A teimosia literária de Doctor Who – Resenha quatro: 12 Doutores, 12 Histórias – Parte 1: Os Doutores Clássicos

Allons-y! Para a quarta resenha, a segunda da terceira semana de Doctor Who, agora abordando o livro 12 Doutores, 12 Histórias, uma coletânea de contos, inicialmente separada, feita em 2013 para celebrar os cinquenta anos da série. Em 2014, todos os contos foram reunidos em livro único, tendo sido o último produzido em no ano em questão, por ocasião da introdução do 12º Doutor, interpretado por Peter Capaldi.

Primeiramente, porém, vou fazer algo de contextualização, em razão de que alguns que lerão esta resenha não conhecem a Série Clássica…

1º Doutor: William Hartnell (1963 – 1966). Um tipo “vovô rabugento reclamão”. Não gostava muito dos terráqueos, pelo menos no começo, e às vezes tinha alguns problemas um pouco mais tensos com seus companheiros. Com o passar do tempo, ficou mais “maleável”. O ator citado viu-se obrigado a abandonar a série quase três anos depois da estreia em razão de arterioesclerose, doença que seria a causa de seu falecimento, em 1975.

2º Doutor: Patrick Troughton (1966 – 1970). O total oposto do primeiro Doutor. Altamente alegre, engraçado e adorável embora fosse capaz das maquinações mais maquiavélicas quando se tratava de combater os vilões. O ator da segunda encarnação deixou a série em razão de não querer ficar marcado pelo papel, fato que acabou se tornando uma “trope” (do site “TV Tropes”): a Regra de Troughton.

3º Doutor: Jon Pertwee (1970 – 1974). Um homem de ação, muitas vezes partindo para a luta física quando tal coisa se torna necessária. Ficou exilado na Terra a maior parte desta encarnação. O intérprete deixou a série no final de 1973, não apenas porque achou que estava há tempo demais no papel como também estava muito abalado pela perda do amigo de longa data, o primeiro Mestre, Roger Delgado (1913 – 1971), falecido em decorrência de um acidente automobilístico na Turquia.

4º Doutor: Tom Baker (1974 – 1981). Para a maior parte dos fãs, o Doutor por excelência, sendo o mais popular do fandom conhecedor da série clássica. Uma figura excêntrica dentro de sua própria raça e nenhuma característica “humana” em si (By Universo Who). Tom deixou a série em 1981 após vários desentendimentos com a produção e muito possivelmente por seus problemas com o alcoolismo.

5º Doutor: Peter Davison (1981 – 1984). O mais jovem até então dos intérpretes e para muitas (me included), o mais bonito. Uma encarnação muito humana e vulnerável, sendo extremamente contra violência desnecessária. Davison deixou a série em 1984 pela mesma razão de Troughton: não desejava ficar marcado pelo papel.

6º Doutor: Colin Baker (1984 – 1986). (Sem parentesco com o ator do Quarto Doutor.) O total oposto da encarnação anterior, era teimoso, arrogante, dramático e dono de um ego bem grande, acreditando ser superior a todos que encontrava. Muitas vezes tornava-se capaz de matar em razão de ser bem mais violento que os outros. Colin foi demitido da série em razão de desentendimentos com os produtores, sendo um deles o que viria a determinar o cancelamento da série em 1989.

7º Doutor: Sylvester McCoy (1986 – 1989). A sétima encarnação era mais excêntrica, alegre e despreocupada inicialmente, mas assumiu uma postura mais séria e austera com o tempo. Sua capacidade de estratagemas e de manipular tudo ao seu redor veio desde o início. O primeiro ator escocês a fazer o papel, acabou deixando-o devido ao cancelamento da série, em 1989. Quem assistiu a trilogia “O Hobbit”, o viu como Radagast, o Marrom.

Agora, vamos aos sete primeiros contos… (Os outros vêm na segunda resenha deste livro, em que eu abordo o Oitavo Doutor em diante.)

O primeiro, traduzido como Uma mãozinha para o Doutor (no original, A Big Hand for the Doctor), tem uma primeira parte muito engraçada e tensa ao mesmo tempo, quando o primeiro Doutor está tendo que encomendar uma nova mão porque a perdeu para um Pirata de Almas. Quem são eles? Decididamente, vilões que podem ser facilmente classificados como bastardos filhos de uma mãe diabólica. Pessoal, não tenho coragem de dizer o que essa gente faz, mas posso dizer que esse primeiro conto torna a Susan uma personagem bastante útil, se compararmos com a série clássica, onde ela gritava mais que uma sirene de bombeiros. E obviamente, é uma excelente história onde o primeiro Doutor mostra porque é tão popular com muitos fãs atuais que o consideram seu favorito.

A cidade sem nome (The Nameless City), conta sobre como o Doutor, na sua segunda encarnação junto de seu companheiro Jamie McCrimmon, acaba envolvido em uma senhora encrenca quando o companion, após salvar um senhor de uma agressão de bandidos, acaba recebendo um presente. (Nunca aceitem coisas de estranhos se elas estiverem enroladas em lenços de seda negra.) Entretanto, ele revela-se uma emboscada para levar a TARDIS a algum lugar no fim do universo, onde eles encontram os sinistros Archons. A partir daí, amigos, é uma sequência de grandes emoções e muita aventura cuja resolução é simples e ao mesmo tempo genial, coisa bem típica desse danado desse Segundo Doutor. Um conto que eu adorei demais.

A lança do destino (The Spear of Destiny), a história do Terceiro, acompanhado de Jo Grant, se encrencando com os vikings. Sim, com eles e ninguém menos do que o próprio Odin, aqui retratado com um líder tribal e mortal. E como era “marca registrada” das melhores histórias estreladas por Pertwee, o Mestre se manifesta do modo mais inusitado. E o autor pegou tão bem a essência do Third Doctor que é como se estivéssemos assistindo um episódio das temporadas clássicas estreladas pelo Pertwee. Simplesmente maravilhoso.

As raízes do mal (The Roots of Evil), onde o Quarto dá as caras novecentos anos depois do Décimo-Primeiro… Opa, espera aí, Dama Teimosa, como assim? Ok, eu não devia ter contado isso, mas tecnicamente não considero um spoiler, já que, como estamos falando de Doctor Who, qualquer dos Doutores pode aparecer quando menos se espera, inclusive rolando uns encontros acidentais em pelo menos quatro ocasiões desde o surgimento da série. (Isso eu conto na resenha seguinte.) No caso em questão, o quarto acaba indo, junto de sua companheira selvagem Leela, parar na Estrutura Heligan, uma espécie de árvore gigante flutuante cujo interior abriga vários moradores em nível de planetoide. E acabam belissimamente metidos em uma enrascada enorme quando os moradores querem literalmente fazer picadinho deles. E por que? Leiam. E apreciem porque é difícil não gostar. Vocês não vão se arrepender. Especialmente porque outra vez tem-se a solução simples, porém, genial. Tom Baker é definitivamente o cara.

Na ponta de língua (Tip of the tongue), a história estrelada pelo quinto, é uma senhoríssima lição, à semelhança do segundo conto, de que não devemos aceitar qualquer coisa, seja ela presenteada ou oferecida em compra. É de dar raiva como os vilões manipulam tudo para conseguir o que querem. E para tentar resumir, estamos no período da Segunda Guerra, no Sul dos Estados Unidos. Uma menina negra e um garoto judeu alemão. Vocês imaginam o que está havendo, não é? Pois os vilões se aproveitam exatamente do que vocês estão imaginando e por pouco não criam um circo de horrores. Uma história excelente que deveria ser utilizada em aulas de História para uma boa demonstração sobre como funcionam os discursos de ódio.

Algo Emprestado (Something Borrowed) envolve o Sexto Doutor e Peri em um planeta cuja inspiração foi a cidade terráquea de Las Vegas. O que poderia dar errado em uma viagem que se apresenta como o maior barato? Qualquer coisa quando temos pterodáctilos sequestrando gente e o planeta em questão possui um sistema muito parecido com o que acontece quando o Doutor regenera. Temos um vilão da série clássica dando as caras. De uma maneira muito interessante que particularmente achei uma maravilha, especialmente os motivos. Só rindo para não chorar mesmo. E claro, o amor da Wira pelo filho do patrão faz uma grande diferença lá no final, mostrando que algumas coisas só funcionam mesmo quando colocamos todo o nosso amor e empenho nelas. Excelente história.

O efeito de propagação (The Ripple Effect), estrelando o Sétimo, é de longe o mais triste dos contos envolvendo os Doutores Clássicos. Ele e sua companheira Ace, a garota (literalmente) explosiva, estão tentando sair de um “Plexo Temporal” e numa tentativa que aparentemente deu certo, eles vão parar… em um mundo onde os daleks são as criaturas mais incrivelmente pacíficas do mundo. É fantástica a discussão entre o Doutor e a Ace sobre se é mesmo possível aquelas criaturas terem “jeito”. No fim das contas, acreditar é sempre o primeiro passo. Uma história linda, algo triste e um tantinho esperançosa.

E por aqui eu encerro a primeira parte de 12 Doutores, 12 Histórias.

Até a próxima, tenho que correr. Esporos, bestas alienígenas, cabanas assombradas, relógios sem hora e luzes apagadas me esperam.

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