La flor de Villa Crespo (“De vampiros portenhos e sonhos escabrosos” – 3º conto)

De novo, era noite. Por algum motivo desconhecido, ela sempre ficava sentada no muro do Cemitério da Chacarita alguns minutos antes de sair para fazer o que chamava de “jantar solitário”.

Solidão era uma palavra que ela bem conhecia. Não era simples viver tanto tempo. Quer dizer, ela podia chamar aquilo de “vida” realmente? Na verdade, podia. Nunca havia pensado ser capaz de viver tanto. E de testemunhar o surgimento dos trens subterrâneos e tantas outras coisas fascinantes que só os humanos de gerações após a dela eram capazes de fazer.

No entanto, não era de tudo o que ela gostava. A comunicação entre as pessoas era cada vez menor. Elas apelavam a maior parte do tempo para uns dispositivos cheios de botões ou dependentes de toque. Apesar disso, ela tinha um smartphone, que ela apelidava de “retângulo falante”. E um tablet, que ela, no seu jeito antigo, chamava de “tábua de cortar carne”, devido ao formato quadrado. Os tinha adquirido para falar com seu querido quando ele estava longe, impossibilitado de visitá-la. Era bom quando ele vinha. Sentia-se menos sozinha embora eles não se amassem como duas pessoas normais.

Como então ela o amava? Amava do seu jeito. Como uma grande amiga que ocasionalmente lhe dava um beijo enquanto suas mãos se juntavam às dele em uma sincronia que era tão bonita quanto surreal, dada a condição estranha de ambos. Um toque que aos humanos parecia frio, mas era bonito, do seu modo.

O sorriso dele deveria ser considerado crime de atentado ao pudor, na visão dela. Era belo e sabia envolver qualquer um, mesmo que a pessoa vendo não achasse seu portador muito bonito. Leopoldo tinha o cabelo castanho-escuro meio revolto pontuado por cachos às vezes caídos em seu rosto chamado de comum. Era pouco mais alto que ela e bastante esbelto, com uma cruz de prata pendendo de seu peito.

No entanto, aquele era o único aspecto que Paquita não entendia. Ela não tinha medo de cruzes ou o que fosse, porém, era senso comum: eles não podiam tocar objetos sagrados. Ou pelo menos era isso que os humanos tinham o idiota hábito de pensar. O crucifixo prateado contrastava com a blusa sempre preta que ele usava, dando-lhe um aspecto ainda mais gótico. Quase uma pintura em alto relevo, no ponto de vista dela.

Na verdade, não era o único. Havia outro: Leopoldo nunca lhe havia falado do passado. A cruz prateada, por sua vez, indicava que ele muito possivelmente era fervoroso cristão quando vivo. Tal fato reforçava uma teoria possuída por ela sobre ele. Nunca, porém, tivera coragem suficiente para perguntar, até porque os jesuítas só haviam chegado ao que viria a ser o antigo Vice Reino do Rio da Prata em 1609. Era estranho, mas se tratando dele, nada podia ser chamado de normal, pois ele tinha mais de quatro séculos de idade.

Enfim, ela saiu de sua posição. Um tombo da altura daquele muro poderia causar machucados sérios em qualquer humano. Contudo, seus pequenos pés calçados com um simples, porém bonito, sapato preto de pequeno salto, pousaram delicadamente no chão.

A lua cheia que naquela noite parecia maior do que de costume iluminava a delicada figura agora na calçada. O rosto redondo possuía grandes e curiosos olhos escuros contrastando com a brancura do plenilúnio. Suas maçãs do rosto eram bonitas e bem feitas, a boca traçava uma linha suave e atraente e seu corpo tinha algumas curvas. Não era muito magra, mas também parecia em forma. O cabelo era castanho e brilhante, mantido solto porque ela adorava sentir o vento pegá-la de surpresa. Suas formas estavam um pouco escondidas pelo delicado vestido rosa acinturado, que parecia acentuar ainda mais o cetim pálido de sua pele clara e macia.

Caminhou por algum tempo pelas ruas vazias e escuras daquela parte de Buenos Aires à procura de alguém para seu “jantar solitário”. Encontrou o buscado em um grupo de rapazes tocando tangos antigos em troca de moedas dadas por velhos conhecedores da era de ouro do tango argentino. Riu, lembrando-se de como adorava acompanhar as novidades daquele gênero que havia ajudado a consolidar. Gardel era de longe seu favorito e até hoje se lamentava por não ter podido mordê-lo. Ele teria sido um imortal fascinante.

Oculta, observou os rapazes tocarem até pelo menos duas horas depois dela chegar. Quando eles finalmente terminaram sua jornada noturna, ela pôde aproximar-se. O fez com cuidado, como de costume, não querendo assustar nenhum deles. No entanto, viu-se surpreendida por uma pergunta feita em um tom de encantamento que a fez quase gargalhar:

– Gostaria que… tocássemos algo para você?

– La enmascarada – respondeu ela educadamente enquanto os outros a observavam com incomum assombro. Sorriu para dentro, pois estava certa de que eles eram profundos conhecedores, considerando todo o tocado até ali.

– Uma apreciadora de tango. E ainda por cima tão linda. Eu poderia passar deste mundo hoje mesmo que o faria com prazer – disse o violonista, claramente encantado pela figura feminina ali presente.

– Não seja tão apressado. Você tem muito para tocar junto dos seus amigos – respondeu ela em tom misterioso enquanto os outros riam, achando ela fazia alguma piada.

A música foi belamente tocada. Paquita ainda se lembrava de quando a havia composto, nos anos vinte. O vocalista tinha uma linda voz. Sim, era ele. Não apenas seu canto a havia atraído, mas seu cheiro não deixava dúvidas: era forte e extremamente delicioso. Exatamente como ela gostava.

Os rapazes, muito educados, disseram que precisavam ir embora e se desculparam por não poder ficar mais um pouco com ela. Adorariam, depois, encontrá-la novamente para tocar mais canções. Sorrindo, ela agradeceu, sua voz soando doce como uma medialuna recheada com o mais puro chocolate, causando nos jovens um desejo ainda mais fervoroso de reencontrá-la.

Finalmente eles foram. Ela os seguiu, às escondidas, esperando a chance de ver o vocalista sozinho. Seus passos eram silenciosos e os sentidos aguçados, pois agora estava na posição de caçadora. Andou por mais algum tempo até que sua potencial vítima estava enfim sozinha. Por Deus, ele era uma bela figura. Um cabelo negro e deslumbrante, uma pele morena cor de cuia, volumosos e belos lábios que indicavam descendência de negros. Ele entrou no que antigamente era um cinema, agora transformado em prédio residencial para quem não tinha alto poder aquisitivo.

Conseguiu abordá-lo delicadamente antes que ele subisse no velho elevador: – Olá, de novo.

– Como me achou? – perguntou ele sem compreender e de repente, viu seus olhos sendo laçados por um belo e hipnotizante olhar que o paralisou de forma inacreditável. O cérebro se recusava a obedecer qualquer comando dito. O chamado dela era absolutamente irresistível aos seus ouvidos humanos, pouco acostumados àquela doçura gutural jorrando pelos lábios finos e delicados dela.

O rapaz, entorpecido pelo estranho encanto irradiado daquele ser que parecia a noite materializada no mais belo sonho, não notou quando os olhos dela adquiriram um tom vermelho sanguíneo e duas afiadas e compridas presas surgiram naquela macia boca, agora pronta para o “jantar solitário”. Com delicadeza e tomando o cuidado de não causar dor aquele mancebo tão belo, alimentou-se até certo ponto. Permitiu-se o controle após dois litros e meio de sangue. Limpou os lábios com um lenço que trazia no bolso do vestido. Após deixar sua vítima em posição confortável, novamente ganhou as ruas da cidade.

– Mi pequeña Paquita – uma voz reconhecível se fez ouvir após um bom tempo de caminhada.

– Leopoldo! – ela sorriu enquanto ele, com seus delicados movimentos felinos, pousava no chão.

– Parece que você já jantou, minha flor da Villa Crespo – disse o ser a sorrir.

– Amanhã, se quiser, pode caçar comigo – sua felicidade irradiava por seus delicados poros.

– É claro – Leopoldo a abraçou, beijando-a logo em seguida, e a noite de repente parecia pequena demais para ser esquecida em um só momento.

O que para os humanos era apenas um sonho distante e impossível, para eles era eterno. Imortais eles eram.

O que para os humanos era tão somente lenda e ficção, para eles era real. Vampiros, para sempre eles seriam.

Paquita Bernardo (1900 – 1925)

Biografia em vídeo:

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