Orgulho e Teimosia

Primeiro: eu gosto de Jane Austen apesar de ter lido apenas alguns trechos das obras dela.

Segundo: o título dessa resenha muito bem poderia referenciar Orgulho e Preconceito, mas, não. Esse título tem mais a ver com a protagonista do livro do qual esse texto vai tratar.

Terceiro: É um excelente livro e vocês irão saber o porquê a partir do próximo parágrafo.

Jardim de Espelhos, da minha amiga escritora Veridiana Maenaka (que se Deus quiser eu ainda vou abraçar com muita força e agradecê-la por existir e ser quem é), é um dos poucos “romances de época” brasileiros passados no Brasil. Quer dizer, até onde eu sei. Pois infelizmente não achei uma relação precisa de quantos livros desse gênero existem aqui. Passados no Brasil são certamente poucos. Pelos mais variados motivos. E não vou especificá-los porque decididamente não é isso que pretendo discutir nessa resenha.

O que pretendo é fazer com que cada um de vocês entenda porque é altamente necessário (grafe isso em letras graúdas) ler esse livro. Não apenas por ser excelente. Não apenas por ter personagens bem construídos e excelentes. Não apenas por ter um desenvolvimento fantástico. Não apenas pelo final algo inesperado. Não apenas pela excelente protagonista que mostra a que veio sem rodeios.

É tudo isso e mais um pouco.

Pense na seguinte situação: você é uma moça de dezesseis anos na São Paulo de 1896, sozinha e desamparada após fazer descobertas que fariam qualquer um querer fugir sem rumo. O que você faria? Acharia um emprego e tentaria viver disso mesmo sabendo que naquela época era tudo completamente diferente com relação às mulheres? Estou ouvindo um coro dizendo “sim”?

Bem, a protagonista, chamada Maria Cristina Ribeiro, ou simplesmente Cristina, tentou viver uma vida normal, só que, ser muito bonita a levou a um caminho que nenhuma mulher deveria seguir. Ok, Lady Trotsky, explique melhor.

Voltemos a 1880, no Vale do Paraíba, onde uma jovem e sua mãe estão vivendo praticamente isoladas do resto do planeta por um motivo muito complicado: a senhorita em questão está grávida e é solteira. Adivinha o que a senhora em questão planeja? Se não souberem responder, eu entendo. Poderia ter sido pior. E inclusive, a senhora Ivone chegou a dizer isso na cara dura no livro. No entanto, a resposta ainda é muito cruel: ela rejeita a netinha recém-nascida e a entrega nas mãos de uma mulher humilde que não gosta de crianças, mas ama dinheiro. E tem um marido que definitivamente não merece qualquer comentário positivo.

Claro que essa história de um casal tão… disinfiliz desses (para não usar palavras piores) criar uma criança nem brincando poderia terminar bem. Crescendo sem nenhum afeto da parte da família adotiva e sem saber nada sobre as próprias origens, além de sentir desde sempre que nunca foi realmente bem vinda entre eles, Cristina desenvolve um temperamento forte e muito genioso que vai levá-la a caminhos muito complicados e dolorosos. E fazê-la tomar algumas decisões muito idiotas. Sendo apenas uma delas a causadora das desventuras dela em São Paulo que a levam até uma certa senhora de nome Olívia Durão. Conhecida alcoviteira da cidade que tem meio planeta nas mãos por mais que a atividade dela seja “ilícita para os homens e condenável para Deus”, pelo menos no ponto de vista de um dos personagens, Guilherme, que protagoniza com Cristina algumas das melhores conversas do livro. Eu até diria que se não fosse pela existência de outro personagem masculino, o Eduardo, de quem falarei mais adiante, ela poderia muito bem ter ficado com ele.

Imagino que irão perguntar: o que é uma alcoviteira? Bem, isso significa que Olívia treina moças “com potencial” (segundo ela própria) para serem acompanhantes de alto luxo ou em bom português, prostituta de alto nível. (Imaginem a Andressa Urach quando ela ainda era “Ímola”. Certo, vou ser MUITO xingada depois dessa porque sei que a comparação não funciona 100% bem. As épocas e contextos são diferentes. A Veridiana vai me matar certo.)

Depois disso, eu e muitos outros que lemos o livro imaginamos que a Cristina adquiriu incomum dureza após tanto tempo nessa história, já que a trama dá um salto de pelo menos alguns anos. A autora não precisa quantos, mas pelas minhas contas, foram pelo menos três ou quatro. E é aí que a Cristina, apesar de sempre se mostrar forte e resoluta em tudo, mostra uma face um tanto romântica e infantil, algo decididamente não condizente com quem ela é, porém, é compreensível por um lado e muito irritante por outro. Compreensível porque no fundo, ela nunca realmente lidou com essa situação, leia-se, dizer na cara dele algumas verdades sobre os fatos e nunca deixou realmente claro se ela continuava ou não amando o André. Para quem não percebeu ainda, ele é o responsável por ela ter “se desonrado”. Irritante porque desde o começo sabemos que esse reencontro vai ter consequências no mínimo desastrosas e Cristina parece ser a única a não ver que o antigo amorzinho é um playboyzinho sem qualquer maturidade ou sentimentos verdadeiros.

Entretanto, mesmo o André não parece, a princípio, saber se ama ou não a Cristina, pois ele também nunca lidou com essa separação de fato. Nunca realmente ponderou a situação de forma racional. No fundo, porém, é bem evidente que os sentimentos dele nada mais são do que uma maneira de tentar reparar os erros dele tardiamente. Só que ele não se lembrou de, ou deliberadamente ignorou, uma coisa: reparar um erro cometendo outro ainda pior não é a forma certa de agir. Dizer simplesmente “eu sinto muito se te causei mal” também não colabora 100%, mas é melhor que dar falsas esperanças. A grande dor passa logo e pelo menos é só uma. Melhor do que viver com uma mentira 24 horas por dia.

Como em qualquer história realmente boa, existe aquele conflito: a protagonista se determina a reconquistar seu amor de infância e a voltar à sua antiga casa triunfante. É aí, porém, que surge Eduardo Marques, que possivelmente é o mais sensato e também o mais provocador, e provocantemente delicioso, personagem masculino da trama. Que definitivamente merece um lugar no meu coração por ser tão bondoso sem perder o jeitinho jocoso-tonto com a Cristina, com quem ele protagoniza os diálogos mais engraçados e/ou apimentados da história. É impossível não soltar pelo menos algumas gargalhadas quando eles conversam ou ficar incrivelmente perplexo com a sinceridade absurda dele com relação a ela. E é mais impossível ainda não torcer para ele de todas as formas.

Com certeza eu devia ter dito isso antes, mas, se eu tivesse de definir quem é o grande antagonista da história, eu diria que esse prêmio vai para Ivone Monteiro por merecimento. E a filha dela, Henrieta, decididamente mereceria, pelo menos até certo ponto da história, o título de “capanga relutante de vilão”, porque ela realmente sabe como se estragar aos olhos de quem lê o livro, porém, tenho de deixar muito clara uma coisa: o livro se passa há mais de cem anos, ou seja, algumas atitudes daquele tempo seriam impensadas nos dias atuais, ou nem tanto, já que algumas delas ainda não “saíram de moda”, por assim dizer.

Com sinceridade, eu nunca tinha conhecido uma personagem tão odiosa e sem coração como Ivone e olha que eu já vi uma penca desses em todo o tipo de mídia. Como se não bastasse ela ter rejeitado a neta, ela ainda faz isso pela segunda vez e de todas as maneiras, acaba sendo a principal culpada por Cristina acabar indo por um caminho pelo qual nenhuma mulher deveria seguir por mais que riqueza, conforto e estabilidade sejam tentadores ou como a Henrieta diz a certa altura: a pior degradação a que uma mulher poderia se submeter.

Ivone é, muito possivelmente, uma daquelas criaturas que nunca realmente aprendeu a amar e só se preocupa com a opinião dos outros ao invés de tentar ver as coisas de uma maneira menos idiota e mesquinha. Uma daquelas pessoas da quais nem pena você é capaz de sentir por mais que você tente ver as coisas por outro ângulo. É nojo misturado com ódio. O mesmo podendo se dizer da Matilde, cuja situação chegou a me causar certa piedade em um momento. Embora eu continue achando-a uma sacana completa. E isso é apenas um pouco do que vocês verão ao lerem.

Falando um pouco mais, eu me lembro de um dia em que o marido da autora, o também escritor, por sinal excelente, Walter Tierno, disse que o livro tinha certas semelhanças com as novelas de época das seis da Rede Globo, só que com bem mais pimenta. Essa será a primeira, e espero que a única, vez que discordo veementemente dele. Jardim de Espelhos nos proporciona uma série de sérias reflexões muito mais profundas do que qualquer uma dessas tramas televisivas por melhores que elas sejam ou tentem ser.

Uma sendo: você seria capaz de ir até onde a Cristina foi em nome do que ela acreditava e queria? Isso não se refere apenas a tudo o que eu disse até então, tem bem mais por trás. Só pensem em como ela se sentiu descobrindo que nunca teve nada na vida, sequer afeto, por que alguém disse que ela não tinha esse direito só por ter nascido fora do casamento? Ivone poderia ter agido de outra forma? Talvez, se ela tivesse mais caráter, coisa que ela prova desde o começo que não tem sequer um pingo. Claro que as alternativas ao que ela fez não seriam as melhores (uma delas não seria aborto com certeza, pelo menos em minha opinião), porém, quem sabe se ela tivesse ponderado um pouco mais, as coisas podiam ter sido diferentes. No entanto, a autora fez de um jeito e nunca saberemos qual seria o outro, a não ser que ela faça um “What If” (O que teria acontecido se…?). Eu não acharia má ideia fazer desse ponto ou de qualquer outro. Diria até que seria uma maneira de exercitar várias possibilidades. (Veridiana, favor anotar isso.)

Enfim, Jardim de Espelhos é um maravilhoso livro cheio de orgulho, teimosia, desejos de vingança, desejos de amor, desejos físicos, loucuras, diálogos excelentes e personagens extraordinariamente humanos. Recomendo muito fortemente para quem quiser um “romance de época” bem brasileiro e com uma qualidade que só os melhores escritores podem proporcionar.

Até a próxima, vou à busca de novas aventuras. Quem sabe eu procuro onde o amor se esconde, talvez eu procure Roma e seus imperadores, quiçá pego o trem fantasma, posso ter com um condenado em algum lugar da Inglaterra.

Ou qualquer coisa.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s