Cinco rosas para Augusto Vandor (“De vampiros portenhos e sonhos escabrosos” – 6º conto)

Felicia Morresi se encontrava no funeral. A terça estava limpa, mas também sombria devido ao terrível acontecimento da segunda feira.

Augusto Vandor havia sido assassinado com cinco balas.

A mulher não gostava muito daquela figura grande e intimidadora, porém, não o odiava como muitos faziam. Preferia pensar que ele agia daquele modo porque tinha algo pelo qual lutar. Ela se perguntava pelo que afinal as pessoas lutavam. Dinheiro, poder, igualdade de direitos ou qualquer coisa capaz de dar mais significado para as curtas, e às vezes medíocres, vidas dos homens e mulheres. A raça humana sempre era capaz de surpreender, dizia Flameth, sua ancestral, quando ela era apenas uma menina nos Alpes Italianos, quase seis séculos antes.

Agora, se encontrava sepultando aquele líder sindical. Confessou a si mesma não desejar uma morte tão terrível a ele. Morresi, porém, tinha ciência de que ele havia procurado seu destino quando decidiu viver pela luta. Costumava ser o preço pago pela maioria daquelas pobres criaturas mortais desejando bater de frente com os malditos poderosos que insistiam em achar que o mundo pertencia a eles. Patéticos, era isso o que esses ditos “poderosos” eram, pois nada levariam desta vida a não ser sua carne e ossos. Eles apodreceriam e virariam apenas cinzas de uma vida não vivida ou erroneamente priorizada.

No entanto, alguns deles, amaldiçoadamente, tinham sido imortalizados. Alguns ela odiava com mais força do que qualquer coisa e dava quase sua alma, se fosse o caso, para impedir os planos malignos que os bastardos insistiam em armar. Vivia se questionando o quanto de vergonha na cara perderam com a imortalidade, se algum dia tivessem tido a decência de tê-la.

Outros haviam se redimido com o tempo, percebendo seus terríveis erros e tendo que conviver com o peso deles. Muitos deles não suportaram as consequências e cometeram suicídio na luz do dia. Alguns ela havia matado com suas feitiçarias ou com velhos métodos, como estaquear e separar a cabeça do corpo. E mais deles ainda viviam ocultos nas sombras levando consigo o peso de seus erros em vida. Eles doavam dinheiro para orfanatos e asilos, cuidavam crianças doentes, praticavam caridade com os mais pobres. Tentavam levar uma vida imortal decente e limpa da ganância que os havia arrebatado antes. Especialmente, ele.

Emiliano Azurra era um “criollo”, filho de imigrantes espanhóis. Havia sido um poderoso proprietário de terras dono de métodos bastante cruéis para lidar com assuntos políticos, pois ele era claramente um “Blanco”. Suas atitudes, porém, haviam despertado o pior da pessoa que ele menos esperava: a própria filha. O resultado havia sido o mais trágico possível: havia tomado quinze punhaladas enfurecidas da jovem de então dezoito anos. Ninguém, exceto ela, sabia como ele havia sobrevivido a algo tão brutal e muito menos o paradeiro da criminosa. Azurra achou melhor nunca procurá-la depois daquilo.

Ele sempre estava ao lado dela, não importava onde ou como. Carregava consigo uma aljava de flechas e um arco feito de aço temperado cuja corda podia suportar um peso bem superior ao seu tamanho. Tudo isso para defendê-la. “La bruja salvaje de los Pampas” constantemente era alvo da ira de inimigos. Tinham ódio do fato dela ser como era e se opor aos que mal causavam a quem não merecia sofrê-lo. Agradecia a ela por sua sanidade não ter ido embora quando o vampiro que o transformara tinha virado um punhado de cinzas. Sua expressão sempre amarga mostrava todo o trauma do passado brutalmente desnudado e castigado.

Horas haviam se ido. Os dois ainda permaneciam ali, mesmo após o corpo de Vandor ter sido depositado e lentamente, acompanharam a última despedida daquele que chamavam “El Lobo”. Agora apenas uma amarga lembrança daqueles tempos turbulentos que se encaminhavam para um trágico desfecho. E assim a humanidade caminharia até entender que nada daquilo realmente valia a pena. Se algum dia ela compreendesse plenamente.

Uma amarga lembrança que poderia se tornar uma perigosa ameaça, a bem da verdade. Mariano Amenábar tinha feito algo horrível com Augusto Timoteo Vandor. Eram necessárias medidas de contenção muito sérias. Pensou seriamente em matá-lo definitivo. O sindicalista morto-vivo, porém, poderia ser muito útil quando um inevitável conflito de poderes acontecesse. Felicia sabia ser apenas uma questão de anos até Leopoldo Belmondo ser defrontado com alguém tão poderoso quanto ele. Amenábar era uma ameaça latente que o prior da Argentina solenemente ignorava quando não deveria fazê-lo.

– O senhor – disse a bruxa de maneira impositiva para continuar em seguida: – Nos deixe entrar na cripta. Há uma última coisa a ser feita.

– Não posso! Isto seria profanação de tumba! – exclamou o coveiro horrorizado.

– Deixe. Ela sabe o que está fazendo – um dos amigos presentes no enterro sabia quem era a mulher trajando um longo vestido preto e de cabelos presos em coque alto na cabeça.

Nada mais ele disse embora se perguntasse o que raios aquela lunática faria. Minutos depois, Emiliano e a bruxa encontravam-se na cripta. Tinha sido aberto a pedido de Felicia. Azurra analisou os olhos e boca do morto, encontrando as íris avermelhadas e os caninos quase crescidos nas gengivas, além de dois molares apresentando pontas…

– A situação está muito ruim. Se bobear, amanhã mesmo ele pode se tornar uma perigosa arma de destruição em massa. Mariano sabia o que fazia quando atacou Vandor durante seu sono.

Outros dois sindicais presentes ali se horrorizaram com o relato. Perguntaram-se como assim aquilo podia acontecer enquanto ela dispunha cinco rosas selvagens em volta do corpo morto de Augusto Vandor. Amarrou-as cuidadosamente com o que parecia uma corda feita de ramos de arruda. Elas impediriam o líder sindical de levantar da tumba para fazer mal aos mortais. E duas moedas completaram o trabalho sendo colocadas sobre os olhos dele, como um selo mágico que evitaria que ele tentasse forçar a saída com sua férrea persistência: – Agora sim está tudo bem. Estamos seguros.

– Tem certeza? Você sabe o que realmente fizeram com ele? – perguntou outro sindical.

– Mariano Amenábar o vampirizou usando seu sangue misturado ao da “Criança Pesadelo”. Vandor se tornaria uma gigantesca ameaça caso eu não fizesse isso desse modo – respondeu Felicia certeira para depois explicar que o homem já não era mais humano. Havia sido transformado no que outros seres sobrenaturais chamavam de “Aberrantes”, os vampiros possuidores de sangue demoníaco. Seres raros, perigosos e incontroláveis, na maioria.

– Deus! – exclamou o que a conhecia e perguntando: – Você não acha perigoso mantê-lo em estase?

– Perigoso é, porém, Vandor espiritualmente ainda vive. Com o tempo, ele aprenderá a conviver com sua suspensão física e desse modo, evitaremos que ele seja corrompido pelo acontecido – respondeu a bruxa, logo sentindo a presença do espírito e ignorando de modo solene as exigências dele de libertá-lo.

Novamente, o caixão foi selado. O espírito estava enfurecido, jurando até mesmo matar Felicia Morresi, que apenas o olhou friamente: – No fundo você sabe: foi melhor assim. Aceite seu destino porque você o procurou.

Alguém espionava todo o fato com curiosidade. Paquita logo correu para Leopoldo a contar as novidades.

Novidades que foram recebidas com espanto e ao mesmo tempo alívio, pois sabiam que, pelo menos por um longo tempo, estariam seguros. E Belmondo sabia ser capaz de fazer o feitiço virar contra o feiticeiro.

Sobre o personagem: http://es.wikipedia.org/wiki/Augusto_Timoteo_Vandor

PS: Como eu gosto muito de “Tormenta”, os vampiros aberrantes são baseados nos “Lefeu” criados pelo Marcelo Cassaro. E eu adoro Dragon Age.

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