O grande e teimoso poder do número três

Start your engine! E vamos à dimensão dos contos de fadas para encontrar as histórias dos célebres irmãos Grimm. Traduzidas e adaptadas pela Georgette Silen em As três princesas negras e outros contos dos Irmãos Grimm.

Suponho que estão se perguntando o motivo do título da resenha. Respondo que ele não é à toa, pois todos os contos do livro em questão possuem a palavra “três” no título. Inclusive isso é comentado no prefácio, este escrito por nada menos que o querido e amado Celso Sisto, de quem eu tive o privilégio de ser aluna em um curso de Contação de Histórias promovido pela PUCRS. (Bons tempos aqueles.)

Reproduzindo o trecho: Mas há ainda há a força do três, o número da perfeição, do equilíbrio. A soma do positivo e do negativo faz aparecer o neutro, a zona de proteção. Para reforçar que essas histórias são tanto uma viagem pela paisagem externa, quanto pelo mundo interior, o três está aí para conferir afloramento desse reino de dentro: corpo, mente e espírito se complementam. Só isso já embeleza essa antologia. (Não sei se isso foi proposital do Sisto, mas pude enxergar aqui uma referência séria à Santíssima Trindade.)

O livro tem, por sua vez, sete contos. Sete é o número da perfeição, portanto, não tem jeito dessa antologia ter algo de ruim. E ela de fato não tem nada que possa ser considerado ruim. Exceto se quem estiver lendo for um perfeito idiota. (E acreditem, existem muitos.)

O primeiro conto é o que intitula a antologia, As três princesas negras. Tudo começa com a invasão de um povoado por rivais. O então prefeito foge levando todo o ouro local, deixando o povo à própria sorte. Momento “facepalm”. Depois, o rapto de um rapaz. O pai dele recebe uma gigante quantia de ouro pelo filho dele. Até aí só ficamos tristes e lamentamos o ocorrido. Só piorando, o personagem em questão é o pescador a quem todo mundo ridiculariza. O ouro mostrado pelo homem faz com que ele sofra uma inesperada virada. E mude para pior. E o povo acabe pagando pelo pecado de fazer pouco do outro. Até aqui, uma ótima e triste narrativa repleta de reflexões e lições. Lá no final, a gente se pergunta: como o pescador viverá com tudo o que fez antes? Passado é algo que não tem como apagar.

O rapaz raptado, por sua vez, tem que se virar com o que tem para escapar de um destino horrível quando se vê amarrado no meio de uma floresta. E encontra um castelo tal como o das histórias que ouviu de sua mãe. O local é todo preto, inclusive adereços e talheres e suas moradoras usam sáris negros. Pergunta: onde vocês acham que isso vai dar? Aqui a resposta: um muito bem feito desenvolvimento de personagem em poucas páginas, já que o rapaz é duramente desafiado durante um ano todo e precisa dar tudo de si se quiser sobreviver. Incluindo descobrir qualidades que nunca imaginou ter. Juro, vocês não tem noção de onde isso vai. Tudo bem que aparências podem enganar e nem sempre as coisas são o que parecem, mas aqui a coisa toma uma proporção monstruosa. E pontuada pela excelente maneira que Geo, apelido que só os mais íntimos usam, usa para contar histórias. Nota dez.

O segundo conto chama-se Os três homenzinhos da floresta, onde temos o conto da Cinderela com uma irmã má imbecil a menos e três homenzinhos ao invés de uma fada madrinha. Sabe aquela frase: “Deus é tão generoso que nos dá a liberdade para fazermos o que quisermos, mas é tão justo que nós colhemos exatamente aquilo que plantamos”? Pois bem, esse conto nos dá uma ideia perfeita de quão bem funciona a lei do retorno. Pode ser que a recompensa ou o castigo demorem a vir, mas quando vêm, chegam quebrando tudo e só quem é forte fica em pé no final. Na vida real o buraco é bem mais fundo e a discussão muito mais séria, portanto, resumo: seja boa gente, mas não trouxa. Assim, tome cuidado sobre em quem você confia. Você pode acabar em uma armadilha. (Levanto a mão para isso.)

A protagonista é um ótimo exemplo de como isso é verdade, para o bem e para o mal. E as vilãs são aquele exemplo de gente mesmo tomando toda a sorte de patadas em retribuição pelo mal causado, não adquirem juízo. E ainda querem causar mais mal. Outro momento “facepalm”. Outro conto merecendo dois dígitos, um e zero, de nota. Dez.

O terceiro intitula-se Os três corvos. Uma praga rogada torna-se motivo para uma jornada muito além da imaginação (insira aqui a voz do Rod Serling). E a autora nos mostra como o amor, na sua forma mais fraternal e pura, é capaz de vencer todas as barreiras. Apenas alguém com muito amor no coração e uma força tirada de lá sabe onde poderia passar por tudo o que a protagonista passa sem cair no meio do caminho. A Georgette é mãe de duas lindas, Morgana e Aicha, portanto, concluo que, mesmo o conto sendo tradução e adaptação dos irmãos escritores, alguma coisa ela tirou da própria experiência. E novamente nos perguntamos como os “três corvos” conviverão com seu passado após tudo acontecer. Uma história linda, merecendo dez com louvor.

O quarto chama-se As três penas. Novamente: sabe aquele ensinamento de “seja você mesmo”, “aja com naturalidade”, “nunca abra mão dos seus princípios”, etc? Muito bem, é aqui onde entramos na trama do conto, cujo protagonista tem o muito pejorativo apelido de Simplório. Ele é o “nerd”, na falta de um termo medieval, que nem sei se existe. O cara sem muita aptidão física, invisível para as moças e que sempre acaba pagando algum mico por ser desastrado. E naturalmente, ele não reage às provocações dos “bullies”, leia-se neste caso, irmãos dele. Nota: Geo não faz nenhuma referência a coisas como inteligência, aptidão intelectual ou algo parecido. Isso denota demais o estereótipo de que “homem de verdade”, pelo menos naquele tempo e um bocado ainda hoje, tinha que saber cavalgar e ser forte de maneira muito bruta. E burra, se me permitem. Só que é aí que as coisas dão uma virada.

No fundo, o rei, na ocasião já sentindo o peso da idade, sabe que ser apto fisicamente é insuficiente para ser um soberano. Governar envolve muito mais do que ser bom em cavalgar, lutar ou carregar peso. E mesmo ele sabendo das limitações do príncipe caçula, não o diferencia dos outros. E faz uma série de desafios aos três filhos. Todos os três cumprem os desafios com louvor, sendo o “caçulinha” (sem piadas do Faustão aqui, pelo amor de Deus), que sempre triunfa. Os irmãos ficam sempre sem saber o que fazer diante do sucesso dele. Quando eles finalmente cansam de ser superados, querem o pai propondo algo ainda mais desafiador. O “papai sabe-tudo” (quem for mais velho vai sacar a referência), percebendo uma mudança que só os pais notam quando os bebês crescem, propõe O desafio para os filhos. A partir daí, é uma surpreendente sucessão de fatos, culminando em um belíssimo final. Novamente uma louvável nota dez.

O quinto conto tem por título As três fiandeiras. E nos mostra que se a mentira tem pernas curtas, ela dita algumas vezes pode ser verdade. E até pode ajudar alguém necessitado. O que mais eu consigo comentar desse conto sem dar uma saraivada de spoilers na cara de quem está lendo? Primeiro: uma narrativa excelente mostrando como uma mentira bem arquitetada pode acabar se voltando ao seu favor. Segundo: professores de direito e advogados trabalhistas deveriam usar esse texto em aulas e audiências de direitos porque o tema de “exploração de mão-de-obra” e suas consequências é muito bem colocado e trabalhado aqui. Terceira: a sequência final é fantástica, reforçando fortemente o segundo ponto. Impossível não ficar feliz com o triunfo da protagonista a despeito dela não ser exatamente a melhor de todas as pessoas embora ela não seja má, apenas não gosta de fiar. Outra nota dez.

O penúltimo conto, As três folhas da serpente, é também maravilhoso, mas o único para o qual darei nota 9,5. Motivo: é de apertar o coração como as coisas acontecem nessa história. Algumas atitudes são incompreensíveis, eu diria até horríveis, mas, possivelmente (ênfase nisso) é tudo culpa das folhas do título. Aí, porém, tem-se um mistério: porque apenas o protagonista ficou imune? Eu sinceramente vejo uma forte referência ao mito bíblico de Adão e Eva, considerando como as coisas acontecem no conto. Minha gente boa, eu posso dizer: Georgette Silen tem um talento ímpar para fazer referências que só quem for muito bom leitor vai sacar de cara. E o final? Meu Deus, que conclusão!

O último, As três irmãs, é como o primeiro, dividido em dois “arcos”. Na trama em questão, o pai das moças do título é o “funkeiro ostentação” (piada ruim detected) que adora fazer o que bem entende sem ver as consequências. Naturalmente, tanta falta de juízo vai terminar mal. E não apenas uma vez, mas duas! Só na terceira é que ele resolve “acalmar o facho” e levar uma vida “decente e cristã” (soando feito beata besta, mas vocês entenderam). Nem tudo, no entanto, são flores e tudo pode acontecer quando nós sabemos que as três irmãs do título são casadas com homens-fera. Reinaldo, o filho mais novo do rei, nascido após toda a confusão anterior, agora um rapazinho, sai em busca das irmãs para ter notícias. Daqui para frente, é uma jornada cheia de perigo e complicação onde o rapaz tem que se virar nos trinta para não se ferrar bonito. E assim ele encontra o mais lindo dos sentimentos e muito sem querer uma profecia. Depois? Só lendo para saber. Eu garanto, esse excelente conto merece um dez com láureas.

As três princesas negras e outros contos dos Irmãos Grimm é altamente e gloriosamente recomendado para quem gosta de contos de fadas diferenciados, especialmente dos menos conhecidos dessa dupla dinâmica alemã do século dezenove.

Até a próxima. Tenho que correr. Vou ao encontro de Kira.

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