“Cira e o velho” ou A teimosa Cira

Start your engine! Dessa vez pegando carona em uma máquina do tempo com destino ao Brasil colonial de Cira e o Velho, do Walter Tierno. Que para quem não lembra, foi autor de um dos contos da antologia Amor Lobo, a resenha anterior.

A história tem um começo muito peculiar que, pelo menos para mim, ficou um pouco estranho, mas nem por isso menos interessante. Afinal, o narrador não gosta muito de viajar e se considera muito ruim para conseguir transporte, comida e acomodação. Não obstante, é a obsessão que o leva a viajar para vários lugares atrás de informações sobre a personagem título, Cira. E é assim que embarcamos em uma viagem pelo Brasil Colônia, através, primeiramente, das palavras de Dona Nhá, nome real Tereza, que diz ter andado junto da protagonista e com ela vivido aventuras dignas daqueles filmes antigos que vivem passando em algum canal esquecido de TV a cabo ou Sky.

A narradora em questão tem um raciocínio muito único na hora de contar suas aventuras. E ainda por cima, usa uma linguagem que desafia seriamente o melhor dos linguistas, segundo as palavras do narrador, que curiosamente não tem nome. E o levado, ao invés de começar falando da heroína, resolve de cara nos apresentar a um dos vilões, o masculino principal da história, apelidado de “O Paulista” (sem piada tosca aqui, please).

Pessoal teimosamente amado do meu blog, vocês não tem a mínima noção do ódio que ele desperta até no mais calmo dos corações (o meu não é um deles com certeza). Os atos dessa criatura amaldiçoada são simplesmente as coisas mais horrendas e detestáveis que vocês conseguem imaginar. E é ainda pior quando isso envolve a Cira a mando de ninguém menos que A vilã da trama, a tia dela, a cobra maldita Maria Caninana, outra que faz o leitor quase arrancar os cabelos de tanta raiva. Imaginem a seguinte junção: fósforo + gasolina. Apenas mentalizem seriamente a imagem disso. E multipliquem por um milhão.

É quando finalmente chega “a hora da verdade” para a então criança Cira. Eu não tenho coragem de descrever como ocorre isso. Além de spoiler, é possivelmente uma das maiores barbaridades que se pode fazer contra uma criança e sua mãe apenas por interesses escusos. É de se perguntar como é que a Maria Caninana se tornou tão perversa quando ela tinha tudo, e eu digo tudo mesmo, para ser alguém muito melhor. Não que o Cobra Norato, pai da Cira, fosse um santo, mas se comparamos os dois, ele ganha disparado no quesito bom caráter. Embora se criem algumas controvérsias quando o narrador fala com Norato. Ou pelo menos em teoria. Eu explico depois. Ou pelo menos vou tentar, já que isso também é spoiler.

Após o ocorrido com Cira, passam-se vários anos. A pequena tornou-se adulta. E uma bela mulher, diga-se. Linda, porém, muito perigosa e mortal quando resolve focar-se na vingança contra Domingos Jorge Velho, ou simplesmente, “O Paulista”. (Trilha sonora de tensão.) E até que esse dia venha, nossa protagonista trilha um longo caminho. E nele liberta um grande grupo de escravos de uma fazenda, despertando O ódio no coração de uma personagem. (Beatrix Kiddo, estou olhando a senhorita. Favor, Tierno, anotar essa sugestão para um spin off.) E causa uma série de problemas para outro, um padre, que também dá a sua pitada para o conhecimento do narrador sobre ela.

Além disso, ela aprende muitas coisas, incluindo lutar capoeira em Palmares com Mestre Joaquim, que viria a ser o primeiro amor da vida dela. Um lindo romance que infelizmente não dura. E adivinhem por culpa de quem? Voltem alguns parágrafos e lá está a resposta. You sons of a bitch!

Não apenas temos as aventuras de Cira, mas também a história do Cobra Norato, que é o mote para todo o ocorrido com a filha favorita dele. Afinal, se não fosse pela trágica morte da mãe dos dois irmãos gêmeos, não teríamos a história aqui contada. E a coisa é de uma sordidez tamanha que é impossível descrever sem ter vontade de dar um tiro na Maria Caninana. Sério, essa daí é cobra no sentido mais figurativo possível da palavra. O fato de ela ser literalmente uma cobra não tem nem como comparar. Eu até me atrevo a dizer que era até melhor ela ter ficado na forma animal sempre. Aí, porém, o Norato não teria virado pai da Cira. É gente, vida de leitor é essa eterna contradição entre opiniões. (E a tentativa de não jogar uma saraivada de spoiler na cara de todo mundo quando se faz resenha.)

No fim das contas, o grande amor fraternal, e até mais que isso, que ela sente pela Nhá no correr da trama, faz com que ela acabe tomando uma decisão que viria a deixar a História tal como conhecemos. E trilhe um longo caminho pela vida afora vivendo aventuras ainda mais complicadas que a batalha de Palmares. Como assim? Isso tudo é spoiler, portanto não posso contar os detalhes. E muito menos descrever, se bem que as palavras me faltam nessa hora, o Posfácio. Esse maldito infame que botou sentido em muitas das palavras estranhas anteriores do narrador. Estou falando mais sério do que de costume. A virada é possivelmente o “verdadeiro final” mais surpreendente que eu já vi em anos lendo todo o tipo de história! O autor decerto era fã daqueles jogos que se tinha de jogar não sei quantas vezes para se chegar ao real fim da história.

E foi justamente esse diferencial que tornou Cira e o Velho ainda mais excelente do que eu já achava mesmo antes de ler. Recomendo com força a leitura para quem deseja conhecer o folclore do nosso Brasil e de quebra, ler uma maravilhosa e bem amarrada trama.

Até a próxima. Tenho que correr. Vou passar na pinel para visitar Anardeus.

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