Os Quatro Atos da Pós Vida – Epílogo: Passeio Noturno

For this is the end
I’ve drowned and dreamt this moment
So overdue, I owe them
Swept away, I’m stolen 
– Skyfall, Adele

*Há 120 anos andamos nas ruas de um porto não muito alegre. Que, no entanto, nos traz encantos. E um pôr de sol que nem mesmo em versos poderia traduzir-se. Seguimos livres em tantos caminhos, aramos terras, provamos vinhos, tivemos incontáveis ideias de liberdade e vimos o amor florescer em todas as idades. Muitos nasceram chorando no Moinhos de Vento, outros tantos subiram os bondes e deles desceram correndo. Muitos brincaram com boas fundas de goiabeiras, jogaram bulitas, pularam fogueiras. 64, 66, 68, mau tempo talvez. Deu para os anos setenta e nos oitenta nos perdemos por aí.
*²Pois Porto Alegre é que tem um jeito legal. Aqui as gurias… etc e tal. Nas manhãs dominicais, ainda se tem o hábito de esperar o Gre-Nal. E passear pelo Brique no maior alto astral. Quem dera sempre pudéssemos ligar o rádio e ouvir uma música do Kleiton e Kledir. Andar pelos bares nas noites abril e roubar de repente um beijo vadio. Essa cidade nos faz tão sentimentais. Ela nos dói, não digam a ninguém. Ela nos tem. Não nos levem a mal, pois a saudade é demais. É aqui que vivemos em paz. Porque Porto Alegre é demais.
E ela assim permanece, mesmo com tantas mudanças. De uma pequena grande cidade até a metrópole atual. Continuar lendo

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Os Quatro Atos da Pós Vida – Último Ato: Adaptação

This is the end
Hold your breath and count to ten
Feel the earth move and then
Hear my heart burst again
– Skyfall, Adele

A primeira conversa após a ida de todos para a grande e espaçosa casa de Xenóbia fora marcada por revelações.
A anfitriã era uma bruxa com poder de controlar corvos à sua vontade. Emília era uma vampira treinada de pelo menos três anos de idade, tendo sido transformada aos dezenove. Chiquinha Gama enfim sabia o que tinha causado seu “aborto espontâneo”, mas nem por isso estava menos chocada…
– Absorver o que restou da vida do meu filho não era bem algo que eu desejasse saber. É terrível imaginar mesmo que eu já suspeitasse quando vi o meu pobre guri daquele jeito.
– Nada anormal se considerarmos que você se transformou em vampira. E o fato de vampiros serem incapazes de gerar filhos explica isso muito bem. Seria mesmo impossível aquele bebê viver. E dado o que você me contou depois de me perguntar, a criança nunca vingaria. Provavelmente nasceria morta ou morreria depois do parto. E era bem possível que você também acabasse morrendo, dado desse tipo de nascimento geralmente ser complicado para os dois – disse Xenóbia certeira para depois perguntar-lhe sobre de quem eram aquelas roupas que o casal usava.

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Os Quatro Atos da Pós Vida – 3º Ato: O Controle

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Skyfall is where we start/
A thousand miles and poles apart/
Where worlds collide and days are dark/
You may have my number/ You can take my name/
But you’ll never have my heart – Skyfall, Adele

 

Uma delicada batida na porta fez o dono da casa adivinhar quem era. Abriu a porta tendo a certeza de que ela trazia alguma queixa: – Entra, Xenóbia. Tem café e mate pronto.

– Pela tua cara, imagino que tu estás perguntando o que vim fazer aqui – respondeu ela entrando e logo se sentando no sofá meio velho reservado às visitas.

– Aconteceu alguma coisa? – ele perguntou um tanto retoricamente. Continuar lendo

Os Quatro Atos da Pós-Vida: 2º Ato – A Descoberta (O Poder)

Where you go, I go/ What you see, I see/ I know I’d never be me/
Without the security/ Of your loving arms/ Keeping me from harm/
Put your hand in my hand/ And we’ll stand – Skyfall, Adele.

 

O casal movimentava-se com surpreendente velocidade. Aquilo era tão maravilhoso. E também assustador. Além é claro, de ser muito divertido apostar corrida quase meia noite com a cidade praticamente vazia. A estranha felicidade acabou por fazê-los não perceberem aonde iam. A mesma inesperadamente deu a lugar a uma bela e nostálgica lembrança de quando pensaram poder ser felizes na sociedade que caminhava de dia. Estavam no Arraial do Menino Deus, o lugar onde haviam se conhecido no Natal de 1895.

A igreja no meio da praça parecia encará-los. Os dois recordavam de como tinham se visto pela primeira vez. De como tinham começado seu amor. Do rumo que a história por fim tomou. Abraçaram-se. Ela, perguntou-se porque ainda vivia. Ele, apenas uma coisa tinha em mente: vingança. Iria fazer todo mundo provar do amargo remédio a que o submeteram ao proibi-lo de amá-la. Aquelas gentes iriam pagar-lhe todos os tributos com juros e correções monetárias.

– Por favor, eu te peço, não vais agir de maneira impulsiva! – Francisca abraçou-o com força.

– Me diz então, Chiquinha: como eu tiro este ódio de dentro do meu coração? – perguntou ele com amargura.

– Tu tens a mim agora. Isto não conta? – replicou ela agora o olhando de frente. Continuar lendo

Os Quatro Atos da Pós-Vida: 1º Ato – O Retorno

Let the Skyfall/ When it crumbles/
We will stand, tall/ Face it all together/
At Skyfall. – Skyfall, Adele.

1896…

A noite caiu na cidade. Um homem apoiava-se na janela como que esperando alguma coisa. Ou talvez nada quisesse. Uma moça que escrevia na mesa distante alguns metros perguntou-lhe: – Alguma coisa o incomoda?

– Nada não, guria. Tô só no meu fumo aqui – respondeu o homem olhando-a de soslaio: – E o que tu estás fazendo?

– Escrevendo uma carta. Tu sabes, pra minha família que vive em Santa Catarina – respondeu ela sorrindo.

– Ah, a dona Luísa e o seu Nicolau, além do teu irmão João – riu ele.

– Como de costume, tu aportuguesas os nomes deles. É bem a tua cara isso, tchê – a jovem gargalhou.

– É bom que tu te acostumes com o linguajar daqui, pois vai Deus saber o quanto tu vais ter que aturar este louco que sou eu – sorriu o homem.

Os dois riram ao mesmo tempo. O riso parou, porém, quando uma coruja piou alto. Ela não exatamente era supersticiosa, mas ele sempre dizia que aquele som era sinal de mau agouro. Dos bem grandes. Inclusive o repentino afastamento dele da janela assustou-a. Nada disse, porém.

– Eu sinto que esta noite vai ser daquelas. Vou até deitar cedo pra não ter azar – disse ele mais para si mesmo do que para sua hóspede, que continuava escrevendo.

A jovem não acreditava que um som daqueles causasse isso. Sinceramente, não entendia seu anfitrião. Que hábitos tão peculiares ele tinha. Bem que sua mãe dizia que eles tinham um jeito bem estranho de lidar com as coisas.

No fim, ele até sairia sortudo da passagem das horas, mas as coisas em outras paragens nunca eram simples. Continuar lendo

Uma teimosia chamada Dália Negra

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Eu deveria ter ido com as lendas do amanhã para o Reino das Névoas.

Uma parada inesperada, porém, me fez desembarcar na Los Angeles do ano de 1947, onde acontece a história do que eu considero um dos melhores livros que eu já tive o prazer de ler: Black Dahlia, ou aqui no Brasil, Dália Negra, do americano James Ellroy. Caso ninguém esteja informado, ele é o autor de esses e outros romances, entre eles, Los Angeles – Cidade Proibida, adaptado para o cinema em 1997. Dália Negra ganhou sua adaptação em 2008, dirigida por Brian de Palma.

Sabe aquele livro que você resolve começar a ler com a intenção de tão apenas saber como iniciava? Bem, eu não tive como parar até o dia seguinte, embora eu tenha feito uma parada para dormir. O Prólogo te deixa com a curiosidade atiçada de uma maneira que não tem coisa que te faça largar a história.

Inúmeras coisas tornam esse livro excelente. Destacarei, no entanto, as que mais evidentes ficam. Continuar lendo