“Anardeus – No calor da destruição” ou Anardeus, o teimosamente ignorado

Start your engine! Com destino a Anardeus – No calor da destruição, o segundo e mais recente livro do Walter Tierno, autor de Cira e o Velho, da resenha anterior.

E ao que eu chamo de um dos mais inacreditáveis livros que já li até hoje. Se já achei a história de Cira e seu desfecho impressionantes, Anardeus potencializa isso pelo menos dez vezes. E cria uma trama no mínimo impressionante. Porque não apenas o Tierno parte em mil as convenções do que você considera normal em um protagonista ou mais, como também cria entre eles uma relação, falando o mínimo, perturbadora. E sim, estou falando muito, mas muito sério mesmo. Imaginem os Bórgias, só que reduzidos a apenas dois irmãos. Mentalizaram? Pois bem, é exatamente o que vocês estão pensando.

O nascimento do protagonista e de sua irmã gêmea Isabel por si só já denota a desgraça que viria depois. Ela nasce linda, adorável e cheia de calor. Ele, por sua vez, nasce feio de fazer até o vento sair correndo. Inclusive com direito às enfermeiras tirando na sorte para ver quem dá o primeiro banho na miniatura do Capiroto. O que vem a seguir é hilário e ao mesmo tempo perturbador. E quando você ri de um bebê dando A cagada nas mãos de uma enfermeira logo após ler a parte do sorteio, você pensa: devo ter ficado louco. Não, você está, por enquanto, são. Sim, pior que tá fica, meus amigos. (Sem piada tosca aqui, de novo, please.)

A sequência da escolha dos nomes das crianças, especialmente a do protagonista, atesta que o pai deles é um belíssimo pedaço de bosta (com o perdão da palavra porque não achei outra que definisse meus sentimentos). A situação causa uma incredulidade que ultrapassa o nível normal de qualquer leitor. Eu já tinha visto gente ridícula, mas esse daí pode levar o primeiro prêmio por merecimento! E claro, ele é um filho da puta. (Já que o Walter usa incontáveis palavrões no livro, posso, e me dou ao direito de, usar alguns na resenha.)

Anardeus (quem for leitor dos bons vai sacar a referência literária) narra sua história de modo muito entrecortado. Uma hora nós estamos nos dias atuais, em que ele e Isabel já passaram dos trinta. Algumas vezes uma década antes. Ou voltamos décadas onde eles são apenas crianças com um pequeno probleminha: ela sente inacreditável calor o tempo todo e ele, um “frio de cortar cusco” na mesma intensidade (expressão gaúcha, a cargo de informação). Pequeno probleminha que futuramente vai gerar uma merda do tamanho da galáxia. Juro, vocês não tem noção de até onde isso vai.

Alguns momentos do livro são simplesmente as coisas mais surreais do mundo. E se descobre, de forma escancarada, que o protagonista, quando deseja o calor e faz mil merdas por conta disso, é uma espécie de mutante, pois ninguém, ou quase, consegue se lembrar dele após vê-lo. Leia-se, ele é ignorado de uma forma totalmente literal. Como se ele fosse o homem invisível, mas sem precisar da clássica fórmula de laboratório. Certo, eu não devia ter contado isso, mas considerando a sinopse do livro, não é muito difícil de deduzir. Eu mesma já suspeitava antes de chegar ao ponto em que isso ocorre.

O livro, na sua composição geral, é envolvente e muito bem escrito. O sistema de diálogos é um pouco diferente do que estamos acostumados, mas a adaptação é bem rápida. As sequências em que o personagem sente calor são, de longe, as mais terrivelmente perturbadoras, pois impressiona o fato de que o Anardeus quer “que tudo vá para o inferno” (sou fã da Jovem Guarda, e daí?) e não para nem um momento para pensar que parte das pessoas não tem nada a ver com as coisas horríveis que ele sente a maior parte do tempo. Adendo: não estou dizendo que alguém é santo, mas um pouco de bom senso e reflexão costuma servir de alguma coisa.

O que dizer, porém, da parte próxima ao final? A relação do Anardeus e da Isabel já era uma loucura perturbada por si só. Imaginem então quando temos A grande revelação da trama, relacionada à estranha anomalia de temperatura dele. Eu nunca haveria de achar que era aquilo! O verdadeiro culpado é alguém que nós nunca poderíamos imaginar. A minha pessoa pelo menos nunca poderia crer que seria daquele modo e muito menos que o personagem em questão fosse tão ou até mais maluco que o protagonista. Para não dizer coisa pior. Sinceramente, eu tomei um cagaço de primeira. E sim, gaúcho não toma susto, toma cagaço. (Guri de Uruguaiana feelings.)

No fim das contas, Anardeus – No calor da destruição é aquele livro excelente que te leva a pensar em quanta gente parecida com ele pode existir na vida real. Recomendo fortemente e leitura. Comprem com o autor: http://waltertierno.com.br/lojinha.html ou nas livrarias como a Saraiva. Além de lojas como a FNAC ou Americanas.

Até a próxima. Tenho que correr. Preciso encontrar Laura antes que Avelar o faça.

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“Cira e o velho” ou A teimosa Cira

Start your engine! Dessa vez pegando carona em uma máquina do tempo com destino ao Brasil colonial de Cira e o Velho, do Walter Tierno. Que para quem não lembra, foi autor de um dos contos da antologia Amor Lobo, a resenha anterior.

A história tem um começo muito peculiar que, pelo menos para mim, ficou um pouco estranho, mas nem por isso menos interessante. Afinal, o narrador não gosta muito de viajar e se considera muito ruim para conseguir transporte, comida e acomodação. Não obstante, é a obsessão que o leva a viajar para vários lugares atrás de informações sobre a personagem título, Cira. E é assim que embarcamos em uma viagem pelo Brasil Colônia, através, primeiramente, das palavras de Dona Nhá, nome real Tereza, que diz ter andado junto da protagonista e com ela vivido aventuras dignas daqueles filmes antigos que vivem passando em algum canal esquecido de TV a cabo ou Sky.

A narradora em questão tem um raciocínio muito único na hora de contar suas aventuras. E ainda por cima, usa uma linguagem que desafia seriamente o melhor dos linguistas, segundo as palavras do narrador, que curiosamente não tem nome. E o levado, ao invés de começar falando da heroína, resolve de cara nos apresentar a um dos vilões, o masculino principal da história, apelidado de “O Paulista” (sem piada tosca aqui, please).

Pessoal teimosamente amado do meu blog, vocês não tem a mínima noção do ódio que ele desperta até no mais calmo dos corações (o meu não é um deles com certeza). Os atos dessa criatura amaldiçoada são simplesmente as coisas mais horrendas e detestáveis que vocês conseguem imaginar. E é ainda pior quando isso envolve a Cira a mando de ninguém menos que A vilã da trama, a tia dela, a cobra maldita Maria Caninana, outra que faz o leitor quase arrancar os cabelos de tanta raiva. Imaginem a seguinte junção: fósforo + gasolina. Apenas mentalizem seriamente a imagem disso. E multipliquem por um milhão.

É quando finalmente chega “a hora da verdade” para a então criança Cira. Eu não tenho coragem de descrever como ocorre isso. Além de spoiler, é possivelmente uma das maiores barbaridades que se pode fazer contra uma criança e sua mãe apenas por interesses escusos. É de se perguntar como é que a Maria Caninana se tornou tão perversa quando ela tinha tudo, e eu digo tudo mesmo, para ser alguém muito melhor. Não que o Cobra Norato, pai da Cira, fosse um santo, mas se comparamos os dois, ele ganha disparado no quesito bom caráter. Embora se criem algumas controvérsias quando o narrador fala com Norato. Ou pelo menos em teoria. Eu explico depois. Ou pelo menos vou tentar, já que isso também é spoiler.

Após o ocorrido com Cira, passam-se vários anos. A pequena tornou-se adulta. E uma bela mulher, diga-se. Linda, porém, muito perigosa e mortal quando resolve focar-se na vingança contra Domingos Jorge Velho, ou simplesmente, “O Paulista”. (Trilha sonora de tensão.) E até que esse dia venha, nossa protagonista trilha um longo caminho. E nele liberta um grande grupo de escravos de uma fazenda, despertando O ódio no coração de uma personagem. (Beatrix Kiddo, estou olhando a senhorita. Favor, Tierno, anotar essa sugestão para um spin off.) E causa uma série de problemas para outro, um padre, que também dá a sua pitada para o conhecimento do narrador sobre ela.

Além disso, ela aprende muitas coisas, incluindo lutar capoeira em Palmares com Mestre Joaquim, que viria a ser o primeiro amor da vida dela. Um lindo romance que infelizmente não dura. E adivinhem por culpa de quem? Voltem alguns parágrafos e lá está a resposta. You sons of a bitch!

Não apenas temos as aventuras de Cira, mas também a história do Cobra Norato, que é o mote para todo o ocorrido com a filha favorita dele. Afinal, se não fosse pela trágica morte da mãe dos dois irmãos gêmeos, não teríamos a história aqui contada. E a coisa é de uma sordidez tamanha que é impossível descrever sem ter vontade de dar um tiro na Maria Caninana. Sério, essa daí é cobra no sentido mais figurativo possível da palavra. O fato de ela ser literalmente uma cobra não tem nem como comparar. Eu até me atrevo a dizer que era até melhor ela ter ficado na forma animal sempre. Aí, porém, o Norato não teria virado pai da Cira. É gente, vida de leitor é essa eterna contradição entre opiniões. (E a tentativa de não jogar uma saraivada de spoiler na cara de todo mundo quando se faz resenha.)

No fim das contas, o grande amor fraternal, e até mais que isso, que ela sente pela Nhá no correr da trama, faz com que ela acabe tomando uma decisão que viria a deixar a História tal como conhecemos. E trilhe um longo caminho pela vida afora vivendo aventuras ainda mais complicadas que a batalha de Palmares. Como assim? Isso tudo é spoiler, portanto não posso contar os detalhes. E muito menos descrever, se bem que as palavras me faltam nessa hora, o Posfácio. Esse maldito infame que botou sentido em muitas das palavras estranhas anteriores do narrador. Estou falando mais sério do que de costume. A virada é possivelmente o “verdadeiro final” mais surpreendente que eu já vi em anos lendo todo o tipo de história! O autor decerto era fã daqueles jogos que se tinha de jogar não sei quantas vezes para se chegar ao real fim da história.

E foi justamente esse diferencial que tornou Cira e o Velho ainda mais excelente do que eu já achava mesmo antes de ler. Recomendo com força a leitura para quem deseja conhecer o folclore do nosso Brasil e de quebra, ler uma maravilhosa e bem amarrada trama.

Até a próxima. Tenho que correr. Vou passar na pinel para visitar Anardeus.

De vampiros portenhos e sonhos escabrosos: Tentativa de desespero em Buenos Aires

(Crossover entre Neculai, do autor Adriano Siqueira (Lord Dri) e os Vampiros Portenhos)

Teresa Maldonado andava de um lado a outro, preocupada. Mizuki nunca se atrasava. Voltava ao Media Luna sempre as sete em ponto após fazer suas costumeiras compras no centro. Dessa vez, porém, não tinha voltado, ainda. Ela não compreendia. De repente, escutou fortes batidas na porta. O barulhento estrondo quase a derrubou. A cafetina imediatamente atendeu, exasperada: – Precisa mesmo usar tanta força, Loduca?! Você quase quebra a porta pela enésima vez!

– Desculpa, mas… – ele tentou falar, mas não sabia como dar a desastrosa notícia.

– O que houve? – Teresa bem que tentou conter a sensação ruim, mas não pôde.

– Um dos meninos que vende jornal perto do cemitério me contou que viu dois homens raptarem a japonesinha. O garoto ficou apavorado com o que viu. Só não morreu porque se escondeu a tempo de evitar ser visto – respondeu ele em um único fôlego.

– Quem ousaria raptar a Mizuki?! Por quê?! – Maldonado estava apavorada.

– Pelo jeito que aquele menino estava quando falou, quem fez isso deve tê-lo deixado quase urinando – respondeu Loduca, em seguida perguntando: – Alguma das meninas está disponível? Tenho fome.

– Sim, pode subir. Só tenha o cuidado de não causar dor quando morder. A sua mordida sempre causa queixas – disse ela séria. O vampiro já ia subir quando um garoto franzino entrou correndo, aproveitando-se da porta aberta. Ele exclamou apavorado: – Dona, me mandaram entregar isso em suas mãos! Caso eu não fizesse, ele ia matar a minha mãe!

A expressão desesperada do garotinho fez com que a bruxa e o vampiro logo soubessem quem era o referido…

– É muita ousadia! – Loduca gritou furioso. Os olhos chegaram a adquirir um tom rubro, mas logo voltaram ao normal.

– Não posso acreditar no atrevimento dessa criatura! Achei que tinha me livrado dele na Venezuela! – exclamou a cafetina exaltada.

– Ao que parece, Olaf não desistiu do mestre dele. No dia em que eu puser minhas mãos naquele desgraçado, eu rasgo ele igual um pedaço de papel! – exclamou o vampiro ainda mais exaltado.

– Tente pegá-lo sozinho e é você quem vai ser partido em pedaços – disse ela olhando-o séria. Depois disse, querendo chorar: – O seu tempo de vampiro ainda é curto demais para você ser capaz de lidar com o Olaf por conta própria. Aliás, ninguém da Patrulha do Tango pode fazer isso. Somente Yatagarasu. Ou quem sabe Leopoldo. No entanto, esse maldito bilhete diz que tenho cinco dias para conseguir que o prior rompa o “selo” que impede Neculai de agir livre em Buenos Aires. Ou faço isso ou ele mata Mizuki. Pobrezinha, deve estar apavorada.

– A senhora acha mesmo isso? É mais fácil aquela japonesinha lindamente demoníaca fazer o Neculai se apaixonar por ela ou ela conseguir fugir depois de insinuar aquele corpinho de deusa na cara do Olaf – Loduca deixou Teresa incrédula com tais palavras. Dificilmente ele escondia o quanto adorava Mizuki. Aliás, todos daquela estranha patrulha musical já tinham compartilhado os lençóis e o pescoço da cortesã. E tinham a mesma opinião que o vampiro ali presente.

– Vicente! Você só pode ser imbecil de achar que algum daqueles demônios da peste vão cair em algo tão óbvio! – Maldonado quase lhe atirou um feitiço de cortar fala.

– Eu só fui sincero e você sabe – replicou ele com firmeza. De fato, a bela japonesa atraía olhares por onde passava. Tinha belos e delicados traços orientais e um corpo decididamente sedutor sempre reforçado com belos vestidos de cores fortes. Teresa, muito contrafeita, admitiu que aquilo era mesmo possível.

Mizuki não entendia o que estava acontecendo. Tudo havia sido rápido demais. Em um momento, estava fazendo suas costumeiras compras. No outro, estava amordaçada e amarrada dentro de um veículo junto de dois homens mal encarados. Agora, encontrava-se presa pelos pulsos sendo vigiada por dois pares de olhos cheios de luxúria. Algo lhe dizia que as próximas horas, ou quem sabe dias, seriam problemáticas. Nada, porém, com o qual já não tivesse lidado. Ela sabia que o melhor era possuir amplo jogo de cintura. Especialmente se daquilo dependesse sua sobrevivência.

– Vejo que executaram muito bem o trabalho. Estão dispensados – uma voz masculina que se impunha de modo assustador ecoou na porta do recinto.

Os dois saíram. No lugar deles, entrou uma criatura pálida de olhos muito escuros e cabelos igualmente pretos, além de um pouco longos. Mizuki permaneceu calada. Achou melhor nada dizer. Reconheceu-o. Teresa muito falava dele. Chamava-se Neculai. Ou pelo menos era esse o nome que ele havia escolhido. Sua chefa, e amiga, uma vez o havia derrotado na Venezuela há 45 anos. Usara uma perigosa magia com grande chance de dar incrivelmente errado. Ela, porém, o havia exterminado com sucesso. Agora, contudo, ele estava de volta. Ressuscitado por algum discípulo ou algum vampiro mais poderoso com planos sinistros em longo prazo.

– Percebo que a vadia da Teresa continua tão rigorosa quanto possível para escolher belas senhoritas para o covil de putas dela – disse ele segurando o queixo da oriental, que o fitava com um frio olhar.

Ela respondeu com frieza: – Eu sei quem é você. Sei o que faz contra as pessoas. Saiba que me causa repulsa seu modo de agir. Não importa o que, não importa como, você não obterá o que deseja. Se eu tiver que morrer por Teresa, farei.

– E com muito desespero, sua rameirinha inescrupulosa – Neculai apertou aquele mimoso queixinho com força. Mizuki não reagiu. Já se acostumara com aquele tipo de trato. Muito apanhara quando criança, o que a calejou para tal conduta.

– Terá que fazer mais para me desesperar. Você não sabe com quem está se metendo. Garanto: você pagará por isso. Teresa vai acabar com você de novo. E dessa vez, nem o Diabo te faz regressar – respondeu ela no mesmo tom gélido. Como resposta, recebeu uma violenta bofetada no rosto: – Cuide a sua linguinha, vagabunda de bordel. Ou irei cortá-la. É você que não sabe com quem está se metendo a falar nesse tom de superioridade.

– Eu sei exatamente com quem estou lidando. Um ser covarde e desgraçado. Um aproveitador que se alimenta do desespero de pessoas inocentes. Francamente, você me enoja – Mizuki aumentara uma oitava a voz. E outra vez recebera um violento tapa como retribuição. Dessa vez, porém, havia sido bem mais forte. E na outra face. A japonesa sentiu a mandíbula doer seriamente devido à pesada mão. Todavia, não demonstrou. Permaneceu calidamente fria. Não cairia diante daquele covarde maldito. Seria uma desonra tal queda. Mostraria a ele que ninguém se metia com Mizuki Shinya.

Neculai, por sua vez, achou que iria adorar desesperá-la. O sangue dela ficaria bem melhor e mais encorpado após alguns dias de tortura. Ele mostraria a ela que nenhuma criatura no mundo era incapaz de ceder diante dele.

Uma verdadeira guerra havia começado entre eles. E ninguém sabia qual dos lados sairia vencedor.

Teresa Maldonado achou melhor procurar Leopoldo Belmondo imediatamente. Ele era o único que podia oferecer uma solução menos complicada para o problema que se apresentava. Ou pelo menos em teoria.

O vampiro-prior atentamente ouviu as palavras apreensivas da cafetina. Respondeu por fim:

– Recomendo que, pelo menos por enquanto, digamos a ele que aceitamos a condição dele de libertar a senhorita Mizuki. Teremos cinco dias, porém, eu suponho que você está afoita para rever a jovem, preferencialmente ilesa. E eu imagino que você sabe ser muito difícil ele cumprir a palavra. Pode até ser que ele o faça inicialmente, mas não duvide: ele vai querer causar mal ao máximo de pessoas que ele puder. O desgraçado se alimenta disso.

– E logo eu não sei? Fui eu quem colocou um fim na existência nefasta daquela coisa! Ou pelo menos achei ter conseguido! Infelizmente a letra dele é muito identificável para achar que isso é somente uma brincadeira macabra do Olaf! – disse ela nervosa.

– Entendo. No entanto, Olaf entende muito de magia negra. E tenho certeza de haver muito mais por trás disso do que só a vontade de Neculai de causar desespero. Tem uns quantos vampiros do leste europeu que sonham em invadir a Argentina. E imagino eu que você sabe o motivo – disse Leopoldo soturnamente.

– Alguns elementos podiam ser muito bem apenas fruto da imaginação. Tudo isso é culpa daquela maldita mina de rubi escarlate. Por que diabos você tinha de encontrá-la? – ela respirou fundo.

– Eu não podia adivinhar que estava diante de uma quando estava lutando com Morlock, o criador dele. Estava mais preocupado em evitar que o maldito causasse caos após Solomon ter morrido daquela maneira horrível. Nunca poderia imaginar que estava diante daquele elemento. Foi ele, ainda que eu odeie admitir, que me ajudou a decepar a cabeça daquele porco. E obviamente… – ele dizia quando Teresa o interrompeu: – Não precisa dizer, eu sei.

De repente, quando os dois pareciam cansados daquela conversa, uma criada apareceu. Trazia consigo um japonês na casa dos cinquenta anos…

– Yatagarasu! – Leopoldo e Teresa exclamaram ao mesmo tempo.

– O menino Greco me disse do rapto de Mizuki. Auxiliarei como puder – disse ele resoluto.

– O senhor sabe que lidar com Neculai não é uma tarefa simples. Eu tive muitas dificuldades com Morlock mesmo tendo sido treinado por Solomon – disse o prior ainda em busca de uma solução simples.

– Na verdade, Leopoldo, o seu caso foi um grande golpe de sorte. Você nunca poderia ter lidado com ele em circunstâncias ditas “normais”. A sua capacidade, dada por Solomon, foi essencial – disse ele deixando, Belmondo incomodado: – Se não se importa, prefiro que deixe de mencionar isso.

Ele assentiu mesmo não compreendendo qual erro havia em assumir seus poderes. Por fim, sentou-se, pedindo um cálice de sangue à criada, que prontamente foi atendê-lo.

Os três logo estavam calculando qual seria a melhor estratégia para lidar com Neculai. No entanto, Yatagarasu já estava pondo em prática um perigoso plano. Sabia ele que um de seus queridos meninos sentia uma constelação despertar dentro dele. Era apenas questão de tempo até acontecer. E quem sabe finalmente o mundo se ver livre daquela aberração que se alimentava de sangue e desespero.

Há dias ele sentia uma esquisita comichão no corpo. Tinha ataques de fúria inesperados e sempre esquecia tudo o que ocorria durante os acessos após eles terminarem. Os companheiros a custo conseguiam contê-lo. O advertiam que era melhor ele contar para Yatagarasu sobre os recentes ocorridos. Ou isso poderia custar-lhe muito caro.

No entanto, ele não queria preocupar seu mestre. Achou ser capaz de controlar-se por conta própria. Pensava consigo mesmo que não seria difícil quando descobrisse o motivo daqueles sintomas. Eles, porém, haviam piorado consideravelmente naquele dia. Estava furioso pelo rapto de Mizuki. Desejava ser capaz de lidar com Neculai e resgatar sua adoravelmente deliciosa japonesinha.

– Arolas? Tá voando, é? – um moreno de cabeça levemente angulosa aproximou-se.

– Temos que dar um jeito de resgatar a Mizuki, Contursi. Se for como o mestre disse, o desgraçado vai torturá-la até conseguir fazê-la chegar ao desespero! E se for a isso, a Teresa pode esquecer qualquer chance de resgatá-la com vida! – exclamou ele levantando-se de um pulo.

– Vai com calma, Eduardo. Não podemos sair à moda louca sem consultar o Yatagarasu. Ou nós vamos ser partidos em mil pedaços! – replicou o outro exaltado.

– Me deixem dormir, porcaria! – um de bigode, colocando a cabeça fora de uma janelinha, gritou furioso.

– Ángel, já tá quase anoitecendo – disse Contursi olhando para fora do armazém onde ele e tantos outros repousavam durante o dia. Nesse meio incluíam-se alguns recém-transformados. E em breve outros chegariam, segundo previsões, às vezes instáveis, que Ángel Villoldo conseguia captar com o seu “Olho de Laplace”. Um estranho poder, no formato de um “terceiro olho” localizado na testa, manifestado alguns anos depois dele transformado. A Patrulha do Tango, como Yatagarasu batizara, só tendia a ficar maior na próxima década. Alguns deles, porém, não seriam obra do Ancestral de nome engraçado.

– Acabei de perceber, oras – respondeu Villoldo mal humorado. Quis voltar a dormir, mas não pôde, porque ouviu várias tampas de caixão se abrindo. Todos estavam despertando para mais uma noite de caçada. E um esquisito miado seguido de um ronronado ecoou no armazém, fazendo Eduardo e Contursi rirem…

– O Ponzio acordou com a gata hoje.

– Aposto que ele tá com os dois costumeiros rabos de quando ele vira um… aquela coisa que o mestre disse uma vez.

– “Vampiro nekomata”. O mestre disse que tenho o poder de virar um gato gigante de duas caudas, mas acabo virando um tipo de híbrido ridiculamente esquisito – respondeu o próprio Ponzio entre ronronares contrafeitos. Tinha acabado de saltar do andar superior. Duas orelhas felinas destacavam-se onde antes havia normais. E dois grandes rabos pretos haviam acabado de furar as calças. Além das mãos agora estarem com a aparência de patas, mas com garras incrivelmente letais. E os olhos, invés de apresentarem o vermelho normal dos vampiros, possuíam uma cor violeta-acinzentada.

– Nós temos que encontrar o mestre na casa do prior. Os recém-transformados ficam aqui. Não saiam até segunda ordem – disse Villoldo com firmeza e depois se dirigiu a um negro de bigode e cabelos escuros: – Ezeiza, vigie-os. Eles ainda têm muito que aprender. O resto vem comigo. Vamos bolar um plano para salvar Mizuki.

“E ai daquele Neculai se tocou um daqueles dedos imundos nela!”, pensou Ángel com fúria enquanto saía com um grupo de vampiros decididos a resgatar sua japonesa favorita.

Nenhum dos métodos verbais a deixou desesperada. A pior das ameaças não havia surtido efeito. Olaf estava certo de que, usando o aprendido com seu mestre, conseguiria fazê-la romper o selo. Mizuki tinha consigo o segredo que lhe havia sido confiado por Teresa. Ele constatou isso logo que começou a torturá-la psicologicamente. Ou pelo menos tentado, pois ela não cedia de forma alguma. E ainda não havia conseguido desvendá-lo. No fundo, sentia pena de machucá-la fisicamente, razão pela qual achou melhor chamar Neculai…

– Mizuki é uma bruxa. Do tipo curandeira, que usa o próprio sangue e saliva como ingrediente de poções e muitas vezes até se cura com eles. Dificilmente ela vai quebrar.

A cortesã apenas ouvia. O maldito tinha razão. Ela não quebraria. Nunca. Nem mesmo se ele resolvesse apelar para a tortura física. Ela bem que imaginou isso quando viu Neculai com um chicote na mão direita. Disse friamente:

– Você realmente pensa que me fará ceder com isso? Pode me matar de tanto me bater, mas não vou cair diante um covarde como você.

– Quero ver o quanto você resiste a isso! E o quanto ainda vai se atrever a abrir essa boca para desaforar-me! – exclamou o vampiro balançando o chicote na cara dela. Como resposta, recebeu uma vigorosa cusparada. E a réplica veio na forma de uma ainda mais violenta bofetada. E aquela tinha sido uma de muitas pancadas que ele antes desferira contra ela em razão das respostas muito desaforadas da oriental.

Neculai ordenou que Olaf a despisse totalmente. Queria ver o quanto mais ela suportava apanhar. Naquele caso, porém, de chicote, que machucava bem mais e deixava cicatrizes muito feias. Queria ver se algum homem iria querer pagar para deitar-se com aquela puta respondona depois disso.

Mizuki sentiu a primeira de pelo menos muitas chicotadas. Veio uma lágrima. Ela, todavia, não era de desespero. Vertia do ódio mais puro e sincero. Da raiva de estar naquela situação revoltante. Por estar sendo submetida aquilo. Agora sim não iria mesmo se desesperar. Mostraria àquele vampiro covarde e desgraçado como era forte e destemida. Não se importava de morrer após tanta tortura, mas não seria ele que a deixaria desesperada. Se existia uma coisa que a jovem ainda preservava de sua vida anterior era a determinação. Seria uma completa desonra cair ante um inimigo tão desprovido de virtude.

Preferia o harakiri à queda.

O vampiro causador de desespero continuava a espancá-la. E mais violentamente ainda o fez ao perceber ela não reagir do modo que ele queria. Gritou ao ficar diante do rosto impassível dela: – Como você consegue, sua puta maldita?!

– Já te disse, Neculai. Eu não cairei diante de um monstro covarde. Posso morrer aqui mesmo que o farei com honra. Não será você a conseguir meu desespero – respondeu ela olhando nos olhos dele. Nem mesmo a voz daquela rameira havia mudado. Era como se ela fosse incapaz de sentir dor.

– Sua… vagabunda – disse ele segurando queixo dela com força.

– Eu sou e não me importo. Pelo menos não sou uma covarde aproveitadora que cria desespero nos outros com intenção de beber o sangue – disse ela com a mais absoluta firmeza. E com uma voz tão gélida que arrepiou até mesmo a enegrecida alma de Olaf.

– Se você oferecer seu corpo em troca de dinheiro e joias não é ser aproveitadora, então nada sei da vida! E você cria desespero nos homens quando os enlouquece com suas diabólicas curvas femininas. Sabe disso muito bem. Cobra de homens fracos, luxuriosos e idiotas somas absurdas por uma noite de prazeres carnais. E ainda acha que eu sou o covarde?! Sua cadela! – exclamou Neculai dando mais uma bofetada em Mizuki.

– Você é e sempre será. Pode me bater o quanto queira, mas sabe que estou dizendo a verdade. Por que então você faz isso? Por que desespero te causa tanto prazer? Não há outra explicação: você necessita disso para se sentir superior. Isso é o que, em parte, define uma pessoa covarde – a cortesã mantinha o mesmíssimo tom.

Olaf estava incrédulo. Não via seu mestre daquele jeito há muito tempo. Neculai estava às raias da loucura furiosa com a inacreditável resistência de Mizuki Shinya. Até mesmo estava enfraquecendo por não conseguir o desespero que precisava para alimentar-se. O que afinal tinha ela? Por todos os deuses e demônios, que mulher! Senhoras e senhores, que mulher! Deus, que mulher! Pensava o discípulo do desespero.

Nenhum deles ali imaginava, mas um grupo de vampiros não havia sentido a ausência de um de seus membros. Pelo menos durante dez minutos. Até que de repente perceberam a perda do rastro de Eduardo Arolas. Começaram a procurá-lo como loucos, se perguntando como ele tinha sumido e ninguém dar por sua falta todo aquele tempo. Nenhum deles imaginava, mas “El Tigre del Bandoneón” deixava fluir por seu ser a comichão sentida há dias. Ela, porém, não chegava próxima disso. Na verdade, era o despertar de um poder imenso. A fúria podia nublar seu julgamento, mas uma coisa era certa: ele queria. Talvez fosse uma maneira de salvar Mizuki.

Ele só precisava deixar que tudo acontecesse. Que as águas fluíssem naturalmente.

Neculai sentiu-se mais forte após alimentar-se. O sangue não continha o desespero do qual ele gostava, mas havia servido. Precisava daquilo para continuar investindo contra Mizuki. Nenhuma vagabundinha de bordel luxuoso iria superá-lo. Por Plutão, isso não aconteceria nem que para isso ele precisasse ficar acordado durante o dia para fazê-la desesperar-se! Ela, por sua vez, continuava exatamente do mesmo jeito. Inacreditável, pensou o vampiro ao vê-la tão serena. Podia a jovem até mesmo sorrir, foi o que Olaf pensou ainda tentando entender como ela conseguia suportar tanto.

Nenhum deles sabia algo sobre ela. Mizuki, porém, já tinha vivido o suficiente de situações semelhantes para saber como sobreviver a elas. Testemunhara os capangas do pai castigando toda a sorte de pessoas que ousavam desafiá-lo. Isso tinha sido apenas um dos motivos que a levara a fugir de casa logo após completar seu treinamento de gueixa. Ela contava com dezoito anos à época. Fugira com ajuda do primo que a amava desde criança. Ele tinha ido parar no Uruguai com os funcionários de uma companhia de navios enquanto ela virara dama de companhia de uma conhecida alcoviteira chamada Taliana. A tal mulher achou a japonesa bela demais para uma simples empregada. O resto, todos que a conheciam sabiam.

– Estou cansado disso, senhorita. Você já deveria ter caído – Neculai a todo custo tentava conter a raiva ainda maior que sentia.

– Pode me matar se quiser, mas não vai obter o que deseja de mim. Além do mais, se me matar, aí mesmo é que os vampiros daqui vão mover céus e terra pela sua cabeça. Você pode ser poderoso, mas é só um – disse Mizuki sem medo algum.

– Vários contra um é covardia, sabia? – replicou o vampiro imediatamente.

– Dois pesos, duas medidas – treplicou a cortesã.

– Você é mesmo teimosa, diabinha – sorriu ele para depois dizer: – O que estou fazendo com você é para que, quando Teresa veja, ela saiba que eu jamais a perdoei por aquele feitiço. A sua adorada chefinha me traiu quando eu mais precisava ser auxiliado.

Mizuki, pela primeira vez, mudou de expressão. Estava incrédula ao ouvir aquelas palavras. Teresa já tinha se aliado com Neculai? Por que razão ela teria feito tal coisa?

– Está se perguntando “como assim ela fez isso”? Eu imagino que você não soubesse o quão podre ela é de fato – riu ele enquanto Olaf recordava-se da vil traição daquela vadia venezuelana.

– Ela pode ter tido seus motivos. Considerando que ela não teve uma vida muito fácil, não duvido que você tenha manipulado as emoções dela. Vindo de um tipo como você, não é inesperado – respondeu a japonesa ao lembrar-se de quando Teresa, pela primeira vez, comentou sobre a perda da família em Caracas.

– Como que você…?! – exclamou Olaf, sendo interrompido por um soco de Neculai: – Calado!

– Eu sabia – retrucou Mizuki enojada.

Olaf pouco se importou com o soco. Estava furioso porque não acreditava que aquela prostituta fosse tão inteligente e dedutiva. Que inferno! Ela tinha que ser apagada imediatamente! O discípulo disse: – Eu sugiro que ponha logo um fim nessa vadia para apressar Teresa a fazer o que você deseja. Do jeito que ela é rápida, não duvido que logo descubra mais!

– Você ajudaria bem mais se ficasse quieto! – exclamou ele para o outro logo fechar a boca.

– E ambos ajudariam se morressem de uma vez por todas – uma voz incrivelmente estranha ecoou na porta do porão onde eles se encontravam. Os dois vampiros do desespero não acreditaram no que viram: um vampiro transmutado em uma coisa que mais parecia um híbrido de homem e touro. Dois enormes e pontudos chifres saíam da testa, curvando-se como acontecia com os touros de verdade. O tom de pele era de um marrom bovino. As mãos tinham enormes e afiadas unhas. O que antes eram pés, agora eram cascos. A roupa estava toda despedaçada em razão do aumento de tamanho ocasionado pela transformação. Mizuki, a despeito da horrível aparência da criatura, reconheceu-a. Era Arolas.

– A constelação de Touro – pensou ela assustada. Yatagarasu sabia sobre aquilo? Possivelmente sim, pensou ela quase rindo. Ancestral mais esperto que ele decididamente não havia.

– Ad… – Olaf recitaria algum feitiço, possivelmente de morte, quando algo literalmente entrou pelo teto, deixando-o em pedaços. E avançou violentamente nele. Um enorme e negro gato de duas caudas.

– El Pibe Ernesto! – exclamou Mizuki para depois sorrir triunfante: – Tigrão!

– Não sorria tão cedo, vagabunda. Acha que eu e Olaf não damos conta desses dois insignificantes?! – Neculai odiava ver pessoas sorrindo daquela maneira.

– E que tal um grupo todo deles?! – um negro alto e magro de bigode, usando o que parecia ser uma roupa de treinos, aplicou um certeiro e potente chute em Neculai. O mesmo não teve tempo sequer de pensar em evadir, tal a rapidez de Rosendo Mendizábal. Ficou incrédulo ao ver que todo um grupo havia vindo pelo buraco aberto no teto.

Olaf, a custo, conseguira atirar o feroz gato longe. O braço estava quase arrancado devido à pesada mordida da criatura. Não conseguia sequer sustentar o livro que antes carregava consigo. Pensou em usar a outra mão para pegar o objeto, mas teve a mesma fortemente pisada por Ángel Villoldo: – Acho que não, bastardo.

Ao mesmo tempo, Neculai aplicava toda a sorte de golpes, na tentativa de acabar com aquele bando de tolos insignificantes: – Quem vocês pensam que são?! Acham mesmo que podem contra mim?! O poderoso Neculai?!

O discípulo dele, com um sacrifício quase certo do braço ferido pela mordida de Ponzio, conseguiu livrar-se da pisada de Ángel. Este, imediatamente, usou o poder de seu terceiro olho para lançar um raio contra Olaf, que evadiu por pouco:

– Malditos! Vocês não nos derrotarão!

– Nós somos a Patrulha do Tango! E vocês pagarão por invadirem a nossa cidade! – exclamaram todos em feroz coro.

– Se depender de mim, essa cidade logo será minha e vocês serão nada além de história! – berrou ele com fúria. Ia transformar-se em energia para eliminar todos. Foi quando se viu amarrado com o que parecia ser uma poderosa corda feita de líquido.

Era Eduardo Monelos: – Não sei o quanto meu poder vai aguentar, mas daqui você não sai vivo!

– A constelação de Aquário! – Mizuki gritou impressionada. Na confusão do conflito, a cortesã japonesa tinha sido libertada por Carlos Posadas e Vicente Loduca. Os dois estavam furiosos com a quantia de hematomas no corpo da jovem. Aquele desgraçado era um covarde aproveitador!

O infame vampiro que se alimentava de medo e desespero não entendia como era incapaz de libertar-se. Aquele bando todo não passava de duas décadas de existência ou até de pouco mais de dois anos. Ele tinha muitos séculos a mais que aqueles tolos! Não se deixaria ser derrotado por eles. Foi quando conseguiu romper algo da “corda líquida” de Monelos. Apenas mais um pouco e ele lograria. O que incluiu um chute duplo em um dos vampiros tentando investir contra ele. A distração, entretanto, custou-lhe caro.

A última coisa que os malignos olhos de Neculai viram foi a furiosa e monstruosa expressão de Eduardo Arolas. Que agora se encontrava com a cabeça da criatura nas mãos. Sustentava-a pelos cabelos. O rosto contorcia-se em uma expressão de horror. E desespero.

“El Tigre del Bandoneón” jogou a coisa com desprezo para longe do corpo agora decapitado. Nada disse.

De repente, desmaiou. Ponzio e Monelos o seguiram em tal ato. As outras criaturas trataram logo de levar os companheiros dali para tratá-los, pois tinham a certeza de que o poder usado havia drenado totalmente as forças deles. Villoldo, no entanto, permaneceu ali mais alguns momentos. Pegou o livro de magias do vampiro Olaf. Olhou a desesperada criatura tentando, sem sucesso, conter a hemorragia saindo do braço quase amputado. Sorriu sardonicamente:

– O seu futuro é negro, meu amigo.

– É mesmo? Eu acredito que ele é claro como água – disse Olaf apoiando-se sobre a mão ainda intacta e sorrindo com desdém: – Trarei Neculai de volta e vocês se arrependerão de terem-no desafiado.

– Já disse: o seu futuro é negro – respondeu Ángel certeiro e agora sorrindo cruelmente enquanto tirava do bolso uma caixinha de fósforos: – Porque ele não existe.

O “papá del tango” saiu da casa logo que o fogo começou a espalhar-se pelas incontáveis caixas de madeira do porão. O discípulo agora sem mestre dificultosamente se arrastava na tentativa de fugir do fogo. Implorou a qualquer entidade deste ou do outro mundo que lhe concedessem um milagre. Ou um término rápido para seu sofrimento. Ninguém desde então soube qual tinha sido o real destino daquele malfadado mago negro.

A Patrulha do Tango, após colocar Ponzio, Monelos e Arolas sob os cuidados de Ezeiza, Posadas e Mendizábal, levaram Mizuki de volta ao Media Luna. Ela vestia somente o casaco de Loduca. Teresa recebeu sua querida menina com muitos beijos, abraços e carinhos. Imediatamente examinou o corpo nu da jovem. Alguns hematomas ainda estavam muito feios, mas aos poucos se curavam devido à condição de bruxa curandeira dela. Impressionou-se quando a oriental contou sobre o porquê de ter sido submetida a tanta tortura. E mais ainda quando soube que ele finalmente estava de volta ao Inferno…

– Neculai realmente me manipulou naquela época. Quando eu soube das reais intenções dele, tratei logo de me vingar. Ele não tinha o direito de fazer aquilo comigo. E rapazes, digam ao Pibe, ao Tigrão e ao Monelos que têm meus eternos agradecimentos pelo que fizeram!

– Estamos certos de que não fomos apenas nós – disse Loduca, recebendo a concordância dos outros em seguida. Tinham a certeza de que o mestre japonês havia mandado força a eles. O poder daquele Ancestral tinha feito a diferença.

Aquele dia, 25 de maio de 1937, ficara marcado entre os vampiros de Buenos Aires e de todo o país.

O dia em que a Patrulha do Tango havia provado seu valor.

A ocasião em que Yatagarasu, após tantos anos tendo outros planos, enfim descobrira a verdadeira vocação do poder das constelações do Zodíaco: proteger a humanidade do perigo e do mal.

“Amor Lobo” ou Os teimosos (e tão complicados) amores lobos

Start your engine, boys and girls! E vamos dirigir em direção aos vários tipos de amor lobo, que nos são apresentados por nove autores diferentes na antologia Amor Lobo. Que são crônicas de amor, sangue e lobisomens, como toda a boa história envolvendo os filhos da lua cheia. (Não me peçam spoilers.)

Rosana Rios abre o livro com o conto Prata, que nos conta sobre as férias da jovem Raíssa em uma pousada nas montanhas. No decorrer dos dias, ela vem a se interessar por Zinho, um morador local. O conto é dividido em dois tipos de narrativa: onisciente e primeira pessoa, mais especificamente, um diário. E o que começa com simples conversas acaba resultando em um lindo romance, pelo qual torcemos igual maluco em estádio no domingo do Brasileirão. No fim, Rosana joga uma belíssima bomba no colo dos leitores, que fazem aquela cara de: WHAT?! A minha cara foi exatamente o que vocês devem estar imaginando. Como não podia deixar de ser, isso é sinal de que a história é excelente. Merece nota dez.

Nilza Amaral engata a segunda marcha com Durante treze sextas-feiras, a história de um lobisomem completamente livre das convenções humanas. Ou pelo menos é a teoria, já que durante o dia ele é um respeitável homem de negócios. O fantástico desenvolvimento da trama prende o olhar de quem lê e faz a gente se questionar do porque desse tão travesso número de sextas-feiras. E as cenas de Wolfgang andando pela cidade e depois com a loba que ele encontra? Oh minha senhora, você ganhou uma fã. Merece nota dez, igual o primeiro.

Helena Gomes engata mais uma com Era uma vez. E absolutamente não é um conto de fadas como vocês conhecem. Nada de uma princesa Disney com um príncipe encantado. Muito menos de personagens bonzinhos ajudando a protagonista. A nossa pobre senhorita, que assim como todos os outros personagens, não tem nome, só recebe ajuda de uma pessoa na maior parte do conto e lá perto do final ela tem outra. E a sequência de sacanagens feitas contra a protagonista é revoltante a nível supremo. Tinha horas em que eu queria matar um ou outro personagem porque a coisa é de deixar até a mais calma das pessoas furiosa. No final, porém, a felicidade dos leitores é tão grande que dá aquela vontade de abrir um champanhe e comemorar sem hora de parar. Conto excelente!

André Bozzetto Jr. engata uma marcha de carroça com Os desejos proibidos, um conto em que se sente intensamente a linguagem e os costumes do interior gaúcho. De tal maneira que se pode ver o cenário da história ao vivo e a cores no melhor estilo holograma de Star Trek: A Nova Geração. O autor não especifica a época, mas pela descrição, estamos em pelo menos cem anos atrás e além (piada tosca Toy Story). E para resumir a ópera, temos um amor impossível que de certo modo se torna possível, de um jeito que adorei, considerando que odeio coronéis e seus cupinchas. (Motivos de sensibilidade.) Bozzetto, I love you ever! Excelente conto, merecendo nota dez com louvor.

E para deixar Amor Lobo ainda mais saboroso de ler, Giulia Moon nos serve a deliciosa Lua Redonda (com biscoitos, *ba dum tass*.) em bandeja de prata (outra piada tosca colidindo no caminho). Um estranho triângulo amoroso em que uma das partes não conhece a outra, mas quando conhece, é algo que definitivamente não acaba bem. Para nenhum dos lados, é o que se acha. No entanto, a titia lunar nos surpreende com uma tensa virada de narrador, que nos deixa pensando: o que será…? (Insira spoiler.) Um conto de primeira que merece um lindo dez!

Uma violenta freada nos espera em A passageira, de autoria de Mario Carneiro Jr.. Juro que vou tentar escrever sem me debulhar em lágrimas, porque foi exatamente assim que me senti ao terminar esse lindo conto de amor entre dois seres tão diferentes. Sentimos carinho, amor, compaixão, raiva, revolta, inconformidade, etc. E tem uma coisa que eu adoraria: um final alternativo. De todo o coração, com sinceridade, isso é o máximo que consigo comentar desse conto porque só lendo para acreditar que aquilo aconteceu de fato. Uma maravilhosa história, apesar de tudo.

Ainda me recuperando do conto anterior, li Sobre o Nascer, o Pôr do Sol e o Eclipse, da Georgette Silen. Esse conto, segundo ela, é um spin off da série Lázarus, contando sobre um dos clãs lupinos, liderado pelo maravilhosamente querido Dragomir. (Que aparecerá em Nênia, o terceiro livro ainda sem previsão de lançamento.) Óbvio que a história tem os altos e baixos do nosso querido protagonista, incluindo três perdas, um novo encontro e uma bofetada de realidade. E Georgette nos mostra como ele é demais da melhor forma possível com o moço dando um belo olé no vilão da trama mostrando a que veio ao requerer a posição que lhe foi tirada injustamente. (Com algumas controvérsias.) Silen, eu te amo! E eu amo o Dragomir!

No penúltimo conto do livro, Walter Tierno enfia o pé com tudo no acelerador. Outro spin off, dessa vez do livro Cira e o Velho, A Dama e o Poeta é uma daquelas histórias de amor muito comoventes a despeito das controvérsias criadas em razão dos atos do dito personagem do título. Isso, porém, não importa, pois ele a ama e quer fazê-la feliz não importa o que mesmo isso significando agir da maneira mais FDP possível. E não venham com essa de que isso é errado porque de acordo com as circunstâncias, pode não ser. Mesmo que o contexto seja a maldita Ditadura Militar, em que nada eram flores. Eu já disse uma vez e digo de novo: dona Nhá, a Dama e sua filha tinham que ter feito mais crueldade com o desgraçado do Alemão. Sério, ele merecia! No fim, um conto de 1ª classe. Tierno merece nota dez!

Chegamos ao fim da viagem com Eric Novello e seus Achados e Perdidos, uma história de amor tensa e complicada entre um lobisomem diferente (um salvaxe lupino, cujo tipo o autor não explica bem o que é) e uma mulher que vem a ser agente da BEAST (que parece ser uma espécie de FBI do universo do Novello). A trama se desenrola de tal maneira que é impossível comentar esse conto em todos os detalhes porque eles são spoilers berrantes em tons de vermelho sangue. Vou dizer apenas isso: Eric Novello merece ser apreciado em toda a sua plenitude. Essa excelente história curta é apenas um aperitivo muito suculento do talento dele.

Amor Lobo, afinal, é um prato cheio (de sangue, tripas e outros adendos) para quem gosta de histórias de lobisomens.

Até a próxima. Tenho que correr. Pois irei entrevistar a linda guerreira e bruxa Cira.

O teimoso vampiro da Mata Atlântica

Start your engine! E vamos pegar uma picape das boas e ir à Mata Atlântica conhecer um peculiar habitante dela: o vampiro.

Vocês perguntam: como assim tem um vampiro nesse lugar? É sobre isso que trata a resenha da vez: mais um livro da Martha Argel. Uma mistura de duas coisas das quais ela entende muito bem obrigada: área de conservação, seja do que for e literatura fantástica. A história, como é de costume da habilidade dela, é extremamente cativante e tu consegues se imaginar no cenário da Mata Atlântica. Pensando no trabalhão dos biólogos quando o assunto é criar área de preservação. Acordar cinco da manhã, passar horas e até dias andando na floresta catalogando animais, coletando evidências e tantas outras coisas que decerto a Martha já deve ter feito nesses anos todos esutdando aves.

Explorar uma futura e possível área de preservação já dá aquele trabalho. Imagina então quando você tem um vampiro na “cola” e que ainda por cima era, quando mortal, um arruaceiro de primeira linha e um FDP maior ainda? A coisa é tensão pura do começo ao fim embora a interação direta do vampiro e dos mortais só comece mesmo lá pela metade do livro, quando, quase tarde demais, o Xavier descobre a verdade. Oh Deus, eu não queria estar no lugar dele nem por decreto. Olha, tinha momentos nesse livro em que eu literalmente perdi o fôlego de nervosa, torcendo para que nada de pior acontecesse com os protagonistas.

No entanto, tiveram alguns momentos no livro que me fizeram perder o ar de tanto rir. Tanto que eu penso em, futuramente, fazer um post com as melhores frases. (Devo dizer, a maior parte delas sendo do Julio. Cara mais sem noção, impossível. Se existisse um prêmio pra “sem-noçãozisse”, o Julio Levreaux levava o primeiro por unanimidade.)

Indo para outro tópico, que por sinal é um ponto altíssimo do livro, o paralelo traçado entre os aspectos europeus do mito vampírico e o que provavelmente os moradores locais fariam no caso de terem sabido mais sobre a “assombração” foi o melhor discurso de todos. Me pergunto como teria sido se eles tivessem feito os rituais certos para o Chico Justo ou se tivessem descoberto isso a tempo. E se lógico, não tivessem acontecido as tragédias no local antes da chegada do Júlio e do Xavier.

As sequências onde o Xavier tem que literalmente se “virar nos trinta” para sobreviver são de tirar o fôlego. O final, só lendo para acreditar que aquilo foi possível. Surpreendente é dizer o mínimo sobre a sequência de acontcimentos.

O vampiro da Mata Atlântica é altamente recomendado. Quem ler não vai se arrepender.

Até a próxima. Tenho que correr. Porque Xavier Damasceno me convidou para conhecer a nova área de preservação criada.

Os teimosos “Amores Perigosos”

Start your engine! E vamos dar partida no motor de Amores Perigosos, que me prendeu de um jeito que não teve como eu desgrudar até terminar. Juro que vou tentar não dar spoilers enquanto analiso, mas posso não conseguir evitá-los.

Novamente, temos Lucila e Clara. A “dupla dinâmica” envolvida em problemas do tamanho do globo terrestre. Clara tendo, de novo, mas dessa vez voluntariamente, o dom de se meter em confusão. E de ser INCRIVELMENTE estúpida enquanto isso. E claro, a Lucila tendo que resolver o problema. Embora eu tenha seriamente pensado que no lugar dela, teria feito algo parecido, mas com menos estupidez e com um plano melhor imaginado. (Vai ser ruim em armar plano lá na carochinha.)

O começo da história desencadeia a trama: Clara resolve impedir um vampiro de atacar uma garota. Ela acaba mexendo em um enorme vespeiro (quando eu digo isso, é um senhor vespeiro), despertando a ira do que viria a ser o vilão de todo o livro, Dário. Vamos lá, confesse seus crimes, boy! (Tokufã mostrando a cara parte II: Kamen Rider W.)

Lucila vem a descobrir a gigante estupidez que a Clara fez e agora tem dois problemas: se livrar do Dário e manter a amiga viva. Entre idas e vindas, muita coisa acontece, incluindo uma viagem à Itália. No belo país da pizza e dos grandes pintores, Clara acaba se apaixonando por um vampiro chamado Alberto, que, como descobri após terminar a leitura, foi um pintor que realmente existiu. Se quiserem saber, leiam Amores Perigosos e procurem pelo Google. Como eu disse, não vou ficar dando spoiler.

À medida que a trama vai avançando, Clara não apenas se apaixonou por Alberto. Antes, travou amizade com outro vampiro, o Hugo, que também se atrai por ela. Ainda, vamos descobrindo que Lucila literalmente tramou pelas costas da pobre Clarinha, que se vê emputecida das ideias com isso. E ao mesmo tempo, desejando o vampiro renascentista mais do que qualquer coisa e certamente agradecendo a nossa vampirinha pela viagem forçada. (Eu possivelmente faria igual. Ou talvez não.)

Lá no capítulo dez, e segue até quase o final, o que era para continuar tranquilo acaba ficando repentinamente muito ruim. Clara se vê obrigada a arriscar tudo para que alguém não pague pela estupidez dela. E após ver outra pessoa (spoiler) pagar quase com a vida pela mesma coisa, o problema acaba. Com o término, porém, vieram consequências, não as melhores. Isso porque pela segunda vez nossa muito amável protagonista resolveu agir, no caso usar de sinceridade excessiva, com estupidez. E mesmo depois dela ouvir certa história da boca da própria Lucila, ela ainda sim falou o que não devia. Depois dessa, eu decerto teria me enterrado em um buraco de tanta vergonha.

Durante esse percurso até perto do final do livro, descobrimos que Alberto foi responsável pela imortalidade da nossa mortal amiga Lucilinha. E os dois estão separados por motivos que decerto vão dar muito pano às mangas, ainda. (A “mestra” do Alberto apareceu em Amor Vampiro, no conto A flor do mal.) Apesar da Martha não ter dado mais pistas sobre a origem da Lucila, que devo dizer é apenas um pseudônimo, gosto do modo como a autora vai inserindo as informações. E eu tenho que esperar o terceiro livro, ou alguns mais, para saber de mais alguma coisa. (Martha, quando você vai continuar a história, for God’s sake?)

Confesso que eu não esperava alguns dos fatos que ocorreram no final. Fiquei até mesmo chocada com os mesmos, não imaginando o que o vilão tinha uma carta na manga. E que ela fosse justamente quem eu não esperava. Martha, de novo, e espero que assim seja muitas vezes, você me pegou desprevenida.

Decididamente, recomendo Amores Perigosos. Uma trama ótima, bem amarrada e maravilhosamente executada.

Até a próxima. Tenho que correr. Porque Klaus e os Vampiros Portenhos me esperam para mais uma rodada de histórias.

“Relações de sangue”/”Más companhias” ou As teimosias de uma pequena vampira

Start your engine! E vamos dar a partida no motor da aventura de Relações de Sangue, da minha amiga escritora Martha Argel e minha bióloga de aves favorita desde sempre.

Eu lembrava um tantinho vagamente da Lucila, uma vampira morena e baixinha. Que em tantos contos da Martha apareceu antes que esse livro e sua continuação, chamada Amores Perigosos, aparecessem. A sinopse: Clara se vê obrigada a colaborar em uma inacreditável investigação quando Daniel, um vampiro, vem pedir-lhe ajuda. A razão: suas clientes estão sendo misteriosamente assassinadas embora a causa mortis seja estranha. E por motivos mais que óbvios, ela vai servir de isca para quem quer que seja o assassino.

Pergunta aos teimosos navegantes: o quanto vocês acham que demora em isso dar na maior encrenca? Resposta: Spoilers. Tradução: leiam.

Uma parte que eu particularmente amei: a explanação sobre as sensações causadas por uma mordida de vampiro. Sabe quando você anda de montanha-russa? É a mesma sensação, só que tudo se passando dentro da sua cabeça. E se manifestando no seu corpo. (Eu nunca andei nesse brinquedo, mas já vi vários vídeos disso.)

O livro é uma incrível e maravilhosa torrente de emoções a cada página, com uma trama bem amarrada e executada. Embora alguns detalhes tenham vindo antes da hora, isso não tira a qualidade do livro. E como não podia deixar de ser, há as frases de nos fazer perder o fôlego de tanto rir. (E acreditem, não foram poucas.)

Quem poderia imaginar que as coisas iriam virar tão repentinamente no final como aconteceu nesse caso? Lucila, Daniel, Estevão e Clara me surpreenderam, cada um a seu modo. Destaque para a vampira, com seu inacreditável dom para se envolver e aos outros em confusões inúmeras. E Clarinha, com sua “casca-grossisse” absurdamente cômica.

A única coisa, porém, que eu senti um pouquinho, de modo que quase esqueci isso, de falta, foi contar a origem da Lucila. As únicas informações que temos é que ela tinha em torno de 20 anos ou pouco mais (apesar da cara de adolescente), quando virou vampira. E quando ela era humana, quase foi freira. Talvez a continuação me dê uma resposta ou minha imaginação tenha que inventar uma teoria (e eu tenho algumas muitas em mente). Vamos ver, na próxima resenha, o que a nossa bióloga de aves escritora vampírica favorita fez na continuação.

O conto que veio depois, Más companhias, mostra como a Lucila e a Clara se conheceram. Pensa no seguinte: a cidadã Maria Clara está sofrendo um assalto e de repente aparece uma mocinha muito estranha como uma possível segunda vítima. (Imitação EPIC FAIL do Marcelo Rezende do Cidade Alerta.) Esta, no seu desenvolvimento, é uma história muito movimentada e incrivelmente legal! E o modo como elas são apresentadas é hilário, com direito até a uma cantada no melhor estilo vampiresco. E o final é de primeira, assim selando o início de uma grande amizade. Que possui seus altos e baixos.

Até a próxima. Tenho que correr. Porque Lucila e Clara me esperam para contar mais uma de suas aventuras.