O payador noturno (“De vampiros portenhos e sonhos escabrosos” – 4º conto)

1914…

Ele segurava o violão pensando em mais algum improviso após o abandono pela “muchacha del circo”. O bar se encontrava vazio àquela hora da noite, a ponto de fechar. O álcool já fazia o efeito costumeiro. O deixava com a mente estranhamente aberta para incontáveis inspirações. No entanto, elas pareciam pequenas perto da linda visão que parecia apenas um delírio de ébrio…

Ela era tão bela. Nem mesmo a lua podia comparar-se mesmo que fizesse imenso esforço. Embora casado, ainda que a situação estivesse longe de ser normal, José Betinotti não podia, e nem conseguia, ignorar tal beleza…

O cabelo escuro delicadamente ondulado descia pelos ombros e colo como uma bela cascata de águas límpidas e profundas. Os olhos eram duas esmeraldas em formato de noz moscada. Combinavam perfeitamente com a pele quase translúcida que parecia brilhar iluminada pela meia-lua daquela noite. A brancura fazia parte de um lindíssimo conjunto de traços que compunha aquele ente feminino tão perfeito que unia sonho e realidade em um único lugar.

O pajador se perguntava: quão macia era aquela pele? Como seria a voz dela? O que fazia em um lugar como aquele? Não! Ela não podia ser simplesmente uma prostituta. Deus, como podia ter sido capaz de pensar tal coisa dela? Se bem que ela muito bem podia ser uma daquelas cortesãs dos bordéis frequentados pelos ricos. No entanto, se fosse desse modo, qual era a razão dela estar ali? Nenhuma moça de bem ou mesmo “perdida elegante” teria razões para estar ali.

Talvez ela fosse mesmo apenas fruto de um delírio criado pela sua mente já afetada pelo consumo de álcool. No entanto, delírios não se mexiam. Ou o que ele via era o fruto de poderosa alucinação: ela se aproximava cada vez mais. De repente, o local todo parecia estar distorcido e ele só podia visualizar as lindas esmeraldas que tanto o encantavam…

O dia seguinte reservou uma excelente ressaca para Betinotti, cuja cabeça doía muito. Tal dor disputando seriamente com a do pescoço, no qual ele viu uma marca no mínimo estranha: dois pequenos furos de bordas esbranquiçadas e centro vermelho. Sentia-se fraco, como se tivesse sido minado de suas forças. Mal conseguia levantar-se da cama, onde a esposa María e o “Maestro” Don Carmelo cuidavam dele, se perguntando o que tinha acontecido. Tudo o que sabiam era que o dono do bar o havia encontrado estirado adormecido sobre a mesa com o violão pousado ao lado.

Nem o dono do bar e muito menos a esposa e o amigo entenderam aquele misterioso episódio. Dali a alguns dias eles haviam achado melhor esquecer, afinal, somente a noite tinha alguns mistérios insondáveis. Enigmas que era melhor ficarem sem resposta.

1915…

Os anos de abuso com a saúde enfim cobravam seu preço. Uma congestão cerebral o colocara à cama. E o pior, segundo María e Don Carmelo, era que mal ele havia saído de um segundo ocorrido parecido com aquele do bar. A marca dupla no pescoço tinha seu aspecto já ruim piorado. Não se tinha ideia de como tal coisa havia ocorrido de novo, apenas sabendo que até sangue havia saído da ferida. O que era mais estranho, porém, era Betinotti não parecer afetado, como se aquilo não fosse a diferença entre a vida e a morte.

A esposa e o amigo confessavam um ao outro que “Pepe” já andava agindo estranho há um tempo. Passava longo período totalmente silencioso ou em uma contemplação interna que os deixava apreensivos. Isso quando o payador não dizia que o colocassem longe da janela, pois a luz o afetava. Para ficar ainda pior, não eram raras as vezes em que ele falava dormindo coisas que arrepiavam os cabelos tanto dela quanto do maestro: trevas, eternidade, sangue. Os dois se perguntavam o que raios estava acontecendo com ele. Pensaram seriamente em chamar um padre, pois talvez ele estivesse sendo possuído por forças malignas.

No entanto, naquela terceira semana de abril, as coisas pareciam tranquilas apesar de Betinotti mostrar uma considerável piora em seu estado de saúde. A esposa encontrava-se preocupada, se perguntando o que o futuro reservaria a eles ou se a história teria seu ponto final. Já Don Carmelo passava a maior parte do tempo rezando para a alma do amigo não se perder caso seu corpo físico não mais suportasse.

O payador, por sua vez, tinha a certeza de que dentro em breve a morte o levaria. Não compreendia como e nem o porquê daquela ilusão de olhos verdes encontrá-lo de novo e deixá-lo tão absurdamente mal que nem podia levantar-se da cama ou da cadeira onde agora passava a maior parte do tempo. Quem era ela, afinal? O que ela era, na verdade? Muitas perguntas, nada de respostas. Angustiante, na realidade.

Ainda mais angústia à noite lhe era reservada. Tinha inacreditáveis sonhos onde, em algum lugar de um passado a ele desconhecido, era poderosa criatura guerreira de cabelos ruivos e longos que eliminava hordas de inimigos brandindo uma espada de intenso brilho e afiadíssima lâmina. A arma parecia ter sido forjada pelo próprio Hefesto com o melhor dos metais. Jamais havia podido compreender aqueles sonhos e talvez morresse sem poder fazê-lo.

– Maestro, diga, você já teve a sensação de que tudo parece estar mudando e é impossível notar à primeira vista? – José Betinotti encontrava-se mortalmente sério ao perguntar. O sono não lhe vinha enquanto María já se encontrava adormecida.

– Com sinceridade? Nunca me passou isso pela cabeça. Estou… preocupado. A sua saúde está cada dia piorando. Não sei o que vai ser de você e é isso que eu temo. Eu o adoro, você sabe – o bondoso Carmelo só queria seu amigo melhor ou parando de sofrer.

De repente, o payador sorriu: – A morte é apenas um casulo para que nasça uma nova borboleta. Você vai ver, eu ainda vou voar muito alto.

Carmelo entristeceu-se ao ouvir aquilo. Sorriu, no entanto, pensando que realmente José iria para o Paraíso e seria mais um anjo de Deus. O amigo, porém, não imaginava que aquelas palavras significavam outra coisa bem mais complexa. Algo que ocorreria naquela noite mesmo.

A meia-noite se aproximava e Don Carmelo já se encontrava dormindo em sua casa ao que María permanecia na mesma posição plácida de antes. E Betinotti, por sua vez, não havia dormido, como se esperasse por alguma coisa embora ele próprio não compreendesse que espera era essa e pelo que esperava. Por alguma razão que desconhecia, havia deixado a janela aberta mesmo o vento sendo intensamente frio e com chuva ameaçando chegar.

– Betinotti, chegou a hora. Venha até mim – uma voz que apenas o payador podia ouvir se fez no recinto. Ele, tirando forças sem saber de onde, levantou-se e desceu as escadas em direção à rua, que se encontrava fria e vazia. Ela tendo agora como única companhia um homem de pijamas, roupão e chinelos caminhando em direção desconhecida.

O trajeto levou pelo menos uma hora até ele encontrar uma belíssima residência neoclássica de dois andares localizada em uma parte da cidade que ele jamais colocara os pés. A porta estranhamente encontrava-se aberta, permitindo a Betinotti visualizar um lugar refinadamente decorado com móveis que datavam muito possivelmente do século passado ou retrasado. Observava atentamente o local quando a mesma voz ecoou: – Suba. Estou esperando.

O payador subiu pela escada feita de mármore branco polido e olhou para os lados procurando de onde vinha a voz…

– À direita, no fim do corredor – disse novamente a mesma.

José afinal chegou à porta displicentemente aberta, em cujo dormitório se encontrava alguém que era exatamente como a ilusão vista tempos antes: – Você…?

– Eu não sou apenas uma ilusão, caso seja isso que você ainda pensa – disse uma mulher em pé próxima à janela de feitura francesa.

– Você é bonita demais para ser real – disse ele impressionado e depois se aproximando: – Estou aqui, como me disse. Eu só não entendo…

– Logo compreenderá – ela se aproximou com tal rapidez que o payador não teve tempo de piscar.

– Quem… é você? Aliás, o que é você? – os olhos verdes e penetrantes dela o assustavam e fascinavam na mesma medida.

– Eu sou María Luna, aquela que te fará encontrar teu verdadeiro destino – respondeu ela tocando delicadamente a marca no pescoço dele.

– Como assim “verdadeiro destino”? Eu sou apenas um artista que está… morrendo – disse ele apreensivo ao que a “ilusão” perguntou: – Você nunca se perguntou o motivo dos seus sonhos?

Como ela sabia?! O violonista e payador não podia imaginar como ela podia ter ciência das estranhas coisas que ocorriam com ele. Talvez ela pudesse, porém, ajudá-lo a compreender aquelas loucuras, quem sabe fazê-lo livrar-se delas. Foi quando ela o abraçou como a consolá-lo. Sentiu os braços daquela bela criatura frios como gelo, como o abraço da própria Morte.

Assustou-se com a frieza do contato. Apavorado tornou-se quando uma violenta picada penetrou seu pescoço, exatamente na ferida cicatrizada quase desaparecida. Segurou no peito um gemido de terrível dor para minutos depois vê-la sair do lado dele, com os lábios sujos com seu sangue e exibindo embaixo dos lábios o que pareciam duas presas de animal. Enfraquecido quase a ponto de desmaiar, perguntou colocando a mão na ferida, sentindo a viscosidade do líquido vermelho: – Quem… O que é você?

– Apenas olhe para mim. Veja o que eu posso lhe proporcionar – respondeu ela a sorrir e fazendo um talho no próprio pulso, de onde um líquido vermelho escuro saiu em filete.

O payador, sentindo sua coordenação desobedecê-lo, aproximou-se quase caindo de tão fraco. Lambeu o pulso oferecido, sentindo uma inesperada energia apoderar-se dele. De repente mordeu o local com força para obtenção de mais daquela revigorante delícia, pois dela necessitava para manter-se em pé. Foi quando, minutos depois, o sabor tornou-se incrivelmente ácido, como se sua boca e garganta estivessem derretendo, ao que a bela criatura disse: – Eu sei o que há. Você está realmente morrendo, mas não se preocupe, tudo vai dar certo.

Como se nada mais fizesse sentido, José perdeu os sentidos, afinal. María Luna deu um profundo suspiro e levou-o para casa deixando-o exatamente do modo como ele estava, especialmente a marca do pescoço quase desaparecida.

Ela não tinha absoluta certeza se o processo tinha dado certo. Ou acontecia a transformação ou o futuro da Terra estaria seriamente comprometido. Temia, mas estava esperançosa.

A manhã chegada reservou a Betinotti um último momento com seu violão. Ele estava certo de que aquela seria sua última, especialmente porque quase caía quando pegou seu inseparável companheiro musical ao passo que María o ajudara a voltar para a cadeira e o cobriu perguntando-se porque ele nunca fazia caso ao médico…

– Eu sei… o que vai acontecer comigo. Uma nova era está nascendo. Estou indo… fechar-me em um casulo para me transformar em uma borboleta – respondeu ele para o espanto dela: – Não… diga isso.

– Nós dois sabíamos que um dia isso teria o seu ponto final – ele sorria.

– Você ainda tem muito a viver e a cantar para os que te amam, eu sei – disse ela ajoelhando-se à frente dele, desejando poder acreditar em suas próprias palavras.

– Eu sinto que já não sou mais necessário. Sei que a minha hora chega. Abra a janela, deixe a luz entrar em meus olhos pela última vez – respondeu ele tocando seu amado violão.

María abriu a janela a despeito dos pingos de chuva que ainda caíam do lado de fora. O prenúncio era o de um ensolarado dia esperando para ser aproveitado. Ela ouvia notas musicais ecoando pelo quarto como se dissessem que seu tocador já não mais resistia ao sofrimento imposto pela vida. Foi quando algo se rompeu e ela voltou-se para o marido: – A corda…

– Eu sei, é a minha alma que se vai – respondeu o payador ao que ela o abraçou chorando desesperada, implorando que ele ficasse, porém, uma longa respiração tomou seu último fôlego. O corpo de José Betinotti pendeu em seguida de tal maneira que por pouco não havia feito a cadeira onde estava o agora cadáver cair para trás.

Por minutos que pareceram longos demais, o único som naquela casa havia sido o pranto da viuvez.

O enterro havia sido na manhã seguinte após um prolongado e triste velório embora fosse insuportável à María vê-lo deitado naquele caixão. Seu coração doía a cada vez que o olhava e agora mais ainda porque lembrava. Era como senti-lo sendo esmagado por uma tonelada. A cigarreira não conseguia aceitar a morte de seu amado apesar dos tempos antes da doença não terem sido os melhores entre eles.

A tarde após o sepultamento havia sido terrível. A casa de dois andares parecia tão vazia, triste, sem cor. E o violão ali parado com sua corda rompida parecia mais morto que seu dono já enterrado. Carmelo chorava recordando as palavras do payador sobre casulos e borboletas. Pensava que agora seu amigo estava nos braços do Senhor desfrutando um merecido descanso no Paraíso sem imaginar que a noite reservava uma estranha surpresa.

O casulo havia se rompido. E dele irrompeu uma borboleta. No entanto, não era um belo inseto de asas coloridas que encantava os olhos de quem o via. E muito menos era uma situação literal.

A terra remexida indicava algo errado. Um homem de terno escuro encontrava-se de pé ao lado da cova e o marrom espalhado na roupa e sapatos indicava dele ser o morto ali sepultado. Uma faminta borboleta de asas negras pronta para voar.

Ele tinha de admitir: a situação era demasiado incomum até mesmo para ele. Nunca havia pensado que aquilo podia acontecer-lhe. Betinotti, agora caminhando pelo cemitério, descobriu poder enxergar até os mais ínfimos detalhes no meio do inacreditável breu que tomava conta da Chacarita àquela hora. Incontáveis odores vinham ao seu nariz enquanto ele observava as agora longas unhas que possuía nas mãos agora frias como o gelo.

Um ruído que vinha de uma enorme distância chegou aos seus ouvidos com absurda rapidez, fazendo o payador encantar-se pela sua nova capacidade auditiva. A mesma o permitiu localizar de onde vinha o barulho: um guarda de polícia estava no cemitério para averiguar uma denúncia de ladrões de túmulos segundo o ouvido da boca do próprio homem. Ele claramente reclamava que nem mesmo os mortos tinham paz porque sempre havia viventes oportunistas.

Realmente José Betinotti era agora uma faminta borboleta de asas negras, pois logo se aproximou do guarda de coração latente. O agarrou tal qual um animal agarrava sua presa. Em seguida, por um monstruoso instinto de sobrevivência, cravar suas recém-nascidas presas no pescoço dele com a intenção de alimentar-se do delicioso néctar vital que corria por seu corpo. Foram longos e lânguidos minutos até a vítima finalmente padecer sem uma única gota de sangue.

O agora morto-vivo colocou os dedos sobre os filetes que escorriam de sua boca, ficando horrorizado, pelo menos de início, ao ver que havia bebido o sangue de um homem, que se encontrava ali estirado, morto. Entretanto, logo se lembrou dela dizendo que aquele era o destino dele. Sorriu. Ele agora tinha a certeza de que havia nascido para ser vampiro.

Tomou para si as roupas do morto, colocando seu terno nele. Cuidadosamente procurou, através do odor, a parte onde se encontravam as pás dos coveiros. Achou melhor colocar o cadáver em seu túmulo para que a terra revirada não despertasse suspeita. O guarda tinha o mesmo tamanho e físico, portanto dificilmente alguém saberia diferenciá-los caso sua esposa ou Carmelo resolvessem exumar o corpo por alguma razão dali a meses ou quem sabe anos.

Encantou-se com a incrível força que agora tinha, pois o guarda parecia tão somente um boneco de pano em seus braços enquanto era levado para o depósito. Lá chegando, o vampiro recém-nascido encontrou uma pá que parecia em bom estado para ser usada e para sua surpresa, um cadáver. O outro morto também havia tido seu sangue drenado, mas com a estranha diferença de que a marca no pescoço era pequena e ajuntada, como se os dentes responsáveis fossem na frente ao invés de dos lados, o caso de Betinotti.

Com um corpo em um braço e uma pá no outro, o payador logo saiu em direção ao seu túmulo decidido a não se envolver com quem quer que fosse o vampiro causador do cadáver achado no depósito. Ao chegar em sua cova, viu María Luna ali esperando-o, evidentemente preocupada: – Achei que tivesse desaparecido ou até mesmo que não tivesse ressuscitado!

– Eu me alimentei e agora preciso preencher a minha cova com outro morto. A não ser que… você tenha um plano melhor – disse o vampiro colocando o cadáver no chão e pronto para começar a escavar quando uma voz que parecia arrastar-se do fundo do tempo, ou de uma cova, ecoou: – É honroso a mim conhecer alguém que tão carinhosamente cantou meu nome.

O músico não podia crer no que seus olhos viam: Leandro N. Alem encontrava-se saudando ao payador e seus dentes frontais deixavam evidente que ele havia sido o responsável pelo exangue do depósito. O que era mais perturbador, no entanto, eram seus dedos magros e ossudos portando unhas tão compridas que quase o tocavam devido à proximidade que ele estava. E dezenas de ratos cinzentos e peludos o cercavam e pelo menos dois ficavam em seus ombros como bichos de estimação.

– Nosufur-atu, ou como ficou resumido com aquele filme alemão de 1922, Nosferatu. Significa “portador de pragas” em grego – disse a bela criatura de olhos verdes enquanto José o olhava ainda incrédulo: – Meu Deus, é você mesmo. Não sei o que dizer.

– Apenas sinta-se em casa, meu amigo. Nada mais. Realmente você nasceu para ser vampiro – disse o outro para em seguida despedir-se e sair rumo a algum lugar desconhecido.

– Eles carregam pragas consigo de fato? – perguntou o novo vampiro surpreso.

– Sim e podem soltá-las caso queiram causar desordem e desgraça – disse a vampira com um suspiro para depois dizer:

– Melhor você ser rápido com esse “reenterro”. Não podemos ficar a noite toda aqui.

– Era o que eu estava fazendo quando chegou… ele – respondeu Betinnoti usando sua recém-adquirida rapidez para esvaziar a cova em menor tempo possível. Percebendo que a tampa do caixão tinha se rompido por conta dele ter ressuscitado, perguntou-se como resolveria aquilo enquanto ajeitava cuidadosamente o “cadáver substituto” no caixão.

– Quanto a tampa, eu resolvo – María Luna pegou os pedaços da mesma. Usou o que parecia ser algum poder vampírico que o payador desconhecia, deixando a tampa quase como nova, em seguida fechando o ataúde. E José preencheu novamente a cova, sorrindo ao ver o trabalho concluído: – Ninguém vai suspeitar que alguém saiu daqui.

– Você foi muito inteligente ao pensar nessa solução – respondeu ela sorrindo.

– Eu duvido que alguém seja tão idiota de não perceber um monte de terra remexida mesmo sendo pouco escolarizado como eu – disse ele dando uma leve risada ao que ela o abraçou por trás: – Inteligência prática muitas vezes vale mais que qualquer livro.

O abraço dela agora era quente e delicioso, o que o fez deduzir: ela havia se alimentado de algum incauto antes de encontrá-lo. O mais inacreditável era que ele estava incrivelmente excitado com aquele contato, sentindo um enorme calor apossar-se de seu corpo mesmo ele estando, para todos os efeitos, morto. Era uma sensação tão única. Tal que ele se permitiu ser levado noite adentro por ela.

E depois? Como havia sido? Quem sabia, afinal? A noite, no fim, era dotada de muitos segredos, nem sempre desvendados. E talvez nem precisassem.

José Betinotti (1878 -1915)

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