A teimosia acima do véu

Sem essa de iniciar os motores. Não posso depois de ler A torre acima do véu, da paraense Roberta Spindler.

Por onde eu começo? Pela sinopse, que é geralmente algo que eu não ponho nas resenhas, mas dessa vez, farei:

“Quando uma densa e venenosa névoa surge misteriosamente, pânico e morte tomam conta do planeta. Os poucos sobreviventes se refugiam no topo dos megaedifícios e arranha-céus das megalópoles.

Acuados, vivem uma nova era de privações e sob o ataque constante de seres assustadores, chamados apenas de sombras.

Suas vidas logo passaram a depender da proteção da Torre, aquela que controla os armamentos e a tecnologia que restaram.

Cinquenta anos se passam. Na megacidade Rio-Aires, Beca vive do resgate de recursos há muito abandonados nos andares inferiores, junto com seu pai e seu irmão. A profissão, perigosa por natureza, torna-se ainda mais letal quando ela participa de uma negociação traiçoeira e se vê cada vez mais envolvida em perigos e segredos que ameaçam muito mais do que sua vida ou a de sua família.”

Primeira coisa: vocês prestaram bem atenção no que escrevi antes?

Segunda: já pensaram em como seria nascer e viver em um mundo nessas condições?

Terceira: e se eu dissesse que a leitura desse livro reserva uma surpresa muito desagradável lá no final?

Feitas essas perguntas, eu parto para o comentário sobre a leitura…

Nesse livro, não tem como confiar em todo mundo e se você tenta, suas chances de sair disso ileso são de cinco e baixando. Beca, nome Rebeca Lópes, a nossa protagonista, é uma saltadora, leia-se, ela pode saltar inacreditáveis distâncias com um mínimo impulso. Certo, como assim? No mundo desse livro, alguns humanos pós-véu nascem com capacidades mutantes: saltadores, como eu já citei antes, teleportadores, como o próprio nome já diz e combatentes, que possuem força e estamina acima do normal.

Esses e o restante que nasceu depois disso ou que sobreviveu ao horror do começo do fim, precisa se manter nessa realidade horrorosa. Sendo Beca uma dessas pessoas, que ao lado do pai, Lion, nome verdadeiro John e do irmão Eduardo, apelido Edu, ambos adotivos, coleta recursos há muito abandonados nos andares inferiores como modo de sobreviver. E não apenas isso, eles têm de muitas vezes negociar com gente bem perigosa e/ou mal intencionada. E é aí que entramos na trama do livro.

É quando Beca, confiando nas palavras do informante Rato, nome verdadeiro Nikolai, vai coletar um cubo de luz. Essa entrega, porém, revela-se apenas o começo de uma excelente trama, onde nada é o que parece e amigo vira inimigo e vice-versa. E a ajuda vem dos lados mais improváveis. Inclusive o informante revela-se um dos melhores personagens da história. E a protagonista é tão humana, palpável que é quase possível tocá-la. Mais do que isso, senti-la e imaginar toda a angústia que ela passa e a realidade horrível em que ela vive. Exemplifico isso com a situação aonde ela diz que não se sente parte de uma única pátria, já que os países literalmente foram extintos nessa bagunça do véu. E dentro da imaginação visualizar os lugares feios e sujos que muitos nesse mundo chamam de lar. O mais triste? Isso faz um brutal paralelo com o nosso. É só olhar em volta para ter a certeza.

Além disso, temos inacreditáveis revelações que vão nos fazendo entender o motivo de alguns personagens tomarem certas atitudes que me deixaram bem chocada. E obviamente indignada, porque o que a Roberta nos conta lá perto do final é revoltante. De tal forma que sentimos vontade de ser capazes de dar reset no universo literário da autora só para não ter que ler tal coisa. No entanto, é justamente isso que nos faz ter vontade de ler a continuação da trama. Afinal, o que é um bom livro, no caso série, sem um conflito daqueles? E eu garanto que o embate vai ficar, com certeza, muito feio, pois a revelação de o que são as sombras e o “por trás das câmeras” delas bota um combustível danado no que virá.

Eu não posso deixar de comentar sobre um personagem em questão: Emir. Algo me diz sinceramente que eu ainda vou me emputecer muito com esse cara, mais ainda do que já me enfureci lendo A torre acima do véu. Eu já não tinha confiança nele desde o começo, depois que terminei então, estou certa de uma coisa: esse “líder” da Torre ainda vai aprontar umas sérias. Ainda mais porque o último capítulo abre um monte de possibilidades. E pelo menos para a leitora aqui, nenhuma delas é 100% boa, mas também não é 100% ruim. Experientes em distopias, favor me dizer: vocês se sentem sempre assim quando terminam um livro desses?

E outra coisa que eu tenho o dever de comentar: o sotaque castelhano dos personagens! A Roberta possivelmente nem sabe, mas sou apaixonada pelo idioma espanhol e essa adição linguística só deixou a ambientação mais legal!

Enfim, A torre acima do véu é altamente recomendado para quem quer literatura nacional de qualidade e ainda por cima experimentar entrar no universo das distopias.

É tarde! Tenho que correr, pois o universo de Alma e Sangue ainda espera minha volta.

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