“Amor vampiro” ou Teimosos amores vampiros

Start your engine! E vamos conhecer os vários funcionamentos de um amor vampiro.

Amor Vampiro é uma antologia de sete autores e dez contos, sendo três e dois deles escritos por um único autor.

Li em um final do ano, quando não tinha nada melhor para fazer. Um presente de Natal autodado no dia 23 de dezembro de 2013 que não me arrependi de ter lido nem por um minuto. Valeu a pena ter passado o dia inteiro colada nele porque foi uma experiência e tanto. E claro, conheci autores que até então eu não havia ouvido falar.

Começarei a resenha pelos contos de Adriano Siqueira, que conheci e conheço como Lord Dri desde ser uma garotinha nos grupos do Yahoo do tempo em que eu dependia de computadores públicos para ter acesso à internet…

O outro lado do espelho é uma daquelas histórias curtas que te pega de jeito sem precisar de muitas páginas. Você acha que a coisa vai acabar de um jeito e quando menos se espera, acontece algo totalmente fora da caixa. Aí você pensa: tiro rápido, mas bem dado. E me acertou em cheio de tão bom que esse conto foi.

O dia dos vampiros (que é um feriado real, criado pela diva Liz Vamp), é de longe o mais negramente cômico dos contos. Começamos com um marido esperando a esposa com quem ele se casou por interesse e quem ele vive traindo. De repente, passamos para um “barato doido de viagem no tempo” (wibbly wobbly timey wimey. Lady para com as referências a Doctor Who, *risos eternos*.), de onde surge certo ser de nome Lord Dany Rey I. Que logo de cara conquista nossa “sofredora esposa”, que alguns minutos depois se revela uma bruxa, ainda que amadora. Além de me fazer rir não só com o modo como as coisas acontecem no conto, uma autorreferência me fez ficar vermelha de tanto dar risada (é só observar com cuidado). Eu juro que deu para imaginar o autor sendo o vampiro. Uma estatura mediana misturada a um sorriso amistoso. Eu consegui me imaginar amiga desse cara. (E eu sou, *risos*.)

“A grande chance” é outro “wibbly wobbly timey wimey” em que no final você não entende exatamente o que houve e cria um milhão de possibilidades, sendo justamente essa a graça do conto. E o que faz com que a narrativa seja interessante.

Segue o baile e vamos para André Vianco, autor de Os sete, Sétimo, Bento, O vampiro-rei 1 e 2, O turno da noite, O caso Laura e por aí vai de tanta coisa boa. (Lembrete: tenho que reler Os sete desde o começo, pois faz anos que não toco nesse livro. E eu comprei por quinze dilmas em um sebo.)

A canção de Maria me fez enxergar certa canção de ninar de uma forma bem diferente depois de lê-lo. Tanto é que eu não tirei a danada da minha cabeça por uns quatro dias. É uma excelente narrativa cuja tensão cresce a cada página, fazendo a garganta ficar com um grito preso até o final, quando o que deveria ser uma exclamação de pânico vira de alívio. Foi desse modo que me senti após o fim: respirei tão fundo que quase perdi o ar.

Vamos agora para a distante e fascinante Itália renascentista através dos olhos de Martha Argel, minha bióloga favorita desde sempre, e sua narrativa A flor do mal. Tudo começa em uma noite qualquer, quando Francesca Fornasari, devo dizer velha conhecida minha de outro livro da Martha (cuja semana começa amanhã no blog), está voltando para casa após uma caçada noturna. Atacada de surpresa por um jovem mortal chamado Giuliano Sacchetti, o primeiro encontro entre eles não exatamente termina bem, culminando em algo inesperado.

A partir daí, as coisas tomam um rumo que particularmente eu não esperava. Seriamente pensei e ainda estou pensando: ela é uma vilã de fato ou apenas uma vítima das circunstâncias? Não é uma pergunta para qual achei resposta, diga-se, mas o apelido “Flor do Mal” é justificado com perfeição. Giuliano Sacchetti é um curioso e levemente complicado caso de evolução de personagem e realmente quero saber mais dele além do que foi contado nesse conto. Ou será que Argel resolveu deixar o resto da história para nossa mente? Quem sabe?

Modesto, em seu turno, nos oferece Amante Notívago, uma narrativa no melhor estilo “Hammer Films” em que temos um confronto sério entre o Conde e o Vampiro além de toques eróticos que aparentemente só servem para mostrar o quão sedutora é a criatura sem nome, mas que na verdade levam muito mais longe que isso. Só mesmo no final é que vamos saber o quão distante vai. Devo dizer, não esperava as coisas desse modo. Imagina um universo expandido? (Senhor Modesto, favor anotar essa ideia.) Aposto que ficaria interessante. Talvez um dia…

E o segundo round dele nos presenteia com O anjo e a vampira, uma história de amor diferente e ao mesmo tempo, dotada de um romantismo tão lindo que torci pelo casal apaixonadamente. O recurso de “contação de histórias” é muito bem usado para mostrar o quão bonito é o amor que aceita todas as aparências, formas e cores sem pensar. E o quanto longe se pode ir por ele. E por causa dele, tomei um nocaute de tristeza. Modesto WINS!

E Nelson Magrini chega “quebrando a banca” com Isabella, um excelente exemplar de como, em apenas algumas páginas, é possível fazer uma personagem sair do lugar comum. E principalmente, tornar vampiros cientificamente explicáveis. E claro, mostrando ser possível amar sem barreiras. Definitivamente esse conto deveria ser utilizado em aulas de Física. Verdade que o Nelson não se aprofunda em conceitos físicos, mas seria uma introdução muito interessante e temos um exemplo perfeito para ensinar os menos interessados na matéria citada.

Regina Drummond nos serve, em bandeja de ouro, A velha, o jovem e o casarão, uma curiosa narrativa “cíclica” sobre um velho e aparentemente abandonado local, o cenário para a história que se desenrola logo em seguida da “introdução”. O jovem do título, que é sem nome propositadamente, tem um “arranca-rabo” sério com o pai, casado com uma vagabunda ao que tudo indica (não é explicitado), e resolve ganhar o mundo e trilhar seu próprio caminho, no que ele se depara com a casa. Ele aceita a hospedagem, a comida e o pouso. E lá no final, não sabemos o que de fato aconteceu, só sabemos que a história volta, à sua maneira, ao ponto onde começou, criando certa confusão nos leitores, que desejam saber o que realmente se passou. E esse é justamente o atrativo desse conto.

O conto que fecha o livro é da autoria de ninguém menos que Giulia Moon, outra amiga minha, que nos traz sua vampira oriental Kaori em Dragões Tatuados, antes que viéssemos a conhecê-la melhor em Kaori – Perfume de Vampira. O que dizer desse conto danado? Uma narrativa onde Samuel Jouza, velho conhecido meu da saga Kaori (e que eu vivo imaginando sendo a cara do Anthony Ainley porque acho que combina perfeitamente) está fazendo seu trabalho de vampwatcher e pouco depois do começo do conto, descobre ter sido vítima de certa vampirinha muito fogosa. A partir daí, do jeito que só a titia Giu sabe descrever, nós temos uma sucessão de eventos que nos dá uma bela ideia do risco que Jouza corre dando uma de “espião sobrenatural”. Como não podia deixar de ser, há cenas quentes envolvendo a vampira e o olheiro, só que, por motivos desconhecidos, Kaori toma uma decisão que eu francamente não esperava. Confesso que fiquei imaginando mil motivos para tal situação, mas, no fim, achei esse conto um excelente modo de introduzir Kaori para quem não a conhece, ainda.

O livro, no geral, nos oferece um belíssimo e saboroso banquete de contos. Recomendo seriamente.

Até a próxima. Tenho que correr. Por que a Patrulha do Tango vai apresentar-se e os ingressos estão quase esgotados.

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A teimosa dama oriental e o ainda mais teimoso Luar: Resenha do crossover entre Kaori e Luar

Luar e Kaori by Giulia Moon

Kaori e Luar by Kizzy Ysatis.

Start your engine! E afinal, chegamos ao primeiro crossover vampírico da literatura brasileira. Dividido em dois livros: Flores Mortais (primeira parte) e Eterno Castigo (segunda parte).

O conto A exótica dama oriental e o inesperado Luar, de onde eu muito na cara de pau tirei o título da resenha, é o começo da história dos dois vampiros mais afamados da nossa literatura. No início da história, um quinteto de rapazes meio, para não dizer totalmente, bêbados, estão procurando diversão numa noite de sexta-feira treze. Vocês, sendo conhecedores das chamadas superstições, imaginam onde isso vai dar, considerando quem são os nossos personagens, sim? Pois bem, para resumir a ópera, depois de quatro dos rapazes sofrerem um azar dos diabos, ao cruzarem com a Kaori na Praça da Sé e tentarem fazer coisa indevida com ela, eis que um dos cinco se revela como… Luar! Isso mesmo, o Raul que é Luar.

Aos olhos dela, ele é claramente impressionante, pois ela nunca tinha visto nada como aquilo. E segue uma conversa muito interessante entre os dois. Giulia Moon consegue mostrar muito claramente as personalidades dos dois vampiros protagonistas em apenas uma conversa, que termina com ela dando uma “fugidinha”. Eu no lugar dela teria “picado a mula” desde o primeiro minuto e não voltava. Porque Luar é traiçoeiro e todo mundo sabe disso.

Antes da segunda interação, Kaori está relembrando de como chegou ao Brasil. Das andanças pela Europa e Ásia fugindo do passado. Querendo apenas seguir em frente. Só que o passado sempre dá o seu jeitinho de voltar. E outra vez ele e ela têm um arranca-rabo, já que a vampira não quer mais saber de conversa com ele, pois na opinião dela, o vampiro é inteligente e perigoso. Uma combinação que geralmente resulta em coisas tensas.

E quando Kaori parece ter finalmente se livrado de Luar, eis que ela é quem acaba tendo um senhor azar na sexta-feira 13 em um local assombrado. Luar volta e dessa vez, ele quer acabar com ela por razões envolvendo planos que ele tem. E que ela pode atrapalhar por deixá-lo sem a paz necessitada para esse caso. Como ela vai sair dessa? Uma ajudinha vinda lá do primeiro livro, cuja presença é muito adequada para o local chamado Beco dos Aflitos. E assim acaba a primeira parte da história. No entanto, é apenas o começo do que viria depois.

A segunda parte, chamada apenas Novela, do livro Eterno Castigo, do Kizzy Ysatis, faz Kaori e Luar se reencontrarem 43 anos após A exótica dama oriental e o inesperado Luar. Nesse caso, o autor aplica muito bem a seguinte frase: Novela é aquilo que o autor quer que seja a novela. Nesse caso, ela é curta, mas extremamente eficiente no que diz respeito a mostrar o quão diferentes são Luar e Kaori.

Começamos a história com Kaori em um local misterioso e até o momento desconhecido para ela, que é exatamente aquilo que uma bruxa lhe descreveu horas antes. Como assim? Pois bem, voltemos algumas horas antes…

A nossa melhor amiga vampira está muito entediada. Isso é só o resumo de como ela realmente se sente após pouco mais de trezentos anos de vida. No entanto, não é apenas isso que ocorre nessa parte. Kizzy descreve de uma forma muito interessante como acontece o amadurecimento de uma criatura noturna quando ele é para ocorrer. No caso de Kaori, o primeiro livro mostra muito bem como isso aconteceu.

A partir desse ponto, nós realmente voltamos horas antes, quando a vampira está sozinha em seu apartamento, localizado em um sobrado. Ela ainda não “mora” no Hotel Tayô, que viria a ser o esconderijo dela nos livros um e dois. E então ela recebe uma carta dobrada em origami, no formato de coração. (*Awn*). O remetente? Takezo, antes chamado Kodo, o samurai mais top da literatura brasileira. Vampiro assim como a Kaori e melhor amigo dela desde sempre. Ela resolve que vai ler a carta depois. Em seguida, sente uma presença. Uma sombra em formato de mariposa, feminina. (Se eu entendi direito.)

Somos apresentados a Elaine de Voltaire, a líder das Sibilas Rubras. Kizzy Ysatis apresentou-a em “O diário da Sibila Rubra”. (Eu não li ainda, mas adoraria ter esse prazer.) Kaori inicialmente não gosta da Elaine, em razão de alguns fortes motivos envolvendo o Luar (spoiler). Mas quando a conversa, mais adiante e após alguns momentos maravilhosamente bem escritos, especialmente a nossa amigona vampira experimentando uma refeição mais refinada, envolve aquela sexta-feira 13 de 1913, as coisas mudam de figura.

Luar ficou mais perigoso, ambicioso e cruel, se é que isso é possível. E resolveu se meter com um tal Shegarash na tentativa de obtê-lo para si. Só que a emenda conseguiu ser umas mil vezes pior que o soneto e ele agora está preso em sua própria residência, o Paralelo Noturno do subtítulo do livro Eterno Castigo. Ela, obviamente, não quer saber de salvar o vampiro. Só que a japonesinha aceita após descobrir que a criatura em questão está ameaçando seriamente a segurança e até mesmo a vida dela, pois as mortes ocorridas nos últimos seis anos estão aterrorizando a zona do meretrício. (Lugar adequado para uma vampira com perfume de sedução, não acham?)

Descobrimos, em seguida, que Takezo e Elaine de Voltaire se conhecem. Inclusive foi ela quem o ajudou a prosperar nos negócios e até mesmo a dançar. (Risos eternos.) E Kaori começa a desconfiar seriamente das próprias crenças, mas se lembra de uma coisa: confie na intuição. E isso se torna suficiente para a vampira confiar na Siblila Rubra e perguntar onde está Raul Lunático Luarento. De quem ficamos sabendo da idade ser mais de um século e meio. E aí é que nós descobrimos que o Largo São Francisco, morada dele, abriga um local muito peculiar: o Paralelo Noturno citado dois parágrafos antes.

Vocês devem estar se perguntando: que lugar é esse? A resposta vem no formato de uma explicação muito bem contextualizada envolvendo até mesmo o poeta Álvares de Azevedo (sim, o autor de Noite na Taverna, leitura quase recorrente de vestibular). Sim, meus amigos leitores, Luar e o poeta se conheceram há muito tempo “em uma galáxia distante” (trilha do Star Wars ao fundo junto com sabres de luz). E o escritor em questão relatou essa situação na peça Macário (procurem no Google), inclusive revelando, a olhos mais perspicazes, o endereço de Raul.

(Para o caso de desejarem saber mais sobre Luar e Azevedo e mais alguns personagens da nossa História, leiam O Clube dos Imortais, que conta a paixão do Luar pelo poeta Álvares de Azevedo e sua possível reencarnação, Luciano.)

É no Largo São Francisco em que Kaori tem de encontrar a entrada para o que Elaine chama de egrégora (um local criado a partir da imensa concentração de energias de algum tipo, negativas, no caso em questão). Devo dizer, criada pelo próprio Raul quando sua casa original foi abaixo. (Kizzy Ysatis, eu insisto que você é whovian. A egrégora é muito a cara da TARDIS.) O que nos faz pensar em quanto poder ele possui, pois como um vampiro de pouco mais de um século conseguiu isso? Ok que o caso dele não foi transformação (foi um dom dado por um anjo caído chamado Azael pelo que Elaine nos informa), mas acho isso complicado até mesmo para um vampiro mais poderoso. A maneira de achar a egrégora foi uma sacada muito genial do Kizzy. “Só o luar pode abri-la”, ah seu garoto levado.

E afinal, a linda moça-vampiro embarca na aventura de salvar Luar, com os leitores sendo premiados com uma descrição muito bonita do local, que é exatamente como na época do Raul: romântico e meio sombrio. E afinal ela chega onde está o nosso malfadado (será?) amigo Raul.

Ah, seu tengu safado. Você é um vampiro muito travesso e cheio de artimanhas para tentar tapear a nossa linda Kaori, mas é claro que você não contava com a esperteza dela. E muito menos com um belo grupo de palavras da adorável Mademoiselle de Voltaire: Todas as mulheres estão unidas na dor, no sangue e no fogo. E assim forjam o raio invencível do amor. Por que razão a resenhista que vos fala diz tudo isso? Porque não quero dar spoilers da trama. No entanto, o modo como ela corre dentro do casarão é tão bem feita e te prende de tal forma que não há jeito de parar a leitura antes de terminar. Mesmo você precisando ir com urgência ao banheiro ou estando verde de fome. (Coisa que me acontece com mais frequência de noite.)

No fim das contas, Kaori leva um prêmio mais que especial. E belamente inesperado. E uma infinita gama de possibilidades para uma futura e possível continuação, que eu desejo muito que aconteça.

Saldo final do crossover: uma maravilhosa e bem lapidada joia que você quer ler mais e mais vezes. E se recusando a dar Flores Mortais ou Eterno Castigo para qualquer biblioteca ou sebo de tanto ciúmes que você fica deles depois de ler. É como se eles virassem seus melhores amigos para toda a vida.

Até a próxima. Tenho que correr. Pois o Neculai quer aprontar de novo em Buenos Aires.

“Kaori e o Samurai Sem Braço” ou O teimoso Kitarô da mão esquerda e sua travessa Omitsu

Start your engine! (Tokufã mostrando a cara.)

E vamos para a resenha de Kaori e o Samurai Sem Braço, da titia lindona poderosa Giulia Moon.

O que dizer desse livro? Não é desses que você lê e simplesmente acha mais um. É uma viagem com guia turístico e tudo pelo Japão mitológico e novamente, pela famosa Era Tokugawa.

A história tem um prólogo que chama consideravelmente a atenção e eu até me atrevo a dizer que achei meio estranho aquilo no começo, mas pensei: segue o baile e vamos ver onde vai dar a “valsa do realejo”. (Música da Clara Nunes. Linda, sem mais.)

E assim o baile seguiu. O livro é dividido em quatro arcos de história que tem um mesmo objetivo: a busca por uma criatura que é tão invisível quanto perigosa com um nome que vem muito bem a calhar, diga-se.

Nessa maravilhosa história spin off conhecemos uma Kaori bem diferente do que viríamos a ver nos livros 1 e 2 da Kaori: uma morta-viva maltrapilha que não gostava de interagir com ninguém, mas acabando tendo que “aprender na marra” quando passa por uma situação muito malfadada. No fim, acaba devendo favores a um samurai “maneta”, mas que vale por dois, chamado “Migitê-no-Kitarô”, acompanhado sempre de uma travessa kitsune chamada Omitsu. E como ela aprendeu com o velho Gombei, favor é coisa que se paga e honra.

O correr da história é executado tão maravilhosamente que o tempo é algo que fica literalmente esquecido. E como não podia deixar de ser, a maldade humana sem limites fez visitinha, deu oi e mandou beijinho em um dos arcos. Eu particularmente fiquei bem revoltada e até mesmo com dó da vilã do arco em questão. Não vou dizer qual é, assim, se querem saber, comprem o livro e leiam. Vai valer cada centavo gasto e cada minuto usado. (Perdido é para fracos.)

E quando o objetivo do nosso trio de aliados heroicos parecia perdido, eis que descobrimos onde exatamente está o grande vilão do livro. E novamente Giulia Moon me passa uma caprichada rasteira muito sacana porque nunca eu ia pensar que a coisa se esconderia tão à vista dos olhos apesar de ter uma pista indicando, mas não onde acabou indo. É como a pergunta que é tão escondida, mas também tão vista: Doctor Who?

Afinal, eu terminei de ler e meu saldo final foi um sorriso GIGANTE nos lábios e uma intrínseca vontade de viajar na TARDIS para ver a Giulia lançando Kaori 3.

E para fechar, recomendo que todos que gostam de leitura boa igual um docinho café com leite leiam “Kaori e o Samurai Sem Braço”.

Até a próxima, com a resenha do crossover entre Kizzy Ysatis e Giulia Moon. Tenho que correr. Porque Alfonsina Storni me convidou para um sarau de poesia.

“Kaori 2 – Coração de Vampira” ou A teimosa dama perfumada chegou para ficar II: Ela é A poderosa

Bem amigos da Rede Globo… (Lady, favor parar com as piadinhas toscas. E não, você não é o Galvão Bueno.)…

Cheguei, enfim, ao final da continuação do primeiro Kaori, que tem por título Kaori 2 – Coração de Vampira, da titia Giulia Moon, que novamente me surpreende com a vampira japonesa mais super de todos os tempos. Não pretendo dar spoilers, então acho que essa resenha vai ser mais curta, porque nunca vi uma sucessão de fatos ser tão espantosa como a que foi no primeiro livro. (Me senti andando de montanha-russa de tão tonta que fiquei em alguns pontos.)

A história se inicia com um prólogo no melhor estilo “começo de Resident Evil”, onde vemos um bando de criaturas saindo do cemitério São João Batista. Isso é apenas o começo do que viria a ser a trama do livro: uma praga sobrenatural se manifestando com força e deixando todo mundo “pra lá de Bagdá” de tão doido. (Adendo: eu fiquei esperando aparecer o Chris, a Jill, a Claire, o Leon ou qualquer personagem da franquia. E barra de energia, munição, armas e todos os comandos possíveis de controle de Play Station.)

No meio dessa sobrenaturalíssima confusão, tanto os vampiros quanto o IBEFF querem descobrir o que é essa doença que anda enlouquecendo a fauna sobrenatural. Mais alguém se enfia no meio dessa confusão: alguém que decididamente poderia estar no rol de mais letais inimigos do Doutor. E podia até ser vilã da Marvel ou DC se fosse americana. Não direi quem é porque todo mundo já sabe. Admito: ô criatura que tem uma determinação dos diabos.

Ao mesmo tempo, bem no começo, Kaori conhece alguém que mexe com ela, mesmo a danada nem sabendo como: Yoshi, um hábil e sedutor host japonês mestiço que acabamos descobrindo ter um inesperado segredo. O que explica muito sobre como a nossa amiga perfumada se deixou levar tão intensamente.

Durante a senhora confusão, vamos descobrindo bem aos poucos o que é a doença e vemos o Felipe, antes o cara perigoso do primeiro livro, agora tendo que se redimir depois de todas as besteiras que fez. Ele não deixou, porém, de ser o arrogante irritante e fica de birra e discussão com o Samuel a maior parte do tempo apesar de um detalhe estar fazendo a diferença e depois outro, que me laçou de surpresa. Ô titia Giu, quanta genialidade! Quem quiser saber, eu só digo: spoilers. (River Song é minha diva.)

Ao mesmo tempo, descobrimos que alguém comanda um local muito peculiar e que o “alguém-que-eu-me-recuso-a-dizer-o-nome” frequenta, mas acaba deixando uns prejuízos altos e é lá que ocorre a última parte da história, epicamente digna de um legítimo e maravilhoso jogo de “Resident Evil”. (Meu namorado jogou o cinco comigo. E eu adorei.)

O final deixou perguntas para trás, mas uma em particular foi respondida e outras duas me martelam nas ideias: qual sentido do presidente do IBEFF agir desse modo? Por que se esconder? Porém, nada de respostas, até agora. Só mesmo quando sair o Kaori 3, só a autora sabe quando. Espero para este último livro uma épica batalha e as respostas que ainda não vieram. Até lá, lerei “Kaori e o Samurai sem Braço”.

Kaori 2 é altamente recomendado para quem adora uma aventura vampiresca sobrenatural. Pessoal que ainda não leu o 1 e o 2, corram, comprem e leiam, pois não irão se arrepender!

Até a próxima. Tenho que correr. Dessa vez quem me chama é o senhor Alfredo Le Pera. E ai do meu pescoço se eu não for ao seu encontro.

“Kaori – Perfume de Vampira” ou A teimosa dama perfumada chegou para ficar

Uma vez, há um bom tempo, após alguns dias, tirando um desconto de sábado, domingo e segunda por motivos de força maior, li Kaori – Perfume de Vampira, da minha amiga escritora Giulia Moon. Juro que vou tentar ao máximo não dar spoilers, mas a sucessão de fatos é tão espantosa que vai ser difícil.

Minhas impressões: Um livro extraordinário, forte, violento, que faz a gente se perguntar até onde vai a crueldade e frieza dos seres, sejam eles humanos ou “bakemonos”. E mesmo sabendo que talvez a Kaori não mereça tanto assim, em razão de algumas atitudes meio complicadas, torcemos por ela.

O livro é totalmente bilateral: em um lado, viajamos em alguns períodos da Era Tokugawa, mais precisamente de 1647 até 1856, conhecendo as origens e vivências iniciais da vampira Kaori. Por outro, no ano de 2008, vemos a personagem, agora uma vampira de mais trezentos anos aparentando ter apenas dezessete (ou menos porque a própria Giulia nunca definiu a idade “real” da Kaori), vivendo em São Paulo, sendo uma “vampira de programa” para poder sobreviver.

A trama, na verdade duas delas, se desdobra de maneira bastante fluída, sendo que a primeira, dividida em três arcos, sendo o 1º os primeiros anos da Kaori como vampira, o 2º o retorno dela ao lado daquela que vem a ser a vilã da história, Missora e o 3º, que é quando ela se apaixona pelo artista brasileiro José Calixto, que é o responsável por uma marca bem peculiar que Kaori atualmente possui. E nessa mesma trama, ela transforma um personagem e ele vem a ser o “melhor amigo” dela.

E como (quase) todo o romance, esse tem muitos altos e baixos até que as coisas de fato deem certo. Se bem que no caso da trama passada da Kaori, as coisas terminam de um modo inesperado e só vamos descobrir isso no epílogo. Deus, até hoje eu não entendo como isso pôde acontecer.

Já a segunda trama trata, pelo menos inicialmente, de um homem chamado Samuel Jouza (Por favor, não é “Souza”), que tem uma profissão tão excitante quanto perigosa: vampwatcher, ou seja, alguém que observa e cataloga vampiros. E nesses caminhos de “olheiro”, topa com Kaori pelo menos algumas vezes, até mesmo sendo salvo por ela de ser leiloado como possível presa de vampiro. O livro tem cada cena de tirar o fôlego e algumas deixam a gente a ponto de explodir de tanta raiva dos vilões, especialmente da Missora e do Felipe, ambos uns desgraçados filhos de uma diaba. (Pelo menos é o que se pensa do segundo antes do segundo livro fazer uma senhora mudança de opinião em quem lê.)

Samuel Jouza, todavia, é uma desculpa, por sinal muito eficiente, para a trama que realmente sacode o livro, pelo menos no presente: os olheiros do IBEFF (Instituto Brasileiro de Estudos de Fenômenos Fantásticos) estão sendo mortos pelos famélicos (um tipo de cachorro gigante que pode tomar forma de humano e falar como tal apesar de não ser tão inteligente quanto um humano, criação da autora), sendo que geralmente eles costumam ser os responsáveis por “limpar” os cadáveres deixados pelos vampiros. (Solução bem bolada, devo comentar.)

A resolução da trama não poderia ser mais frustrante para Kaori, que descobre do pior jeito não ter conseguido, ainda, a vingança que ela tanto deseja, pois foi culpa da Missora (corva FDP desgraçada) que a nossa linda protagonista passou por uns perrengues tensos, incluindo os fatos citados no epílogo. Embora a nossa amiga vampira tenha dado uma surra e tanto na maldita, as coisas não saíram como o esperado e a frustração da japonesinha é de cortar o coração.

Quando finalmente chegamos ao final da história e ficamos sabendo mais do instituto, a nossa cara vai ao chão, tamanha a surpresa causada porque nunca íamos imaginar que o Sidnei reportasse justamente para quem menos poderíamos esperar que iria reaparecer! Pergunto: será que Missora mentiu pra Kaori sobre como se tornou vampira? Quando li o último capítulo antes do epílogo, essa parte meio que deixou de fazer sentido considerando como a coisa aconteceu nele. No entanto, é preciso ter paciência para obter respostas. Giulia Moon não as dá com tanta facilidade.

Kaori – Perfume de vampira é um maravilhoso livro e eu recomendo para quem quer uma aventura frenética e bem executada, além de uma deliciosa viagem ao Japão da Era Feudal e Imperial.

Até a próxima. Tenho que correr. José Betinotti me espera para mais uma rodada de histórias regadas a sangue e chocolate.

“Flores Mortais” ou As teimosas e adoráveis filhas da lua

Olá mais uma vez, adoráveis e teimosos viajantes. Hoje, após uma gama de ótimos momentos com meus amigos portenhos de presas afiadas e sedentos por sangue, estou de volta com mais uma resenha. O escolhido desta bela noite é Flores Mortais, da autora paulistana Giulia Moon. Por onde começo a descrever o quão maravilhoso é esse livro?

Primeiro: o título por si mesmo nos dá uma ideia do que esperar. Todas as protagonistas são mulheres. Cada uma, do seu jeito, traz uma característica do universo feminino. Elas, porém, tem uma pequena peculiaridade: são vampiras. Sim, amigos, são todas belas e letais sugadoras de sangue.

Segundo: as protagonistas te conquistam logo de primeira. Sem enrolações ou firulas, elas te envolvem sem precisar de muitos parágrafos.

Terceiro: Agnes e Maya. Só mesmo descrevendo os contos delas para se ter uma noção de que excelente escritora é a Giulia Moon. Vou deixá-los por último em razão de que não apenas as duas primeiras tem os maiores contos, mas porque foram os que eu mais gostei dos que ainda não tinha lido.

Adendo: um dos contos já apareceu em outro livro que resenhei anteriormente, Amor Vampiro.

Vamos aos contos:

Dragões Tatuados: Antes que viéssemos a conhecer melhor a vampira japonesa mais top do Brasil em Kaori – Perfume de Vampira, a eterna adolescente apareceu primeiramente, pelo menos de forma oficial e desenvolvida, neste conto. O que dizer desse danado? Uma muito maravilhosa narrativa onde Samuel Jouza, (que vivo imaginando sendo a cara do Anthony Ainley porque acho que combina perfeitamente), sim, é com J, velho conhecido meu da excelente saga Kaori está fazendo seu trabalho de vampwatcher. Pouco depois do começo do conto, descobre ter sido vítima de certa vampirinha muito fogosa (E Cristo, ela é fogosa de literalmente matar!).

A partir daí, do jeito que só a titia Giu sabe descrever, nós temos uma sucessão de eventos que nos dá uma belíssima ideia do risco que ele corre dando uma de “espião sobrenatural” (sem apetrechos especiais porque aqui é Brasil, portanto os recursos são praticamente zero). Como não podia deixar de ser, há cenas quentes envolvendo a vampira e o olheiro, só que, por motivos desconhecidos, ela toma uma decisão que eu francamente não esperava. Confesso que fiquei imaginando mil motivos para tal situação, mas, no fim, achei esse conto um excelente modo de introduzi-la para quem não a conhece, ainda. (Sim, é o mesmo comentário que eu usei na resenha de Amor Vampiro com pequenas mudanças, mas esse conto é tão bom que se acrescentar mais, estraga.)

Rock’n Rose: Nesta excelente narrativa, temos uma vampira roqueira, com direito a mechas coloridas no cabelo, cruzes egípcias, roupas descoladas e piercings. Your name is Rose Mistral. Uma sugadora de sangue procurando seu alimento em um local mais que adequado: um bar de roqueiros jurássicos (leia-se do tempo das grandes bandas). Nesse meio, acaba dando de cara com uma menina vendendo chiclete na calçada e dá a ela uma nota alta a despeito de não ter comprado nada. Um fato que vem a ser importante lá no final do conto. Minutos vão, minutos vem, Rose seduz uma moça com intenção de dar uma mordidinha para se alimentar. Só que no meio da janta, a vampira escuta um triste lamento. E nós descobrimos que aconteceu algo sério com a menina para quem ela deu a generosa gorjeta. O que veio depois? Leiam e descubram porque é spoiler. *baixouemmimaRiverSong*

Danse macabre: Vou tentar comentar esse de modo mais resumido. Não porque eu não tenha gostado, mas porque se eu descrever vai ser uma chuva de spoilers com direito a raios a trovões. Para resumir essa excelente ópera: a senhorita Íris, a protagonista da vez, aprende de um jeito bem dolorosamente sério que nunca se deve subestimar o poder de uma pessoa apaixonada quando ela se enfurece. Portanto, crianças, não brinquem com fogo ou vocês podem se queimar. Conselho de amiga.

A santa dos meninos de rua: Essa outra ótima narrativa nos traz a história de um menino de apelido Pipoca. Sem nome porque dificilmente criança de rua tem nome. (Oh tristeza, viu?) Ele vende doces no semáforo na tentativa de ter dinheiro pelo menos para comer, uma realidade de muitas crianças brasileiras, infelizmente. E por conta disso, ele nunca pôde ter um Natal decente.

É um feriado minimamente bom que o espera caso ele aceite a proposta de um casal de “gringos” que passa por ele em um carro. Os instintos dele, porém, o alertam de que é melhor ele correr para longe dali e é isso que ele faz para depois se arrepender de ter perdido a oportunidade de boa comida e cama quente. Daí, sem que esperemos, acontece algo que deixa os leitores com uma cara de: isso foi mesmo sério? Sim, gente, foi mesmo sério. Nunca, jamais, achem que podem brincar com a santa dos meninos de rua. Vocês podem não viver para contar.

As vampiras de Kenshin: Aqui conhecemos Luzia, uma vampira que decididamente merecia um romance só dela. A história dela renderia uma saga tão maravilhosa quanto a da Kaori. (Titia Giu, anote isso, please.) A muito diva Lu (folgada eu) trabalha para um humano chamado Voight realizando trabalhos que definitivamente não são para mãos humanas. Na verdade são, mas é aquela história: vampiros não deixam digitais ou coisa parecida, assim, fica mais fácil de executar.

Em um desses trabalhinhos sujos, ela tem que resgatar um superstar roqueiro japonês chamado Kenshin (inspirado no Gackt, de quem a Giulia é muito fã). A festinha onde ela tem que fazer isso reserva os momentos mais negramente cômicos do conto e resulta em uma explosão de gargalhadas quando descobrimos a identidade da Lady FANGirl (é assim que se escreve). E em muitos sorrisos quando descobrimos que brincar com bonecas pode ser bem perigoso caso você se meta a besta com elas. Assim, cuidado com elas, podem conter explosivos altamente inflamáveis.

A dama-morcega: Junto com Maya, o melhor conto do livro. Giulia Moon já o tinha publicado em outro livro chamado A dama-morcega: narrativas de terror fantástico. Em apenas 27 páginas, a autora consegue desenvolver fantasticamente a protagonista, Agnes (palavra alemã que significa “pura” ou “sagrada”) e mostrar “a trágica incapacidade da medicina de policiar a si mesma” (retirado da sinopse de Médico ou Semideus, de Robin Cook). Se eu tentar descrever a trama desse conto, vou acabar escrevendo uma monografia cheia de spoilers. Quero que vocês comprem o livro e leiam. No fim, A dama-morcega é uma fantástica história de recomeço e despertar que nos faz refletir até onde as pessoas são capazes de ir por aquilo que desejam.

Maya: Uma história dividida em seis partes que eu li dez anos após conhecer a personagem nos grupos do Yahoo. Essa vampira é brasileira, mas vive no exterior desde muito tempo e tem um mordomo tão eficiente quanto humoradamente ácido: Stephen Jones, um latino vulcanicamente quente ainda que pareça tão frio quanto um iceberg. (Deus me perdoe por pecar desse jeito, mas, imaginem um cara muito gostoso de terninho e com cara sempre séria.) Embora as histórias não possuam uma ligação entre elas, a “série” Maya mostra com perfeição a relação dela com seu mordomo e outros vampiros tão poderosos quanto ela, para resultar em um final cheio de possibilidades futuras. E um gostinho de quero mais. Preferencialmente uma porção extragrande.

A exótica dama oriental e o inesperado Luar é o último conto do livro, mas, não irei resenhá-lo aqui porque ele virá junto com a novela que compõe a segunda parte do livro Eterno Castigo, do Kizzy Ysatis. Eles são o crossover que citei na resenha anterior e ganharão um espaço só deles por merecimento.

Para resumir, Flores Mortais é um livro altamente recomendado para quem aprecia uma contista talentosa que sabe fazer perfeito uso das palavras e nos envolver com suas protagonistas tão lindas quanto mortais.

Até a próxima, nesse mesmo blog, com a primeira parte da saga Kaori. Tenho que correr. Porque Agustín Magaldi tem mais uma história para me contar.

“Eterno Castigo” ou Um teimoso Raul que é Luar

Até algum tempo atrás, eu não tinha a real noção de quem realmente era o escritor Cristiano Marinho, conhecido entre os fãs de vampiros pelo pseudônimo de Kizzy Ysatis.

Pessoal, nesse minuto vocês não tem a mínima noção de como me arrependo de não ter lido a obra completa dele antes. Porque ele é, junto da Giulia Moon, da Martha Argel, do Adriano Siqueira e tantos outros contistas, de terror ou não, que eu conheci e li, um dos melhores. Daqueles que tu não vai se arrepender de ler nem quando chegar o dia do Juízo Final.

Para minha total infelicidade, só li até o momento Eterno Castigo, o quarto volume da série Cânticos do Paralelo Noturno. O que é um pecado dos feios considerando que o escritor é simplesmente fantástico em todos os sentidos da palavra que vocês conhecem. Portanto, vamos ao que de fato interessa: o livro.

Eterno Castigo, título do livro e de um dos contos, divide-se em duas partes: seis contos e uma novela. No entanto, vou falar apenas dos contos, pois a segunda é um caso deliciosamente único. (Não contarei agora para não estragar a surpresa.)

O primeiro conto, intitulado Joseph e o vampiro inglês na taverna de Shakespeare, é uma narrativa de pouco mais de cinco páginas com um desenvolvimento muito interessante sobre um vampiro e seu filho agora adulto se reencontrando após tantos anos. E com uma história mais que trágica detrás disso. Além de uma excelente premissa e um conflito psicológico-moral que poderia render um romance inteiro de tão bom, somos brindados com um final no mínimo surpreendente. E que de certo modo nos dá um bocado de pena do senhor Osbourne, se você levar em consideração alguns pontos colocados durante a história.

O segundo conto, Cajita de Cigarrillos, é decididamente um caso que passa longe de ser o clichê do “valentão babaca X gordinho”. Luis é um “hijo de puta” sem dúvida, pelo menos é isso que se pensa no início. Entretanto, com o decorrer da história, o buraco começa a ficar mais embaixo e aí o leitor se pergunta: ele é mesmo tudo isso? Ou é o Víctor que é a víbora da situação? (Trocadilho epic fail.) A descrição do correr da situação é, dizendo o mínimo, assustadora. Você não tem certeza se é verdade ou apenas alucinação do garoto. E quando finalmente chegamos ao ponto final? Eu até agora não consigo achar palavras decentes para descrever o quão terrível foi. Pelo menos em minha opinião, o melhor dos contos, seriamente empatado com No dobrar da hora morta.

Eterno Castigo, o conto que também dá título ao livro, é uma muito dúbia lição de moral sobre “cuidado com o que você deseja”. Ou de “as suas atitudes moldam o seu destino”, no melhor estilo do mangá Holic. (Kizzy Ysatis que me perdoe pela referência caso ele não goste de quadrinho japonês.) A história é narrada por um “imortal moribundo”. Ele vive dentro de um poço com uma única cama, vestido em trapos e mais velho do que inicialmente pensamos, já que não se sabe quanto tempo transcorreu entre a narração e os fatos anteriores. A partir desse ponto, nós conhecemos sobre como ele foi parar naquela situação horrível.

Inicialmente, tive a opinião de que ele mereceu aquilo por ser um babaca idiota que se achava no direito de, junto com os amiguinhos imbecis dele, agredir outros mais frágeis. Com o decorrer do conto, no entanto, não pude manter tal pensamento. É de dar pena ver como a coisa se desenrola para a “turma do R”. E é mais triste ainda ver como termina, aliás, como chega à situação que vemos no começo do conto. Tantas chances perdidas, uma vida inteira desperdiçada apenas por uma atitude errada. Um pequeno fato desencadeando toda uma tragédia. O pior dessa maravilhosa história? O narrador ainda não chegou sequer à metade da primeira garrafa. E o demônio continua ali.

Flânerie, uma palavra francesa que significa “observação”, intitula o próximo conto. O narrador, chamado Nathaniel, primeiramente faz uma descrição de como é um “flâneur” e de que forma ele age, onde costuma ir, qual a melhor hora para fazer uma “flânerie”. Pouco antes, ele conta, resumidamente, como é a vida dele na “Cidade-Luz”.

Depois dessas duas partes, nosso talvez não muito adorável narrador sai para mais uma noite de observações e se depara com nada menos que… um vampiro! Isso mesmo, um deles. Nosso protagonista não está nada assustado com tal encontro, inclusive ele puxa conversa com o dito cujo. E o que se segue é um daqueles diálogos repletos de franqueza, o qual eu duvido que muitos tenham coragem de travar com alguém sem medo das consequências. E já adianto que as mesmas surpreendem. E quando se chega ao final da história, sente-se que foi como degustar um vinho raro, de tão boa que a história é.

Um caso ao acaso é o conto mais curto e decididamente o mais engraçado do livro. E não deixa de ser tão maravilhoso quanto os outros. Adriano, o protagonista, é um aficionado por vampiros, igual certo escritor que conheço e quem sou amiga desde a adolescência. (E que só conheci pessoalmente em 2012.) Ele tá sem dinheiro (como eu quase sempre), mas quer comprar um livro (como eu sempre quero) sobre o que parece ser o registro, feito por um padre, de uma família de imortais. Entretanto, quando o nosso adorável amigo volta pra pegar o danado, ele já foi vendido e aí o rapaz sai em busca da senhorita compradora e fica obcecado por revê-la após encontrá-la pela primeira vez. Deparamo-nos, porém, com o acaso mencionado no título. Quando acabamos, se pensa: Kizzy Ysatis, você é um menino muito levado da breca!

No dobrar da hora morta é o último conto da primeira parte do livro. Este e Cajita de Cigarrillos, em minha opinião, empatam seriamente no quesito “melhor conto do livro”. Luiza é uma adolescente gótica daquelas que você vê com certa frequência em parques e mesas de RPG de eventos. E acabou de passar por uma madrugada pouco memorável, quem sabe a pior de sua vida, segundo o narrador misterioso da história. Não tem família e menos ainda amigos, ao que tudo indica. Ela acha que virou vampira após perceber o quarto bagunçado e sentir uma abstinência daquelas. Para resumir a situação, ela descobre, após todos os testes possíveis, que tudo não passou de uma horrível ilusão. Possivelmente, mas nunca é confirmada ou desmentida, ela pode estar grávida.

Um monstro ainda pior que um vampiro a consome. E ela se vê aceitando a si mesma como ela é realmente é. Depois de ler, me perguntei o que viria depois. Tantas possibilidades. Tantas coisas belas ou sujas. Ela é quem deve escolher o caminho a partir de agora. E sofrer as consequências, de novo e sempre. Como todo mundo um dia tem que fazer.

Embora o mais famoso personagem do Kizzy Ysatis, Raul, ou simplesmente Luar, nome pelo qual ele é mais conhecido, apareça em apenas dois contos, Eterno Castigo e No dobrar da hora morta, é muito possível enxergar claramente a personalidade dele. Maldoso, manipulador de primeira, impiedoso, inescrupuloso, em suma, um mau caráter no melhor estilo Mestre, de Doctor Who. (Sim, eu sou Whovian e ponto. E suspeito que o Kizzy também seja.)

Finalizando, minhas palavras talvez sejam muito pouco se comparar com a sensação de ler o livro por si só. Um livro excelente em todos os sentidos da palavra e altamente recomendado pela dama teimosa que vos fala. E como antes eu disse, a novela fica para outro post em razão de que ela nada mais é que um crossover entre dois universos. Entre quais? É surpresa.

Até a próxima, nesse mesmo blog. Preciso correr. Os vampiros portenhos estão à minha espera para mais um chá no dobrar da hora morta.