu gostaria de estar livre do meu compromisso, mas, isso acabaria com tudo o que conquistei até hoje. E eu não saberia viver sem o meu Esquadrão. Alguns deles são como meus filhos. Não posso simplesmente abandoná-los quando mal estão amadurecendo como pessoas – disse ele parecendo não ter certeza das próprias palavras.

Irina sabia até demais que o divórcio não era um tabu desde tempos antigos. No entanto, certos casos de casamento envolviam bem mais que apenas uma troca de alianças e um papel assinado. O caso de Kaoru era esse com certeza. Possivelmente o sogro devia ser alguém importante. O pouco que sabia da família de seu amante era sobre a mãe dele ser uma senhora na casa dos sessenta anos e o pai já ser falecido.

Ela olhou-o cheia de incertezas. Ele devolveu o olhar sem saber se tudo aquilo um dia se resolveria.

Esquadrão Ultra, campo de treinamento…

Amagi estudava. Afinal, todo o bom estrategista sempre tinha de estar atualizado. O jovem, porém, não estava tão concentrado como gostaria. Sentia-se desconfortável. O motivo: Gibraltar Ibañez treinando no campo ali perto.

Era normal sentir-se estranho sempre que o via? Aceitável suar frio quando ele passava olhando-o de forma incerta e claramente maliciosa? Pensar nele de forma inesperada? Sorriu, porém, quando se lembrou de Maricruz. Tão linda. Tão doce. Cheia de qualidades e dona de uma personalidade forte. Queria ter coragem de dizer tudo o que realmente sentia, mas, a mesma lhe faltava. Especialmente porque não sabia como lidar com as sensações que estava redescobrindo. Nunca tivera algo como aquilo desde o internato.

Claro que Amagi tinha sido adolescente e nessa época descobrira muitas coisas. No entanto, seu excessivo foco nos estudos, imposto pela família, o impedira de ter muitos relacionamentos. E havia uma grande diferença entre adolescência e idade adulta. Um adulto podia pensar em certas coisas de forma bem mais racional e calcular os riscos de certas decisões. Uma coisa que a maioria dos adolescentes não costumava fazer. Entretanto, o jovem oficial sentia como se voltasse à adolescência.

Não entendia o motivo de sentir-se de novo daquela forma. Ao mesmo tempo em que queria chegar para Maricruz e dizer-lhe seus sentimentos, queria outra coisa. Olhar nos olhos de Gibraltar e dizer como se sentia.

O destino decidiu que lhe daria aquela oportunidade. Na forma do oficial espanhol se aproximando de onde o colega japonês estava: – Algo errado? Não é costumeiro te ver devaneando.

– Não me sinto muito bem, acho que vou para meu dormitório – respondeu Amagi levantando-se, mas sendo contido pelo espanhol: – Eu sei o que você tem.

– Sabe? – perguntou o outro espantado.

– Eu reconheço essa sensação porque já a tive – disse o gaijin “latino” indicando que ele voltasse a se sentar.

– Como assim? – Amagi olhou-o sem entender.

– Você realmente não entende e possivelmente não o fará tão rápido – Ibañez disse suspirando.

– Talvez eu saiba, mas não quero admitir. Não é como se fosse… – Amagi pôs as mãos no rosto em um gesto cansado.

– Correto? – Gibraltar riu e logo disse: – Há tanta coisa incorreta nesse mundo, meu amigo. Ser bissexual ou abertamente gay não é nada censurável, exceto se você for um idiota de mente fechada como muitos são.

– Eu não sei dizer se gosto ou não disso – disse Amagi olhando para o espanhol com incerteza.

– Um conselho: não reprima seus sentimentos. Sufocar isso só vai te causar mal. Eu não me envergonho de assumir que ambos os lados me atraem e você também não deveria. Não vejo razão para alguém tão bonito se envergonhar de si mesmo – disse ele se aproximando a sorrir.

– Gilbraltar, não. Por favor, não… faça isso – o jovem reconhecia aquela reação dele.

– Então alguém já tentou? – riu o espanhol.

– Um colega meu quando eu ainda estava no internato. Só que fugi quando vi que ele ia me beijar. Se alguém visse, só Deus sabe o que iria acontecer – respondeu ele olhando o local totalmente deserto.

– Consigo imaginar. Foi uma situação assim que me levou até aqui – replicou Ibañez.

– O capitão comentou isso com alguém esses dias. Você foi muito impulsivo. O pai daquele soldado podia ter feito coisa muito pior com você – Amagi espantava-se ao relembrar o que ouvira.

– Ele quis e eu também. Ninguém precisava ter sabido, porém, os espanhóis são fechados demais para aceitar a total liberdade. Não é à toa que o meu país continua sob a ditadura do desgraçado do Franco. Só quando eles realmente começarem a perceber onde estamos indo com isso é que eles vão se soltar. Espero eu que isso termine logo. Preferencialmente com aquele porco morto. Sem isso, não volto à Espanha nem amarrado – Gibraltar bufou de raiva.

– É impossível prever o futuro – Amagi entristeceu-se ao vê-lo com tanta raiva. Ibañez era bonito demais para estampar tanto ódio em si mesmo.

– Bem, é possível prever o futuro se você tiver vontade de fazê-lo melhor – respondeu ele amaciando a própria raiva.

Amagi nada disse em resposta, apenas respirou fundo tentando evitar encará-lo diretamente por mais de um minuto. Foi quando sentiu a mão de Gibraltar sobre a sua: – Quanto ao conselho, falei sério. Pense nisso. É sobre a sua vida e as suas escolhas. Cada uma delas vai afetar diretamente todo o seu futuro.

O japonês responderia, mas quando se deu conta, Ibañez já se afastara a passos ligeiros. Foi quando o estrategista visualizou Soga no perímetro: – Meu… Deus. Será que ele viu?

Soga vira. No entanto, sua expressão era indecifrável. Nada de fúria ou alegria. Na realidade, não era como se aquele assunto fosse de fato da conta dele. Só esperava que não ocorresse nada de ruim em razão disso.

Dia seguinte, apartamento de Pierre Rembrant…

Dan Moroboshi acordou sentindo-se bem melhor. O braço continuava enfaixado, porém, o alien tinha condições de sair em direção à sede do esquadrão. No entanto, queria agradecer a boa acolhida e despedir-se devidamente. Decidiu-se a esperar. Foi quando ouviu a porta do apartamento sendo aberta. Correu para impedir a suposta invasão quando deu de cara com Alexander Vidal, o oficial americano…

– Você?! – os dois exclamaram ao mesmo tempo.

– Você e o Pierre-san se conhecem? – Dan espantou-se ao perceber que ele tinha uma cópia das chaves do apartamento.

– Somos amigos desde a adolescência. Vim aqui trazer umas coisas que ele me pediu no mês passado. Não esperava te encontrar aqui. E muito menos com um curativo. Aconteceu alguma coisa? – Vidal ainda estava surpreso.

Moroboshi resumiu ao máximo a história do dia anterior e disse que estava de volta definitivamente.

– Tão cedo? Quer dizer, levando em conta todos os ferimentos que você sofreu há um ano e cinco meses, achei que você voltaria bem depois. Mas estou feliz que você está de volta – sorriu ele, mas logo pôs a mão no queixo em dúvida: – Pelo que você me descreveu, acho que sei quem é a pessoa. Saiu no noticiário hoje cedo.

– A gravidade dos meus ferimentos me fez demorar muito a voltar, mas agora, eu definitivamente estou na Terra. Quanto a isso, não acompanhei porque seu amigo não tem televisão aqui – Dan olhou em volta.

– O Pierre abomina televisão. E com sinceridade, eu entendo – Alex colocou as duas sacolas na mesa do centro e sentou-se no sofá.

– O seu amigo é um excelente pintor, mas algumas temáticas dele me assustam um pouco – comentou o alien com algum receio.

– Eu sei disso. Acompanho a carreira dele desde que ele começou. Pierre sempre foi atraído por polêmica. E garotas, muitas garotas – riu o americano quando Pierre surgiu na sala apenas de cueca: – Parece que você e o UltraSeven se deram bem logo de cara, de novo.

– Faça a gentileza de me chamar de Dan, por favor – o guerreiro alienígena ruborizou-se.

– Desculpe. E finalmente você trouxe as tintas que eu te pedi. Demorou, Alex – o irlandês riu alto.

– Essas tintas custam um rim ou os dois. E são difíceis de encontrar. O capitão queria me matar porque eu usei demais o telefone da base – o americano olhava-o como se dissesse: Pelo amor de Deus, sem essa.

– Pierre, eu gostaria de agradecer sua excelente acolhida, mas, preciso voltar à base. O Esquadrão Ultra espera por mim – sorriu Moroboshi.

– Pelo menos um desjejum você faz? – perguntou o anfitrião.

– Pode ser. Não é incômodo algum. Possivelmente Olga já está fazendo o café da manhã. Ouvi quando ela levantou – comentou Dan lembrando-se da expressão triste dela no dia anterior.

– Olga? Pierre, você não me falou da sua nova amiga. Quanto tempo já faz? – Alex surpreendeu-se.

– Não tive nada com ela. Só estou ajudando a moça com a situação ruim que ela passou – disse Pierre de modo determinado e Vidal logo compreendeu que o amigo falava sério…

– Me apresenta ela? – perguntou o americano cordial.

– Ela está na cozinha preparando o café. Vou me vestir enquanto esperamos – disse o irlandês disparando para o quarto onde dormia.

Minutos depois, uma bela moça apareceu na sala com duas bandejas: – Bom dia, Dan. Bom dia, senhor desconhecido.

– Alexander “Alex” Vidal, amigo do Pierre. Suponho que você é Olga – disse ele impressionado com o contraste entre o nome e a jovem que o portava. Ela tinha 1,65 m de altura e belas curvas. O tipo de garota que Pierre adorava.

– Sim, eu mesma. Imagino que o Pierre foi se vestir. Ele tem o costume bizarro de receber as visitas próximas em trajes menores – riu ela colocando as coisas na mesa e dizendo que ia buscar as outras.

Dan imediatamente ofereceu-se para ajudá-la. Ela receou-se, mas aceitou. Mais tempo passou-se e três rapazes e uma moça tomavam café juntos. Olga espantava-se com o fato de estar tomando o desjejum acompanhada de três homens muito bonitos. Perguntou-se o que sua mãe diria se visse aquela cena. Viu-se querendo notícias de sua família em Shiroishi.

Foi quando Alex lembrou-se de onde já a tinha visto. Puxou assunto: – Soga perguntou sobre você esses dias. Ele me contou a sua história. Costuma receber jornais da região onde morava.

– Eu não gosto de tocar nesse assunto, mas, diga ao Soga que agradeço pela lembrança. E avise a ele que estou bem – respondeu ela séria.

– Alex, sério mesmo? – Pierre bufou.

– Não pude evitar, desculpe, mas… o seu rosto estava estampado naquele jornal – respondeu Vidal comendo um pedaço de pão.

– Tudo bem, não estou brava, apenas me sinto desconfortável com isso. Nunca é fácil tomar um chute no traseiro – respondeu ela triste.

– Sinto muito, seja o que for o acontecido. Saiba que se precisar de mim, estarei aqui – disse Dan querendo confortá-la.

– Agradeço, mas não preciso, pelo menos não agora – ela agora sorria.

– Excelente desjejum, senhorita Olga, porém, preciso ir logo. Farei apenas uma higiene rápida e… Alexander, poderia me levar de volta com você? – disse o alien com receio.

– Nenhum incômodo. Pelo contrário, será bom ter companhia durante o trajeto – respondeu Vidal a sorrir.

Quinze minutos depois, Moroboshi despediu-se de Pierre e Olga, agradecendo pela acolhida e os curativos. Alex abraçou o amigo e apertou a mão da jovem em despedida e logo os dois desceram para a rua com intenção de ir ao Esquadrão Ultra.

O trajeto de volta durou quase uma hora em razão do trânsito em algumas partes. Dan desceu do carro alegre como não estivera desde ter ido embora. Vidal encostou-se ao carro cruzando os braços: – Você se sente em casa por aqui, não é?

– Foi aqui… que eu… me encontrei como ser humano – disse ele emocionado.

Vidal nada disse, apenas sorriu levando Dan para a sede do Esquadrão.

Aquela manhã foi repleta de abraços e alegria, pois os membros originais celebravam o retorno do grande amigo. Fizeram incontáveis perguntas e o encheram de felicitações. Diziam-se ansiosos para trabalhar com ele novamente. Os outros membros o felicitavam pelo retorno e desejavam que ele tivesse excelente permanência. Anne, por sua vez, queria jogar-se nos braços dele e dar-lhe todo o amor que guardara desde então.

Mal sabiam eles que teriam de lutar por seu amor e por todo o planeta.

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