“Eterno Castigo” ou Um teimoso Raul que é Luar

Até algum tempo atrás, eu não tinha a real noção de quem realmente era o escritor Cristiano Marinho, conhecido entre os fãs de vampiros pelo pseudônimo de Kizzy Ysatis.

Pessoal, nesse minuto vocês não tem a mínima noção de como me arrependo de não ter lido a obra completa dele antes. Porque ele é, junto da Giulia Moon, da Martha Argel, do Adriano Siqueira e tantos outros contistas, de terror ou não, que eu conheci e li, um dos melhores. Daqueles que tu não vai se arrepender de ler nem quando chegar o dia do Juízo Final.

Para minha total infelicidade, só li até o momento Eterno Castigo, o quarto volume da série Cânticos do Paralelo Noturno. O que é um pecado dos feios considerando que o escritor é simplesmente fantástico em todos os sentidos da palavra que vocês conhecem. Portanto, vamos ao que de fato interessa: o livro.

Eterno Castigo, título do livro e de um dos contos, divide-se em duas partes: seis contos e uma novela. No entanto, vou falar apenas dos contos, pois a segunda é um caso deliciosamente único. (Não contarei agora para não estragar a surpresa.)

O primeiro conto, intitulado Joseph e o vampiro inglês na taverna de Shakespeare, é uma narrativa de pouco mais de cinco páginas com um desenvolvimento muito interessante sobre um vampiro e seu filho agora adulto se reencontrando após tantos anos. E com uma história mais que trágica detrás disso. Além de uma excelente premissa e um conflito psicológico-moral que poderia render um romance inteiro de tão bom, somos brindados com um final no mínimo surpreendente. E que de certo modo nos dá um bocado de pena do senhor Osbourne, se você levar em consideração alguns pontos colocados durante a história.

O segundo conto, Cajita de Cigarrillos, é decididamente um caso que passa longe de ser o clichê do “valentão babaca X gordinho”. Luis é um “hijo de puta” sem dúvida, pelo menos é isso que se pensa no início. Entretanto, com o decorrer da história, o buraco começa a ficar mais embaixo e aí o leitor se pergunta: ele é mesmo tudo isso? Ou é o Víctor que é a víbora da situação? (Trocadilho epic fail.) A descrição do correr da situação é, dizendo o mínimo, assustadora. Você não tem certeza se é verdade ou apenas alucinação do garoto. E quando finalmente chegamos ao ponto final? Eu até agora não consigo achar palavras decentes para descrever o quão terrível foi. Pelo menos em minha opinião, o melhor dos contos, seriamente empatado com No dobrar da hora morta.

Eterno Castigo, o conto que também dá título ao livro, é uma muito dúbia lição de moral sobre “cuidado com o que você deseja”. Ou de “as suas atitudes moldam o seu destino”, no melhor estilo do mangá Holic. (Kizzy Ysatis que me perdoe pela referência caso ele não goste de quadrinho japonês.) A história é narrada por um “imortal moribundo”. Ele vive dentro de um poço com uma única cama, vestido em trapos e mais velho do que inicialmente pensamos, já que não se sabe quanto tempo transcorreu entre a narração e os fatos anteriores. A partir desse ponto, nós conhecemos sobre como ele foi parar naquela situação horrível.

Inicialmente, tive a opinião de que ele mereceu aquilo por ser um babaca idiota que se achava no direito de, junto com os amiguinhos imbecis dele, agredir outros mais frágeis. Com o decorrer do conto, no entanto, não pude manter tal pensamento. É de dar pena ver como a coisa se desenrola para a “turma do R”. E é mais triste ainda ver como termina, aliás, como chega à situação que vemos no começo do conto. Tantas chances perdidas, uma vida inteira desperdiçada apenas por uma atitude errada. Um pequeno fato desencadeando toda uma tragédia. O pior dessa maravilhosa história? O narrador ainda não chegou sequer à metade da primeira garrafa. E o demônio continua ali.

Flânerie, uma palavra francesa que significa “observação”, intitula o próximo conto. O narrador, chamado Nathaniel, primeiramente faz uma descrição de como é um “flâneur” e de que forma ele age, onde costuma ir, qual a melhor hora para fazer uma “flânerie”. Pouco antes, ele conta, resumidamente, como é a vida dele na “Cidade-Luz”.

Depois dessas duas partes, nosso talvez não muito adorável narrador sai para mais uma noite de observações e se depara com nada menos que… um vampiro! Isso mesmo, um deles. Nosso protagonista não está nada assustado com tal encontro, inclusive ele puxa conversa com o dito cujo. E o que se segue é um daqueles diálogos repletos de franqueza, o qual eu duvido que muitos tenham coragem de travar com alguém sem medo das consequências. E já adianto que as mesmas surpreendem. E quando se chega ao final da história, sente-se que foi como degustar um vinho raro, de tão boa que a história é.

Um caso ao acaso é o conto mais curto e decididamente o mais engraçado do livro. E não deixa de ser tão maravilhoso quanto os outros. Adriano, o protagonista, é um aficionado por vampiros, igual certo escritor que conheço e quem sou amiga desde a adolescência. (E que só conheci pessoalmente em 2012.) Ele tá sem dinheiro (como eu quase sempre), mas quer comprar um livro (como eu sempre quero) sobre o que parece ser o registro, feito por um padre, de uma família de imortais. Entretanto, quando o nosso adorável amigo volta pra pegar o danado, ele já foi vendido e aí o rapaz sai em busca da senhorita compradora e fica obcecado por revê-la após encontrá-la pela primeira vez. Deparamo-nos, porém, com o acaso mencionado no título. Quando acabamos, se pensa: Kizzy Ysatis, você é um menino muito levado da breca!

No dobrar da hora morta é o último conto da primeira parte do livro. Este e Cajita de Cigarrillos, em minha opinião, empatam seriamente no quesito “melhor conto do livro”. Luiza é uma adolescente gótica daquelas que você vê com certa frequência em parques e mesas de RPG de eventos. E acabou de passar por uma madrugada pouco memorável, quem sabe a pior de sua vida, segundo o narrador misterioso da história. Não tem família e menos ainda amigos, ao que tudo indica. Ela acha que virou vampira após perceber o quarto bagunçado e sentir uma abstinência daquelas. Para resumir a situação, ela descobre, após todos os testes possíveis, que tudo não passou de uma horrível ilusão. Possivelmente, mas nunca é confirmada ou desmentida, ela pode estar grávida.

Um monstro ainda pior que um vampiro a consome. E ela se vê aceitando a si mesma como ela é realmente é. Depois de ler, me perguntei o que viria depois. Tantas possibilidades. Tantas coisas belas ou sujas. Ela é quem deve escolher o caminho a partir de agora. E sofrer as consequências, de novo e sempre. Como todo mundo um dia tem que fazer.

Embora o mais famoso personagem do Kizzy Ysatis, Raul, ou simplesmente Luar, nome pelo qual ele é mais conhecido, apareça em apenas dois contos, Eterno Castigo e No dobrar da hora morta, é muito possível enxergar claramente a personalidade dele. Maldoso, manipulador de primeira, impiedoso, inescrupuloso, em suma, um mau caráter no melhor estilo Mestre, de Doctor Who. (Sim, eu sou Whovian e ponto. E suspeito que o Kizzy também seja.)

Finalizando, minhas palavras talvez sejam muito pouco se comparar com a sensação de ler o livro por si só. Um livro excelente em todos os sentidos da palavra e altamente recomendado pela dama teimosa que vos fala. E como antes eu disse, a novela fica para outro post em razão de que ela nada mais é que um crossover entre dois universos. Entre quais? É surpresa.

Até a próxima, nesse mesmo blog. Preciso correr. Os vampiros portenhos estão à minha espera para mais um chá no dobrar da hora morta.

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