A teimosa dama oriental e o ainda mais teimoso Luar: Resenha do crossover entre Kaori e Luar

Luar e Kaori by Giulia Moon

Kaori e Luar by Kizzy Ysatis.

Start your engine! E afinal, chegamos ao primeiro crossover vampírico da literatura brasileira. Dividido em dois livros: Flores Mortais (primeira parte) e Eterno Castigo (segunda parte).

O conto A exótica dama oriental e o inesperado Luar, de onde eu muito na cara de pau tirei o título da resenha, é o começo da história dos dois vampiros mais afamados da nossa literatura. No início da história, um quinteto de rapazes meio, para não dizer totalmente, bêbados, estão procurando diversão numa noite de sexta-feira treze. Vocês, sendo conhecedores das chamadas superstições, imaginam onde isso vai dar, considerando quem são os nossos personagens, sim? Pois bem, para resumir a ópera, depois de quatro dos rapazes sofrerem um azar dos diabos, ao cruzarem com a Kaori na Praça da Sé e tentarem fazer coisa indevida com ela, eis que um dos cinco se revela como… Luar! Isso mesmo, o Raul que é Luar.

Aos olhos dela, ele é claramente impressionante, pois ela nunca tinha visto nada como aquilo. E segue uma conversa muito interessante entre os dois. Giulia Moon consegue mostrar muito claramente as personalidades dos dois vampiros protagonistas em apenas uma conversa, que termina com ela dando uma “fugidinha”. Eu no lugar dela teria “picado a mula” desde o primeiro minuto e não voltava. Porque Luar é traiçoeiro e todo mundo sabe disso.

Antes da segunda interação, Kaori está relembrando de como chegou ao Brasil. Das andanças pela Europa e Ásia fugindo do passado. Querendo apenas seguir em frente. Só que o passado sempre dá o seu jeitinho de voltar. E outra vez ele e ela têm um arranca-rabo, já que a vampira não quer mais saber de conversa com ele, pois na opinião dela, o vampiro é inteligente e perigoso. Uma combinação que geralmente resulta em coisas tensas.

E quando Kaori parece ter finalmente se livrado de Luar, eis que ela é quem acaba tendo um senhor azar na sexta-feira 13 em um local assombrado. Luar volta e dessa vez, ele quer acabar com ela por razões envolvendo planos que ele tem. E que ela pode atrapalhar por deixá-lo sem a paz necessitada para esse caso. Como ela vai sair dessa? Uma ajudinha vinda lá do primeiro livro, cuja presença é muito adequada para o local chamado Beco dos Aflitos. E assim acaba a primeira parte da história. No entanto, é apenas o começo do que viria depois.

A segunda parte, chamada apenas Novela, do livro Eterno Castigo, do Kizzy Ysatis, faz Kaori e Luar se reencontrarem 43 anos após A exótica dama oriental e o inesperado Luar. Nesse caso, o autor aplica muito bem a seguinte frase: Novela é aquilo que o autor quer que seja a novela. Nesse caso, ela é curta, mas extremamente eficiente no que diz respeito a mostrar o quão diferentes são Luar e Kaori.

Começamos a história com Kaori em um local misterioso e até o momento desconhecido para ela, que é exatamente aquilo que uma bruxa lhe descreveu horas antes. Como assim? Pois bem, voltemos algumas horas antes…

A nossa melhor amiga vampira está muito entediada. Isso é só o resumo de como ela realmente se sente após pouco mais de trezentos anos de vida. No entanto, não é apenas isso que ocorre nessa parte. Kizzy descreve de uma forma muito interessante como acontece o amadurecimento de uma criatura noturna quando ele é para ocorrer. No caso de Kaori, o primeiro livro mostra muito bem como isso aconteceu.

A partir desse ponto, nós realmente voltamos horas antes, quando a vampira está sozinha em seu apartamento, localizado em um sobrado. Ela ainda não “mora” no Hotel Tayô, que viria a ser o esconderijo dela nos livros um e dois. E então ela recebe uma carta dobrada em origami, no formato de coração. (*Awn*). O remetente? Takezo, antes chamado Kodo, o samurai mais top da literatura brasileira. Vampiro assim como a Kaori e melhor amigo dela desde sempre. Ela resolve que vai ler a carta depois. Em seguida, sente uma presença. Uma sombra em formato de mariposa, feminina. (Se eu entendi direito.)

Somos apresentados a Elaine de Voltaire, a líder das Sibilas Rubras. Kizzy Ysatis apresentou-a em “O diário da Sibila Rubra”. (Eu não li ainda, mas adoraria ter esse prazer.) Kaori inicialmente não gosta da Elaine, em razão de alguns fortes motivos envolvendo o Luar (spoiler). Mas quando a conversa, mais adiante e após alguns momentos maravilhosamente bem escritos, especialmente a nossa amigona vampira experimentando uma refeição mais refinada, envolve aquela sexta-feira 13 de 1913, as coisas mudam de figura.

Luar ficou mais perigoso, ambicioso e cruel, se é que isso é possível. E resolveu se meter com um tal Shegarash na tentativa de obtê-lo para si. Só que a emenda conseguiu ser umas mil vezes pior que o soneto e ele agora está preso em sua própria residência, o Paralelo Noturno do subtítulo do livro Eterno Castigo. Ela, obviamente, não quer saber de salvar o vampiro. Só que a japonesinha aceita após descobrir que a criatura em questão está ameaçando seriamente a segurança e até mesmo a vida dela, pois as mortes ocorridas nos últimos seis anos estão aterrorizando a zona do meretrício. (Lugar adequado para uma vampira com perfume de sedução, não acham?)

Descobrimos, em seguida, que Takezo e Elaine de Voltaire se conhecem. Inclusive foi ela quem o ajudou a prosperar nos negócios e até mesmo a dançar. (Risos eternos.) E Kaori começa a desconfiar seriamente das próprias crenças, mas se lembra de uma coisa: confie na intuição. E isso se torna suficiente para a vampira confiar na Siblila Rubra e perguntar onde está Raul Lunático Luarento. De quem ficamos sabendo da idade ser mais de um século e meio. E aí é que nós descobrimos que o Largo São Francisco, morada dele, abriga um local muito peculiar: o Paralelo Noturno citado dois parágrafos antes.

Vocês devem estar se perguntando: que lugar é esse? A resposta vem no formato de uma explicação muito bem contextualizada envolvendo até mesmo o poeta Álvares de Azevedo (sim, o autor de Noite na Taverna, leitura quase recorrente de vestibular). Sim, meus amigos leitores, Luar e o poeta se conheceram há muito tempo “em uma galáxia distante” (trilha do Star Wars ao fundo junto com sabres de luz). E o escritor em questão relatou essa situação na peça Macário (procurem no Google), inclusive revelando, a olhos mais perspicazes, o endereço de Raul.

(Para o caso de desejarem saber mais sobre Luar e Azevedo e mais alguns personagens da nossa História, leiam O Clube dos Imortais, que conta a paixão do Luar pelo poeta Álvares de Azevedo e sua possível reencarnação, Luciano.)

É no Largo São Francisco em que Kaori tem de encontrar a entrada para o que Elaine chama de egrégora (um local criado a partir da imensa concentração de energias de algum tipo, negativas, no caso em questão). Devo dizer, criada pelo próprio Raul quando sua casa original foi abaixo. (Kizzy Ysatis, eu insisto que você é whovian. A egrégora é muito a cara da TARDIS.) O que nos faz pensar em quanto poder ele possui, pois como um vampiro de pouco mais de um século conseguiu isso? Ok que o caso dele não foi transformação (foi um dom dado por um anjo caído chamado Azael pelo que Elaine nos informa), mas acho isso complicado até mesmo para um vampiro mais poderoso. A maneira de achar a egrégora foi uma sacada muito genial do Kizzy. “Só o luar pode abri-la”, ah seu garoto levado.

E afinal, a linda moça-vampiro embarca na aventura de salvar Luar, com os leitores sendo premiados com uma descrição muito bonita do local, que é exatamente como na época do Raul: romântico e meio sombrio. E afinal ela chega onde está o nosso malfadado (será?) amigo Raul.

Ah, seu tengu safado. Você é um vampiro muito travesso e cheio de artimanhas para tentar tapear a nossa linda Kaori, mas é claro que você não contava com a esperteza dela. E muito menos com um belo grupo de palavras da adorável Mademoiselle de Voltaire: Todas as mulheres estão unidas na dor, no sangue e no fogo. E assim forjam o raio invencível do amor. Por que razão a resenhista que vos fala diz tudo isso? Porque não quero dar spoilers da trama. No entanto, o modo como ela corre dentro do casarão é tão bem feita e te prende de tal forma que não há jeito de parar a leitura antes de terminar. Mesmo você precisando ir com urgência ao banheiro ou estando verde de fome. (Coisa que me acontece com mais frequência de noite.)

No fim das contas, Kaori leva um prêmio mais que especial. E belamente inesperado. E uma infinita gama de possibilidades para uma futura e possível continuação, que eu desejo muito que aconteça.

Saldo final do crossover: uma maravilhosa e bem lapidada joia que você quer ler mais e mais vezes. E se recusando a dar Flores Mortais ou Eterno Castigo para qualquer biblioteca ou sebo de tanto ciúmes que você fica deles depois de ler. É como se eles virassem seus melhores amigos para toda a vida.

Até a próxima. Tenho que correr. Pois o Neculai quer aprontar de novo em Buenos Aires.

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