“Anardeus – No calor da destruição” ou Anardeus, o teimosamente ignorado

Start your engine! Com destino a Anardeus – No calor da destruição, o segundo e mais recente livro do Walter Tierno, autor de Cira e o Velho, da resenha anterior.

E ao que eu chamo de um dos mais inacreditáveis livros que já li até hoje. Se já achei a história de Cira e seu desfecho impressionantes, Anardeus potencializa isso pelo menos dez vezes. E cria uma trama no mínimo impressionante. Porque não apenas o Tierno parte em mil as convenções do que você considera normal em um protagonista ou mais, como também cria entre eles uma relação, falando o mínimo, perturbadora. E sim, estou falando muito, mas muito sério mesmo. Imaginem os Bórgias, só que reduzidos a apenas dois irmãos. Mentalizaram? Pois bem, é exatamente o que vocês estão pensando.

O nascimento do protagonista e de sua irmã gêmea Isabel por si só já denota a desgraça que viria depois. Ela nasce linda, adorável e cheia de calor. Ele, por sua vez, nasce feio de fazer até o vento sair correndo. Inclusive com direito às enfermeiras tirando na sorte para ver quem dá o primeiro banho na miniatura do Capiroto. O que vem a seguir é hilário e ao mesmo tempo perturbador. E quando você ri de um bebê dando A cagada nas mãos de uma enfermeira logo após ler a parte do sorteio, você pensa: devo ter ficado louco. Não, você está, por enquanto, são. Sim, pior que tá fica, meus amigos. (Sem piada tosca aqui, de novo, please.)

A sequência da escolha dos nomes das crianças, especialmente a do protagonista, atesta que o pai deles é um belíssimo pedaço de bosta (com o perdão da palavra porque não achei outra que definisse meus sentimentos). A situação causa uma incredulidade que ultrapassa o nível normal de qualquer leitor. Eu já tinha visto gente ridícula, mas esse daí pode levar o primeiro prêmio por merecimento! E claro, ele é um filho da puta. (Já que o Walter usa incontáveis palavrões no livro, posso, e me dou ao direito de, usar alguns na resenha.)

Anardeus (quem for leitor dos bons vai sacar a referência literária) narra sua história de modo muito entrecortado. Uma hora nós estamos nos dias atuais, em que ele e Isabel já passaram dos trinta. Algumas vezes uma década antes. Ou voltamos décadas onde eles são apenas crianças com um pequeno probleminha: ela sente inacreditável calor o tempo todo e ele, um “frio de cortar cusco” na mesma intensidade (expressão gaúcha, a cargo de informação). Pequeno probleminha que futuramente vai gerar uma merda do tamanho da galáxia. Juro, vocês não tem noção de até onde isso vai.

Alguns momentos do livro são simplesmente as coisas mais surreais do mundo. E se descobre, de forma escancarada, que o protagonista, quando deseja o calor e faz mil merdas por conta disso, é uma espécie de mutante, pois ninguém, ou quase, consegue se lembrar dele após vê-lo. Leia-se, ele é ignorado de uma forma totalmente literal. Como se ele fosse o homem invisível, mas sem precisar da clássica fórmula de laboratório. Certo, eu não devia ter contado isso, mas considerando a sinopse do livro, não é muito difícil de deduzir. Eu mesma já suspeitava antes de chegar ao ponto em que isso ocorre.

O livro, na sua composição geral, é envolvente e muito bem escrito. O sistema de diálogos é um pouco diferente do que estamos acostumados, mas a adaptação é bem rápida. As sequências em que o personagem sente calor são, de longe, as mais terrivelmente perturbadoras, pois impressiona o fato de que o Anardeus quer “que tudo vá para o inferno” (sou fã da Jovem Guarda, e daí?) e não para nem um momento para pensar que parte das pessoas não tem nada a ver com as coisas horríveis que ele sente a maior parte do tempo. Adendo: não estou dizendo que alguém é santo, mas um pouco de bom senso e reflexão costuma servir de alguma coisa.

O que dizer, porém, da parte próxima ao final? A relação do Anardeus e da Isabel já era uma loucura perturbada por si só. Imaginem então quando temos A grande revelação da trama, relacionada à estranha anomalia de temperatura dele. Eu nunca haveria de achar que era aquilo! O verdadeiro culpado é alguém que nós nunca poderíamos imaginar. A minha pessoa pelo menos nunca poderia crer que seria daquele modo e muito menos que o personagem em questão fosse tão ou até mais maluco que o protagonista. Para não dizer coisa pior. Sinceramente, eu tomei um cagaço de primeira. E sim, gaúcho não toma susto, toma cagaço. (Guri de Uruguaiana feelings.)

No fim das contas, Anardeus – No calor da destruição é aquele livro excelente que te leva a pensar em quanta gente parecida com ele pode existir na vida real. Recomendo fortemente e leitura. Comprem com o autor: http://waltertierno.com.br/lojinha.html ou nas livrarias como a Saraiva. Além de lojas como a FNAC ou Americanas.

Até a próxima. Tenho que correr. Preciso encontrar Laura antes que Avelar o faça.

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