A estupendamente teimosa menina do cemitério

Start your engine! Engatando a marcha da TARDIS rumo à história de Rani e o Sino da Divisão, do meu amigo, e excelente escritor, Jim Anotsu. Bem, dama teimosa, do que se trata essa história com um título tão peculiar?

O livro em questão conta a história de uma adolescente chamada Rani. Sim, esse é o nome da protagonista que dá nome ao livro. Ok, Lady Trotsky, de onde veio tal nomenclatura? É bem pouco comum encontrar garotas com esse nome, para não dizer impossível. Colocando a nota escrita de próprio punho por nossa linda protagonista: Sim, é meu nome verdadeiro. Rani Albuquerque Paleto. Minha mãe já foi hippie e tirou a ideia de um poema indiano. Hoje ela é uma médica certinha e tão chata que tem mestrado e doutorado. O nome do poema é Rani e foi escrito por um tal de Thirunalloor Karunakaran. Agora tente falar isso rapidamente três vezes seguidas.

Confesso que tentei, mas desisti na 2ª tentativa porque indiano não é meu idioma favorito. E mais uma informação: Rani (em inglês “The Rani”) é também o nome de uma das grandes vilãs da série britânica Doctor Who, que tinha como sua atriz a já saudosa Kate O’Mara. Sim, meus amigos leitores, o Jim Anotsu é whovian. E fica ainda mais adorável por ser desse jeito.

Dama teimosa, fale sobre a trama do livro. Já disse que conta sobre uma adolescente chamada Rani. Qual parte disso você não compreendeu? Ah, eu não disse uma coisa: a protagonista é uma xamã. E por conta dos poderes descobertos, se envolve com um grupo de seres sobrenaturais chamado “Animais de Festa”, que só querem festejar e viver a vida como se não houvesse amanhã. É como diz a tag do clássico oitentista Os garotos perdidos: Dormir o dia todo. Festejar a noite toda. Nunca ficar velho. Jamais morrer. É divertido ser um vampiro. (Lobisomem, demônio, ou qualquer coisa parecida com no caso do livro.)

Só que nem tudo é diversão na vida por mais que tentemos pensar que é. E o atrapalho vem na forma do grande vilão da história, um xamã maligno chamado Aiba, que se alimenta da força vital de seus semelhantes com intenções muito sinistras.

Apenas imagine Rani e o Sino da Divisão como uma aventura do Doutor. Troque, porém, o timelord por uma menina negra de cabelos cacheados apoteoticamente adolescente e o/a companion pela melhor amiga dela, uma baterista punk death metal chamada Marina. E substitua a TARDIS por uma casa temperamental chamada Gertrudes, além de imaginar Aiba como sendo a contraparte dos alienígenas e/ou humanos vilões recorrentes. E imagine “Os Animais de Festa” como sendo outros aliados, ou melhor, a UNIT em uma forma não muito organizada. (Com Pietro ou a Valentina sendo o Brigadeiro, *risos*. Mais ele porque ela tem um temperamento do cão de tão genioso. Devo dizer, um tanto parecido com o meu.)

Essa aventura toda poderia ser resumida a apenas uma frase, mas só isso seria um verdadeiro insulto ao quão maravilhoso é esse livro. Rani faz de tudo e mais um pouco para controlar seus poderes e de preferência, não ser forçada se aliar com uma gente muito desagradável que chega no decorrer do livro. Além é claro, de se aventurar em outro mundo e até mesmo tomar contato com quem teoricamente está morto há pelo menos um século e lá vamos nós. E claro, descobrir que nem tudo é o que de fato parece, além de cometer a típica burrada básica de adolescente: achar que pode carregar o mundo nas costas. Coisa que eu, você e um monte de outros já fizemos ao menos uma vez na vida seja qual fosse o motivo. Claro que o motivo da protagonista viria ao caso se o mesmo não fosse um gigantesco spoiler. Por isso seriamente quero que leiam.

Entretanto, nem só de aventura o livro é composto. Jim Anotsu proporciona algumas reflexões bem sérias em relação a alguns assuntos, especialmente sobre como o mundo e a vida funcionam no ponto de vista de um adolescente. E até mesmo dos adultos quando Rani visita Calafia, uma terra predominantemente feminina. É quando observamos alguns dos hábitos do reino em questão, um deles bem questionável, mas, é aquela história, como a própria protagonista diz em muito sábias palavras: era impossível pedir que vivessem ou pensassem como eu.

O autor nasceu homem e se identifica como tal, mas entende como ninguém o que nós mulheres passamos apenas por querer fazer nossas próprias escolhas e não sermos obrigadas a nos ater a coisas que não queremos. Destaquei isso não apenas por conta das reflexões proporcionadas pelo livro, mas também por: Rani é uma das poucas protagonistas mulheres (não importa se jovenzinha ou madura) e negras da nossa literatura e só por isso esse livro já é um achado e tanto. Estamos em 2015, mas, ainda precisamos andar muito para obter um mundo realmente igualitário capaz de respeitar as diferenças.

Com as aventuras e reflexões, porém, vem um bocado de comédia em forma de umas quantas frases hilárias ditas por Rani. E o livro não demora nada em nos fazer rir feito bobos. E continua assim em TODOS os capítulos. Só para vocês terem uma ideia do que espera vocês durante a leitura, logo na página seguinte do primeiro capítulo: Se a palavra alemã Schadenfreude – que significa aquele sentimento de felicidade com a desgraça alheia – tivesse uma voz, definitivamente seria a do meu pai. Ele era o tipo de pessoa que assistia South Park comigo só para ver o Kenny morrer no final de cada episódio. (Nota: Eu devo ter demorado dez minutos para retomar a concentração na leitura porque eu não parava de rir me lembrando da frase citada. É claro que não estava pronta para a quantia insana de vezes que enterrei a cara no livro de tanto dar risada. Na maioria tensa das vezes dentro de um ônibus cheio. Imagino que os outros passageiros devam ter pensado que eu sou louca.)

Rani e o Sino da Divisão, afinal de contas, é uma excelente opção de leitura para quem adora uma história cheia de aventura, ação, reflexão, amizade, companheirismo, suspense e música, que é um showzinho à parte no começo de cada capítulo. (Lembrete: tenho que pegar a “playlist” e procurar pra baixar. Indicação do Jim Anotsu está longe de ser coisa ruim.)

Também é simplesmente um dos melhores livros da nossa literatura escrito por um cara não só estupendamente talentoso, mas também *uma das pessoas mais lindas e queridas que já conheci nessa minha ainda curta existência. E o livro agora ganhou merecidíssima indicação ao Prêmio Argos 2015 de Literatura Fantástica na categoria de melhor romance.

Até a próxima, tenho que correr. Um jardim de espelhos me espera para ser percorrido. Quem sabe o que irei encontrar lá? Sendo assim, esperem-me nesta mesma hora e neste mesmo canal.

*:

Eu e o Jim Anotsu na IVª Odisseia de Literatura Fantástica, em Porto Alegre, RS, em abril desse ano.

Eu e o Jim Anotsu na IVª Odisseia de Literatura Fantástica, em Porto Alegre, RS, em abril desse ano. Só ignorem a questionável qualidade da imagem, mas algumas pessoas não sabem bater fotos com o celular ou com câmera digital.

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