A proposta (“De vampiros portenhos e sonhos escabrosos” – 5º conto)

(Baseado no universo da Arena, criado por Rita Maria Félix)

Carlos Malefidele, a muito custo, tinha conseguido fugir. Os Lordes vampiros não haviam hesitado em entregá-lo à Alcateia quando estes souberam a verdade entregue a eles pelo maldito duende-lobo. Raios! Era tudo o que ele podia pensar debaixo de seu disfarce de judeu idoso indo fazer turismo na Argentina.

Tinha conseguido disfarçar-se através de uma poderosa magia necromante aprendida séculos atrás. Isso após conseguir fingir-se de morto pela luz do sol na manhã vinda depois da noite da reunião dos Lordes sobre as lutas armadas na Arena. O feito conseguido ao impregnar seu cheiro no corpo de um vampiro serviçal de idade aproximada e depois empurrá-lo contra a luz solar. Não havia sido fácil deixar rastro suficiente para forjar sua morte definitiva sem sofrer maiores danos. Era isso ou teria que enfrentar algo muito mais complicado: dezenas de lobos querendo tirar sua pele.

Contudo, a trégua entre vampiros e lobisomens continuava. Isso pelo menos era um ponto positivo. Que poderia ser facilmente quebrado caso descobrissem sua falsa morte. No momento, só podia torcer para os ventos do destino soprarem em seu barco sem leme.

O pior, porém, estava por vir. Sabia que fazer aquela proposta iria colocá-lo em um beco sem saída. No entanto, não tinha escolha além de entregar seu lugar de Lorde para ele. Perguntava-se como havia chegado a tal decadência. Aquele inconveniente espanhol não tinha a idade mínima adequada para ser um dos Lordes. Muito menos fazia parte de algum clã, sequer do dele, porém, possuía um poder que faria qualquer vampiro sentir a garganta inesperadamente apertada por uma poderosa mão de ferro invisível.

Carlos sabia inúmeras histórias envolvendo aquele estranho ente, especialmente a lenda que era pouquíssima a leva dos que sobreviviam a beber seu sangue. Ele era dotado de poder único, dado por um dos Ancestrais, que segundo ele sabia, tinha sido o responsável por torná-lo um ser pertencente à noite.

O vampiro, porém, nunca havia se informado sobre quantos humanos seu semelhante havia mordido com a intenção de transformar. Poucos? Muitos? Não havia uma resposta precisa o suficiente. Menos ainda ele sabia o tipo de vampiro que estava indo visitar. Tinha a ciência dele não parecer a criatura mais imponente do mundo devido à sua aparência um tanto comum demais, mas bastava ele falar ou demonstrar seus poderes para mostrar que não estava naquele mundo puramente de passagem. Ele era impressionante a despeito do comentado sobre sua aparência “feia” e modos um tanto diferentes do que os vampiros consideravam como normais e com os quais estavam acostumados. “Que situação”, ele pensava.

Chegara à Argentina às onze e meia da noite. O Aeroporto Internacional de Ezeiza, cujo nome oficial era “Ministro Pistarini” se encontrava quase vazio àquela hora e ninguém viria buscá-lo, já que não havia avisado de sua chegada. Era melhor assim, Carlos pensava mediante aquela inacreditável decisão que havia se obrigado a tomar. Pegou o caderninho de informações importantes, consultando-o para saber o endereço do vampiro, obtido através de informantes anos antes.

O bairro indicado no papel e para onde o taxista o havia levado era muito elegante. O endereço era bem perto de onde o táxi havia estacionado. Após alguns minutos de caminhada e de ter chegado próximo à casa indicada no endereço, Malefidele parou no meio da calçada. Isso não podia estar acontecendo. Não mesmo. De todas as coisas que podiam ocorrer, não aquilo. Se seu coração ainda batesse, estaria pulando dentro do peito, quase escapando pela boca ou perto de rasgar o peito. Caio, Alonzo e Alia, três lobisomens da Arena que antes era comandada por ele, estavam lá, reunidos com o vampiro dono da casa. O mesmo não parecia feliz.

Carlos podia claramente vê-lo tamborilar os dedos, de unhas longas e pontudas, da mão esquerda sobre as costas da direita, sentado em uma poltrona de feitio típico argentino. Realmente, ele tinha uma aparência que podia ser facilmente confundida com a de um humano comum. Era meio pálido, magro e pela postura, parecia ter pouco mais que 1,70 m de estatura, mais precisamente 1,75 m. O cabelo era castanho-escuro cheio de cachos que constantemente caíam sobre a testa, que ele afastava com movimentos quase invisíveis a olho nu. Dava suspiros baixos e curtos em intervalos de pelo menos dez segundos.

– Parece que nós temos um problema com nossos “hermanos brasileños” – a voz dele não tinha absolutamente nada de absurdamente impositivo ou hipnotizante como outros vampiros, mas era firme e demonstrava grande experiência de vida.

– Nós só estamos aqui porque disseram que você podia ajudar – disse Caio, que parecia bem mudado, muito diferente de quando havia lutado pela primeira vez.

– Quem me indicou a você? – perguntou ele olhando diretamente nos olhos do rapaz. Na opinião de Malefidele, o olhar dele daria inveja a um tubo de nitrogênio líquido ou à neve da Sibéria.

– Uns vampiros argentinos que moram perto de onde eu vivo atualmente – o jovem desviou o olhar, não conseguindo evitar sentir-se intimidado embora suas tentativas fossem inúmeras.

– E o que você acha que posso fazer? Posso ser o vampiro prior do Rio da Prata, mas não faço milagres – respondeu ele em um tom assustadoramente frio para depois perguntar: – Portanto, o que espera de mim?

– Olha, a gente sabe que a Argentina é um país neutro e inclusive você proibiu as Arenas em razão de que elas estavam causando imenso desequilíbrio na população sobrenatural, mas também, sabemos que… Puta merda, como eu te digo isso? – Alonzo amava e odiava aquela possibilidade ao mesmo tempo e com a mesma intensidade.

– Não precisa, eu já sabia muito antes de você falar – Carlos engoliu em seco. Por tudo o que lhe era mais sagrado, existia mesmo alguma possibilidade fora do que ele pensava de Leopoldo Belmondo se tornar um dos Oito Lordes?

– Sem querer ser chato e ficar interrompendo, mas, tem cheiro podre lá fora – Alia olhou para fora e por poucos centímetros não havia visto Carlos Malefidele disfarçado de idoso. O vampiro aliviou-se. Não seria nada bom se sua farsa fosse descoberta, pelo menos não até depois de falar com Leopoldo. O alívio dele, porém, durou pouco. Sentiu seu peito sendo apertado por algo que não podia ser visto. Era como uma camisa-de-força sendo apertada até o limite…

– Um truque extremamente velho e eficaz – a voz de Belmondo de repente podia ser ouvida ali fora e logo pareceu mais amedrontadora do que nunca seguida por dois estalos de dedos: – No entanto, extremamente previsível.

– Eu sabia – Alia bufou com tédio enquanto o disfarce do agora ex-lorde se desfazia e o mesmo era reconhecido pelos lobos, que só o tinham visto uma vez, mas lembravam-se perfeitamente dele. Estavam prontos para atacar quando a voz agora alterada de Leopoldo ecoou de tal modo que até Carlos ficou atordoado: – Parem agora os três!

Malefidele não podia acreditar no que seus olhos viam: três lobisomens totalmente subjugados a um vampiro que havia utilizado tão somente uma frase. Já era difícil subjugar um porque eles possuíam uma resistência a comandos vampíricos que beirava o absurdo, quanto mais um trio, coisa que o espanhol havia feito com maestria de poder inacreditável. A mão se encontrava apontada aos três, que sem sucesso tentavam se desfazer do comando enquanto os olhos do vampiro se encontravam avermelhados e as presas crescidas: – Nenhum de vocês se mexe até eu dizer que podem.

Deus, ele era assustadoramente diabólico quando estava naquele estado. Já não era muito bonito, parecia menos ainda. Carlos, na forte impressão recebida, não tinha reparado em algo. Quando finalmente pôde fazê-lo, não sabia o que falar mediante a visão: um crucifixo de prata pendurado no pescoço dele. Como era possível um vampiro andar um com símbolo religioso? Agora sim Malefidele não entendia mais nada…

– Por favor, podemos hablar?! – o ex-lorde viu toda e qualquer tranquilidade ir embora diante daquela enxurrada de acontecimentos. Não era de se admirar que Lorde Pedro Invalesco tivesse, em ocasião passada, contratado os melhores mercenários vampiros para acabar de vez com Leopoldo Belmondo. O espanhol era realmente poderoso e podia até mesmo se tornar uma ameaça para o poder dos Lordes remanescentes, agora sete.

– Dame una excelente razón para no exterminate de una vez por todas! – Leopoldo, furiosamente exclamando em espanhol, ainda se lembrava de como havia sido quase morto em pelo menos cinco ocasiões. A mando de Lorde Invalesco e muito possivelmente dos outros sete que compunham aquela mesa de escroques.

– ¡Tengo una cosa que deseas! Permítame mostrarla – aquela informação conseguida há anos, a custo de uma invasão feita na casa da famosa bruxa Dolores, finalmente seria útil.

Belmondo aproximou-se, ainda em seu “modo fúria” e analisou cuidadosamente o vampiro Carlos, de repente colocando a mão em um dos bolsos do casaco e retirando dele algo que parecia um pergaminho, que ele abriu rapidamente e leu, ou pelo menos foi o que ele tentou fazer. Voltou-se para o ex-lorde: – Como você conseguiu isto?

– Passei meses armando um plano para conseguir. Eu ia finalmente tornar possível que essa coisa fosse destruída, mas uma série de fatos que eu presumo que você já sabe quais são tornaram isto totalmente inviável – respondeu ele para depois perguntar: – Vai me permitir entrar para conversarmos ou você adivinhou o que proponho?

– Que eu me torne um dos Oito em troca de você me dar essa informação e permanecer vivo – respondeu ele muito sério para depois perguntar: – Você trapaceia, manipula, faz todo o tipo de sujeira e quer que eu encubra?

– Belmondo, eu sei muito bem que me detesta e o mesmo ódio você tem pelos outros sete, mas pense que isto é uma chance única que você terá para rir da cara deles e quem sabe até mesmo acabar com… – ele dizia quando foi interrompido pelo espanhol agarrando-o pelo pescoço: – Não tenho por costume encobrir sujeira de outrem. Apesar do que parece, ainda tenho princípios!

Apesar do fortíssimo aperto, Carlos conseguiu dizer: – Pare, por favor. Eu posso… te contar… a verdade… sobre… Solomon!

– Como?! O que sabe sobre ele?! – o nome do Ancestral que o havia transformado ainda lhe causava sentimentos conflitantes, um misto de admiração e ódio.

Leopoldo, vendo os três lobisomens ali parados, liberou-os de seu comando, ao que Alonzo, Alia e Caio tiveram que se apoiar uns nos outros para não cair no chão, tamanho o poder experimentado. Os três mal tinham condição de fazer algo embora quisessem acabar com Carlos Malefidele, porém, eles tinham uma forte intuição de que aquele poderoso vampiro espanhol faria alguma coisa, razão pela qual se resignaram, pelo menos por um tempo, a observar como as coisas andariam.

– Vão para dentro e descansem. Perdoem-me pelo que fiz, mas carnificina no meio da rua não é algo que devamos fazer. Esse tipo de assunto deve ser tratado com discrição suprema – disse ele educadamente, deixando os lobisomens com um misto de sentimentos conflitantes sobre aquele chupador de sangue.

O ex-lorde do Conselho sabia que era melhor movimentar-se com cuidado se quisesse permanecer vivo. Tinha de admitir, muito a contragosto: Leopoldo Belmondo era decididamente alguém que, para lidar, era necessária profunda cautela. O vampiro, no entanto, jamais poderia esperar que o prior do Rio da Prata, embora perguntasse sobre como Carlos sabia de tal fato, tinha exata ciência da verdade sobre a morte definitiva de Solomon. E agora tinha provas suficientes para enfim vingar-se dos assassinos de seu mestre.

O Conselho lhe pagaria caro por aquela perda. Com juros e correções monetárias de dois séculos de sofrimento e luto.

Contos do Universo da Arena:

Gladius: http://riteando.wordpress.com/2009/08/17/gladius/
Naquela lona I e II: http://estronho.com.br/site/index.php/cultura/literatura/contos-e-cronicas/280-naquela-lona
O riso do duende: http://eisoptron.blogspot.com.br/2013/07/conto-o-riso-do-duende.html

O payador noturno (“De vampiros portenhos e sonhos escabrosos” – 4º conto)

1914…

Ele segurava o violão pensando em mais algum improviso após o abandono pela “muchacha del circo”. O bar se encontrava vazio àquela hora da noite, a ponto de fechar. O álcool já fazia o efeito costumeiro. O deixava com a mente estranhamente aberta para incontáveis inspirações. No entanto, elas pareciam pequenas perto da linda visão que parecia apenas um delírio de ébrio…

Ela era tão bela. Nem mesmo a lua podia comparar-se mesmo que fizesse imenso esforço. Embora casado, ainda que a situação estivesse longe de ser normal, José Betinotti não podia, e nem conseguia, ignorar tal beleza…

O cabelo escuro delicadamente ondulado descia pelos ombros e colo como uma bela cascata de águas límpidas e profundas. Os olhos eram duas esmeraldas em formato de noz moscada. Combinavam perfeitamente com a pele quase translúcida que parecia brilhar iluminada pela meia-lua daquela noite. A brancura fazia parte de um lindíssimo conjunto de traços que compunha aquele ente feminino tão perfeito que unia sonho e realidade em um único lugar.

O pajador se perguntava: quão macia era aquela pele? Como seria a voz dela? O que fazia em um lugar como aquele? Não! Ela não podia ser simplesmente uma prostituta. Deus, como podia ter sido capaz de pensar tal coisa dela? Se bem que ela muito bem podia ser uma daquelas cortesãs dos bordéis frequentados pelos ricos. No entanto, se fosse desse modo, qual era a razão dela estar ali? Nenhuma moça de bem ou mesmo “perdida elegante” teria razões para estar ali.

Talvez ela fosse mesmo apenas fruto de um delírio criado pela sua mente já afetada pelo consumo de álcool. No entanto, delírios não se mexiam. Ou o que ele via era o fruto de poderosa alucinação: ela se aproximava cada vez mais. De repente, o local todo parecia estar distorcido e ele só podia visualizar as lindas esmeraldas que tanto o encantavam…

O dia seguinte reservou uma excelente ressaca para Betinotti, cuja cabeça doía muito. Tal dor disputando seriamente com a do pescoço, no qual ele viu uma marca no mínimo estranha: dois pequenos furos de bordas esbranquiçadas e centro vermelho. Sentia-se fraco, como se tivesse sido minado de suas forças. Mal conseguia levantar-se da cama, onde a esposa María e o “Maestro” Don Carmelo cuidavam dele, se perguntando o que tinha acontecido. Tudo o que sabiam era que o dono do bar o havia encontrado estirado adormecido sobre a mesa com o violão pousado ao lado.

Nem o dono do bar e muito menos a esposa e o amigo entenderam aquele misterioso episódio. Dali a alguns dias eles haviam achado melhor esquecer, afinal, somente a noite tinha alguns mistérios insondáveis. Enigmas que era melhor ficarem sem resposta.

1915…

Os anos de abuso com a saúde enfim cobravam seu preço. Uma congestão cerebral o colocara à cama. E o pior, segundo María e Don Carmelo, era que mal ele havia saído de um segundo ocorrido parecido com aquele do bar. A marca dupla no pescoço tinha seu aspecto já ruim piorado. Não se tinha ideia de como tal coisa havia ocorrido de novo, apenas sabendo que até sangue havia saído da ferida. O que era mais estranho, porém, era Betinotti não parecer afetado, como se aquilo não fosse a diferença entre a vida e a morte.

A esposa e o amigo confessavam um ao outro que “Pepe” já andava agindo estranho há um tempo. Passava longo período totalmente silencioso ou em uma contemplação interna que os deixava apreensivos. Isso quando o payador não dizia que o colocassem longe da janela, pois a luz o afetava. Para ficar ainda pior, não eram raras as vezes em que ele falava dormindo coisas que arrepiavam os cabelos tanto dela quanto do maestro: trevas, eternidade, sangue. Os dois se perguntavam o que raios estava acontecendo com ele. Pensaram seriamente em chamar um padre, pois talvez ele estivesse sendo possuído por forças malignas.

No entanto, naquela terceira semana de abril, as coisas pareciam tranquilas apesar de Betinotti mostrar uma considerável piora em seu estado de saúde. A esposa encontrava-se preocupada, se perguntando o que o futuro reservaria a eles ou se a história teria seu ponto final. Já Don Carmelo passava a maior parte do tempo rezando para a alma do amigo não se perder caso seu corpo físico não mais suportasse.

O payador, por sua vez, tinha a certeza de que dentro em breve a morte o levaria. Não compreendia como e nem o porquê daquela ilusão de olhos verdes encontrá-lo de novo e deixá-lo tão absurdamente mal que nem podia levantar-se da cama ou da cadeira onde agora passava a maior parte do tempo. Quem era ela, afinal? O que ela era, na verdade? Muitas perguntas, nada de respostas. Angustiante, na realidade.

Ainda mais angústia à noite lhe era reservada. Tinha inacreditáveis sonhos onde, em algum lugar de um passado a ele desconhecido, era poderosa criatura guerreira de cabelos ruivos e longos que eliminava hordas de inimigos brandindo uma espada de intenso brilho e afiadíssima lâmina. A arma parecia ter sido forjada pelo próprio Hefesto com o melhor dos metais. Jamais havia podido compreender aqueles sonhos e talvez morresse sem poder fazê-lo.

– Maestro, diga, você já teve a sensação de que tudo parece estar mudando e é impossível notar à primeira vista? – José Betinotti encontrava-se mortalmente sério ao perguntar. O sono não lhe vinha enquanto María já se encontrava adormecida.

– Com sinceridade? Nunca me passou isso pela cabeça. Estou… preocupado. A sua saúde está cada dia piorando. Não sei o que vai ser de você e é isso que eu temo. Eu o adoro, você sabe – o bondoso Carmelo só queria seu amigo melhor ou parando de sofrer.

De repente, o payador sorriu: – A morte é apenas um casulo para que nasça uma nova borboleta. Você vai ver, eu ainda vou voar muito alto.

Carmelo entristeceu-se ao ouvir aquilo. Sorriu, no entanto, pensando que realmente José iria para o Paraíso e seria mais um anjo de Deus. O amigo, porém, não imaginava que aquelas palavras significavam outra coisa bem mais complexa. Algo que ocorreria naquela noite mesmo.

A meia-noite se aproximava e Don Carmelo já se encontrava dormindo em sua casa ao que María permanecia na mesma posição plácida de antes. E Betinotti, por sua vez, não havia dormido, como se esperasse por alguma coisa embora ele próprio não compreendesse que espera era essa e pelo que esperava. Por alguma razão que desconhecia, havia deixado a janela aberta mesmo o vento sendo intensamente frio e com chuva ameaçando chegar.

– Betinotti, chegou a hora. Venha até mim – uma voz que apenas o payador podia ouvir se fez no recinto. Ele, tirando forças sem saber de onde, levantou-se e desceu as escadas em direção à rua, que se encontrava fria e vazia. Ela tendo agora como única companhia um homem de pijamas, roupão e chinelos caminhando em direção desconhecida.

O trajeto levou pelo menos uma hora até ele encontrar uma belíssima residência neoclássica de dois andares localizada em uma parte da cidade que ele jamais colocara os pés. A porta estranhamente encontrava-se aberta, permitindo a Betinotti visualizar um lugar refinadamente decorado com móveis que datavam muito possivelmente do século passado ou retrasado. Observava atentamente o local quando a mesma voz ecoou: – Suba. Estou esperando.

O payador subiu pela escada feita de mármore branco polido e olhou para os lados procurando de onde vinha a voz…

– À direita, no fim do corredor – disse novamente a mesma.

José afinal chegou à porta displicentemente aberta, em cujo dormitório se encontrava alguém que era exatamente como a ilusão vista tempos antes: – Você…?

– Eu não sou apenas uma ilusão, caso seja isso que você ainda pensa – disse uma mulher em pé próxima à janela de feitura francesa.

– Você é bonita demais para ser real – disse ele impressionado e depois se aproximando: – Estou aqui, como me disse. Eu só não entendo…

– Logo compreenderá – ela se aproximou com tal rapidez que o payador não teve tempo de piscar.

– Quem… é você? Aliás, o que é você? – os olhos verdes e penetrantes dela o assustavam e fascinavam na mesma medida.

– Eu sou María Luna, aquela que te fará encontrar teu verdadeiro destino – respondeu ela tocando delicadamente a marca no pescoço dele.

– Como assim “verdadeiro destino”? Eu sou apenas um artista que está… morrendo – disse ele apreensivo ao que a “ilusão” perguntou: – Você nunca se perguntou o motivo dos seus sonhos?

Como ela sabia?! O violonista e payador não podia imaginar como ela podia ter ciência das estranhas coisas que ocorriam com ele. Talvez ela pudesse, porém, ajudá-lo a compreender aquelas loucuras, quem sabe fazê-lo livrar-se delas. Foi quando ela o abraçou como a consolá-lo. Sentiu os braços daquela bela criatura frios como gelo, como o abraço da própria Morte.

Assustou-se com a frieza do contato. Apavorado tornou-se quando uma violenta picada penetrou seu pescoço, exatamente na ferida cicatrizada quase desaparecida. Segurou no peito um gemido de terrível dor para minutos depois vê-la sair do lado dele, com os lábios sujos com seu sangue e exibindo embaixo dos lábios o que pareciam duas presas de animal. Enfraquecido quase a ponto de desmaiar, perguntou colocando a mão na ferida, sentindo a viscosidade do líquido vermelho: – Quem… O que é você?

– Apenas olhe para mim. Veja o que eu posso lhe proporcionar – respondeu ela a sorrir e fazendo um talho no próprio pulso, de onde um líquido vermelho escuro saiu em filete.

O payador, sentindo sua coordenação desobedecê-lo, aproximou-se quase caindo de tão fraco. Lambeu o pulso oferecido, sentindo uma inesperada energia apoderar-se dele. De repente mordeu o local com força para obtenção de mais daquela revigorante delícia, pois dela necessitava para manter-se em pé. Foi quando, minutos depois, o sabor tornou-se incrivelmente ácido, como se sua boca e garganta estivessem derretendo, ao que a bela criatura disse: – Eu sei o que há. Você está realmente morrendo, mas não se preocupe, tudo vai dar certo.

Como se nada mais fizesse sentido, José perdeu os sentidos, afinal. María Luna deu um profundo suspiro e levou-o para casa deixando-o exatamente do modo como ele estava, especialmente a marca do pescoço quase desaparecida.

Ela não tinha absoluta certeza se o processo tinha dado certo. Ou acontecia a transformação ou o futuro da Terra estaria seriamente comprometido. Temia, mas estava esperançosa.

A manhã chegada reservou a Betinotti um último momento com seu violão. Ele estava certo de que aquela seria sua última, especialmente porque quase caía quando pegou seu inseparável companheiro musical ao passo que María o ajudara a voltar para a cadeira e o cobriu perguntando-se porque ele nunca fazia caso ao médico…

– Eu sei… o que vai acontecer comigo. Uma nova era está nascendo. Estou indo… fechar-me em um casulo para me transformar em uma borboleta – respondeu ele para o espanto dela: – Não… diga isso.

– Nós dois sabíamos que um dia isso teria o seu ponto final – ele sorria.

– Você ainda tem muito a viver e a cantar para os que te amam, eu sei – disse ela ajoelhando-se à frente dele, desejando poder acreditar em suas próprias palavras.

– Eu sinto que já não sou mais necessário. Sei que a minha hora chega. Abra a janela, deixe a luz entrar em meus olhos pela última vez – respondeu ele tocando seu amado violão.

María abriu a janela a despeito dos pingos de chuva que ainda caíam do lado de fora. O prenúncio era o de um ensolarado dia esperando para ser aproveitado. Ela ouvia notas musicais ecoando pelo quarto como se dissessem que seu tocador já não mais resistia ao sofrimento imposto pela vida. Foi quando algo se rompeu e ela voltou-se para o marido: – A corda…

– Eu sei, é a minha alma que se vai – respondeu o payador ao que ela o abraçou chorando desesperada, implorando que ele ficasse, porém, uma longa respiração tomou seu último fôlego. O corpo de José Betinotti pendeu em seguida de tal maneira que por pouco não havia feito a cadeira onde estava o agora cadáver cair para trás.

Por minutos que pareceram longos demais, o único som naquela casa havia sido o pranto da viuvez.

O enterro havia sido na manhã seguinte após um prolongado e triste velório embora fosse insuportável à María vê-lo deitado naquele caixão. Seu coração doía a cada vez que o olhava e agora mais ainda porque lembrava. Era como senti-lo sendo esmagado por uma tonelada. A cigarreira não conseguia aceitar a morte de seu amado apesar dos tempos antes da doença não terem sido os melhores entre eles.

A tarde após o sepultamento havia sido terrível. A casa de dois andares parecia tão vazia, triste, sem cor. E o violão ali parado com sua corda rompida parecia mais morto que seu dono já enterrado. Carmelo chorava recordando as palavras do payador sobre casulos e borboletas. Pensava que agora seu amigo estava nos braços do Senhor desfrutando um merecido descanso no Paraíso sem imaginar que a noite reservava uma estranha surpresa.

O casulo havia se rompido. E dele irrompeu uma borboleta. No entanto, não era um belo inseto de asas coloridas que encantava os olhos de quem o via. E muito menos era uma situação literal.

A terra remexida indicava algo errado. Um homem de terno escuro encontrava-se de pé ao lado da cova e o marrom espalhado na roupa e sapatos indicava dele ser o morto ali sepultado. Uma faminta borboleta de asas negras pronta para voar.

Ele tinha de admitir: a situação era demasiado incomum até mesmo para ele. Nunca havia pensado que aquilo podia acontecer-lhe. Betinotti, agora caminhando pelo cemitério, descobriu poder enxergar até os mais ínfimos detalhes no meio do inacreditável breu que tomava conta da Chacarita àquela hora. Incontáveis odores vinham ao seu nariz enquanto ele observava as agora longas unhas que possuía nas mãos agora frias como o gelo.

Um ruído que vinha de uma enorme distância chegou aos seus ouvidos com absurda rapidez, fazendo o payador encantar-se pela sua nova capacidade auditiva. A mesma o permitiu localizar de onde vinha o barulho: um guarda de polícia estava no cemitério para averiguar uma denúncia de ladrões de túmulos segundo o ouvido da boca do próprio homem. Ele claramente reclamava que nem mesmo os mortos tinham paz porque sempre havia viventes oportunistas.

Realmente José Betinotti era agora uma faminta borboleta de asas negras, pois logo se aproximou do guarda de coração latente. O agarrou tal qual um animal agarrava sua presa. Em seguida, por um monstruoso instinto de sobrevivência, cravar suas recém-nascidas presas no pescoço dele com a intenção de alimentar-se do delicioso néctar vital que corria por seu corpo. Foram longos e lânguidos minutos até a vítima finalmente padecer sem uma única gota de sangue.

O agora morto-vivo colocou os dedos sobre os filetes que escorriam de sua boca, ficando horrorizado, pelo menos de início, ao ver que havia bebido o sangue de um homem, que se encontrava ali estirado, morto. Entretanto, logo se lembrou dela dizendo que aquele era o destino dele. Sorriu. Ele agora tinha a certeza de que havia nascido para ser vampiro.

Tomou para si as roupas do morto, colocando seu terno nele. Cuidadosamente procurou, através do odor, a parte onde se encontravam as pás dos coveiros. Achou melhor colocar o cadáver em seu túmulo para que a terra revirada não despertasse suspeita. O guarda tinha o mesmo tamanho e físico, portanto dificilmente alguém saberia diferenciá-los caso sua esposa ou Carmelo resolvessem exumar o corpo por alguma razão dali a meses ou quem sabe anos.

Encantou-se com a incrível força que agora tinha, pois o guarda parecia tão somente um boneco de pano em seus braços enquanto era levado para o depósito. Lá chegando, o vampiro recém-nascido encontrou uma pá que parecia em bom estado para ser usada e para sua surpresa, um cadáver. O outro morto também havia tido seu sangue drenado, mas com a estranha diferença de que a marca no pescoço era pequena e ajuntada, como se os dentes responsáveis fossem na frente ao invés de dos lados, o caso de Betinotti.

Com um corpo em um braço e uma pá no outro, o payador logo saiu em direção ao seu túmulo decidido a não se envolver com quem quer que fosse o vampiro causador do cadáver achado no depósito. Ao chegar em sua cova, viu María Luna ali esperando-o, evidentemente preocupada: – Achei que tivesse desaparecido ou até mesmo que não tivesse ressuscitado!

– Eu me alimentei e agora preciso preencher a minha cova com outro morto. A não ser que… você tenha um plano melhor – disse o vampiro colocando o cadáver no chão e pronto para começar a escavar quando uma voz que parecia arrastar-se do fundo do tempo, ou de uma cova, ecoou: – É honroso a mim conhecer alguém que tão carinhosamente cantou meu nome.

O músico não podia crer no que seus olhos viam: Leandro N. Alem encontrava-se saudando ao payador e seus dentes frontais deixavam evidente que ele havia sido o responsável pelo exangue do depósito. O que era mais perturbador, no entanto, eram seus dedos magros e ossudos portando unhas tão compridas que quase o tocavam devido à proximidade que ele estava. E dezenas de ratos cinzentos e peludos o cercavam e pelo menos dois ficavam em seus ombros como bichos de estimação.

– Nosufur-atu, ou como ficou resumido com aquele filme alemão de 1922, Nosferatu. Significa “portador de pragas” em grego – disse a bela criatura de olhos verdes enquanto José o olhava ainda incrédulo: – Meu Deus, é você mesmo. Não sei o que dizer.

– Apenas sinta-se em casa, meu amigo. Nada mais. Realmente você nasceu para ser vampiro – disse o outro para em seguida despedir-se e sair rumo a algum lugar desconhecido.

– Eles carregam pragas consigo de fato? – perguntou o novo vampiro surpreso.

– Sim e podem soltá-las caso queiram causar desordem e desgraça – disse a vampira com um suspiro para depois dizer:

– Melhor você ser rápido com esse “reenterro”. Não podemos ficar a noite toda aqui.

– Era o que eu estava fazendo quando chegou… ele – respondeu Betinnoti usando sua recém-adquirida rapidez para esvaziar a cova em menor tempo possível. Percebendo que a tampa do caixão tinha se rompido por conta dele ter ressuscitado, perguntou-se como resolveria aquilo enquanto ajeitava cuidadosamente o “cadáver substituto” no caixão.

– Quanto a tampa, eu resolvo – María Luna pegou os pedaços da mesma. Usou o que parecia ser algum poder vampírico que o payador desconhecia, deixando a tampa quase como nova, em seguida fechando o ataúde. E José preencheu novamente a cova, sorrindo ao ver o trabalho concluído: – Ninguém vai suspeitar que alguém saiu daqui.

– Você foi muito inteligente ao pensar nessa solução – respondeu ela sorrindo.

– Eu duvido que alguém seja tão idiota de não perceber um monte de terra remexida mesmo sendo pouco escolarizado como eu – disse ele dando uma leve risada ao que ela o abraçou por trás: – Inteligência prática muitas vezes vale mais que qualquer livro.

O abraço dela agora era quente e delicioso, o que o fez deduzir: ela havia se alimentado de algum incauto antes de encontrá-lo. O mais inacreditável era que ele estava incrivelmente excitado com aquele contato, sentindo um enorme calor apossar-se de seu corpo mesmo ele estando, para todos os efeitos, morto. Era uma sensação tão única. Tal que ele se permitiu ser levado noite adentro por ela.

E depois? Como havia sido? Quem sabia, afinal? A noite, no fim, era dotada de muitos segredos, nem sempre desvendados. E talvez nem precisassem.

José Betinotti (1878 -1915)

La flor de Villa Crespo (“De vampiros portenhos e sonhos escabrosos” – 3º conto)

De novo, era noite. Por algum motivo desconhecido, ela sempre ficava sentada no muro do Cemitério da Chacarita alguns minutos antes de sair para fazer o que chamava de “jantar solitário”.

Solidão era uma palavra que ela bem conhecia. Não era simples viver tanto tempo. Quer dizer, ela podia chamar aquilo de “vida” realmente? Na verdade, podia. Nunca havia pensado ser capaz de viver tanto. E de testemunhar o surgimento dos trens subterrâneos e tantas outras coisas fascinantes que só os humanos de gerações após a dela eram capazes de fazer.

No entanto, não era de tudo o que ela gostava. A comunicação entre as pessoas era cada vez menor. Elas apelavam a maior parte do tempo para uns dispositivos cheios de botões ou dependentes de toque. Apesar disso, ela tinha um smartphone, que ela apelidava de “retângulo falante”. E um tablet, que ela, no seu jeito antigo, chamava de “tábua de cortar carne”, devido ao formato quadrado. Os tinha adquirido para falar com seu querido quando ele estava longe, impossibilitado de visitá-la. Era bom quando ele vinha. Sentia-se menos sozinha embora eles não se amassem como duas pessoas normais.

Como então ela o amava? Amava do seu jeito. Como uma grande amiga que ocasionalmente lhe dava um beijo enquanto suas mãos se juntavam às dele em uma sincronia que era tão bonita quanto surreal, dada a condição estranha de ambos. Um toque que aos humanos parecia frio, mas era bonito, do seu modo.

O sorriso dele deveria ser considerado crime de atentado ao pudor, na visão dela. Era belo e sabia envolver qualquer um, mesmo que a pessoa vendo não achasse seu portador muito bonito. Leopoldo tinha o cabelo castanho-escuro meio revolto pontuado por cachos às vezes caídos em seu rosto chamado de comum. Era pouco mais alto que ela e bastante esbelto, com uma cruz de prata pendendo de seu peito.

No entanto, aquele era o único aspecto que Paquita não entendia. Ela não tinha medo de cruzes ou o que fosse, porém, era senso comum: eles não podiam tocar objetos sagrados. Ou pelo menos era isso que os humanos tinham o idiota hábito de pensar. O crucifixo prateado contrastava com a blusa sempre preta que ele usava, dando-lhe um aspecto ainda mais gótico. Quase uma pintura em alto relevo, no ponto de vista dela.

Na verdade, não era o único. Havia outro: Leopoldo nunca lhe havia falado do passado. A cruz prateada, por sua vez, indicava que ele muito possivelmente era fervoroso cristão quando vivo. Tal fato reforçava uma teoria possuída por ela sobre ele. Nunca, porém, tivera coragem suficiente para perguntar, até porque os jesuítas só haviam chegado ao que viria a ser o antigo Vice Reino do Rio da Prata em 1609. Era estranho, mas se tratando dele, nada podia ser chamado de normal, pois ele tinha mais de quatro séculos de idade.

Enfim, ela saiu de sua posição. Um tombo da altura daquele muro poderia causar machucados sérios em qualquer humano. Contudo, seus pequenos pés calçados com um simples, porém bonito, sapato preto de pequeno salto, pousaram delicadamente no chão.

A lua cheia que naquela noite parecia maior do que de costume iluminava a delicada figura agora na calçada. O rosto redondo possuía grandes e curiosos olhos escuros contrastando com a brancura do plenilúnio. Suas maçãs do rosto eram bonitas e bem feitas, a boca traçava uma linha suave e atraente e seu corpo tinha algumas curvas. Não era muito magra, mas também parecia em forma. O cabelo era castanho e brilhante, mantido solto porque ela adorava sentir o vento pegá-la de surpresa. Suas formas estavam um pouco escondidas pelo delicado vestido rosa acinturado, que parecia acentuar ainda mais o cetim pálido de sua pele clara e macia.

Caminhou por algum tempo pelas ruas vazias e escuras daquela parte de Buenos Aires à procura de alguém para seu “jantar solitário”. Encontrou o buscado em um grupo de rapazes tocando tangos antigos em troca de moedas dadas por velhos conhecedores da era de ouro do tango argentino. Riu, lembrando-se de como adorava acompanhar as novidades daquele gênero que havia ajudado a consolidar. Gardel era de longe seu favorito e até hoje se lamentava por não ter podido mordê-lo. Ele teria sido um imortal fascinante.

Oculta, observou os rapazes tocarem até pelo menos duas horas depois dela chegar. Quando eles finalmente terminaram sua jornada noturna, ela pôde aproximar-se. O fez com cuidado, como de costume, não querendo assustar nenhum deles. No entanto, viu-se surpreendida por uma pergunta feita em um tom de encantamento que a fez quase gargalhar:

– Gostaria que… tocássemos algo para você?

– La enmascarada – respondeu ela educadamente enquanto os outros a observavam com incomum assombro. Sorriu para dentro, pois estava certa de que eles eram profundos conhecedores, considerando todo o tocado até ali.

– Uma apreciadora de tango. E ainda por cima tão linda. Eu poderia passar deste mundo hoje mesmo que o faria com prazer – disse o violonista, claramente encantado pela figura feminina ali presente.

– Não seja tão apressado. Você tem muito para tocar junto dos seus amigos – respondeu ela em tom misterioso enquanto os outros riam, achando ela fazia alguma piada.

A música foi belamente tocada. Paquita ainda se lembrava de quando a havia composto, nos anos vinte. O vocalista tinha uma linda voz. Sim, era ele. Não apenas seu canto a havia atraído, mas seu cheiro não deixava dúvidas: era forte e extremamente delicioso. Exatamente como ela gostava.

Os rapazes, muito educados, disseram que precisavam ir embora e se desculparam por não poder ficar mais um pouco com ela. Adorariam, depois, encontrá-la novamente para tocar mais canções. Sorrindo, ela agradeceu, sua voz soando doce como uma medialuna recheada com o mais puro chocolate, causando nos jovens um desejo ainda mais fervoroso de reencontrá-la.

Finalmente eles foram. Ela os seguiu, às escondidas, esperando a chance de ver o vocalista sozinho. Seus passos eram silenciosos e os sentidos aguçados, pois agora estava na posição de caçadora. Andou por mais algum tempo até que sua potencial vítima estava enfim sozinha. Por Deus, ele era uma bela figura. Um cabelo negro e deslumbrante, uma pele morena cor de cuia, volumosos e belos lábios que indicavam descendência de negros. Ele entrou no que antigamente era um cinema, agora transformado em prédio residencial para quem não tinha alto poder aquisitivo.

Conseguiu abordá-lo delicadamente antes que ele subisse no velho elevador: – Olá, de novo.

– Como me achou? – perguntou ele sem compreender e de repente, viu seus olhos sendo laçados por um belo e hipnotizante olhar que o paralisou de forma inacreditável. O cérebro se recusava a obedecer qualquer comando dito. O chamado dela era absolutamente irresistível aos seus ouvidos humanos, pouco acostumados àquela doçura gutural jorrando pelos lábios finos e delicados dela.

O rapaz, entorpecido pelo estranho encanto irradiado daquele ser que parecia a noite materializada no mais belo sonho, não notou quando os olhos dela adquiriram um tom vermelho sanguíneo e duas afiadas e compridas presas surgiram naquela macia boca, agora pronta para o “jantar solitário”. Com delicadeza e tomando o cuidado de não causar dor aquele mancebo tão belo, alimentou-se até certo ponto. Permitiu-se o controle após dois litros e meio de sangue. Limpou os lábios com um lenço que trazia no bolso do vestido. Após deixar sua vítima em posição confortável, novamente ganhou as ruas da cidade.

– Mi pequeña Paquita – uma voz reconhecível se fez ouvir após um bom tempo de caminhada.

– Leopoldo! – ela sorriu enquanto ele, com seus delicados movimentos felinos, pousava no chão.

– Parece que você já jantou, minha flor da Villa Crespo – disse o ser a sorrir.

– Amanhã, se quiser, pode caçar comigo – sua felicidade irradiava por seus delicados poros.

– É claro – Leopoldo a abraçou, beijando-a logo em seguida, e a noite de repente parecia pequena demais para ser esquecida em um só momento.

O que para os humanos era apenas um sonho distante e impossível, para eles era eterno. Imortais eles eram.

O que para os humanos era tão somente lenda e ficção, para eles era real. Vampiros, para sempre eles seriam.

Paquita Bernardo (1900 – 1925)

Biografia em vídeo:

Ao norte de meu corpo (“De vampiros portenhos e sonhos escabrosos” – 2º conto)

Lorenzo encontrava-se adormecido, exausto após um longo dia trabalhando no hospital onde agora era empregado após um amigo do pai falecido indicá-lo para o diretor. O episódio do necrotério, de onde ele havia pedido demissão dias após o acontecido durante a morte do político De la Torre, era agora uma simples lembrança sepultada, mas a presença dele era uma realidade. Assustadora, mas era.

Não que tivesse sido difícil se acostumar com um vampiro usando seu apartamento como refúgio diurno. O complicado mesmo era se deparar com manchas de sangue no tapete ou móveis. Ou com seu “companheiro de apartamento” enroscado nu em alguma meretriz da rua ou boêmio “sodomita” ou de dupla tendência. O jovem legista agora médico plantonista estava assustado com a repentina mudança de comportamento do antes respeitável advogado e político.

Era absurdamente estranho vê-lo mostrar uma faceta tão pervertida como a que ele estava exibindo. Perguntava-se se isso era alguma tendência vampiresca ou ele libertando anos de repressão interna. Ainda, no ponto de vista da sociedade e das regras que a regiam, mostrar certas facetas não era considerado moral e/ou pudico. Não era raro, mais antigamente, esse tipo de coisa ser punida com prisão ou até mesmo pena capital, segundo Lorenzo Reyes sabia por leituras feitas na universidade.

O rapaz, que tão delicadamente dormia e parecia sonhar com algo bom, foi acordado pelas batidas na porta. Viu-se obrigado a levantar das quentinhas cobertas para ver quem ia incomodá-lo àquela hora da noite. Com um bocado de sono, abriu a porta, repentinamente despertando ao ver quem era: – Martha?!

A bela jovem de cabelos castanhos, olhos escuros e pele clara perolada, além de um corpo bem servido, era filha da senhoria do prédio, uma estranha, e muito feia, mulher chamada Brigida. Ou como o resto dos moradores a chamavam à baixa voz: La Bruja. Lorenzo era dono do apartamento, dado de presente pelo pai, razão pela qual a tal dona do resto das moradas não o incomodava. O rapaz achava estranha a presença daquela jovem e mais ainda que ela e a mãe não estranhassem a presença do “novo morador”. Sequer haviam lhe perguntado de onde ele vinha e porque estava ali.

– Surpreso, doutor Lorenzo? – perguntou ela sem se importar se eram quase onze da noite. A jovem tinha uma voz levemente rouca. E muito sensual, na opinião dele, embora este jamais tivesse tocado longamente uma mulher ou sido tocado por uma. O jovem médico se perguntava ainda porque motivo ela estava em trajes tão sumários na porta de um rapaz solteiro.

– A senhorita não acha que é muito tarde para vir à minha porta? – respondeu ele com outra pergunta.

– Me deixa entrar? – ela sorriu marota ao que ele, para não mostrar indelicadeza, permitiu que ela entrasse, mesmo que a situação fosse estranha.

– Quer algo? – perguntou Reyes enquanto ela adentrava a sala.

A bela jovem sorriu e respondeu: – Que tal sua pureza virginal?

Lorenzo ficou incrédulo com a resposta da vizinha do andar superior: – Doña Brigida sabe que você está praticamente seminua no meu apartamento?

– Você a deixou entrar, sabia? – uma voz masculina facilmente reconhecível, vinda da janela, assustou o médico: – Que susto, meu Deus! Você podia usar a porta! É por isso que te dei uma chave!

– Eu gosto de te assustar. Você fica um doce com essa carinha assustada – respondeu ele rindo enquanto Martha o observava com interesse, como se já o conhecesse. Enquanto o “filho ilegítimo” de Enzo Brodabehere ficava vermelho e ao mesmo tempo lisonjeado com o comentário de Lisandro. Ele parecia ter sua juventude ainda mais renovada após a ronda noturna em busca de alimento.

– Concordo com o “Fiscal de la Patria” – disse a jovem se aproximando e tocando-o: – Está com medo?

– Como você sabe quem ele é?! – Lorenzo não podia crer no que havia ouvido.

Martha riu: – Eu e a mamãe sabemos quem ele é desde o minuto em que ele chegou aqui. Ah, anjinho dos olhos azuis, você tem tanto a aprender. Por que não me deixa te ensinar uma parte? – enquanto desabotoava o pijama dele, que tremia quase a ponto de convulsionar com o contato. Foi quando o toque de Lisandro em seu ombro estranhamente o acalmou: – Ela não morde, seu bobo.

Ela não mordia, mas sangrava, pensou ele ao lembrar-se de quando havia visto, por acidente, um colega da escola tirando a virgindade da então namorada. A visão do sangue saindo pelas partes baixas da menina o havia deixado com um trauma muito sério relacionado às mulheres e ao sangue. Razão pela qual havia decidido fazer a escola de medicina, intencionando se livrar de tal coisa. Dissociar-se do trauma do sangue havia sido fácil, porém, nunca tinha conseguido tocar uma mulher sem quase ter convulsões nervosas. Por isso ainda era virgem mesmo sendo um homem feito.

Naquela noite, porém, as coisas estavam para dar uma inimaginável virada.

Lorenzo não compreendia como podia se sentir tão calmo com o toque de Lisandro. Ao mesmo tempo se excitava observando Martha despir-se do sutiã e colocar as mãos sobre a calçola justa de modo atrevido, implicando desnudar-se. Não entendia como os pelos de seu corpo magro, porém belo, podiam arrepiar-se com duas coisas tão distintas. “Não é possível”, pensou ele enquanto seus lábios foram de repente envolvidos pelos da vizinha de cima, que se aproveitou do momento para livrá-lo da camisa do pijama…

– Ainda está com medo?

– Por alguma razão, não sinto. É como se… tudo o que eu sabia antes virasse pó – respondeu ele que agora tomava coragem para tocá-la. “Que macia”, pensava ele enquanto suas mãos percorriam a pele nua de Martha.

– Aproveite, Anjo Azul. Ela quer você. Não vejo problema em você dormir com ela – Lisandro riu chamando-o pelo apelido ao observá-la ficar totalmente nua e enroscar-se nele com a clara intenção de deixá-lo apenas com as roupas de baixo e depois desnudá-lo.

Novamente, lhe veio aquela sensação: o corpo dela e o riso dele o deixavam excitado. Era estranho, porém, não era ruim embora lhe dissessem que certas coisas não faziam parte da natureza das pessoas. No entanto, se acontecia, como não fazia parte? Não existia nada daquela história de influência do Maligno, como muitas vezes algumas beatas conhecidas de sua madrinha insistiam em dizer-lhe quando ensinavam o catecismo. O que simplesmente ocorria era seu corpo trabalhando à sua maneira. No caso, dizendo-lhe não ser preciso se preocupar se duas coisas distintas o acendiam.

Depois, a noite pareceu pequena demais para tanto prazer. Tanto de fazer quanto de observar.

Pela manhã, Lisandro de la Torre se encontrava em seu repouso diurno enquanto Lorenzo recém acordava de um sono curto, porém revigorante. Tinha passado metade da noite fazendo amor com Martha, oficialmente perdendo sua prolongada virgindade. Estava certo de que o vampiro o observava durante o ato. Dormiu a outra com a jovem filha de Doña Brigida em seus braços.

Levantou-se e vestiu-se para em seguida ir à cozinha fazer um desjejum. Não havia comido desde que chegara do plantão do hospital ontem beirando às dez da noite, pois tinha coberto um turno intermediário para um colega que tinha um compromisso. Durante a refeição, se viu relembrando o episódio da morgue. Quase perdeu a fome em razão de recordar que, no porão, o corpo de seu ex-chefe se encontrava, decerto sendo comido pelos insetos que carcomiam o velho armário.

Balançou a cabeça para que aquelas lembranças ruins sumissem e tratou de continuar comendo.

De repente, Lorenzo ouviu batidas na porta. Estranhou, pois ninguém costumava bater tão cedo em seu apartamento. Atendeu, ficando surpreso com a visita: era Doña Brigida, mãe de Martha e senhoria do prédio, tão esquisita e feia como costumava ser…

– A senhora? Bom dia.

– Bom dia, doutor Reyes. Presumo que está se perguntando a razão de eu estar em sua casa em hora tão pouco adequada – ela não parecia zangada nem nada do gênero. O rapaz, porém, duvidou que a tempestade tardasse caso a senhoria visse Martha dormindo placidamente nua em sua cama.

– Sinceramente? Não imagino – respondeu ele oferecendo o sofá para que ela se acomodasse.

– A polícia andou por aqui agora cedo procurando informações sobre o assassinato do Doutor Tomás, o seu ex-chefe – respondeu a mulher para o total espanto dele, não entendendo raios do que ocorria.

Brigida olhou na direção do escritório e disse: – Eu sei o que houve, mas não se preocupe, já despistei a polícia com relação à sua participação. Como você foi o último a ver seu chefe vivo e o primeiro a testemunhar o incrível fenômeno que ocorreu com o doutor De la Torre, acho que agora sim nós precisamos ter uma conversa. Ah, e eu sei que Martha tirou sua virgindade e está nua em sua cama. A sua expressão e seu rosto parecem mais másculos agora, Anjo Azul.

Lorenzo não podia acreditar nas palavras ouvidas e logo tratou de pedir explicações ao mesmo tempo em que dava razão aos vizinhos por chamarem-na “La Bruja”. Não era possível ela estar dizendo aquelas coisas tão precisamente e com tanta naturalidade.

– A senhora não está brava comigo? – perguntou ele temendo que ela tentasse algo para se vingar.

– Martha já foi casada, mas enviuvou faz um ano e voltou a morar comigo para que eu não me sentisse sozinha. E já tinha um tempo que ela se sentia atraída por você, então acho natural ela querer dormir nos seus lençóis – respondeu ela para absoluta surpresa do médico. Percebia a senhoria do prédio como uma mulher bem à frente daquela época por não deixar a filha presa a certas imposições. Foi quando ela continuou: – Quanto ao que houve com Lisandro de la Torre, estou certa de que irá se espantar. Mesmo eu estou espantada de que minha teoria está comprovada.

– Teoria? – Lorenzo estranhou aquelas palavras. Existia mesmo uma teoria sobre esse tipo de coisa?

– Primeiro, me permita resumir o contexto dos fatos – disse Brigida para depois contar a seguinte história: em 1890, o então jovem e desconhecido Lisandro estava em férias em sua terra natal. Dava um passeio a cavalo quando o mesmo empinou violentamente, derrubando-o e ferindo-o quase mortalmente, no que o risco de sequelas graves era alto. No momento mais oportuno, alguém, vendo no rapaz um promissor futuro na vida pública, usou seu sangue de vampiro para curá-lo, sendo esse Leopoldo Belmondo, um vampiro espanhol residente na Argentina desde o século 16.

– Compreendi o que a senhora disse e me permita tentar deduzir: eu suponho que o sangue curou o corpo de Lisandro, mas, com… um preço? – Reyes observou atentamente a reação da “bruxa” e ao que tudo indicava, ele parecia estar perto.

– Não exatamente assim – respondeu ela para depois dizer: – Eu sempre coloquei a teoria de que, em circunstâncias especiais, existe um conceito de vampirismo que eu chamo de “vampirismo retroativo”, que consiste em alguém mais velho transformar-se em vampiro e voltar à juventude. Imagino que você saiba que vampiros costumam ter sempre a mesma aparência, não é?

– Agora que a senhora disse, eu acho que entendo: o sangue desse tal Belmondo entrou em ação no corpo de Lisandro quando ele se matou com uma bala no coração. O que não entendo é como isso ocorreu! – o jovem médico não podia esconder o espanto mediante uma situação tão inacreditável.

– O sangue de alguns vampiros mais poderosos possui muitas propriedades, incluindo proteger a saúde e o sistema de um humano quando este é curado pelo vampiro. Você nunca se perguntou o motivo de Lisandro nunca ter ficado seriamente doente nem nada parecido? – a senhoria do prédio deixou o rapaz novamente boquiaberto. Este gesticulou dizendo que queria ouvir mais ao que Brigida continuou com alegres suspiros misturados a palminhas:

– Ao cometer suicídio atirando em seu próprio coração, Lisandro não pensou que o sangue de Leopoldo, adormecido no sistema dele desde 1890, iria voltar a coagular. Este causando uma “reconstrução sistemática”, ou seja, transmutando o doutor De La Torre em vampiro e fazendo-o voltar a ser um jovenzinho de vinte e poucos anos em razão de que o primeiro contato do corpo dele com o sangue de Leopoldo ocorreu ainda na juventude.

– Doña Brigida, a senhora por acaso saberia se vampiros são pervertidos mesmo ou certas coisas que eles fazem é fruto de uma liberação de repressões internas feitas anos a fio? – perguntou o jovem médico espantado com o ouvido antes. E lembrava-se das vezes em que flagrava Lisandro espioná-lo no banho. Ficava tão vermelho quanto um tomate embora quase não pudesse negar que gostava.

A mulher riu e respondeu: – Ambas as coisas. Se bem que os vampiros adoram seduzir as vítimas antes de mordê-las.

– Eu imaginei. Não é nada raro eu flagrá-lo dormindo com uma meretriz ou um boêmio, que tenho sempre de atender em razão da perda sanguínea, encontrar manchas de sangue nos meus tapetes ou móveis. E cintas-ligas nas gavetas do escritório – Lorenzo deu um gemido longo ao falar disso.

– Oras, Anjo Azul, não fique tão assustadiço. Entendo sua apreensão, mas pense, pelo menos agora você não se sente tão só – disse ela sorrindo ao que o médico lhe deu razão. Realmente, ele nunca havia tido muitos amigos que pudesse chamar de próximos. E por conta de sua extraordinária filiação, a solidão costumava ser uma companheira constante. Porque dificilmente alguém ignoraria a grande semelhança dele com o falecido Brodabehere, embora Lorenzo tivesse herdado os olhos azuis celestes da mãe cortesã, razão pela qual Lisandro o apelidara de “Anjo Azul”.

Após aquela longa e reveladora conversa, Brigida disse que precisava voltar à sua casa e que Lorenzo desse um bom café da manhã à Martha, pois a jovem decerto acordaria com muita fome após noite tão agitada.

Pensando no que havia conversado com a senhoria, achou melhor concentrar-se no dia que viria, pois estava quase se atrasando para seu primeiro plantão do dia.

Apesar dos pesares e de um atraso de dois minutos, coberto com cinco extras, Lorenzo pôde sair na hora costumeira do hospital e ir para casa. Chegando lá, encontrou o apartamento muito bem arrumado e Lisandro fumando um cigarro em uma piteira preta de desenho refinado. Estava ele delicada e displicentemente sentado em uma poltrona enquanto lia um dos muitos livros clássicos que Lorenzo possuía.

– Boa noite, Lisandro. Menos mal que você deixou a janela aberta. Você sabe que eu odeio fumaça de cigarro – disse o rapaz tirando o jaleco para colocá-lo no cesto de roupa suja que ficava na área de serviço anexa à cozinha.

O vampiro nada disse, apenas sorriu ao vê-lo andar em direção ao dormitório, decerto indo para seu banho noturno. Admitia: era delicioso ficar espiando o Anjo Azul banhar-se, especialmente quando ele permanecia na banheira por alguns minutos, como se dormisse profundamente.

Enquanto o antes político se deliciava em pensamentos maliciosos, as horas passaram…

Lorenzo, já de pijamas, porém sentado em sua cama, se perguntava como podia, até ontem, ter sonhado inúmeras vezes com a mesma coisa: um gato negro sentado ao pé de sua cama o encarava e depois pulava sobre ele, ao que o jovem tentava gritar e ao mesmo tempo, estrangular a criatura. De repente, o gato parecia tornar-se quente e pesado e o rapaz sentia a pele da criatura em sua boca, sentindo um profundo medo do que viria. E sem mais nem menos, uma estranha mudança ocorria…

O gato transformava-se em Lisandro, que o abraçava, e beijava, dizendo que tudo ficaria bem e ambos ficavam felizes no fim, porém, ele acordava gritando ao sentir uma agulha inesperada penetrar-lhe o pescoço. O jovem médico sabia aquele abraço significar o princípio da dor aguda de uma mordida por onde seu sangue era drenado e sua vida corria risco. No entanto, embora temesse, queria provar, entender como era a sensação. Não! Não podia permitir tal coisa! Era perigoso demais

– Não é perigoso quando se sabe o caminho trilhado – De la Torre encontrava-se à frente de Lorenzo, que tão absorto em seus pensamentos, não havia notado a presença do vampiro até ouvi-lo.

– Eu não gosto quando você invade meu quarto. E você não tem que…? – a interrupção veio com um abraço do vampiro no jovem: – Estará seguro enquanto estiver comigo, não tenha medo.

Lorenzo queria responder-lhe, mas algo não o permitia. Talvez os olhos, quiçá aqueles lábios, quem sabe aqueles braços que o envolviam. Lisandro, intencionando acalmá-lo, fez-lhe um carinho no rosto e em seguida o beijou, deixando o rapaz sem reação. Como se o atrevido beijo não fosse suficiente, os botões da camisa do pijama se abriram. Um talho à unha partiu a regata íntima em dois. O médico tentou resistir àquela investida sensual do vampiro. Viu-se, porém, sendo deitado. As mãos do ex-senador puseram-se sob seus ombros. O corpo dele sobre o seu. E os lábios do mesmo envolvendo novamente os seus em um beijo mais ardente do que o anterior.

O jovem já não podia esconder que gostava daquilo. A boca carnuda e bem desenhada do vampiro deliciosamente descera ao pescoço, peito e umbigo em beijos, lambidas e mordidas de leve. Tais coisas fizeram o coração de Reyes acelerar loucamente e seu sangue bombear com rapidez absurda, causando violenta reação bem ao sul daquele jovem corpo. O notívago se viu a sorrir enquanto deitava a cabeça sob o peito quente do rapaz: – Eu não disse? Não é perigoso se você sabe onde andar.

– Você não me mordeu. Por acaso não está com fome? – o médico estranhava aquela situação.

– Donã Brigida me trouxe alimento quando despertei hoje. Não tive necessidade de caçar, apenas de estar com você, meu Anjo Azul – respondeu ele deslizando as unhas longas e afiadas pelo peito desnudo dele.

– Quem eu sou para você: eu mesmo ou apenas uma extensão do meu pai? – perguntou o rapaz, causando certo espanto em Lisandro, que, de certo modo, já esperava aquele questionamento…

– Você é você, Lorenzo. O resto não importa – respondeu o vampiro para sair da posição em que se encontrava. Posicionou-se ao lado do rapaz, que o olhou nos olhos: – Fico feliz de você não me comparar ao meu pai. Já basta tudo o que eu tive de passar por ser filho bastardo.

– Eu já disse: você é você, ponto. Não há com o que se preocupar quanto a isso. Estou aqui com você e por você, sempre – o vampiro aninhou o rapaz em seus braços suspirando com felicidade apenas pedindo ao destino que não lhe tirasse aquela nova chance dada.

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O infinito processo (“De vampiros portenhos e sonhos escabrosos” – 1º conto)

– Você parece nervoso, Lorenzo. É melhor irmos com isso de uma vez por todas. O corpo será transportado amanhã bem cedo e precisamos deixar os documentos prontos antes do pôr do sol – disse um homem que acabara de extrair uma bala do coração do cadáver que se encontrava à frente deles.

– Nunca pensei que logo eu seria encarregado de auxiliar o senhor em semelhante autópsia. Quem diria que o doutor “De la Torre” tiraria a própria vida – o rapaz engoliu seco ao que o legista chefe imediatamente replicou: – Depois de tudo o que ele passou, não me surpreendo do cansaço dele de viver. Pobre velho, somente queria o melhor para nosso país, mas a maioria dos políticos daqui não vale sequer uma cuba de esterco.

– Concordo, mas, não consigo deixar de pensar que ele poderia ter tentado mais – disse o jovem olhando fixo o morto.

– Garoto, você ainda é novinho e por isso entendo suas palavras, mas quando você chega a uma determinada altura da vida, as coisas mudam para pior. E não importa o quanto você tente, melhores não ficam. Entonces, aprovechas a la vida cuanto puedas, Lorenzo. Ella es corta y cuando menos esperas, termina – disse o velho médico, deixando o rapaz arrepiado com semelhantes palavras.

– O senhor quer dizer que eu deveria fazer mais coisas consideradas “feias e imorais” pelas senhoras de bem? – perguntou o jovem, lembrando-se de que seu superior daquela noite era assíduo frequentador do bordel “Media Luna”.

– Mais ou menos assim, rapaz. Um dia destes, eu ainda o levo para conhecer as meninas de Teresa Maldonado! Cada belezinha que iria te acender as ideias, meu menino dos olhos de safira! – riu o velho, que sempre se encantava com os azuis olhos do jovem subordinado. Embora parecesse um adolescente perto da idade adulta, era na verdade um rapaz de 23 anos ainda virgem. Não se sabia o porquê.

Os risos se interromperam inesperadamente quando o homem lembrou-se de que precisava sair para resolver alguns assuntos de maior urgência: – Rapaz, eu vou encarregá-lo de terminar de autópsia do doutor Lisandro. Trate de dar seu melhor antes que o sol se ponha porque amanhã será o transporte.

O homem logo saiu, deixando Lorenzo sozinho com o cadáver ainda descoberto do político e advogado. Ele parecia somente dormir, pois a expressão era estranhamente serena para quem havia cometido suicídio. Razão pela qual o legista se incomodou e cobriu o morto com o lençol do necrotério. Depois, cuidou dos documentos que determinavam a causa mortis da pessoa. Assim, Lorenzo acabou por sair da sala por um longo período de tempo, este acabando por ser aonde um estranho processo interior, acontecendo desde a retirada da bala, iria se concluir.

Nesse meio tempo, outro cadáver, um senhor da mesma idade de Lisandro de la Torre e com uma aparência consideravelmente semelhante, chegou ao necrotério. Lorenzo encarregou-se deste, ficando mais tempo fora da sala onde o advogado, e político, morto se encontrava sofrendo o processo que lhe daria um novo, e estranho, sopro vital.

Terminado o trabalho com o outro morto, o jovem legista substituto levara o cadáver de volta à sala onde se encontrava o doutor de la Torre. O sol havia acabado de se por na cidade e a noite se fazia aproximada de Buenos Aires. Tal hora sempre deixava Lorenzo assustadiço, pois o necrotério ficava com um ar profundamente macabro e isso não tornava seu trabalho mais fácil.

Alguns minutos depois de ajeitar o novo morto na sala, Lorenzo sentiu o ar faltar. Percebeu que o lençol cobrindo o cadáver de Lisandro de la Torre parecia estar ocupando alguma outra coisa. O corpo estava mais fino, como se o processo de decomposição tivesse começado antes do tempo. Não era possível, pensou o jovem contendo o pavor que queria tomá-lo inteiro. Aproximou-se e descobriu cuidadosamente o cadáver, percebendo que algo estava realmente fora do lugar…

– Meu… Deus. O que… aconteceu? – Lorenzo questionou-se ao ver que o senhor de la Torre parecia ter voltado vários anos no tempo depois de morto. Logo disse a si mesmo, tentando não entrar em pânico, mas fracassando: – Alguém levou o cadáver para outro lugar e este deve ser outro infeliz! Mortos não rejuvenescem! O que está havendo, meu bom Senhor?

– Deus do céu, rapaz! Ouvem-se lá de fora seus gritos e… – o legista chefe chegara rapidamente à sala de autópsias após resolver seus assuntos e ouvir as apavoradas exclamações. Ficou estático: – Quando perguntei sobre se alguém havia movido algum cadáver daqui, disseram-me que nada houve, mas, então, para onde levaram o doutor Lisandro?!

– Não sei! Não posso conceber, porém, que um cadáver rejuvenesça, doutor Tomás! – exclamou Lorenzo quase aos prantos de tanto medo.

Tomás aproximou-se e ao ver o rosto agora descoberto de Lisandro, quase não pôde conter um grito. Reconheceu, ao lado da mesinha, os objetos pessoais do morto: – Por Deus Nosso Senhor e Pai! É realmente ele! Não pode ser possível, tem que haver algum engano!

– Doutor, eu estou com muito medo! – disse Lorenzo se afastando do morto.

– É claro que você tem que estar apavorado porque estou quase em pânico! Não estou em condição alguma de fazer algo porque não sei o que há! – o legista quase berrava, tremia muito.

Foi quando um barulho parecendo um guincho feroz fez com que os dois se virassem na direção da mesa onde estava o advogado e político. Viram quando nada menos que o próprio abriu os grandes olhos escuros, agora apresentando um tom vermelho vivo. Estavam quase se espremendo em um apavorado abraço. De repente, Lisandro escancarou a boca linear e retamente desenhada. Dela saíram dois compridos e pontudos colmilhos, popularmente chamados de “caninos”. Os legistas entraram em terrível pânico. Correram porta afora para alertar a recepcionista para trancar todas as portas e janelas do andar intencionando impedir uma desgraça.

Os dois não haviam visto quando Lisandro de la Torre se levantou da mesa onde se encontrava. Não se importava nem um pouco se vestia algum tecido por cima e se deixaria um prédio inteiro em polvorosa. No entanto, o cadáver redivivo encontrava-se confuso, não compreendendo o acontecido. Só compreendia que podia novamente andar, enxergar, ouvir, sentir, tocar… Falar: – Não… pode ser.

Via suas unhas alongadas e pontudas. Tudo à sua volta era pintado de um forte tom rubro misturado ao negrume que era comparável à própria noite na sua essência mais temível. Sentia algo anormal em seus dentes incisivos e ainda pior sentia sua garganta, que parecia queimar implorando por algo. Foi quando ouviu vozes no corredor…

– Lorenzo, não seja louco! Você morrerá se voltar! Eu sei exatamente o que é aquela coisa! Infelizmente o doutor de La Torre tornou-se apenas uma casca de algo maligno sedento por sangue!

– Não posso permitir ele sair deste prédio e matar inocentes! Prefiro dar minha vida ao invés disso! – exclamou o rapaz, cujas palavras criaram estranha comoção no coração do morto recém-revivido.

– Doutor… De la Torre? – o jovem legista se encontrava de volta na sala. Não parecia intimidado com os caninos saídos do vampiro e sua nudez explícita.

– Enzo? – a criatura aproximou-se, observando-o quadro a quadro e finalmente confirmando uma suspeita que há muito tinha sobre seu falecido companheiro de bancada. Colocou sua fria mão carinhosamente sobre o rosto dele: – Lorenzo, não é?

– Sim, é meu nome – respondeu ele para em seguida abrir o jaleco, o colete e a camisa e inclinar o pescoço submissão:

– Alimente-se, doutor Lisandro. Me mate se quiser, mas, não faça mal a outros.

De fato, ele tinha sede. Muita. Ao mesmo tempo, não tinha coragem de fazer mal ao único pedaço restante de seu melhor amigo. Não era justo. Ele não precisava dar sua vida por gente que não merecia. No fim das contas, humanos eram seres mesquinhos e patéticos não merecedores de nenhum sacrifício de outrem. Ainda mais quando era um anjo tão belo quanto aquele legista de lindos olhos azuis tão bondosamente se oferecendo para ser imolado.

– Não, Lorenzo – respondeu ele para depois dizer: – Jamais faria mal a você. Isso é manchar a memória de Enzo.

– Como assim? – o chefe do rapaz não entendia nada do que estava acontecendo embora achasse Lorenzo parecido demais com Enzo Brodabehere. Será que…? Não podia ser! Talvez fosse.

– Você ainda não percebeu? – o agora vampiro Lisandro aproximou-se do homem mais velho de forma ameaçadora. Ele nada pôde dizer enquanto ouvia seu interlocutor morto-vivo dizer ao rapaz: – É melhor você virar para o outro lado. Não desejará ver o que farei com ele.

– O meu sangue é muito mais jovem. Por que se alimentar dele? – Lorenzo não entendia a mudança repentina de Lisandro.

– Você já se perguntou o porquê do seu pai ter morrido? – a questão deixou o jovem legista repentinamente triste. Em verdade, ele sabia. O discípulo de Lisandro de la Torre havia sido morto durante uma sessão no Congresso. Lorenzo não exatamente entendia os motivos que haviam levado ao homicídio brutal do pai com quem pouco havia convivido em seus vinte e três anos. Sabia, entretanto, que as balas eram para Lisandro de la Torre. Não havia colaborado na falta de informações o fato do rapaz ser filho de um político com uma prostituta de luxo.

– Na verdade não sei. Não conversávamos muito. Sempre soube que seria um escândalo caso me revelasse sendo filho dele – respondeu o rapaz. Logo notou uma mudança assustadora na expressão de seu chefe, que suspirou: – Se eu soubesse de tal informação antes, eu a teria usado de forma espetacular. No entanto, Brodabehere sempre foi ladino de primeira. Nunca imaginei que as coisas acabariam daquele modo. Se você soubesse como sinto por isso.

– Você… não… sente… nada! Seu bastardo sem coração! – De la Torre envolveu o pescoço do homem mais velho com força dizendo: – Os seus amigos influentes tentaram me matar e levaram um pedaço de mim com eles! Vocês me tiraram a única pessoa com quem fui capaz de criar um laço forte o suficiente por uma vida! Eu matarei cada um de vocês com requintes cruéis.

– Por favor, eu imploro. Sou apenas um legista! – ele exclamava quase sufocado pela imensa força do vampiro.

Lorenzo se virou para trás. Não se permitiu sorrir. Uma pessoa que fazia amizade com assassinos, ainda que indiretos, não podia ser boa. Entretanto, sua virada de costas durou pouco. Logo observou fixamente o vampiro se alimentar do sangue envelhecido de seu chefe. O homem implorava em vão por ajuda, pois nenhuma voz se ouvia nos corredores próximos e adjacentes. O rapaz esquecera-se da recepcionista ir embora antes do anoitecer. E o outro só aparecia após as oito.

Não havia demorado. O legista chefe se encontrava exangue no chão da morgue. A expressão mostrando que seus últimos momentos haviam sido o mais puro terror. O jovem subordinado logo despiu totalmente o cadáver e entregou as roupas do mesmo para Lisandro, que perguntou surpreso: – Tem certeza? Não está com medo?

– Você não vai querer sair totalmente nu porta afora, não é? – perguntou o rapaz para em seguida pegar um dos lençóis usados do local. Enrolou nele o corpo do chefe, que encontraria seu destino final dentro do porão. Um armário velho seria seu eterno caixão.

– Não, absolutamente. Embora eu não sinta mais frio ou calor – riu Lisandro de modo misterioso. O jovem em seguida fez o que havia se proposto a fazer. Voltou trazendo a expressão de alguém que havia tirado grande peso dos ombros.

– Antes que saiamos, temos que dar um jeito na sua morte oficial. O corpo daquele idoso que chegou depois de você vai servir. É só o deixarmos melhor aprumado e daí teremos o cadáver oficial do Fiscal da Pátria – disse o jovem para depois fazer as preparações do cadáver forjado. O pobre morto não possuía identificação ou familiares, então, não seria problema que ele fosse enterrado no lugar do verdadeiro Lisandro, agora imortal e pertencente à noite.

O mesmo que pensava em como havia acontecido tudo aquilo. Desejava morrer, mas algo havia dado incrivelmente errado, ele só não sabia qual parte. Apenas sabia, até o momento, de uma coisa: tinha pelo menos uma razão para permanecer vivo. Lorenzo Reyes, o filho de seu discípulo. Um pedaço de quem ele mais amava.

Sobre o personagem: http://es.wikipedia.org/wiki/Lisandro_de_la_Torre

Lisandro de la Torre jovem.