A teimosia literária de Doctor Who – Resenha um: Quando cair o verão e outras histórias – O demônio na fumaça (Devil in the smoke)

Allons-y! E assim eu começo a primeira de duas semanas dos livros derivados da série Doctor Who no blog.

Uma coisa, Dama Teimosa: quem ou o que é Doctor Who? Gente linda do meu coração, Doctor Who é a série de televisão do gênero ficção científica há mais tempo no ar. Precisamente, 52 anos, que vão se completar dia 23/11.

Não apenas isso, tem registro no Guiness Book de maior transmissão simultânea pelo mundo. E nada menos que 35 temporadas, entre a Série Clássica, que foi de 1963 a 1989 e a Moderna, de 2005 até o momento. E treze atores diferentes vivendo o personagem, cada qual à sua maneira, conquistando cada um uma legião de fãs. Com direito, na comemoração de cinquenta anos, a transmissão em tela de cinema do especial The Day of the Doctor. Quem foi assistir nas salas onde foi exibido diz que foi uma experiência única. Até aqui, vocês estão conhecendo apenas um pouco da série televisiva mais maravilhosa de todos os tempos. Nesta resenha, no entanto, vocês vão conhecer o lado literário da série, com Quando cair o verão e outras histórias, um dos três livros, até o momento, publicados no Brasil.

Os livros, porém, são bem mais que três. Aqui no Brasil esse e outros dois só chegaram porque os fãs muito insistiram e a BBC viu a imensa quantia de fãs espalhados pelo país. Sem deixar de mencionar as editoras Suma de Letras e Rocco, que trouxeram Quando cair o verão e outras histórias, Shada e 12 Doutores, 12 Histórias.

Depois de três parágrafos “introduzindo” Doctor Who, vamos ao primeiro livro mencionado anteriormente. Em primeiro lugar, destaco a maravilhosamente bem feita tradução pela adorável autora Camila Fernandes, minha amiga de longa data e talentosíssima escritora. Em segundo, é um excelente livro composto por três histórias de tamanho médio, cujas tramas abordarei separadamente em duas (ou três) resenhas, porque cada uma é tão única que seria até criminoso colocar tão poucas palavras.

Antes, porém, vou dar umas palavrinhas sobre a Introdução, escrita por Amelia Williams, a autora fictícia responsável pela história Quando cair o verão: uma legítima introdução de episódio da série. A escritora em questão narra um episódio muito curioso, fazendo maravilhosa referência a uma personagem que todos que viram as duas temporadas mais recentes da série, a segunda metade da sétima e a oitava vão saber quem é.

No caso desta primeira resenha, abordarei a história Devil in the smoke, traduzido aqui como O demônio na fumaça. A trama em questão traz os meus personagens favoritos da época do 11º Doutor após o casal Pond: o Trio Paternoster, Jenny, Strax e Vastra, vivendo na Londres Vitoriana lidando com todo o tipo de coisas bizarras, incluindo assassinatos cometidos de formas bem originais. Terrores rubros, dinossauros em plena Era Vitoriana, um Doutor recém-regenerado e por aí vamos. Vida fácil, sim? Enganam-se se pensam que é.

Na história em questão, que é a última do livro, dois garotos resolvem dar uma “fugidinha” do reformatório onde vivem enquanto estão encarregados de limpar a neve do pátio. Tudo, em sequências bem escritas, estava indo bem até acontecer algo inesperado: o boneco sangra. A partir daí, é uma sequência de problemas, cada um muito ruim do seu jeito. Literalmente uma bola de neve.

Como se não bastasse terem feito semelhante achado, Harry e Jim, os protagonistas, se separam no calor da loucura do momento. Cada um vai parar em lados opostos. Jim encontra um homem misterioso de cartola e fraque que o ajuda a levantar-se após o rapazinho levar um tombo. Harry depara-se com a “face hedionda e disforme de um troll”. Meus amigos, eu apresento-lhes o “Senhor Cabeça-de-Batata”, Strax. Palmas, auditório! (Certo, eu exagerei na piada.)

Após ser levado à casa do trio Paternoster e comer sopa e pão fartamente, Harry tem de dar explicações sobre o que ele e seu amigo viram. Partindo disso, o rapazinho sofre uma tentativa de homicídio e os três sabem que precisam investigar o que está acontecendo e ao mesmo tempo, deixar o guri seguro.

No decorrer da história, Vastra, Jenny e Strax descobrem algo muito sinistro ocorrendo em Londres e que tem relação direta com o que Harry e Jim viram. Dou um doce para quem adivinhar o que é. O “demônio na fumaça” do título. Uma bizarra criatura alienígena capaz de criar servos com seu poder utilizando gente morta. Vocês podem imaginar onde que isso vai dar, sim? Traição, morte, confronto, etc.

Não apenas Harry sofre uma brutal traição de quem ele menos esperava, como quase não escapa de morrer por “saber demais”. Partindo de mais um ponto muito tenso, nós vamos enfim descobrir quais são os planos do vilão. E achar um jeito de impedir uma ida adiante dos mesmos. Devo dizer que a trama dessa história tem algo de semelhança com o episódio The crimson horror, da segunda metade da sétima temporada. O que tornou a história bem mais interessante, a meu ver.

O final tem algo de bonito, trágico, adorável e fofo ao mesmo tempo. Não conto mais porque é spoiler, mas eu garanto que é uma história muito bem contada e que certamente será apreciada pelos fãs de Doctor Who.

Até a próxima. Tenho que correr. Porque é preciso reverter a polaridade.

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Dez dias até o Dia do Fã – Clara Nunes

PCJ (Partido Clementina de Jesus)

Não vadeia Clementina
Fui feita pra vadiar
Não vadeia Clementina
Fui feita pra vadiar, eu vou
Vou vadiar, vou vadiar, vou vadiar, eu vou(2x)
Energia nuclear, o homem subiu a Lua, é o que se ouve falar, mas
a fome continua
É o progresso, tia Clementina
Trouxe tanta confusão,

Um litro de gasolina por cem gramas de
feijão.

Não vadeia Clementina…

Cadê o cantar dos passarinhos, ar puro não encontro mais não.
É o preço do progresso, paga com a poluição
O homem é civilizado, a sociedade é que faz sua imagem.
Mas tem muito diplomado que é pior do que selvagem.

“Panaceia” ou “A teimosa jornada de Laura”

Start your engine! Em velocidade mach () após a leitura de Panaceia, segundo volume de quatro da série Lázarus, da Georgette Silen.

Pois então, algum de vocês já andou em um trem desgovernado? Panaceia te dá uma dose pelo menos cinco vezes acima do aceitável com a leitura. A sucessão de fatos é muito maior que a do primeiro livro e a quantia ainda maior de detalhes exige uma parada para ser possível pensar com clareza no que foi lido. Inclusive eu terminei o livro hoje depois de começá-lo na quarta que passou. Deus meu, isso não foi nada fácil, ainda mais porque algumas perguntas ficaram pulando na minha cabeça.

Panaceia foi uma tensa, porém excelente, sucessão de descobertas, lutas, decisões e novos personagens. Especial destaque para:

  • Nelson e Nazaré, mestiços, meu casal favorito depois dos protagonistas Robert e Laura. Torço para que eles terminem juntos e preferencialmente vivos;
  • Laura dando uma de “conselheira veterana” com Shiloh e Alexia. Excelentes cenas com ela mostrando porque é tão amada por tanta gente, incluindo eu;
  • A evolução do atual “quadro” da protagonista, iniciado lá no primeiro livro. Assustador, no mínimo. E ainda mais perigoso do que se pensava;
  • Aicha, a mulher misteriosa que aparece da metade para o fim do livro. Sem ela não teríamos algumas das respostas para o enigma que a protagonista tornou-se. Laura é a Panaceia e o momento do Zênite está chegando dali dois equinócios. Entretanto, o que isso exatamente significa? Respostas só para o terceiro livro, Nênia;
  • Avelar passando de vilão desgraçado FDP do primeiro livro para “vilão estilo James Bond, Star Trek, Star Wars e Doctor Who”. Imaginem uma mistura dos vilões do 007 com o Khan, o Darth Vader e o Mestre. Pois bem, temos aí o resultado: o Megister da Ordem aprontando de tudo e mais um pouco durante o livro. Incluindo uma quimera e um “duas peles” (lobisomem, no caso), ambos aprisionados em laboratório, uma droga capaz de matar vampiros poderosos, acordos com toda a sorte de “turma do mal”, etc. Tá bom assim ou querem mais?
  • Gina, uma mestiça prisioneira e seu misterioso admirador. Algo me diz que vem coisa boa por aí relacionada com esses dois. Torço para que sejam eles a desmascararem definitivamente o Avelar embora isso já esteja acontecendo;
  • Parece que o quadro da Kate e do David enfim está mostrando sinais de evolução. Já era hora disso acontecer, Geo! Estou imensamente feliz;
  • Laura tendo que se virar em mil para lutar contra toda a sorte de mestiços e nômades indo atrás dela. Cenas muito tensas e bem escritas.
  • Cínthia tendo que tomar uma decisão daquelas após sofrer um ataque sério de uma das vampiscates, a Heather. Consequências? Ninguém sabe quais foram porque a autora deixou a coisa toda no ar. E ficou NO suspense a cena final. Meu Deus, quando é que a senhorita vai lançar Nênia, minha amiga?
  • Maia mostrando bem mais maldade do que eu imaginava até aqui. Aliança entre ela e o nojento do Amos? Problemas, muitos problemas;
  • Os mocinhos finalmente descobrindo que o culpado da maior parte do problema da Laura é o Avelar. Maravilhoso, no mínimo, saber que enfim o cerco está se fechando contra ele. Mais que hora dele pagar os pecados;
  • Muito perto do final do livro, A bomba. O que Silen nos reserva agora que Laura está numa situação das mais complicadas? Será que vai dar tudo certo? Como será o futuro após isso ocorrer? São perguntas demais e respostas de menos. Ainda sim não deixa de ser maravilhoso com toda a originalidade advinda do primeiro livro.

Afinal, Panaceia é uma excelente sequência que deixa várias perguntas para o terceiro livro, o qual eu tenho certeza que será ainda melhor. Além de muito bem escrita, mostrando que Georgette Silen é uma das melhores autoras do tema vampiro do Brasil. Altamente recomendado para quem gosta de leitura de boa qualidade.

Até a próxima. Tenho que correr. A TARDIS me espera em algum lugar para me levar a uma aventura.

“Pérola – O ano do dragão” ou A teimosa Lágrima da Ostra e seu persistente bracelete dourado

Start your engine! Em velocidade máxima com Georgette Silen e Rosana Rios para conhecermos a trama de Pérola – O ano do Dragão. Espera, Dama Teimosa, como assim “e Rosana Rios”? Oras, a resposta é clara: a resenha da vez é de um livro de duas escritoras: o alvo da semana do meu blog mais a escritora juvenil Rosana Rios, que já apareceu por aqui com o conto Prata, da antologia Amor Lobo.

A história tem como protagonistas Pérola e Hien, vivendo em épocas e locais totalmente distintos. Ela, no ano do Dragão em São Paulo. Ele, na China do século catorze, na dinastia Yuan, a antecessora da célebre Ming. Certo, mas, como raios eles estão ligados? Por uma linda joia que causa problemas a ambos. Uma, esquecendo que a curiosidade matou o gato. O outro, se apoderando do que não deve apenas porque vive de roubar. Como, porém, a joia causa tantos problemas? Ambos descobrem, de um jeito muito ruim, que se usado, o bracelete concede poderes ao usuário. Gente, vocês conseguem ver onde isso vai dar? Em uma bela encrenca. Muito bem escrita, diga-se.

Conhecem a Witchblade (http://pt.wikipedia.org/wiki/Witchblade)? Pois bem, o efeito é basicamente o mesmo embora o bracelete faça pior, já que seu usuário pode transformar-se em um monstro caso não consiga controlar os poderes dos quatro elementos contidos na joia: fogo, água, terra e ar.

É a partir de Pérola xeretar mais do que deve que a história se desenvolve. Ela não apenas tem de lidar com os problemas típicos de adolescente, como escola, colegas chatos que vivem incomodando, trabalhos, provas e o fato de não ter pai, como também com um “Gasparzinho” que vive dentro do bracelete de dragão. E que é um rapaz muito lindo. Ou seja, a pobre Lila, apelido pelo qual ela prefere ser chamada, não poderia lidar com mais que isso, ou poderia? Sim, ela vai. Trabalhar na loja da senhora Mei para “pagar” o bracelete que ela pegou sem pedir. Enfrentar um deus chinês maligno que deseja o poder do bracelete da Pérola a qualquer custo, mesmo que para isso ele precise destruir tudo que houver no caminho. Se sentir seriamente atraída por Hu Qiu, vulgo Lucas, o filho da senhora da loja. Lidar com o fato de que a mãe tem magia no sangue. Too easy, não é? Só que não mesmo.

É com todas essas premissas que se desenvolve a trama do livro, de uma forma tão única e maravilhosa que é impossível não pensar em dar aquela largadinha só para não acabar rápido demais. Pérola é aquela protagonista que nós poderíamos encontrar em qualquer lugar e de quem até poderíamos ser amiga de tão palpável e real que ela é. A evolução dela como pessoa é fantástica, especialmente quando ela descobre que existe outras maneiras de encarar os problemas presentes.

Hien é inicialmente a criatura mais desagradável do mundo e dá todos os tipos de pitaco possíveis em qualquer assunto onde ela se envolva, incluindo incentivá-la a agir maldosamente e falhar em controlar os poderes ganhos. Porque no meio disso há quatro testes impostos por Long Mu, a mãe dos Dragões (Game of Thrones mandou lembranças), que é a dona do poder que Hien roubou lá no começo da história. Meu Deus, que encrenca! Contudo, que maravilhosa encrenca para uma boa apreciadora de maravilhosas histórias como eu.

Com o decorrer da história, porém, é impossível não pensar em como teria sido se Hien tivesse seguido um caminho diferente, reflexão que ele faz enquanto se relaciona indiretamente com Lila. O desenvolvimento da relação deles é um dos pontos altos do livro, começando em uma hostilidade das grandes para terminar no embrião de um muito possível romance. Acho que a frase A Lágrima da Ostra desperta o Dragão faz muito sentido também nesse aspecto. Pois ele acaba apaixonado por ela e se torna capaz de tudo para salvá-la de um destino pior que o dele, pois ele percebe: Pérola tem chance de fazer a coisa certa. Que ele só teve tarde demais, tanto que sequer pôde continuar desfrutando de uma vida feliz quando ele finalmente encontra, ou pelo menos ele assim pensou, a paz. A cena dessa parte é de partir o coração. Geo e Rosana, vocês me fizeram soltar lágrimas. Não sabem que é feio fazer uma dama chorar?

Outro ponto alto foi a maneira como o vilão foi neutralizado. Simplesmente o melhor “velho truque” que eu já testemunhei em muito tempo lendo todo o tipo de história. Mais um ponto altíssimo são as fidedigníssimas descrições da China antiga e a fidelidade com o elemento histórico e mitológico. Simplesmente um deleite para os olhos da imaginação. Só lendo para saber a maravilha que é porque se eu tentar descrever, sinceramente não logro. Inclusive estou com aquela vontade de conhecer o país após ler o livro.

E o final do Epílogo? Alguém que ninguém esperava deu as caras embora tenha feito rapidíssima participação em uma parte anterior. E pelo jeito vai rolar algo sério em razão disso. A frase final, só para deixar os leitores ainda mais malucos, deixa uma monumental brecha, onde cabe um planeta Júpiter, para uma continuação, que eu realmente quero que aconteça.

Pérola – O ano do Dragão é altamente recomendado para quem gosta de mitologia chinesa ou quer conhecê-la a fundo e uma excelente, bem contada e desenvolvida trama.

Até a próxima. Tenho que correr. Tenho que continuar desvendando a Panaceia.

As teimosas Fábulas ao Anoitecer

Start your engine! E vamos pegar mais uma carona em alta velocidade com Georgette Silen, agora com Fábulas ao Anoitecer, mais uma excelente antologia de contos, formada por um total de onze.

Não perdendo o costume de ser maravilhosa escritora, Geo nos presenteia com histórias repletas de uma originalidade única e algumas reconstruções de histórias conhecidas de outros “pagos”, feitas de tal maneira que não tem como não apreciar. Procurarei não dar spoilers, portanto farei análises curtas, porém precisas.

1ª – Até que os anjos nos separem: O que deveria ser um romance adolescente vira, nas mãos da autora, uma surpreendente história sobrenatural onde as aparências enganam com tudo. E reserva um adorável final para o dilema da protagonista de com quem ela vai dançar no seu baile de formatura. Nota: Dez.

2ª – Olhos do dia e da noite: Quem nunca jogou, nem que fosse pelo pc, uma partida de RPG? A sensação que eu tive ao ler esse conto foi essa: a de estar em uma aventura onde cada passo poderia ser o último do jogador. Um protagonista aparentemente detestável, mas que descobrimos ser dos mais bondosos quando ocorre algo inesperado com ele e sua assistente fada Sabina. Nota: Dez.

3º – O anel e a pérola solitária: Uma garota que desde criança ouve vozes e descobre, após viver um momento muito ruim, algo que ela jamais esperava ser. Uma linda história de descobertas e amor nas suas formas mais bonitas e maravilhosas (Por esas cosas bonitas, bonitas y maravillosas, yo me enamoré, yo me enamoré, de ti.). Nota: Dez.

4º – Jack: A primeira releitura feita por Geo nessa antologia, sendo seu alvo a famosa lenda de “Jack – O’- Lantern”, que, para conhecimento dos desinformados, é um dos símbolos do Halloween. (Essa gracinha aqui, ó: ) A origem que Silen cria para a lenda é original e ao mesmo tempo esperada, além de muito comovente, já que o protagonista deseja apenas continuar vivendo o grande amor interrompido pela Dona Morte. Como em um dos contos da antologia As três princesas negras e outros contos dos irmãos Grimm (Resenha: https://asteimosiasdeumadama.wordpress.com/2015/03/06/o-grande-e-teimoso-poder-do-numero-tres/), As três folhas da serpente: Afinal, de que adianta viver quando se perde o verdadeiro amor? A comida não teria sabor, a bebida não mataria a sede, o sol não aqueceria a pele e a música não aliviaria a alma. E esta foi a bonita perdição do protagonista. Nota: Dez.

5º – A princesa de Mangaleão: Um lindo conto de fadas sobre o poder do amor fraternal e de como a lei do retorno é generosa com quem deseja o bem acima de qualquer coisa. O errado é errado mesmo que todos façam e o certo é sempre certo mesmo que ninguém faça. Em minha opinião sincera e humilde, muita gente deveria ler esse conto e com ele aprender a ter mais bondade no coração. Eu incluo todos os preconceituosos e elitistas nesse caso. Nota: Dez.

6º – A senhora do lago: A segunda releitura feita por Geo, agora envolvendo a lenda do rei Arthur e da célebre Excalibur, só que com um toque muito original: um mundo mecanizado na era arturiana. E o conto traz toda a reprodução da lenda de uma forma mágica e envolvente a despeito daquela pontinha de tristeza lá no final. Nota: Dez.

7º – Uma quase tragédia grega: Terceira releitura feita por Silen, agora envolvendo a lenda de Perseu e a Górgona, só que continuando a história alguns mil anos depois em uma escola particular de uma cidade não nomeada. É simplesmente genial esse conto. Não consigo achar palavras para definir o quanto gostei. De uma coisa, porém, eu sei: quero continuação. Nota: Dez.

8º – O Holandês Voador: Quarta releitura, agora da assombração denominada “O Holandês Voador”. Simplesmente lindo e adorável à sua maneira deliciosamente vingativa. Embora você saiba que o alvo da vingança estava fazendo seu trabalho, nós temos o hábito de odiar oficiais do rei. E nós amamos isso mais do que o aceitável. Afinal, na ficção podemos tudo. Nota: Dez.

9º – A menina dos fósforos: Quinta releitura, agora de Andersen e seu célebre conto, A pequena vendedora de fósforos. Algo sério espera a protagonista em alguma esquina perdida de algum lugar desconhecido em uma noite nevada da véspera de Ano Novo. Agora somem isso com terror japonês estilo Ringu (aqui no Brasil intitulado O chamado). Igual a: um conto muito bom e causador de muito medo quando uma frase fica ecoando por horas no ouvido mesmo depois de você concluir a leitura. Nota: Dez.

10º – Alquimia perfeita: Última releitura, mas agora de uma lenda “real”, de ninguém menos que Nicholas Flamel, a quem atribuem a provável criação da Pedra Filosofal (J. K. Rowling e Harry Potter mandaram lembranças). Novamente um toque da mais pura originalidade em relação à esposa do alquimista, Perenelle, aqui convertida em uma viajante do tempo (Georgette whovian sorriu) com a missão de encontrar o Catalisador. Isso é…? Spoilers. (Agora a whovian fui eu.) Nota: Dez.

11º – A folha em branco: Apenas uma coisa a dizer desse excelente conto: tem como alguém quebrar a quarta parede ou fazer metalinguagem mais do que a Geo nesse caso? Ok, não é um caso tal como conhecemos, mas sério, foi incrível. E a gente fica se perguntando: aqueles seres todos não seriam na verdade uma referência ao Diabo? Como? Isso também é spoiler. Nota: Dez.

Conclusão: Fábulas ao Anoitecer é literatura de primeira qualidade e merece ser bem degustado, assim como um bom vinho ou uma xícara de café com leite bem docinha.

Até a próxima. Tenho que correr. Preciso encontrar e harmonizar meu pagode.

As teimosas crônicas de Kira

Start your engine! E vamos engatar outra marcha em direção à fantasia, agora com As crônicas de Kira, da afamada e amada autora brasileira Georgette Silen.

Como não podia deixar de ser, ela nos presenteia com o topo do top da Fantasia no melhor estilo de personagens como Conan, o Bárbaro e Elric, o cavaleiro albino. E ela não faz nada feio comparado com autores mais consagrados do gênero Espada e Magia, sejam eles daqui ou de fora. Posso dizer com certeza que essa série vai ser uma das melhores desse gênero aqui no Brasil, podendo disputar seriamente com a Trilogia Tormenta no ponto de melhor história. Que para o caso de vocês não saberem, foi criada, primeiramente como um cenário de RPG por Marcelo Cassaro, J. M. Trevisan e Leonel Caldela, este último autor dos livros da trilogia em questão.

E quando digo isso, estou dizendo a mais pura verdade. Por quê? Por algumas razões. Vamos listá-las:

1ª: A protagonista é uma mulher. Tá, mas e daí? E daí que se nós darmos uma boa olhada na Fantasia estilo Espada e Magia no geral, existem muito poucas, ainda, protagonistas femininas. Tudo bem que estamos em uma época bem mais propícia para isso e inclusive vem aumentando o número, mas ainda há muito para andar nesse ponto.

2ª: A história sendo mais curta do que geralmente estamos acostumados ajuda muito. Em 150 páginas, a autora conta uma primeira parte bem desenvolvida sem precisar de mais que esse número para que conheçamos pelo menos uma parte da protagonista, já que estamos só no começo da jornada de Kira. E até a última parte da série, ainda haverá um bocado para conhecermos da bela amazona.

3ª: A trama sendo dividida em arcos fechados. Embora o livro tenha menos de duzentas páginas, Geo o dividiu em três arcos distintos, onde acontecimentos muito tensos colocam a nossa adorável princesa amazona à prova. Sendo o primeiro dos arcos o aparentemente mais complicado, considerando o final muito chocante que ele possui. O segundo reserva uma revelação e tanto para os leitores. O terceiro, ah, o último. Meu Deus, que conclusão, parte 2!

4ª: Batalhas que nos fazem lembrar aqueles filmes antigos de aventura que ainda hoje passam em canais esquecidos da Net ou Sky. Ou até mesmo de Xena: Warrior Princess ou Hercules: The Legendary Journeys, cujos episódios eu via no SBT e Record há alguns anos. Só ficou faltando a Kira ter uma Gabrielle ou um Iolaus, quem sabe até um Autólycus ou um Salmoneus. Vamos ver o que Geo nos reserva para os próximos livros.

5ª: Até que os Deuses revelem Sua vontade, seu caminho a levará a conhecer o melhor e o pior, a orgulhar-se e a envergonhar-se de si mesma, e você vai chorar, mesmo sem lágrimas. Nunca uma frase fez tanto sentido quando se chega ao final do primeiro e último capítulos do livro. Kira passa por verdadeiras provações nesses pontos e as consequências não são as melhores. Se bem que, no caso no último capítulo, ela se vê tendo que fazer uma reflexão muito séria sobre os fatos que ali ocorrem, precisando tomar uma decisão que pode mudar para sempre os rumos de um povo que habita a cidade onde ela se encontra. Situação complicada aquela, como eu não achei que veria de novo.

6ª: Um excelente livro que merece ser lido e apreciado em toda sua plenitude até que a Geo decida-se em nos contar mais sobre Kira e sua jornada em busca das gemas do Totem Sagrado de Hisipan. *Sorriso enorme*

Até a próxima. Tenho que correr. Pois preciso descobrir as maravilhas das Fábulas ao Anoitecer.

O grande e teimoso poder do número três

Start your engine! E vamos à dimensão dos contos de fadas para encontrar as histórias dos célebres irmãos Grimm. Traduzidas e adaptadas pela Georgette Silen em As três princesas negras e outros contos dos Irmãos Grimm.

Suponho que estão se perguntando o motivo do título da resenha. Respondo que ele não é à toa, pois todos os contos do livro em questão possuem a palavra “três” no título. Inclusive isso é comentado no prefácio, este escrito por nada menos que o querido e amado Celso Sisto, de quem eu tive o privilégio de ser aluna em um curso de Contação de Histórias promovido pela PUCRS. (Bons tempos aqueles.)

Reproduzindo o trecho: Mas há ainda há a força do três, o número da perfeição, do equilíbrio. A soma do positivo e do negativo faz aparecer o neutro, a zona de proteção. Para reforçar que essas histórias são tanto uma viagem pela paisagem externa, quanto pelo mundo interior, o três está aí para conferir afloramento desse reino de dentro: corpo, mente e espírito se complementam. Só isso já embeleza essa antologia. (Não sei se isso foi proposital do Sisto, mas pude enxergar aqui uma referência séria à Santíssima Trindade.)

O livro tem, por sua vez, sete contos. Sete é o número da perfeição, portanto, não tem jeito dessa antologia ter algo de ruim. E ela de fato não tem nada que possa ser considerado ruim. Exceto se quem estiver lendo for um perfeito idiota. (E acreditem, existem muitos.)

O primeiro conto é o que intitula a antologia, As três princesas negras. Tudo começa com a invasão de um povoado por rivais. O então prefeito foge levando todo o ouro local, deixando o povo à própria sorte. Momento “facepalm”. Depois, o rapto de um rapaz. O pai dele recebe uma gigante quantia de ouro pelo filho dele. Até aí só ficamos tristes e lamentamos o ocorrido. Só piorando, o personagem em questão é o pescador a quem todo mundo ridiculariza. O ouro mostrado pelo homem faz com que ele sofra uma inesperada virada. E mude para pior. E o povo acabe pagando pelo pecado de fazer pouco do outro. Até aqui, uma ótima e triste narrativa repleta de reflexões e lições. Lá no final, a gente se pergunta: como o pescador viverá com tudo o que fez antes? Passado é algo que não tem como apagar.

O rapaz raptado, por sua vez, tem que se virar com o que tem para escapar de um destino horrível quando se vê amarrado no meio de uma floresta. E encontra um castelo tal como o das histórias que ouviu de sua mãe. O local é todo preto, inclusive adereços e talheres e suas moradoras usam sáris negros. Pergunta: onde vocês acham que isso vai dar? Aqui a resposta: um muito bem feito desenvolvimento de personagem em poucas páginas, já que o rapaz é duramente desafiado durante um ano todo e precisa dar tudo de si se quiser sobreviver. Incluindo descobrir qualidades que nunca imaginou ter. Juro, vocês não tem noção de onde isso vai. Tudo bem que aparências podem enganar e nem sempre as coisas são o que parecem, mas aqui a coisa toma uma proporção monstruosa. E pontuada pela excelente maneira que Geo, apelido que só os mais íntimos usam, usa para contar histórias. Nota dez.

O segundo conto chama-se Os três homenzinhos da floresta, onde temos o conto da Cinderela com uma irmã má imbecil a menos e três homenzinhos ao invés de uma fada madrinha. Sabe aquela frase: “Deus é tão generoso que nos dá a liberdade para fazermos o que quisermos, mas é tão justo que nós colhemos exatamente aquilo que plantamos”? Pois bem, esse conto nos dá uma ideia perfeita de quão bem funciona a lei do retorno. Pode ser que a recompensa ou o castigo demorem a vir, mas quando vêm, chegam quebrando tudo e só quem é forte fica em pé no final. Na vida real o buraco é bem mais fundo e a discussão muito mais séria, portanto, resumo: seja boa gente, mas não trouxa. Assim, tome cuidado sobre em quem você confia. Você pode acabar em uma armadilha. (Levanto a mão para isso.)

A protagonista é um ótimo exemplo de como isso é verdade, para o bem e para o mal. E as vilãs são aquele exemplo de gente mesmo tomando toda a sorte de patadas em retribuição pelo mal causado, não adquirem juízo. E ainda querem causar mais mal. Outro momento “facepalm”. Outro conto merecendo dois dígitos, um e zero, de nota. Dez.

O terceiro intitula-se Os três corvos. Uma praga rogada torna-se motivo para uma jornada muito além da imaginação (insira aqui a voz do Rod Serling). E a autora nos mostra como o amor, na sua forma mais fraternal e pura, é capaz de vencer todas as barreiras. Apenas alguém com muito amor no coração e uma força tirada de lá sabe onde poderia passar por tudo o que a protagonista passa sem cair no meio do caminho. A Georgette é mãe de duas lindas, Morgana e Aicha, portanto, concluo que, mesmo o conto sendo tradução e adaptação dos irmãos escritores, alguma coisa ela tirou da própria experiência. E novamente nos perguntamos como os “três corvos” conviverão com seu passado após tudo acontecer. Uma história linda, merecendo dez com louvor.

O quarto chama-se As três penas. Novamente: sabe aquele ensinamento de “seja você mesmo”, “aja com naturalidade”, “nunca abra mão dos seus princípios”, etc? Muito bem, é aqui onde entramos na trama do conto, cujo protagonista tem o muito pejorativo apelido de Simplório. Ele é o “nerd”, na falta de um termo medieval, que nem sei se existe. O cara sem muita aptidão física, invisível para as moças e que sempre acaba pagando algum mico por ser desastrado. E naturalmente, ele não reage às provocações dos “bullies”, leia-se neste caso, irmãos dele. Nota: Geo não faz nenhuma referência a coisas como inteligência, aptidão intelectual ou algo parecido. Isso denota demais o estereótipo de que “homem de verdade”, pelo menos naquele tempo e um bocado ainda hoje, tinha que saber cavalgar e ser forte de maneira muito bruta. E burra, se me permitem. Só que é aí que as coisas dão uma virada.

No fundo, o rei, na ocasião já sentindo o peso da idade, sabe que ser apto fisicamente é insuficiente para ser um soberano. Governar envolve muito mais do que ser bom em cavalgar, lutar ou carregar peso. E mesmo ele sabendo das limitações do príncipe caçula, não o diferencia dos outros. E faz uma série de desafios aos três filhos. Todos os três cumprem os desafios com louvor, sendo o “caçulinha” (sem piadas do Faustão aqui, pelo amor de Deus), que sempre triunfa. Os irmãos ficam sempre sem saber o que fazer diante do sucesso dele. Quando eles finalmente cansam de ser superados, querem o pai propondo algo ainda mais desafiador. O “papai sabe-tudo” (quem for mais velho vai sacar a referência), percebendo uma mudança que só os pais notam quando os bebês crescem, propõe O desafio para os filhos. A partir daí, é uma surpreendente sucessão de fatos, culminando em um belíssimo final. Novamente uma louvável nota dez.

O quinto conto tem por título As três fiandeiras. E nos mostra que se a mentira tem pernas curtas, ela dita algumas vezes pode ser verdade. E até pode ajudar alguém necessitado. O que mais eu consigo comentar desse conto sem dar uma saraivada de spoilers na cara de quem está lendo? Primeiro: uma narrativa excelente mostrando como uma mentira bem arquitetada pode acabar se voltando ao seu favor. Segundo: professores de direito e advogados trabalhistas deveriam usar esse texto em aulas e audiências de direitos porque o tema de “exploração de mão-de-obra” e suas consequências é muito bem colocado e trabalhado aqui. Terceira: a sequência final é fantástica, reforçando fortemente o segundo ponto. Impossível não ficar feliz com o triunfo da protagonista a despeito dela não ser exatamente a melhor de todas as pessoas embora ela não seja má, apenas não gosta de fiar. Outra nota dez.

O penúltimo conto, As três folhas da serpente, é também maravilhoso, mas o único para o qual darei nota 9,5. Motivo: é de apertar o coração como as coisas acontecem nessa história. Algumas atitudes são incompreensíveis, eu diria até horríveis, mas, possivelmente (ênfase nisso) é tudo culpa das folhas do título. Aí, porém, tem-se um mistério: porque apenas o protagonista ficou imune? Eu sinceramente vejo uma forte referência ao mito bíblico de Adão e Eva, considerando como as coisas acontecem no conto. Minha gente boa, eu posso dizer: Georgette Silen tem um talento ímpar para fazer referências que só quem for muito bom leitor vai sacar de cara. E o final? Meu Deus, que conclusão!

O último, As três irmãs, é como o primeiro, dividido em dois “arcos”. Na trama em questão, o pai das moças do título é o “funkeiro ostentação” (piada ruim detected) que adora fazer o que bem entende sem ver as consequências. Naturalmente, tanta falta de juízo vai terminar mal. E não apenas uma vez, mas duas! Só na terceira é que ele resolve “acalmar o facho” e levar uma vida “decente e cristã” (soando feito beata besta, mas vocês entenderam). Nem tudo, no entanto, são flores e tudo pode acontecer quando nós sabemos que as três irmãs do título são casadas com homens-fera. Reinaldo, o filho mais novo do rei, nascido após toda a confusão anterior, agora um rapazinho, sai em busca das irmãs para ter notícias. Daqui para frente, é uma jornada cheia de perigo e complicação onde o rapaz tem que se virar nos trinta para não se ferrar bonito. E assim ele encontra o mais lindo dos sentimentos e muito sem querer uma profecia. Depois? Só lendo para saber. Eu garanto, esse excelente conto merece um dez com láureas.

As três princesas negras e outros contos dos Irmãos Grimm é altamente e gloriosamente recomendado para quem gosta de contos de fadas diferenciados, especialmente dos menos conhecidos dessa dupla dinâmica alemã do século dezenove.

Até a próxima. Tenho que correr. Vou ao encontro de Kira.